sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Teste 3 - Matriz

Nota: neste teste é obrigatório o uso de folha de teste.

Objectivos / Conteúdos:

1. Definir silogismo categórico;
2. Identificar os elementos do silogismo a partir da análise da definição de silogismo categórico (termo médio; termo menor e termo maior);
3. Analisar os silogismos quanto ao modo;
4. Reconhecer as figuras do silogismo;
5. Aplicar as regras de validade silogística;
6. Relacionar a lógica e a filosofia;
7. Identificar argumentos cogentes/definir cogência (Manual, pp. 85-87);
8. Identificar, analisar e construir argumentos não dedutivos: indução; de autoridade; por analogia.
9. Definir o conceito de falácia;
10. Identificar as falácias informais estudadas: petição de princípio, falso dilema, apelo à ignorância, ad hominem,derrapagem (ou bola de neve), boneco de palha (ou espantalho), falsa analogia, apelo à autoridade (Manual, p. 97) e indução preguiçosa.
11. Problematizar a relação entre persuasão e manipulação (ter em atenção o documentário "A Servidão Moderna");
12.Interpretar o conhecimento como relação entre um sujeito e um objeto, da qual resulta uma representação mental do objecto pelo sujeito (descrição fenomenológica);
13. Identificar diversos tipos de conhecimento: Conhecimento proposicional; saber-fazer e conhecimento por contacto;
14. Problematizar a relação entre os diversos tipos de conhecimento;
15. Definir o conceito de crença;
16. Identificar as condições necessárias do conhecimento (crença; verdade e justificação);
17. Relacionar conhecimento e verdade: o conhecimento é factivo;
18. Analisar e discutir a definição tradicional do conhecimento como crença verdadeira justificada.
19. Distinguir conhecimento a priori e conhecimento a posteriori;
20.Compreender as noções de conhecimento primitivo e derivado (ou inferencial).
21. Compreender o problema da possibilidade do conhecimento;
22. Compreender o papel dos cépticos na discussão do problema;
23. Analisar os argumentos cépticos estudados: a divergência de opiniões; a regressão infinita e a falibilidade do conhecimento sensorial.
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Algumas questões:

Quando é que podemos dizer que conhecemos algo?

É possível adquirirmos um saber-fazer sem, ao mesmo tempo, termos um conhecimento por contacto?

Se a humanidade estiver impedida de ter um conhecimento por contacto de um certo objecto (por exemplo, um planeta distante), podemos concluir que também estar impedida de ter conhecimentos proposicionais acerca desse objecto?

Podemos afirmar que todos os conhecimentos proposicionais têm origem (ainda que muito remota) em conhecimentos por contacto? Pode concluir-se que o conhecimento por contacto é a origem de todo o conhecimento?

Será que todo o conhecimento proposicional é indireto? Porquê? (Manual, p. 115).

Será que só podemos ter conhecimento por contacto das nossas próprias sensações , mas não do mundo exterior que causa essas sensações? Justifique.(Manual, p. 115).



O que é o conhecimento?

O que é o conhecimento?

