quarta-feira, 1 de maio de 2013

Podem os computadores pensar? Uma aproximação interessante ao tema...



Os computadores são bons com números e por isso estão a escrever



Há empresas a desenvolver algoritmos para escrever notícias. Mas decidiram expandir o negócio para outra áreas.


Os computadores conseguem processar rapidamente enormes quantidades de dados. Mas têm muito mais dificuldades em perceber e usar linguagem natural, como aquela a que os humanos recorrem diariamente. No entanto, há empresas cujo negócio é desenvolver algoritmos capazes de escrever texto que seja coerente e possa ser compreendido por pessoas.

Esta tipo de tecnologia levou a que, nos anos recentes, a pergunta se tenha repetido numa miríade de artigos de jornais, revistas, sites e blogues: podem os computadores substituír os jornalistas? Afinal, empresas como a Narrative Science e a Automated Insights, ambas dos EUA, estão há anos a desenvolver algoritmos capazes de escrever notícias.
Tanto uma como outra começaram por pôr os computadores a escrever notícias precisamente sobre números. Eram textos curtos sobre resultados desportivos, normalmente de competições (amadoras ou de jovens) a que os jornalistas não dão atenção. Com acesso a elementos como o resultado, o nome e as acções de cada jogador, bem como as faltas e outras ocorrências importantes (que normalmente ficam registadas numa base de dados) o algoritmo é capaz de criar um texto coerente. Não fará comentários sobre o entusiasmo (ou falta dele) nas bancadas, nem sobre um aparte do treinador. Mas as notícias são capazes de oferecer um resumo decente da partida.
O historiador de tecnologia e cultura Edward Tenner, que já escreveu ensaios sobre o assunto, argumenta que os jornalistas não devem estar preocupados com esta tecnologia. “A não ser que haja um salto radical no desenvolvimento de algoritmos para resolver as questões muito difíceis da inteligência artificial, vamos continuar indefinidamente a precisar de humanos competentes para a maior parte do trabalho mental e físico”, explica ao PÚBLICO. “Ainda precisamos de médicos que vejam a pessoa como um todo e de advogados psicologicamente sensíveis aos clientes e juízes, não apenas de máquinas capazes de raciocínio legal”. Da mesma forma, diz, “o Tradutor Google não é receado por tradutores profissionais competentes, ainda que possa ser melhor do que alguns tradutores medíocres”.
A Automated Insights começou por lançar uma rede de sites chamadaStatSheet (literalmente, folha de estatísticas). Hoje, esta rede publica cerca de meio milhão de artigos por ano sobre desporto profissional e ligas estudantis. Também vende serviços de geração de textos a empresas de media como a CBS, o Yahoo, o USA Today e a Bloomberg.  “Mas a tecnologia é flexível para se adaptar a qualquer segmento assente em dados estruturados, o que nos permite trabalhar numa variedade de mercados: análise de negócio, finanças, imobiliário”, explica Adam Smith, um dos vice-presidentes. Isto significa que também têm com clientes empresas que precisam de escrever análises financeiras ou relatórios de vendas apenas para consumo interno.
Dados estruturados é o jargão para o tipo de informação organizada – por exemplo, numa tabela ou base de dados. Pode ser seja uma ficha de jogo ou um folha de Excell com informação sobre venda de casas numa cidade. Mas Smith garante que a tecnologia já consegue trabalhar com dados não estruturados “desde que sejam consistentes” (por exemplo, que estejam em documentos PDF cujo texto obedeça a um padrão pré-definido).
A tecnologia destas empresas não é feita apenas por cientistas e programadores. O fundador e director executivo, Robbie Allen, é engenheiro de formação, mas já escreveu 12 livros. É também ele que co-dirige o departamento de tecnologia e desenvolvimento, a par de Joe Procopio, um híbrido de engenheiro e colunista de tecnologia, cujos artigos são publicados em vários órgãos de comunicação. “É uma mistura de desenvolvimento de software e de experiência de escrita”, not Smith. A equipa que dirigem incluí analistas, especialistas em estatística e escritores.
Numa entrevista à revista Wired, o director executivo da Narrative Science (a empresa não respondeu a um pedido de entrevista do PÚBLICO) disse acreditar que no futuro 90% das notícias serão escritas por programas de computador. Mas não porque os jornalistas serão substiuídos por máquinas. Antes porque a tecnologia de escrita de notícias por algoritmos vai permitir, de forma barata. cobrir eventos e temas de nicho a que nenhum jornalista presta atenção.
Edward Tenner diz haver até vantagens neste tipo de tecnologia e dá o exemplo de como  os xadrezistas usam computadores para treinar e melhorar a respectiva técnica. Estes algoritmos-escritores, defende, podem lembrar os jornalistas de que não há grande valor acrescentado em textos que sigam as fórmulas tradicionais de escrita e levá-los a tentar "atrair a atenção dos leitores com a qualidade e a originalidade da pesquisa e da escrita".


segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Filme "Sem Tempo"





O Rosto




O rosto

de Giorgio Agamben


Todos os seres viventes estão no aberto, manifestam-se e brilham na aparência. Porém, apenas o homem quer apropriar-se dessa abertura, tomar sua própria aparência, o próprio ser manifesto. A linguagem é essa apropriação que transforma a natureza em rosto. Por isso, a aparência torna-se um problema para o homem, o lugar de uma luta pela verdade.

O rosto é o ser inevitavelmente exposto do homem e, também, o seu próprio restar escondido nessa abertura. E o rosto é o único lugar da comunidade, a única cidade possível. Isso que, em cada singular, abre ao político, é a tragicomédia da verdade em que ele recai já, sempre, e à qual deve retornar desde o início.

