segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Determinismo e Liberdade na Ação Humana

O problema do livre-arbítrio

Introdução ao problema:

(texto de Carlos Pires, copiado daqui)

As nossas acções são realmente livres ou são determinadas por causas anteriores que não controlamos? Escolhemos de facto o que fazemos ou um certo conjunto de factores físicos, biológicos, culturais, etc., é que nos leva a fazer aquilo que fazemos?

Numa apresentação um pouco simplificada, este é o problema do livre-arbítrio. Temos ou não livre-arbítrio?

Eis três exemplos ilustrativos do problema: Évarist Galois aceitou participar num duelo (que sabia que ia perder), Jaime Neves recusou participar num duelo, uma pessoa Y qualquer comeu uma fatia de bolo e não um pêssego – terão agido livremente?

O matemático francês Évarist Galois foi, em 1832, desafiado para um duelo por um rival amoroso (o despeitado noivo de uma senhora da qual se enamorou e com quem teve uma breve relação). De acordo com as crenças e costumes da época, recusar um duelo constituía uma desonra, uma vergonha pior que a morte. Temendo a censura e o desprezo da sociedade e da sua amada, Galois aceitou o duelo. Sabia, porém, que o seu adversário era muito mais hábil com as armas que ele e que tinha poucas hipóteses de sobreviver.

Por isso, passou a noite anterior ao duelo a escrever apontamentos de algumas das suas ideias matemáticas (misturadas com exaltadas declarações de amor à referida senhora e queixas desesperadas relativamente à falta de tempo para escrever as suas ideias e impedir que morressem com ele). As ideias registadas à pressa nesses apontamentos ainda hoje são estudadas por muitos matemáticos e tiveram um papel importante no desenvolvimento da Matemática, nomeadamente da Álgebra.

Quando chegou a hora marcada, Galois largou a pena e dirigiu-se ao local combinado para o duelo. Como seria de esperar, foi atingido e morreu. Tinha 20 anos.

No dia 25 de Abril de 1974 as forças chefiadas pelo major Jaime Neves cercaram um local (salvo erro, a Legião Portuguesa, na Penha de França, em Lisboa) onde estavam aquarteladas forças leais a Marcello Caetano. Inicialmente o comandante dessas forças recusou render-se. Este propôs a Jaime Neves que, em vez de um conflito que podia provocar a morte de muitos civis, resolvessem o problema como “dois cavalheiros, à maneira antiga”: com um duelo entre ambos.

Jaime Neves terá respondido: “Tenha juízo homem! Renda-se imediatamente senão mando os meus homens dispararem.” E esse comande rendeu-se.

Jaime Neves não se sentiu desonrado ao recusar o duelo e a sociedade portuguesa não o censurou nem desprezou por isso.

“Supõe que estás na bicha de uma cantina e que, quando chegas às sobremesas, hesitas entre um pêssego e uma grande fatia de bolo de chocolate com uma cremosa cobertura de natas. O bolo tem bom aspecto, mas sabes que engorda. Ainda assim, tiras o bolo e come-lo com prazer. No dia seguinte vês-te ao espelho, ou pesas-te, e pensas: ‘Quem me dera não ter comido o bolo de chocolate. Podia ter comido antes o pêssego’.” Thomas Nagel, O que quer dizer tudo isto? – Uma iniciação à Filosofia, Gradiva, 1995, pág. 45.
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Exploração do problema

O problema do livre-arbítrio, um dos mais antigos e complexos da filosofia. Ele diz respeito ao conflito existente entre a liberdade que temos ao agir e o determinismo causal. Podemos introduzi-lo considerando as três proposições seguintes:

1. Todos os acontecimentos são causados [por acontecimentos anteriores].
2. As nossas acções são livres.
3. Acções livres não são causadas [por acontecimentos anteriores].

A proposição 1 parece geralmente verdadeira: cremos que, no mundo em que vivemos, para todos os acontecimentos deve haver uma causa. 

A proposição 2 também parece verdadeira: quando nos observamos a nós mesmos, parece óbvio que as nossas decisões e acções são frequentemente livres. 

Também a proposição 3 parece verdadeira: se as nossas acções fossem causalmente determinadas, elas não poderiam ser livres.

O problema do livre-arbítrio surge quando percebemos que as três proposições acima formam um conjunto inconsistente, ou seja: não é possível que todas elas sejam verdadeiras! 