Elliott Sober
Tradução de Paula Mateus

Texto retirado do site Critica na Rede

1. Tipos de Conhecimento

No quotidiano falamos de conhecimento, de crenças que estão fortemente apoiadas por dados, e dizemos que elas têm justificação ou que estão bem fundamentadas. A epistemologia é a parte da filosofia que tenta entender estes conceitos. Os epistemólogos tentam avaliar a ideia, própria do senso comum, de que possuímos realmente conhecimento. Alguns filósofos tentaram apoiar com argumentos esta ideia do senso comum. Outros fizeram o contrário. Os filósofos que defendem que não temos conhecimento, ou que as nossas crenças não têm justificação racional, estão a defender uma versão de cepticismo filosófico.
Antes de discutirmos se temos ou não conhecimento, temos de tornar claro o que é o conhecimento. Podemos falar de conhecimento em três sentidos diferentes, mas apenas um nos vai interessar. Considerem-se as seguintes afirmações acerca de um sujeito, ao qual chamarei S:
  1. S sabe andar de bicicleta.
  2. conhece o Presidente dos EUA.
  3. S sabe que a Serra da Estrela fica em Portugal.
Chamo conhecimento proposicional (ou saber-que) ao tipo de conhecimento apresentado em 3. Note-se que o objecto do verbo em 3 é uma proposição — uma coisa que é verdadeira ou falsa. Existe uma proposição — a Serra da Estrela fica em Portugal — e S sabe que essa proposição é verdadeira.
As frases 1 e 2 não têm esta estrutura. O objecto do verbo em 2 não é uma proposição, mas uma pessoa. O mesmo aconteceria se disséssemos que conhece Lisboa. Uma frase como 2 diz que S está ou esteve na presença de uma pessoa, de um lugar ou de uma coisa. Por isso dizemos que 2 corresponde a um caso de conhecimento por contacto.
Existe alguma ligação entre estes dois tipos de conhecimento? Possivelmente, para que conheça o Presidente dos Estados Unidos, terá de ter conhecimento proposicional acerca dele. Mas qual? Para que S conheça o Presidente terá de saber em que Estado ele nasceu? Isso não parece essencial. E o mesmo parece acontecer relativamente a todos os outros factos acerca dele: não parece haver qualquer proposição específica que seja necessário saber para se possa dizer que se conhece o Presidente. Conhecer uma pessoa implica, isso sim, ter um tipo qualquer de contacto directo com ela.
Chamemos ao tipo de conhecimento exemplificado em 1 conhecimento de aptidões (saber-fazer ou saber como) . Que significa dizer que se sabe fazer alguma coisa? Penso que isto tem pouco a ver com o conhecimento proposicional. Uma pessoa pode saber andar de bicicleta aos cinco anos, e para isso não precisa de saber qualquer proposição acerca desse facto. O contrário também pode acontecer: uma pessoa pode ter muito conhecimento proposicional acerca de um assunto — de pintura, por exemplo — , e não ter qualquer conhecimento de aptidões a esse respeito.
Vamos aqui abordar apenas o conhecimento proposicional. Queremos saber o que é necessário para que um indivíduo S saiba que p, sendo p uma proposição qualquer — como a de que a Serra da Estrela fica em Portugal. Daqui em diante, quando falarmos de conhecimento, estaremos sempre a referir-nos ao conhecimento proposicional.

2. Condições Necessárias e Suficientes

Consideremos a definição de solteiro:
Para qualquer SS é solteiro se e somente se:
  1. S é um adulto,
  2. S é homem,
  3. não é casado.
Não digo que esta definição capta com precisão o que “solteiro” significa em português comum. Usamos apenas esta definição como um exemplo de uma proposta de definição. Uma definição é uma generalização. Diz respeito a qualquer indivíduo que queiramos considerar. Nesta definição fazemos duas afirmações: a primeira é a de que SE um indivíduo tem as características 1, 2 e 3, então é solteiro. Por outras palavras, 1, 2 e 3 são, em conjunto,suficientes para que se seja solteiro. A segunda afirmação é a de que SE um indivíduo é solteiro, então tem as três características. Por outras palavras, 1, 2 e 3 são, cada uma delas, condições necessárias para se ser solteiro.
Uma boa definição especifica as condições suficientes e necessárias para o conceito que queremos definir. Isto significa que existem dois tipos de erros que podem ocorrer numa definição: as definições podem ser demasiado abrangentes ou demasiado restritivas.

3. Dois Requisitos para o Conhecimento: Crença e Verdade

Devemos fazer notar duas ideias que fazem parte do conceito de conhecimento. Primeiro, seS sabe que p (que uma proposição é verdadeira), então tem de acreditar que p. Segundo, se Ssabe que p, então p tem de ser verdadeira. O conhecimento requer tanto a crença quanto a verdade. Comecemos pela segunda ideia. As pessoas às vezes dizem que sabem coisas que mais tarde se revelam falsas. Mas isto não é saber coisas que são falsas, é pensar que se sabem coisas que, de facto, são falsas.
O conhecimento tem um lado subjectivo e um lado objectivo. Um facto é objectivo se a sua verdade não depende de como é a mente das pessoas. É um facto objectivo que a Serra da Estrela está 2 000 metros acima do nível do mar. Um facto é subjectivo se não é objectivo. O exemplo mais óbvio de um facto subjectivo é uma descrição do que acontece na mente de alguém.
Se uma pessoa acredita ou não que a Serra da Estrela está a 2 000 metros acima do nível do mar é uma questão subjectiva, mas se a montanha tem realmente essa propriedade é uma questão objectiva. O conhecimento requer tanto um elemento subjectivo como um elemento objectivo. Para que S conheça pp tem de ser verdadeira e o sujeito, S, tem de acreditar que pé verdadeira.