Isso que o rosto expõe e revela, não é qualquer coisa que possa ser formulada nessa ou naquela proposição significante, nem mesmo é um segredo destinado a restar para sempre incomunicável. A revelação do rosto é a revelação da própria linguagem. Essa não tem, consequentemente, nenhum conteúdo real, não diz a verdade sobre esse ou aquele estado da alma ou de facto, sobre esse ou aquele aspecto do homem ou do mundo: é unicamente abertura, unicamente comunicabilidade.

Caminhar pela luz do rosto significa ser essa abertura, padecer dela.
Assim, o rosto é, sobretudo, paixão da revelação, paixão da linguagem. A natureza adquire um rosto no ponto em que se sente revelada pela linguagem. No rosto, o seu ser exposto e traduzido na palavra, o seu revelar-se na impossibilidade de haver um segredo, emerge como castidade ou perturbação, descaramento ou vergonha.

O rosto não coincide com a face. Por toda parte em que algo alcança a exposição e tenta tomar o próprio ser exposto – por toda parte em que um ser aparece afundado na aparência e deve, desde o início, retornar a ela –, tem-se um rosto. (Assim, a arte pode dar um rosto até mesmo a um objecto inanimado, a uma natureza morta; e, por isso, as bruxas, que os inquisidores acusavam de beijarem o ânus de Satã durante o Sabat, respondiam que ainda assim se tratava de um rosto. E é possível, hoje, que toda a terra, transformada em um deserto da cega vontade dos homens, venha a tornar-se um único rosto).

Olho alguém nos olhos: estes baixam os olhos – é a vergonha, que é vergonha do rosto que há atrás do olhar –, ou olham-me, por sua vez, nos olhos. E, ao olharem-me, eles podem impudicamente exibir o seu rosto como se atrás dele houvesse um outro olho, abissal, que conhece aquele vazio e o usa como um esconderijo impenetrável; ou, com um despudor casto e sem reservas, deixando que no vazio dos nossos olhares tenham lugar o amor e a palavra.
A exposição é o lugar da política. Se não há uma política animal, talvez isso ocorra porque os animais, que estão desde já no aberto, não buscam apropriarem-se da sua exposição; demoram-se nela, simplesmente, sem se ocuparem dela. Por isso, eles não se interessam pelos espelhos, pela imagem enquanto imagem. O homem, ao contrário, querendo reconhecer-se – isto é, apropriar-se de sua própria aparência –, separa as imagens das coisas, dá-lhes um nome. Assim, ele transforma o aberto num mundo, isto é, num campo de uma luta política sem quartel. A essa luta, cujo objecto é a verdade, chama-se História.

Nas fotografias pornográficas, acontece com frequência que os sujeitos retratados olhem, com um estratagema calculado, em direcção à objectiva, exibindo, assim, a consciência de estar exposto ao olhar. Esse gesto imprevisto desmente violentamente a ficção implícita no consumo de tais imagens, segundo a qual aquele que as olha surpreende, não visto, os actores: estes afrontam conscientemente o olhar, obrigam o voyeur a olhá-los nos olhos. Naquele átimo, a natureza insubstancial do rosto humano emerge repentinamente à luz. Que os actores olhem para a objectiva, significa que eles mostram estar a simulando; e, todavia, paradoxalmente, propriamente na medida em que exibem a falsificação, eles parecem mais verdadeiros. O mesmo procedimento é, hoje, ampliado na publicidade: a imagem parece mais convincente se mostra abertamente a sua própria ficção. Em ambos os casos, quem olha, sem querer, choca-se contra qualquer coisa que concerne inequivocamente à essência do rosto, à estrutura mesma da verdade.
Chamamos tragicomédia da aparência o facto de que o rosto revela-se próprio apenas enquanto oculta, e oculta na mesma medida em que revela. Dessa forma, a aparência que deveria manifestá-lo torna-se, para o homem, semblante que o traduz naquilo em que já não pode mais reconhecer-se. Próprio, porque o rosto é unicamente o lugar da verdade; isto é, é, também, imediatamente o lugar de uma simulação e de uma impropriedade irredutível. Isso não significa que a aparência dissimule o que revela fazendo-o parecer aquilo que, verdadeiramente, não é: uma vez que aquilo que o homem é verdadeiramente, não é nada mais que essa dissimulação e essa inquietude na aparência. Visto que o homem não é, nem possui, do ser qualquer essência ou natureza – nem qualquer destino específico –, a sua condição é a mais vazia e a mais insubstancial: a verdade. O que resta escondido não é, para ele, qualquer coisa por detrás da aparência, mas o próprio aparecer, o seu não ser outro senão rosto. Trazer à aparência a aparência mesma é a tarefa da política.
A verdade, o rosto, a exposição, constituem, hoje, objecto de uma guerra civil planetária, cujo campo de batalha é toda a vida social, cujas tropas são os media, cujas vítimas são todos os povos da terra. Políticos, mediocratas e publicitários compreenderam o carácter insubstancial do rosto e da comunidade que ele abre, e transformam-no num segredo miserável cujo controlo se trata de assegurar a todo custo. O poder dos Estados não é mais fundado, hoje, sobre o monopólio do uso legítimo da violência (que eles compartilham sempre mais de bom grado com outras organizações não-soberanas – ONU, organizações terroristas), mas, sobretudo, sobre o controlo da aparência (da doxa). O constituir-se da política numa esfera autónoma dá-se ao mesmo tempo em que ocorre a separação do rosto num mundo espetacular, em que a comunicação humana é separada de si mesma. A exposição transforma-se, assim, num valor que se acumula através das imagens e dos media, e cuja gestão é vigiada ciosamente por uma nova classe de burocratas.
Se os homens tivessem de comunicar-se sempre e por qualquer coisa, não haveria mais, propriamente, política, mas unicamente troca e conflito, sinais e respostas; mas, porque os homens têm, acima de tudo, de comunicar-se uma pura comunicabilidade (isto é, a linguagem), então, a política surge como o vazio comunicativo em que o rosto humano emerge como tal. É desse espaço vazio que políticos e mediocratas se preocupam em assegurar-se o controlo, mantendo-o separado numa esfera que lhes garante a inapropriabilidade e impedindo que a comunicatividade mesma venha à luz. Isso significa que a análise marxiana seja integrada no sentido de que o capitalismo (ou qualquer outro nome que se queira dar ao processo que hoje domina a história mundial) não era votado apenas à expropriação da actividade produtiva, mas também, e sobretudo, à alienação da própria linguagem, da própria natureza comunicativa do homem.