  • Se admitimos que todos os acontecimentos são causados e que a acção livre não é causalmente determinada (que as proposições 1 e 3 são verdadeiras), então não somos livres, posto que as nossas acções são acontecimentos (a proposição 2 é falsa). 
  • Se admitimos que as nossas acções são livres e que como tais elas não são causalmente determinadas (que 2 e 3 são proposições verdadeiras), então não é verdade que todo o acontecimento seja causado (a proposição 1 é falsa). 
  • E se admitimos que todo o acontecimento é causado e que somos livres (que as proposições 1 e 2 são verdadeiras), então deve haver algo de errado com a ideia de liberdade expressa na proposição 3.

Cada uma dessas alternativas possui um nome e foi classicamente defendida. 

A primeira delas é chamada de determinismo; ela consiste em negar a verdade da proposição 2, ou seja, que somos realmente livres.  Ela foi mantida por filósofos como Espinosa, Schopenhauer e Henri d'Holbach

A segunda alternativa chama-se libertismo: ela não tem problemas em admitir que o mundo ao nosso redor é causalmente determinado, mas abre uma excepção para muitas de nossas decisões e acções, que sendo livres escapam à determinação causal. Com isso o libertismo rejeita a validade universal do determinismo expressa pela proposição 1. Essa é a posição de Santo Agostinho, Kant e Fichte

Finalmente há o compatibilismo, que tenta mostrar que a liberdade de ação é perfeitamente compatível com o determinismo, rejeitando a ideia de liberdade expressa na proposição 3. Historicamente, Hobbes, Hume e Stuart Mill foram famosos defensores do compatibilismo. No que se segue, quero considerar isoladamente cada uma dessas soluções, argumentando finalmente a favor do compatibilismo.

1. Determinismo


O determinismo parte da consideração de que, da mesma forma que podemos sempre encontrar causas para os eventos físicos que nos cercam, podemos sempre encontrar causas para as nossas ações, sejam elas quais forem. Com efeito, sendo como somos produtos de um processo de evolução natural, seria surpreendente se as nossas ações não fossem causadas do mesmo modo que o são outros eventos biológicos, tais como a migração dos pássaros e o fototropismo das plantas. 

Mesmo que o princípio da causalidade não seja garantido e que no mundo da microfísica ele tenha sido inclusive colocado em dúvida, no mundo humano, constituído pelas nossas ações, pensamentos, decisões, vontades, esse princípio parece manter-se plenamente aceitável. De facto, admitimos que as decisões ou ações humanas são causadas. 

Alguns poderão dizer que Napoleão invadiu a Rússia por livre decisão da sua vontade. Mas os historiadores consideram parte do seu ofício encontrar as causas, procurando esclarecer as motivações e circunstâncias que o induziram a tomar essa funesta decisão. Na determinação das nossas ações, as causas imediatas podem ser externas (alguém decide parar o carro diante de um sinal vermelho) ou internas (alguém resolve tomar um refrigerante), sendo geralmente múltiplas e por vezes muito difíceis de serem identificadas. No entanto, teorias biológicas e psicológicas (especialmente a psicanálise) sugerem que as nossas ações são sempre causadas; "Fiz isso sem nenhuma razão" raramente é aceite como desculpa.

Com base em considerações como essas, a conclusão do filósofo determinista é a de que o livre-arbítrio na verdade não existe, posto que se a ação fosse realmente livre ela não seria determinada por outros factores independentes dela mesma. A liberdade que parecemos ter ao tomarmos as nossas decisões é pura ilusão, produzida por uma insuficiente consciência das suas causas. Mesmo quando pensamos que poderíamos ter agido de outro modo, o que queremos dizer não é que éramos realmente livres para agir de outro modo, mas simplesmente que teríamos agido de outro modo se o sentimento mais forte tivesse sido outro, se soubéssemos aquilo que agora sabemos etc. O argumento a favor do determinismo pode ser assim esquematizado:

1. Todos os acontecimentos são causados.
2. Todas as ações humanas são acontecimentos.
3. Nenhuma ação humana existe sem uma causa.
A. Logo, Nenhuma ação humana é livre.

(Neste argumento está pressuposto que as ações humanas só seriam livres se não fossem causadas).
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Um argumento mais simples em defesa do determinismo:

1. Tudo o que fazemos é causado por forças que não controlamos.
2. Se as nossas ações são causadas por forças que não controlamos, então não agimos livremente.
3. Logo, nunca agimos livremente.