4. Terceiro Requisito: Justificação

Apontei duas condições necessárias para o conhecimento: o conhecimento requer crença e requer verdade. Mas será que isto é suficiente? Será que estas duas condições não são apenas separadamente necessárias, mas também conjuntamente suficientes? É a crença verdadeira suficiente para o conhecimento?
Pensemos num indivíduo, Clyde, que acredita na história do Dia do Porco do Campo. Clyde pensa que se o Porco do Campo vir a sua própria sombra, a Primavera virá mais tarde. Suponha-se que Clyde põe este princípio idiota em prática este ano. Ele tem informações que o fazem pensar que a Primavera virá mais tarde. Suponha-se que Clyde acaba por ter razão acerca deste facto. Se não existir nenhuma conexão lógica entre o facto de o porco do campo ter visto a sua própria sombra e o facto de a Primavera vir mais tarde, então Clayde terá uma crença verdadeira (a Primavera virá tarde), mas não terá conhecimento.
Que será então necessário, para além da crença verdadeira, para que alguém possua conhecimento? A sugestão mais natural é a de que o conhecimento requer dados de apoio, ou uma justificação racional. Note-se que ter uma justificação não é apenas pensar que se tem uma razão para acreditar em algo.
Que significa dizer que um indivíduo tem uma crença “justificada” na proposição p? Uma justificação pode ter a forma de um argumento dedutivo, de um argumento indutivo ou de um argumento abdutivo. Talvez existam outras opções além destas três. Mas, o que quer que seja que entendemos por “justificação”, parece plausível dizer que as crenças que são defendidas irracionalmente não são casos de conhecimento (mesmo que elas sejam verdadeiras).

5. A Teoria CVJ

Suponhamos que o conhecimento requer estas três condições. Será que isto é suficiente? Será que estas condições não são apenas separadamente necessárias, mas também conjuntamente suficientes? Chamarei CVJ à teoria que afirma que assim é. Esta teoria diz que ter conhecimento é a mesma coisa que ter crenças verdadeiras justificadas:
(CVJ) Para que qualquer indivíduo S e para qualquer proposição pS conhece p se e somente se
  1. S acredita em p
  2. p é verdadeira
  3. a crença de em está justificada
A Teoria CVJ afirma uma generalização. Diz o que é o conhecimento para qualquer pessoa e para qualquer proposição p. Por exemplo, suponhamos que S és tu e que p = “A Lua é feita de queijo verde”. A teoria CVJ diz o seguinte: se sabes que a Lua é feita de queijo verde, então os enunciados 1, 2 e 3 devem ser verdadeiros. E se não sabes que a Lua é feita de queijo verde, então pelo menos um dos enunciados de 1 a 3 deve ser falso. Tal como na definição de solteiro discutida antes, a expressão “se, e somente se” diz-nos que são dadas condições necessárias e suficientes para o conceito definido.

6. Três Contra-Exemplos à Teoria CVJ

Em 1963, o filósofo Edmund Gettier publicou dois contra-exemplos para a teoria CVJ. O que é um contra-exemplo? É um exemplo que contradiz o que diz uma teoria geral. Um contra-exemplo contra uma generalização mostra que a generalização é falsa. A teoria CVJ diz que todos os casos de crença verdadeira justificada são casos de conhecimento. Gettier pensa que estes dois exemplos mostram que um indivíduo pode ter uma crença verdadeira justificada mas não ter conhecimento. Se Gettier tiver razão, então as três condições indicadas pela teoria CVJ não são suficientes.
Eis um dos exemplos de Gettier. Smith trabalha num escritório. Ele sabe que alguém será promovido em breve. O patrão, que é uma pessoa em quem se pode confiar, diz a Smith que Jones será promovido. Smith acabou de contar as moedas no bolso de Jones, encontrando aí 10 moedas. Smith tem então boas informações para acreditar na seguinte proposição:
a) Jones será promovido e Jones tem 10 moedas no bolso.
Smith deduz, então, deste enunciado o seguinte:
b) O homem que será promovido tem 10 moedas no bolso.
Suponha-se agora que Jones não receberá a promoção, embora Smith não o saiba. Em vez disso, será o próprio Smith a ser promovido. E suponha-se que Smith também tem dez moedas dentro do bolso. Smith acredita em b, e b é verdadeira. Gettier afirma também que Smith acredita justificadamente em b, dado que a deduziu de a. Apesar de a ser falsa, Smith tem excelentes razões para pensar que é verdadeira. Gettier conclui que Smith tem uma crença verdadeira justificada em b, mas que Smith não sabe que b é verdadeira.
O outro exemplo de Gettier exibe o mesmo padrão. Um sujeito deduz validamente uma proposição verdadeira a partir de uma proposição que está muito bem apoiada por informações, embora esta seja falsa, apesar de o sujeito não o saber. Quero agora descrever um tipo de contra-exemplo à teoria CVJ na qual o sujeito raciocina não dedutivamente.
O filósofo e matemático britânico Bertrand Russell (1872-1970) refere um relógio muito fiável que está numa praça. Esta manhã olhas para ele para saber que horas são. Como resultado ficas a saber que são 9.55. Tens justificações para acreditar nisso, baseado na suposição correcta de que o relógio tem sido muito fiável no passado. Mas supõe que o relógio parou há exactamente 24 horas, apesar de tu não o saberes. Tens a crença verdadeira justificada de que são 9.55, mas não sabes que esta é a hora correcta.