Na medida em que não é senão comunicabilidade, todo o rosto humano, inclusive o mais nobre e belo, está sempre suspenso por um fio sobre um abismo. Por isso mesmo, os rostos mais delicados e cheios de graça parecem, às vezes, imprevisivelmente, desfeitos, deixando emergir o fundo informe que os ameaça. Porém, esse fundo amorfo não é senão a própria abertura, a própria comunicabilidade, enquanto restam pressupostos a si mesmos como uma coisa. Indemne é apenas o rosto que assume abaixo de si o abismo da própria comunicabilidade e consegue expô-lo sem temor nem complacência.

Por isso, todo o rosto se contrai numa expressão, enrijece-se num carácter e, deste modo, destina-se e aprofunda-se em si mesmo. O carácter é a deformação do rosto no ponto em que – sendo unicamente comunicabilidade – se apercebe de não ter nada a exprimir, e silenciosamente retira-se atrás de si na sua própria muda identidade. O carácter é a constitutiva reticência do homem na palavra; mas aquilo que seria tomado é apenas uma ilatência, uma pura visibilidade: unicamente um semblante. E o rosto não é qualquer coisa que transcenda o semblante: é a exposição da face na sua nudez, vitória sobre o carácter – palavra. Uma vez que o homem é, e tem de ser, unicamente rosto, tudo se cinde para ele em próprio e impróprio, verdadeiro e falso, possível e real. Toda a aparência que se manifesta, torna-se, assim, para ele, própria e factícia, e põe-no frente à tarefa de fazer própria a verdade. Mas essa não é em si mesma mais uma coisa de que se possa apropriar, nem há, a respeito da aparência e do impróprio, um outro objecto: é apenas a sua tomada, a sua exposição. A política totalitária da modernidade é, ao contrário, vontade de auto-apropriação total, em que ou o impróprio (como ocorre nas democracias industriais avançadas) impõe por toda parte o próprio domínio em uma irrefreável vontade de falsificação e de consumo, ou (como ocorre nos Estados assim denominados totalitários), o próprio pretende excluir de si toda impropriedade. Em ambos os casos, nessa grotesca contrafacção do rosto, depõe-se a única possibilidade verdadeiramente humana: aquela de apropriar-se da impropriedade como tal, de expor no rosto a própria, simples, impropriedade, de caminhar obscuramente na sua luz.
O rosto humano reproduz na sua própria estrutura a dualidade de próprio e impróprio, de comunicação e comunicabilidade, de potência e de acto que o constitui. Ele é formado como um fundo passivo sobre o qual brilham os traços expressivos activos.

Como a estrela – escreve Rosenzweig – reflecte nos dois triângulos, sobrepostos os seus elementos e a coesão dos elementos numa estrada, também assim os órgãos do rosto se dividem em dois estratos. Os pontos vitais do rosto são aqueles em que este entra em conexão com o mundo externo, seja como receptivo ou como activo. Segundo os órgãos receptivos, é ordenado o estrato de fundo; por assim dizer, a pedra de toque de que o rosto é composto: fronte e faces.[v] Às faces, pertencem as orelhas; à fronte, o nariz. Orelhas e nariz são os órgãos da pura recepção… Sobre esse primeiro triângulo elementar, formado ao centro pela fronte como ponto dominante do rosto inteiro e dos pontos medianos das faces, estende-se um segundo triângulo, que é composto dos órgãos cujo jogo expressivo anima a rígida máscara do primeiro: olhos e boca.
Na publicidade e na pornografia (sociedade de consumo) vêm, em primeiro plano, os olhos e a boca; nos Estados totalitários (burocracia), domina o fundo passivo (imagem inexpressiva do tirano nos escritórios). Mas apenas o jogo recíproco dos dois planos é a vida do rosto.
Da raiz indo-europeia que significa “um”, provêm, em latim, duas formas: similis, que exprime a semelhança, e simul, que significa “ao mesmo tempo”. Assim, próximo assimilitude (semelhança), há simultas, o facto de estar junto (de onde, também, tem-se “rivalidade”, “inimizade”), e próximo de similiare (assemelhar-se), há simulare (“copiar”, “imitar”, de onde, também, tem-se “fingir”, “simular”).
O rosto não é simulacro, no sentido de qualquer coisa que dissimula ou encobre a verdade: ele é a simultas, o estar-junto dos múltiplos semblantes que o constituem, sem que algum desses seja mais verdadeiro que os outros. Compreender a verdade do rosto significa tomar não a semelhança, mas a simultaneidade dos semblantes, a inquieta potência que os mantêm juntos e os reúne em comum.[vi] Assim, o rosto de Deus é asimultas dos semblantes humanos, a “nossa efígie” que Dante vira no “vivo lume” do paraíso.