7. Que Têm os Contra-Exemplos em Comum?

Em todos estes casos, o sujeito tem dados para acreditar na proposição em causa que são altamente credíveis, mas não infalíveis. O patrão está geralmente certo sobre quem vai ser promovido, o relógio está geralmente certo quanto às horas. Mas é claro que geralmente não é sempre. As fontes da informação que os sujeitos exploraram nestes exemplos são altamente credíveis, mas não são perfeitamente credíveis. Todas as fontes de informação eram susceptíveis de erro, pelo menos até certo ponto.
Será que estes exemplos refutam realmente a teoria CVJ? Depende de como entendemos a ideia de justificação. Se dados altamente credíveis são suficientes para justificar uma crença, então estes contra-exemplos refutam realmente a teoria CVJ. Mas se a justificação requer dados perfeitamente infalíveis, então estes exemplos não refutam a teoria.
A minha opinião é de que os dados que justificam uma crença não precisam de ser infalíveis. Penso que podemos ter crenças racionais bem apoiadas mesmo quando não nos empenhamos em estar absolutamente certos de que o que acreditamos é verdadeiro. Assim, concluo que a crença verdadeira justificada não é suficiente para o conhecimento.
Elliott Sober
Retirado do livro Core Questions in Philosophy, de Elliott Sober (Prentice Hall, 2008)

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Teste 2 - Matriz

O próximo teste sumativo será eminentemente prático, uma vez que nele será testado o domínio da teoria do silogismo.
O teste terá a seguinte composição:
Grupo I - Itens de escolha múltipla;
Grupo II - Itens de análise de silogismos; Itens de construção de silogismos; Itens de resolução de problemas com base em silogismos;
Grupo III - 2 questões de resposta orientada.
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Objectivos / Conteúdos: 
1. Definir conceito;
2. Distinguir a extensão da compreensão dos conceitos;
3. Classificar os conceitos quanto à extensão (à quantidade);
4. Definir juízo;
5. Identificar a forma lógica dos juízos categóricos (das proposições predicativas categóricas);
6. Reduzir enunciados à forma normal predicativa;
7. Identificar os diversos tipos de proposição (A;E;I;O) atendendo à sua forma lógica;
8. Identificar as situações em que os termos estão distribuídos (ocorrem na sua máxima extensão), tendo em conta a regra da distribuição dos termos;
9. Definir silogismo categórico;
10. Identificar os elementos do silogismo a partir da análise da definição de silogismo categórico (termo médio; termo menor e termo maior);
11. Analisar os silogismos quanto ao modo;
12. Reconhecer as figuras do silogismo;
13. Aplicar as regras de validade silogística;
14. Construir silogismos;
15. Reparar silogismos;
16. Distinguir validade e verdade;
17. Distinguir validade dedutiva e validade indutiva;
18. Definir e caracterizar a lógica informal;
19. Distinguir lógica formal de lógica informal;
20. Relacionar a lógica com a filosofia;
21. Definir a argumentação;
22. Distinguir demonstração de argumentação;
23. Distinguir a argumentação convincente da argumentação persuasiva;
24. Distinguir auditório universal de auditório particular;
25. Articular os conceitos de Ethos; Pathos e Lógos;
26. Compreender as principais qualidades de um bom orador;
27. Identificar argumentos sólidos;
28. Identificar argumentos cogentes;
29. Compreender os critérios da cogência;
30. Relacionar a argumentação com a filosofia;
31. Definir a retórica;
32. Relacionar a retórica com a filosofia;
33. Caracterizar os sofistas;
34. Explicar  o conflito entre os filósofos e os sofistas na Grécia antiga;
35. Relacionar o nascimento da retórica com a emergência da democracia ateniense;
36. Caracterizar a democracia ateniense com base nos seus princípios fundamentais (Isonomia; Isocracia; Isegoria);
37. Analisar criticamente a democracia ateniense;
38. Compreender a importância dos sofistas nas sociedades gregas da antiguidade;
39. Comparar Sócrates com os sofistas;
40. Distinguir doxa e episteme;
42. Explicar a filosofia, na perspectiva socrática e platónica, como uma busca da verdade;
43. Explicar a crítica de Platão ao regime democrático.
44. Definir o conceito de falácia;
45. Distinguir paralogismo e sofisma.
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No teste não será necessário o uso de folha de teste.
O teste terá a duração de 90 minutos.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

A nova retórica: retórica e filosofia



"A argumentação filosófica apresenta-se como um apelo à razão, que eu traduzo na linguagem da argumentação, ou aquela da nova retórica, como um discurso que se dirige ao auditório universal. Uma argumentação racional caracteriza-se por uma intenção de universalidade, ela visa convencer, ou seja, garantir a adesão de um auditório que, na mente do filósofo, encarna a razão."Perelman

Ao conceber a própria razão como um auditório, a tese de que a filosofia pode ser compreendida como um discurso dirigido a um auditório ganha sustentação. Segundo Perelman, os filósofos teriam-se, ao pretenderem apelar à razão, explícita ou implicitamente dirigido ao auditório universal. A argumentação filosófica, que se pretende racional e universal, difere das demais argumentações humanas não pela ausência do elemento retórico.
O facto de a razão ter sido considerada, ao longo da tradição ocidental, uma faculdade humana inata, iluminada por Deus, determinou, em grande medida, a rejeição da retórica. Perelman reconhece que os filósofos procuraram, quase sempre, negar que visavam convencer algum auditório com a sua argumentação. 
Querer adaptar-se a um auditório convinha ao sofista, ao demagogo, ao retórico, e não ao filósofo sério, que deveria estar preocupado com a verdade, e não com a eficácia da sua argumentação. Em vez da adesão de um auditório, os filósofos preferiram buscar uma espécie de ascese, para melhor atingir a verdade. 
Em vez de opor filosofia e retórica, Perelman sustenta que a filosofia também pode ser compreendida retoricamente. Mas isso não significa que devamos abrir mão da ideia de razão e da pretensão de universalidade. Isso acontece porque, para Perelman, a argumentação filosófica difere dos outros argumentos retóricos por causa do auditório ao qual ela se dirige. 
Em vez de um discurso ad hominem, o filósofo  dirige-se a toda humanidade e o seu discurso é antes ad humanitatem, através de uma argumentação que, segundo Perelman, pode-se qualificar de racional.
ALVES, Marco Antônio Sousa.-A nova retórica de Chaïm Perelman: considerações sobre a racionalidade, atensão decisionismo/legalismo, e o Estado Democrático de Direito. Trabalho apresentado no SeminárioTeoria da Argumentação e Nova Retórica, PUC-MG, Belo Horizonte, 2009. Disponível em:

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Argumentos sólidos e argumentos cogentes



Um argumento sólido é um argumento válido com premissas verdadeiras. vejamos o exemplo de um argumento obviamente mau, mas sólido:

Sócrates não era engenheiro.
Logo, Sócrates não era engenheiro.

Isto mostra que não basta um argumento ser válido e ter premissas verdadeiras para ser bom. Uma terceira condição para que um argumento seja bom é ter premissas mais plausíveis do que a conclusão. É isso precisamente que não acontece nos argumentos circulares.