O meu rosto é o meu fora: um ponto de indiferença acerca de todas as minhas propriedades, acerca disso que é próprio e do que é comum, disso que é interno e do que é externo. No rosto, estou com todas as minhas propriedades (o meu ser moreno, alto, pálido, orgulhoso, emotivo…), mas sem que nenhuma delas me identifique ou me pertença essencialmente. Ele é o limiar de desapropriação e de desidentificação de todos os modos e de todas as qualidades nas quais elas devêm pura comunicabilidade. Apenas onde encontro um rosto, um fora me chega, encontro uma exterioridade.
Sede apenas o vosso rosto. Andai pelo limiar. Não permaneçais o sujeito da vossa propriedade ou faculdade, não remanesçais sob elas, mas evadi-vos com elas, nelas, para além delas.
| AGAMBEN, Giorgio. Il volto. In: Mezzi senza fine. Note sulla politica. Bollati Boringhieri: Torino, 1996, p. 74-80.*Tradução de Murilo Duarte Costa Corrêa http://murilocorrea.blogspot.com

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Aplicação de Facebook lança concurso que oferece fama... ao primeiro a morrer






Aplicação de Facebook lança concurso que oferece fama... ao primeiro a morrer

inShareA fama que muitos procuram uma vida inteira é o grande prémio de um concurso organizado no Facebook, por uma empresa detentora de uma aplicação para esta rede social. Para ganhar o prémio basta... ser o primeiro a morrer.
A macabra competição é a última campanha lançada pela empresa israelita que é dona da aplicação 'If I Die' (Se eu morrer, na tradução para português), e que oferece aos seus utilizadores a possibilidade de gravar uma mensagem a ser publicada no seu mural em caso de falecimento.

"Tivemos esta ideia desde o primeiro dia em que pensámos em criar este serviço", disse à agência espanhola EFE o fundador da empresa Eran Alfonta, que em 2010 pôs em marcha o projeto 'If I Die' enquanto página na Internet, e que em 2011 se transformou numa aplicação para o Facebook.

O concurso agora lançado com base na aplicação chama-se 'If I Die First' (Se eu morrer primeiro, na tradução em português).

"Acreditamos que todas as pessoas têm direito a que as suas últimas palavras sejam conhecidas, que o seu legado seja público e consideramos que um concurso seria o apropriado para que a aplicação tivesse impacto", disse Alfonta.

Os requisitos para participar nesta corrida à popularidade, antes de chegar ao derradeiro passo -- o túmulo -- são simples: estar vivo, ter uma conta no Facebook, instalar a aplicação, entrar na opção 'For a chance to World Fame' (por uma oportunidade pela fama mundial, na tradução para português) e deixar uma mensagem para a posteridade.

O primeiro utilizador a morrer terá o seu testemunho póstumo publicado em revistas e outros media internacionais que colaborem com a campanha, assim como em páginas na Internet como 'Mashable', uma página muito focada nos media sociais, tecnologia e entretenimento e que tem mais de 20 milhões de visualizações por mês.

A inscrição no concurso é gratuita, está ativa desde sábado passado e desde então já mais de 1.200 pessoas aceitaram as regras do jogo, que deixam muito claro que provocar a própria morte é fazer batota.

"Se houver alguma suspeita de que se trata de suicídio ou morte deliberada, então não se publicará a mensagem. Temos uma política antisuicídio muito rigorosa", frisou Alfonta, que pretende evitar que 'If I Die' se transforme num meio de incentivar ou suavizar a morte, ainda que a tente retratar com sentido de humor.

"Achamos que toda a gente devia gravar uma mensagem no 'If I Die', porque nunca se sabe...", disse Alfonta.

A forma como a aplicação trata o tema da morte já valeu ao fundador da empresa israelita diversas críticas, a que não atribuiu importância e rebateu afirmando que se as pessoas usam o Facebook para a sua vida social, então também têm o direito de morrer lá.

"O Facebook faz parte da nossa vida social, nós acrescentámos um serviço de morte digital", declarou.

A aplicação, já com mais de 213 mil utilizadores desde que estreou na rede social criada por Zuckerberg em 2011, apenas registou dois falecimentos.

"Impressionou-nos o emotivas que eram as suas mensagens, de despedida, ambas de pessoas que estavam doentes e que sabiam que não lhes restava muito tempo. Uma delas deixou uma mensagem em vídeo, a outra um texto", contou Alfonta.

Os responsáveis pela aplicação e pelo concurso estimam que o vencedor seja conhecido dentro de 19 meses.

"Não queremos que aconteça rapidamente, mas certamente algum dos nossos utilizadores morrerá", concluiu Alfonta.

Diário Digital/Lusa
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Morte e filosofia
Autor: Israel de Alexandria

Sumário
1. A morte e o ato de pensar
2. A morte de Sócrates
3. A morte na filosofia existencialista
    3.1. Jean-Paul Sartre (1905-1980). A morte é mera faticidade.
    3.2. Martin Heidegger (1888-1976). A morte é um principium individuationes
    3.3. Karl Jaspers (1883-1969). A morte é uma situação-limite.
    3.4. Sören Kierkegaard (1813-1855). A morte é uma tragédia solitária.