O que é ser mais ou menos plausível? É o que um agente encara como mais ou menos provável, em função do seu estado cognitivo — isto é, em função das suas restantes crenças. Trata-se de uma noção epistémica (está ligada ao conhecimento), ao passo que a verdade é uma noção metafísica (está ligada à estrutura do real): a plausibilidade é relativa aos agentes, mas a verdade não. É verdade que a Terra se move ou não, independentemente do que as pessoas pensam sobre isso; mas um agente pode estar num estado cognitivo que não lhe permita saber que a Terra se move, e que lhe dê até boas razões para pensar que não se move.
Argumentar sem atender ao estado cognitivo das pessoas com quem argumentamos é perder tempo. Pois se não partirmos de premissas que tais pessoas considerem plausíveis, e mais plausíveis do que as conclusões a que desejamos chegar, os argumentos não persuadem — pois essas pessoas irão sempre rejeitar as premissas. Assim, argumentar é partir do que as pessoas consideram plausível e concluir validamente o que elas não aceitavam antes da nossa argumentação. Imaginemos duas pessoas a discutir a questão de saber se ter fé em Deus é racional na ausência de provas da existência de Deus. Para que esta discussão seja profícua é necessário que os argumentos usados por qualquer das partes se baseiem exclusivamente no que a outra parte considera plausível. Dito de forma mais clara: se eu sou crente e quero argumentar, perante um ateu, que a fé é racional na ausência de provas, só posso usar premissas que o ateu com quem estou a discutir considere plausíveis.


Concluindo, estas são as três condições necessárias da boa argumentação

1. usar argumentos válidos
2. usar premissas verdadeiras;
3. usar premissas mais plausíveis do que a conclusão

Chama-se “argumentos cogentes” aos que reúnem as três condições. 

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

A Retórica

A Retórica
Na antiguidade o campo da lógica informal foi ocupado pela retórica.
A retórica era cultivada como a arte da eloquência, ou seja como um conjunto de técnicas que visavam persuadir ou convencer um auditório através do discurso.
A retórica nasceu da necessidade de resolver conflitos através da argumentação: nos tribunais e nas assembleias políticas e o seu aparecimento é um verdadeiro progresso civilizacional na Grécia antiga, porque permitiu que o debate substituísse a violência quando estavam em causa conflitos de interesse que excitavam as paixões dos envolvidos.
Cedo se formou um grupo de cultores da retórica, os sofistas. Estes foram durante muito tempo os principais educadores das elites das grandes cidades gregas e em especial de Atenas, o berço da democracia.
Sócrates e Platão entraram em conflito aberto com os sofistas acusando-os de  praticarem a retórica como uma arte da ilusão e da manipulação, uma fonte de perversão que urgia combater sem vacilar.
Para estes filósofos a busca da verdade e a consequente libertação dos homens da ignorância e da superstição era uma das principais metas da filosofia. 
Os sofistas, por sua vez, visavam que os seus discursos fossem eficazes, ou seja, que produzissem efeitos políticos que, no fundo, permitissem exercer um poder efetivo sobre os cidadãos. Por isso defenderam uma ética relativista e pragmática: o bom deve estar submetido ao útil (pragmatismo) e o saber vale pelos seus efeitos práticos, pelo que não existe nenhum saber superior à opinião (doxa) e entre as opiniões vence a que for aceite pelo público, ou seja, a que for melhor defendida.
É neste contexto que se dá o julgamento de Sócrates que teve como desfecho a sua condenação à morte.





Depois deste conflito entre Platão (e Sócrates) e os sofistas, Aristóteles procede a uma verdadeira reabilitação filosófica da retórica. Na sua obra Retórica, procede a uma sistematização do campo temático desta disciplina, procurando apresentá-la como um complemento da Lógica e afastando-a do domínio da manipulação sofística.