1. A morte e o ato de pensar
A reprodução da pintura da Dança dos mortos que ficava num dos muros do Cimetière des Innocents (1424) em Paris, mostrando cada pessoa dançando com a sua própria morte, simboliza a convivência permanente do homem com a morte. Essa convivência só é possível porque, além de ter em comum com os animais o vivenciar da morte enquanto acontecimento, o homem experimenta a sua companhia no plano do pensamento. Essa última forma de vivenciar a morte é a que mais nos interessa pois o acontecimento da morte é comum a todos os seres, mas o pensamento da morte é exclusivo do homem. É pelo pensamento que o homem pode vivenciar a presença da morte sem acontecer de morrer de fato e essa é mais uma das razões pela qual permitimo-nos falar da morte.
O que significa pensar? Entende-se por pensamento a capacidade de interromper toda ação, todas as atividades habituais. Um objeto de pensamento é sempre uma re-presentação, isto é, a presença de algo no espírito sem a necessidade de que este algo esteja simultaneamente presente na realidade. É a faculdade de pensar o meio pelo qual o homem voluntariamente se retira desse mundo. "A característica principal do pensamento é interromper toda ação, todas as atividades habituais, sejam elas quais forem"[1]. Valéry resume bem essa idéia ao dizer tantôt je suis, tantôt je pense[2]. Sem ser platônico, poderíamos de fato dizer que há dois mundos: o do pensamento e o das atividades habituais do cotidiano. A relação íntima entre o ato de pensar, a filosofia e a morte está em que o filósofo é alguém que se habituou ao ato de pensar e, se entendemos que a morte é a interrupção de toda ação, pensar é parecido com morrer.
Se o ato de pensar, não importando sobre o que se pensa, já é parecido com a morte, o que se deve dizer do pensar sobre a morte? Este pensar tem um efeito duplicado porque a "interrupção das atividades habituais" é intensificada em dobro: primeiro porque qualquer pensamento é já interrompedor; segundo porque esse objeto pensado chamado morte — especialmente nos dias atuais em que o tema parece estar banalizado — não faz parte das atividades habituais da maioria das pessoas.
Esse pensamento de efeito duplicado induz a uma interrupção tão radical das atividades habituais que pode resultar numa concepção invertida da ordem dos mundos. O indivíduo passa a acreditar que são as atividades habituais que interrompem o ato de pensar e o "mundo do pensamento" passa a ter primazia em relação ao "mundo das aparências". Essa inversão é característica de Platão, pensador para quem filosofar é meditar sobre a morte. Para ele, estava claro que, "se desejamos saber realmente alguma coisa, é preciso que abandonemos o corpo", esse fardo que perturba nossas investigações, pois "o corpo jamais nos conduz a algum pensamento"[3]. Viver no "mundo das idéias" foi, para Platão, uma experiência de fato. Ele realizou a inversão, ou seja, passou a considerar como atividade habitual o ato de pensar e como interrupção os demais atos da vida. A tendência dos filósofos que realizam tal inversão é acreditar na existência autônoma do pensamento e, em certos casos, na capacidade de pensar sem precisar de corpo, sendo portanto necessário conceber uma alma pensante que sobrevive à morte física. Em Platão, todas essas tendências estão presentes.
Todo pensamento começa e acaba no espírito sem deixar nenhum sinal aparente, isto faz do ato de pensar um ato espiritual e reflexivo, pois reflexão é o ato em que o agente remete a si mesmo. É a reflexividade que faz com que o pensamento seja um interruptor da nossa vida no mundo habitual, no mundo das aparências.
Sob o ponto de vista da reflexividade, imaginemos o que significaria pensar sobre a própria morte. Além da reflexibilidade vinculada ao próprio ato de pensar, acrescente-se a que vem disto que chamamos "própria morte", a qual: a) não apresenta qualquer sinal aparente; b) pertence exclusivamente à vida interior do espírito e; c) é capaz de interromper as atividades habituais.
Pensar sobre a própria morte é pensar hiper-reflexivamente porque é sobre algo que está exclusivamente "dentro de nós". Não é o mesmo que simplesmente pensar sobre a morte, que pode implicar em se estar pensando sobre algo "fora de nós" como a morte dos outros ou a morte de uma maneira geral. Uma questão se coloca aqui: O hábito de pensar hiper-reflexivamente (o pensar sobre a própria morte) implicaria necessariamente na negação da sociabilidade humana?

2. O ato de pensar, segundo Sócrates
Em Sócrates, esse ateniense que nada escreveu, mas ficou famoso por suas conversas em praça pública de Atenas, temos um bom exemplo de como o ato de pensar pode estar perigosamente relacionado com a morte. O pensamento é, para ele, uma espécie de dois-em-um em que o eu conversa com um outro eu, o ato de pensar é um diálogo consigo mesmo, um solilóquio no qual o homem só sente prazer se for amigo de si mesmo, se não entrar em contradição consigo mesmo. O homem que não é amigo de si mesmo, que se contradiz, não gosta de pensar. A coerência interna do pensamento e a harmonia entre o eu consigo mesmo eram a mesma coisa para Sócrates e juntas consistiam naquilo que era para ele o valor mais supremo, por isso que ele preferiu morrer a contradizer-se, preferiu ser condenado a beber cicuta a admitir uma acusação que a sua consciência dizia não ter procedência, preferiu discordar do mundo a discordar de si mesmo. Essa é uma das razões pelas quais o homem que gosta de pensar, porque é amigo de si mesmo, corre grande perigo quando se expõe.