"Para muitos, a retórica pouco mais é do que mera manipulação linguística, ornato estilístico e discurso que se serve de artifícios irracionais e psicológicos, mais propícios à verbalização de discursos vazios de conteúdo do que à sustentada argumentação de princípios e valores que se nutrem de um raciocínio crítico válido e eficaz. Mas a restauração da retórica ao seu velho estatuto de teoria e prática da argumentação persuasiva como antiga e nova rainha das ciências humanas tem vindo a corrigir essa noção enganosa, revalorizando-a como ciência e arte que tão logicamente opera na interpretação dos dados que faz intervir no discurso, como psicológica e eficazmente se cumpre no resultante efeito de convicção e mobilização para a ação de um auditório através do discurso. 
No fundo, a retórica é um saber que se inspira em múltiplos saberes e se põe ao serviço de todos os saberes. E um saber interdisciplinar no sentido pleno da palavra, na medida em que se afirmou como arte de pensar e arte de comunicar o pensamento. E como saber interdisciplinar e transdisciplinar, a retórica está presente no direito, na filosofia, na oratória, na dialéctica, na literatura, na
hermenêutica, na crítica literária e na ciência.
A retórica é uma das artes práticas mais nobres, porque o seu exercício é uma parte essencial da mais básica de todas as funções humanas. Daí a especial atenção que Aristóteles lhe dedicou, corrigindo tendências sofísticas e codificando princípios metodológicos e técnicos que, com o evoluir da tradição,
se haveriam de consagrar num cânone retórico de grande fortuna e proveito.
Na retórica aristotélica nós encontramos o saber como teoria, o saber como arte e o saber como ciência; um saber teórico e um saber técnico, um saber artístico e um saber científico. 
No trânsito da antiga para a nova retórica, ela naturalmente transformou-se de arte da comunicação persuasiva em ciência hermenêutica da interpretação. O seu duplo valor como arte e ciência, como saber e modo de comunicar o saber, faz dela também um instrumento mediante o qual podemos inventar, reinventar e solidificar a nossa própria educação. O esforço transdisciplinar que hoje em dia se faz para melhor compreender o papel da retórica e da hermenêutica na crítica do texto filosófico e literário mostra-nos que estas são duas áreas do saber intrinsecamente ligadas à essência da praxis humana.
O justo relevo dado por Chaim Perelman à vertente argumentativa desta arte colocou mais uma vez a Retórica de Aristóteles na moda, e as traduções que dela se fazem sucedem-se em ritmo acelerado nas mais diversas línguas."
Manuel Alexandre Júnior, prefácio da obra de ARISTÓTELES, Retórica, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa, 2005.

Deve-se confrontar esta apresentação com artigos/ documentos:
A emergência da Retórica
A argumentação filosófica e a busca da verdade
A Democracia Grega e o Movimento Sofista - Apresentação

Para mais informação sobre os sofistas, clique AQUI

O triângulo retórico


segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Os sofistas





Quem eram os SOFISTAS?
Quanto aos sofistas, seria obrigatório considerar que este termo designa um antigo grupo de sábios que teve uma relevância inquestionável na sociedade grega em meados do século V a.C. Costuma-se afirmar que os sofistas eram dotados de uma notável capacidade retórica. No entanto, dada definição não chega a demonstrar claramente a real importância destes sábios. J. V. Luce chega a afirmar que o termo sophistes podia ser empregue com a mesma conotação, sem que com tal emprego incorresse em erro, para poetas, carpinteiros, médicos e estadistas.
Porém, mesmo diante desse pequeno impasse devemos lembrar que o termo sofista é, grosso modo, uma derivação do termo sophos, que significa “sábio, perito, especialista”. Em consonância com isso, cabe ainda informar que o poeta Ésquilo disse, certa vez, que “não é aquele que sabe muitas coisas que é sophos, mas aquele cujo conhecimento é útil”. Por esse prisma, é válido aceitar que, ao atingir-se o real alcance da afirmação de Ésquilo, os Sofistas seriam, num sentido restrito, aqueles que são úteis à pólis – à cidade – já que a sua zona de ação estaria de acordo com os interesses práticos da sociedade, ou seja, agiriam sempre com vista a um conhecimento útil. Não se conformavam ao meramente abstrato, ao que não tivesse fins políticos claros.
Tal carga semântica referente à utilidade atribuída à prática dos Sofistas é perceptível quando se assevera que já em meados do século V a.C estes eram conhecidos como 'professores' errantes que viajavam de cidade em cidade oferecendo cursos de instrução numa grande variedade de assuntos. Precisamente por ter o seu campo de ação no âmbito do que fosse público é que os Sofistas conseguiram colocar-se numa posição de distinção no que se refere às consequências das ideias defendidas por eles:

"Não há outro movimento que se possa comparar com a Sofística quanto à duração das suas consequências. Não que, de um golpe, tenha modificado a vida cultural grega; antes, já vimos que os círculos afetados por ela ao princípio eram de certa maneira restritos. Mas o mundo de ideias que ela fez desintegrar nunca mais voltou a formar uma verdadeira unidade, e as perguntas que formulava, as dúvidas que suscitava, não puderam ser silenciadas [...]. (LESKY, História da literatura grega." Tradução Manuel Losa. 3.ed. Lisboa, Calouste Gumbenkian, 1995, p.317)