3. A morte na filosofia existencialista
Numa sociedade de massa, que tende a anular as singularidades dos indivíduos, o pensamento da morte passa a exercer a função de fazer com que cada homem perceba que é único. A filosofia existencialista tem o mérito de ser uma linha de pensamento filosófico comprometida com tal função.
O ponto-chave da filosofia da existência é seu conceito de tempo. A tradição preexistencialista imaginava o tempo como algo anterior e posterior ao homem, visto que este nasce e morre "no meio do tempo". No existencialismo, considera-se a impossiblidade do homem imaginar um tempo em que ele não esteja presente — tanto no passado como no futuro — para daí deduzir que não faz sentido falar sobre o tempo como algo fora e independente do homem. Esse homem identificado com o tempo passou a ser chamado de existenz (o existente, o homem-tempo), o objeto de estudo da filosofia existencialista. O modo de ser do existenz é chamado existência. Não se pode falar da existência de uma pedra, pois ela não é um existenz, no máximo poderíamos chamá-la de ente. Tecnicamente falando, só o homem (existenz) existe.
Na análise do significado da morte para o existenz, destacamos algumas contribuições de pensadores da linha existencialista:
3. 1. Jean-Paul Sartre (1905-1980). A morte é mera faticidade.
Sartre dedicou-se ao problema da liberdade. Para ele, não há algo como uma natureza mortal necessária ao conceito de homem ou uma ordem cósmica que impõe a exigência absoluta e metafísica de que todo homem morra. A frase todo homem é mortal teria o mesmo sentido de todo homem é natal, isto é, a morte não será necessária para o indivíduo assim como não foi necessário que ele nascesse. O nascimento é um fato idêntico ao da morte. São ambos fatos ocasionais — podem ou não acontecer — e quando acontecem fazem, respectivamente, aparecer e desaparecer o indivíduo do palco do mundo. A morte de alguém é algo que não tem qualquer significado para a sua própria vida — nem é sequer um fato da vida — ela simplesmente acontece e tira-o do mundo. A existência humana ocorre em meio aos nadas (ou ao único nada?) cujos limites são o nascimento e a morte. O principal aspecto do existenz é o fato de estar condenado a ser livre, ele é o ser que se cria a partir de nenhum fundamento, nenhuma certeza, nenhuma verdade a não ser a de que ele é absolutamente livre.
3. 2. Martin Heidegger (1888-1976). A morte é um principium individuationes
Heidegger dá ênfase ao sentimento de angústia do homem diante da morte. A angústia da morte é algo que altera tão radicalmente o homem que o transforma em existenz, o único ser autêntico, o único ser individual, o único ser realmente mortal. Todos os seres vivos morrem, é verdade, mas vivem e morrem enquanto espécie, não podem ter consciência da mortalidade individual. O existenz, entretanto, já não existe como espécie e sim como indivíduo. A angústia diante da própria morte libera, individualiza e destaca o existenz do homem-massa, eleva o homem-espécie à condição de um existente autêntico.
3. 3. Karl Jaspers (1883-1969). A morte é uma situação-limite.
Semelhante a Heidegger, o filósofo e psicanalista Karl Jaspers verá na morte um componente importante para a estrutura interna do homem. Ele a define como uma situação-limite, conceito que convida a uma abordagem mais psicanalítica que filosófica. Situações-limite são aquelas em que o homem "se acha como na frente de um muro contra o qual bate sem esperança"[4]. Pode ser um "dever tomar a seu cargo uma culpa", um "não poder viver sem luta e sem dor", etc. Nessas situações, o homem é convidado a sair do anonimato da espécie para assumir sua autenticidade, forjar e construir sua vida segundo um plano próprio, não se perder nem se deixar levar pela massificação, pela frivolidade, pela tagarelice, enfim, a metamorfosear-se em existenz através da angústia em torno das situações-limite.
3. 4. Sören Kierkegaard (1813-1855). A morte é uma tragédia solitária.
Para entender Kierkegaard, é interessante reproduzir esse trecho extraído do Livro das reflexões:
Perguntaram a um adolescente como ele gostaria que acontecesse a sua morte: "quero morrer dormindo e quando acordar já estar morto". Essa resposta aparentemente ingênua está ligada a um outro relato da experiência de espanto ocorrida com um atleta que narrou o seguinte: "sonhei que eu estava no estádio, lá embaixo, correndo na área central, mas... quem era o eu que estava na platéia me assistindo?" A resposta do adolescente e o espanto do atleta reforçam na verdade a antiga tese de que o eu é plural, um dos pilares da teoria da imortalidade do eu.[5]
A tese da pluralidade do eu é absolutamente rejeitada por Kierkegaard que, contra ela, levanta a da unicidade do eu (eu-sou-apenas-um). No post mortem, não haverá um outro-eu que tenha consciência da própria morte. Essa solidão kierkegaardiana equivale à liberdade sartriana, à angústia heideggeriana e ao não-anonimato de Jaspers: isola o indivíduo do homem-massa, criando oexistenz.
Na tragédia da solidão radical, de uma existência sem certezas, o existenz faz a escolha fundamental: o suicídio ou a fé. Não a fé das certezas, mas a fé paradoxal que, na relação oculta com Deus, se movimenta, ao mesmo tempo, num crer-e-não-crer, afinal Deus é aquele para o qual tudo é possível, até mesmo o negar da dádiva da fé.

Bibliografia específica
ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. 2. ed. Trad. por Alfredo Bosi et al. São Paulo: Mestre Jou, 1982.
ARENDT, Hannah. A Dignidade da Política: ensaios e conferências. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1993.
_______________. A Vida do Espírito: o Pensar, o Querer, o Julgar. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1995.
HEIDEGGER, Martin. Que significa pensar? Buenos Aires: Nova, 1964.
JASPERS, Karl. Introdução ao pensamento filosófico. São Paulo: Cultrix, 1971.
PLATÃO. Fédon ou da alma. Trad. por Márcio Pugliesi e Edson Bini. São Paulo: Hemus Editora. [199-]
SARTRE, Jean-Paul. O Ser e o Nada: ensaios de ontologia fenomenológica. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 1997.

Notas
[1] Hannah Arendt. A dignidade da política: ensaios e conferências. p. 149.
[2] Do francês: "ora sou, ora penso".
[3] Platão. Fédon ou da alma. São Paulo: Hemus. 66 bcd.
[4] Nicola Abbagnano. Dicionário de Filosofia. p. 877.
[5] Fiz, aqui, uma brincadeira ao gosto de Saramago. O Livro das reflexões a que me reportei não existe!


©2002. Israel de Alexandria


terça-feira, 17 de abril de 2012

A argumentação filosófica e a busca da verdade



3.3. Argumentação, verdade e ser, caracterizar-se-á a argumentação filosófica e o seu vínculo constitutivo à procura da verdade. 
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Há que Potenciar a Razão
“A razão não é simplesmente uma espécie de tendência automática. A razão está em boa medida baseada no confronto com os outros, quer dizer, raciocinar é uma tendência natural baseada, ou para nós fundada, no uso da palavra, no uso da linguagem; e o uso da linguagem é o que nos obriga a interiorizar o nosso papel social. A linguagem é sociedade interiorizada
O elemento racional está em todos os nossos comportamentos, faz parte das nossas mais elementares funções mentais. Se alguém nos disser que ao meio-dia comeu uma feijoada e que a paella estava muito boa, imediatamente dizemos: "não pode ser; ou feijoada ou paella". O próprio acto de nos darmos conta de que há coisas incompatíveis, de que as coisas não podem ser e não ser ao mesmo tempo, ou que as coisas contraditórias não podem afirmar-se simultaneamente, ou que tudo deve ter alguma causa, supõe exercícios de racionalidade.
Esse tipo de mecanismos elementares estão em todos nós e não poderíamos sobreviver sem eles. Há em todos os lados, em todas as culturas e em todos os tempos algumas disposições naturais para o desenvolvimento de modelos racionais.
Uma das características da razão é que serve para se ser autónomo, quer dizer, os indivíduos que usam a sua razão são mais autónomos que as pessoas que não desenvolveram a sua capacidade racional. É evidente que autonomia não quer dizer isolamento, falta de solidariedade, solipsismo, mas serve pelo menos para cada qual se auto-controlar, se auto-dirigir, optar entre opções diferentes, proteger as coisas que se consideram importantes, empreender empreendimentos, etc. Creio que a autonomia é fundamental, e essa autonomia é exactamente o que a razão permite. O não desenvolvimento da razão faz-nos dependentes. De facto, as crianças muito pequenas e as pessoas que, por qualquer desgraça, perderam alguma das faculdades racionais a primeira coisa de que sofrem é uma dependência dos outros.
Precaver-se contra explicações racionais, guardar chaves da capacidade racional é a melhor maneira de manter independência face aos outros. Por isso há que procurar potenciar a capacidade racional de assumir inclusive as limitações do nosso próprio conhecimento. Uma das características da razão é assumir os limites do conhecimento e não acreditar que, por mera acumulação, se pode estender até ao infinito.
Creio que uma das principais missões da razão é estabelecer os diversos campos de verdade que existem. É claro que a razão tem que ver com a verdade. A ideia actual de que nada é verdade é bastante discutível.
Evidentemente, da verdade absoluta, com maiúscula e um nimbo de luz à volta, ao facto de que nada seja verdade, e que portanto qualquer coisa é mais ou menos tão igualmente certa quanto outra, há um longo percurso. Quer dizer, a razão busca verdades, opiniões mais reais, mais próximas ao real, com mais carga de realidade que outras. Não está igualmente próxima da realidade qualquer tipo de forma de ver, de entender, de operar. A razão é essa busca de verdade, essa busca de maior realidade, com tudo o que a descoberta da realidade comporta.
É importante estabelecer campos diferentes de verdade. A verdade que se pode encontrar no campo das matemáticas não é a mesma do campo da história. Há campos diferentes que é importante estabelecer. A razão serve para estabelecer esses campos de verdade diferentes. Às vezes, por exigir a verdade que pertence a um campo a outro campo diferente, perdemos a substância racional que pode haver numa proposta explicativa.
Vivemos numa época em que se ouve a opinião, para mim disparatada, de que todas as opiniões são respeitáveis. Como é que podem ser respeitáveis todas as opiniões?! Se algo caracteriza as opiniões é o facto de não serem todas respeitáveis. Se todos tivéssemos acreditado que todas as opiniões são respeitáveis, ainda não teríamos descido da primeira árvore. Todas as pessoas são respeitáveis, sejam quais forem as suas opiniões, mas nem todas as opiniões são respeitáveis. Uma pessoa que diz que dois e dois são cinco, não pode ser encarcerada, não pode ser objecto de nenhuma represália, mas o que é evidente é que a ideia de que dois e dois são cinco não é tão respeitável como a ideia de que dois e dois são quatro.
A mitificação da opinião própria conduz a considerá-la como algo que se subtrai à discussão, em vez de algo que se põe sobre a mesa, algo que não é nem meu nem teu mas que temos que discutir – discutere é, em latim, ver se uma árvore tem raízes, se as coisas têm raízes –, ver se está enraizada em algo. Quando se propõe uma opinião, não se propõe como quem se fecha num castelo, como quem se encouraça, não se supõe que todas as opiniões são igualmente válidas, mas pelo contrário que estão abertas a confrontar-se com provas e dados.
Se não, não são opiniões, são dogmas. A ideia de que todas as opiniões valem o mesmo, de que a opinião do aluno do infantário vale tanto, em questões matemáticas, como a do professor de aritmética, não é verdade.
A posição autenticamente livre, aberta e revolucionária é sustentar que é a razão que vale e que as opiniões devem submeter-se-lhe, e não que são as opiniões que por si mesmas, por ter uma pessoa por trás, se convertem em invioláveis porque a pessoa o é. A razão não se nota somente quando alguém argumenta como também quando alguém compreende argumentos. Ser racional é poder ser persuadido por argumentos, não apenas persuadir com argumentos. Ninguém pode aspirar à condição de racional se as suas razões, as vê muito claras, mas nunca vê claramente nenhuma razão alheia. Ver as razões dos outros faz parte, necessariamente, da racionalidade. Aceitar ter sido persuadido por razões costuma ser muito mal visto, como se dar mostras de racionalidade fosse algo muito mau, quando o facto de alguém mudar de opinião demonstra que a razão lhe continua a funcionar.
A razão cobre um campo que abarca o meramente racional, no qual nos entendemos com as coisas o melhor possível, e o razoável, no qual nos entendemos com os sujeitos. É razoável incluir na minha própria a razão própria de outro sujeito, a possibilidade de aceitar os seus fins, de aceitar os seus objectivos, a sua própria busca da experiência como parte da minha própria razão.
Não vivemos só num mundo de objectos, mas também de sujeitos. Não entende racionalmente o mundo quem crê que tudo são objectos, do mesmo modo que a chave do sentido é o que se compartilha com outros sujeitos.”
Fernando Savater