Diante disso, é inegável a importância e a repercussão dos Sofistas não apenas para a filosofia, mas para os diversos aspectos sociais envolvidos no domínio sofístico.
Não obstante, ao longo da história ocidental, o termo 'sofista' ganhou um sentido pejorativo. E tal conotação pejorativa começou a ganhar notoriedade  ainda na Antiguidade. Desta forma, se antes sábio e sofista foram termos sinonímicos, já no século V a.C. a palavra 'sofista' passou a designar aquele que convence por meio de sofismas. 
O sofisma, a rigor, seria um argumento não conclusivo, mas, que a despeito de sua imprecisão, utilizaria elucubrações pouco louváveis, que teriam por intuito apenas fins meramente retóricos. .
Os sofistas, principalmente por causa da visão socrático-platónica, estariam inexoravelmente no âmbito da relatividade e do subjetivismo. Nesse sentido, tal relatividade e subjetivismo concorreriam para que as dúvidas se tornassem mais arraigadas no inconsciente coletivo, como dogmas inquestionáveis, ou pseudo-sofia, já que, de acordo com os detratores dos sofistas, a pretensão de alcançar uma certeza não teria relevância alguma para estes últimos. Esta característica conflituaria com a busca da verdade, tão em voga na filosofia grega. 
Decerto, este último atributo foi provavelmente o mais forte para caracterizar o tom pejorativo, muitas vezes de ofensa, atribuído ao termo sofista.
No entanto, mesmo as críticas socrático-platónicas deixam a desejar ao não perceberem que essa espécie de relativismo, defendido pelos Sofistas, tinha como consequência lógica o entendimento de que a verdade para eles significava algo que, por excelência, era pragmático ou que fosse útil a um indivíduo ou a comunidade.
Luiz Roberto Alves dos Santos, "Ética Sofística: o Papel Educativo da Relativização dos Valores"
(Texto adaptado).

Os sofistas
O movimento sofístico surge na Grécia no século V a.C. e deve ser compreendido como um movimento que responde às necessidades de ampliar e renovar as estruturas sócio-político-culturais da época, proporcionando aos jovens uma nova educação, centrada principalmente no domínio da linguagem e do discurso. São professores no sentido político e o seu ensino dirige-se aos jovens que querem aceder a posições políticas importantes, ligando-se, por isso, à arte de viver e de governar. São técnicos de retórica.
Praticam o método antilógico ou a antilogia. Este método antilógico ou antilogia consiste no seguinte exercício: dar ao aluno a tarefa de defender uma tese, ou uma causa, fazendo-o desenvolver toda a argumentação a seu favor. Depois, pedir ao mesmo aluno que, relativamente a essa tese ou causa, desenvolvesse uma argumentação inversa, isto é, de ataque, que a deitasse por terra. Com este método, os sofistas procuravam fomentar o espírito e a capacidade de argumentar. O ensino sofístico encontrava-se essencialmente ligado à argumentação e à retórica ou, mais precisamente, à capacidade de usar a palavra e de fazer discursos persuasivos e convincentes, discursos que permitissem que quem os fizesse atingisse os objetivos perseguidos.
Contudo, a par dos partidários e entusiastas deste tipo de ensino, cedo surgiram, por parte dos filósofos, fortes críticas e acusações à pedagogia com que eles procuravam formar a juventude. Esta crítica acabou por dar dos sofistas a imagem de 'filósofos malditos' e de os lançar no descrédito.
No entanto, há que assinalar a importância dos sofistas dizendo que o grande legado que eles nos deixaram se pode resumir na valorização da palavra, do discurso e do diálogo como forma de regulação da vida dos homens e como arma e instrumento fundamental nos jogos de poder com que a todo o momento a vida em sociedade nos confronta , a crença na capacidade dos homens substituírem, nas suas relações, o regime de força e de violência por um regime da persuasão, a ideia de que o estabelecimento de uma comunidade entre pessoas humanas se funda não na imposição dogmática, mas na capacidade das pessoas falarem, debaterem e ouvirem-se umas às outras, numa palavra, a convicção de que a resolução dos problemas humanos só encontra uma solução humana se mediada pela linguagem e pelos poderes dialógicos - eis o grande legado que os sofistas nos deixaram.
Rui Alexandre Grácio, Vocabulário crítico de argumentação, Grácio Editor, Coimbra, 2013, pp. 121-122.

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Consultar também:
A importância dos sofistas
"O Elogio a Helena" - Um exemplo da arte de discursar de Górgias