Falácias Informais



2.2. O discurso argumentativo – principais tipos de argumentos e falácias informais, deverão ser abordados os critérios para avaliar argumentos indutivos, por analogia e de autoridade. Deverão ser abordadas também as seguintes falácias informais: 
a) Petição de princípio;
b) falso dilema;
c) apelo à ignorância.
d) ad hominem; 
e) derrapagem (ou “bola de neve”);
 f) boneco de palha. 
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a) Falácia da petição de princípio – A verdade da conclusão é pressuposta pelas premissas. Muitas vezes, a conclusão é apenas reafirmada nas premissas de uma forma ligeiramente diferente. Nos casos mais subtis, a premissa é uma consequência da conclusão.
Exemplos:
  1. Dado que não estou a mentir, segue-se que estou a dizer a verdade.
  2. Sabemos que Deus existe, porque a Bíblia o diz. E o que a Bíblia diz deve ser verdadeiro, dado que foi escrita por Deus e Deus não mente. (Neste caso teríamos de concordar primeiro que Deus existe para aceitarmos que ele escreveu a Bíblia.)

b) Falso dilema - É dado um limitado número de opções (na maioria dos casos apenas duas), quando de facto há mais. O falso dilema é um uso ilegítimo do operador "ou". Pôr as questões ou opiniões em termos de "ou sim ou sopas" gera, com frequência (mas nem sempre), esta falácia.

Exemplos:
  • Ou concordas comigo ou não. (Porque se pode concordar parcialmente.)
  • Reduz-te ao silêncio ou aceita o país que temos. (Porque uma pessoa tem o direito de denunciar o que entender.)
  • Ou votas no Silveira ou será a desgraça nacional. (Porque os outros candidatos podem não ser assim tão maus.)
  • Uma pessoa ou é boa ou é má. (Porque muitas pessoas são apenas parcialmente boas.)
c) Apelo à ignorância -Os argumentos desta classe concluem que algo é verdadeiro por não se ter provado que é falso; ou conclui que algo é falso porque não se provou que é verdadeiro. (Isto é um caso especial do falso dilema, já que presume que todas as proposições têm de ser realmente conhecidas como verdadeiras ou falsas). Mas, como Davis escreve, "A falta de prova não é uma prova." (p. 59)
Exemplos:
  • Os fantasmas existem! Já provaste que não existem?
  • Como os cientistas não podem provar que se vai dar uma guerra global, ela provavelmente não ocorrerá.
  • Fred disse que era mais esperto do que Jill, mas não o provou. Portanto, isso deve ser falso.
d) Ad Hominem (ataques pessoais)Ataca-se a pessoa que apresentou um argumento e não o argumento que apresentou. A falácia ad hominem assume muitas formas. Ataca, por exemplo, o carácter, a nacionalidade, a raça ou a religião da pessoa. Em outros casos, a falácia sugere que a pessoa, por ter algo tem algo a ganhar com o argumento, é movida pelo interesse. A pessoa pode ainda ser atacada por associação ou pelas suas companhias.
Há três formas maiores da falácia ad hominem:
  1. Ad hominem (abusivo): em vez de atacar uma afirmação, o argumento ataca pessoa que a proferiu.
  2. Ad hominem (circunstancial): em vez de atacar uma afirmação, o autor aponta para as circunstâncias em que a pessoa que a fez e as suas circunstâncias.
  3. Tu quoque: esta forma de ataque à pessoa consiste em fazer notar que a pessoa não pratica o que diz.
Exemplos:
  1. Podes dizer que Deus não existe mas estás apenas a seguir a moda (ad hominem abusivo).
  2. É natural que o ministro diga que essa política fiscal é boa porque ele não será atingido por ela (ad hominem circunstancial).
  3. Podemos passar por alto as afirmações de Simplício porque ele é patrocinado pela indústria da madeira (ad hominem circunstancial).
  4. Dizes que eu não devo beber, mas não estás sóbrio faz mais de um ano (tu quoque).
e) Derrapagem (bola de neve)Para mostrar que uma proposição, P, é inaceitável, extraem-se consequências inaceitáveis de P e consequências das consequências... O argumento é falacioso quando pelo menos um dos seus passos é falso ou duvidoso. Mas a falsidade de uma ou mais premissas é ocultada pelos vários passos "se... então..." que constituem o todo do argumento.

Exemplos:
  • Se aprovamos leis contra as armas automáticas, não demorará muito até aprovarmos leis contra todas as armas, e então começaremos a restringir todos os nossos direitos. Acabaremos por viver num estado totalitário. Portanto não devemos banir as armas automáticas.
  • Nunca deves jogar. Uma vez que comeces a jogar verás que é difícil deixar o jogo. Em breve estarás a deixar todo o teu dinheiro no jogo e, inclusivamente, pode acontecer que te vires para o crime para suportar as tuas despesas e pagar as dívidas.
  • Se eu abrir uma excepção para ti, terei de abrir excepções para todos.
f) Boneco de palha (espantalho)O argumentador, em vez de atacar o melhor argumento do seu opositor, ataca um argumento diferente, mais fraco ou tendenciosamente interpretado. Infelizmente é uma das "técnicas" de argumentação mais usadas.
Exemplos:
  1. As pessoas que querem legalizar o aborto, querem prevenção irresponsável da gravidez. Mas nós queremos uma sexualidade responsável. Logo, o aborto não deve ser legalizado.
  2. Devemos manter o recrutamento obrigatório. As pessoas não querem o fazer o serviço militar porque não lhes convém. Mas devem reconhecer que há coisas mais importantes do que a conveniência.