(James Rachels)

Para saber mais sobre o determinismo:
O Determinismo Faz Sentido?
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Objeções à teoria determinista:
A posição determinista encontra, porém, dificuldades. Não é só o sentimento de que somos livres que perde a validade. Também o sentimento de arrependimento ou remorso parece perder o sentido, pois como se justifica que nós possamos arrepender-nos das nossas ações, se não fomos livres para escolhê-las? Também a responsabilidade moral perde a validade. Se nas nossas ações somos tão determinados como uma pedra que cai ao ser solta no ar, faz tão pouco sentido responsabilizar uma pessoa pelos seus actos quanto faz sentido responsabilizar a pedra por ter caído. Tais dificuldades levam-nos a considerar a posição oposta.

2. Libertismo

O libertista rejeita o determinismo por considerar as conclusões acima inaceitáveis. Ele também rejeita a primeira premissa do argumento determinista. 

O princípio da causalidade (o Princípio da Razão Suficiente), enunciável como "Todo o acontecimento tem uma causa", não parece ter a sua validade universal garantida. 

Certamente, esse princípio é extremamente útil, valendo em geral para o mundo que nos circunda e mesmo para muitas de nossas ações. Mas nada nele garante que a sua validade seja universal. Não podemos pensar que A = ~A ou que 1 + 1 = 3, mas podemos perfeitamente conceber um evento no universo surgindo sem nenhuma causa. 

A isso o libertarista poderá acrescentar que nós simplesmente sabemos que somos livres. Há uma grande diferença entre um comportamento reflexo e um comportamento resultante da decisão da vontade. Nós sentimos que no último caso somos livres, que podemos decidir sempre de outro modo.

[...] Segundo essa teoria, às vezes, pelo que podemos saber, o agente causa os seus actos sem qualquer mudança essencial em si mesmo, não necessitando de condições antecedentes que sejam suficientes para justificar a acção. Isso acontece porque o eu é uma entidade peculiar, capaz de iniciar uma ação sem ser causado por condições antecedentes suficientes! Você poderá perguntar-se como isso é possível. A resposta geralmente oferecida é que não pode haver explicação. Para responder a uma pergunta como essa teríamos de interrogar o próprio eu, considerando-o objectivamente. Mas, como quem deve considerar objectivamente o eu só pode ser aqui o próprio eu, isso é impossível. [...]

O argumento que conduz à teoria da ação libertista tem a forma:

1. Não é certo que todos os acontecimentos são causados por acontecimentos anteriores.
2. Sabemos que as nossas ações são frequentemente livres.
3. As ações humanas livres não podem ser causadas por acontecimentos anteriores.
4. Portanto, as ações humanas não precisam de ser causadas por acontecimentos anteriores.

Cláudio Costa
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Link: OS ARGUMENTOS LIBERTISTAS
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Embora essa solução preserve a noção de livre arbítrio, ela tem o inconveniente de explicar o obscuro pelo que é mais obscuro ainda, que é um mistério a ser aceite sem questionamento. A pergunta que permanece é se não há uma solução mais satisfatória. 

A solução que veremos a seguir, o compatibilismo, é hoje a mais aceite, sendo uma maneira de tentar preservar as vantagens das outras duas sem as correspondentes desvantagens.






3. Compatibilismo: definições

Segundo o compatibilismo, também chamado de determinismo moderado ou reconciliatório, nós permanecemos livres e responsáveis, mesmo sendo causalmente determinados nas nossas ações. O raciocínio que conduz ao compatibilismo tem a forma:


1. Todo o evento é causado.
2. As ações humanas são eventos.
3. Portanto, todas as ações humanas são causadas.
4. Sabemos que as nossas ações são às vezes livres.
5. Portanto, as ações livres são causadas.

Um bom exemplo de argumento em defesa do compatibilismo é o de Walter Stace, para quem nós confundimos o significado da noção de liberdade na sua conexão com o determinismo. Segundo Stace, o determinista acredita que a liberdade da vontade é o mesmo que a capacidade de produzir ações sem que elas sejam determinadas por causas. Mas isso é falso. Se assim fosse, uma pessoa que se comportasse arbitrariamente, mesmo que contra a sua própria vontade, seria um exemplo de pessoa livre. Mas o comportamento arbitrário não é visto como um comportamento livre. A diferença entre a vontade livre e a vontade não-livre não deve residir, pois, no facto de a segunda ser causalmente determinada e a primeira não. Além disso, tanto no caso de actos livres como no caso de actos não-livres, nós costumamos encontrar determinações causais, como mostram os seguintes exemplos, os três primeiros tomados do texto de Stace:

A. Actos livres
B. Actos não-livres
1. Gandi passa fome porque quer libertar a Índia.
1. Um homem passa fome num deserto porque não há comida.
2. Uma pessoa rouba um pão porque está com fome.
2. Uma pessoa rouba porque o seu patrão a obrigou.
3. Uma pessoa assina uma confissão porque quer dizer a verdade.
3. Uma pessoa assina uma confissão porque foi submetida a tortura.
4. Uma pessoa decide abrir uma garrafa de champanhe porque quer brindar ao Ano Novo.
4. Uma pessoa toma uma dose de aguardente, mesmo contra a sua vontade, porque é alcoólica.
5. Uma pessoa abre a janela porque faz calor.
5. Uma pessoa abre a janela por efeito de sugestão pós-hipnótica.
6. Um membro de uma equipa de cinema provoca a explosão de uma bomba para efeitos de filmagem.
6. Um psicopata faz explodir uma bomba porque ouve vozes que o convenceram a realizar essa ação.

Note-se que a palavra "porque", que denota causalidade, é comum a ambas as colunas. Assim, a coluna A não difere da coluna B pelo facto de não podermos encontrar causas das ações, decisões e volições dos agentes. E às causas apresentadas podemos adicionar ainda outras, como razões psicológicas e biográficas de Gandi, o costume de brindar ao Ano Novo abrindo uma garrafa de champanhe etc. Mesmo nos casos de decisões arbitrárias (como quando alguém decide lançar uma moeda ao ar para que a sorte decida o que deve fazer), a decisão de escolher arbitrariamente também possui alguma causa.

A diferença notada por Stace entre as ações livres da coluna A e as não-livres da coluna B é que as primeiras são voluntárias, enquanto as segundas não. Daí que ele defina a diferença entre a vontade livre e não-livre como residindo no facto de que os actos derivados da vontade livre são voluntários, enquanto os actos que não são derivados da vontade livre são involuntários, no sentido de se oporem à nossa vontade ou de serem independentes dela. Se Gandi passa fome para libertar a Índia, se alguém rouba um pão por estar com fome, estes actos são ações livres, posto que são actos voluntários; mas se uma pessoa assina uma confissão sob tortura ou toma uma dose de aguardente contra a sua vontade, esses são actos que se opõem à vontade dos agentes, por isso mesmo não são livres.

Será que o compatibilismo resolve o problema do livre-arbítrio?

Cláudio Costa
Texto retirado de Uma Introdução Contemporânea à Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2002, pp. 267-275 (adaptado por Aires Almeida)
(Texto Adaptado)

Para saber mais:
Sobre o Libertismo "Os argumentos libertistas"


Atividades:
Antes de responder às questões, deve analisar a seguinte apresentação:


(As imagens apresentadas a seguir são retiradas desta apresentação)

1. Explique o problema do livre-arbítrio.
O problema do livre-arbítrio surge da impossibilidade lógica de admitirmos que há acontecimentos que não têm uma causa que os produza (ou uma razão que os explique). Admiti-lo seria negar o Princípio da Razão Suficiente (que estipula que nada acontece sem razão ou que tudo o que acontece tem uma causa).
Perante a evidência científica de que no Universo tudo é causado, seria absurdo admitir que os nossos atos pudessem não depender de causas anteriores.
Coloca-se, assim, o problema de saber se podemos fazer escolhas, ou seja, se somos livres (de escolher)ou se a liberdade é uma ilusão e todo o nosso comportamento é determinado pela causalidade universal.
O problema pode formular-se através das seguintes questões (entre outras):
Somos livres? Podemos escolher? Temos uma vontade livre?

2. Explique a posição dos deterministas.
















3. Explique a posição dos libertistas.















4. Explique a posição dos compatibilistas (dos deterministas moderados).













5. Apresente uma razão invocada pelos deterministas a favor da sua posição.
(Apresentamos mais do que uma razão)


































6. Apresente uma objecção ao determinismo.
(Apresentamos mais do que uma objeção)



















7. Apresente uma razão invocada pelos libertistas a favor da sua posição.
(Apresentamos mais do que uma razão)

















8. Apresente uma objecção ao libertismo.
(Apresentamos mais do que uma objeção)





















9. Apresente uma razão invocada pelos compatibilistas a favor da sua posição.

















A liberdade é uma ilusão?



quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Teste Sumativo I - 10ºD - Correção

Pode visualizar o teste clicando aqui

Filosofia 10                                 Teste Sumativo 1  - Correção
Professor Paulo Gomes

Grupo I

Versão 1            Versão 2
 1.B                           1.C
 2.B                           2.D
 3.C                           3.B
 4.B                           4.C
 5.A                           5.D
 6.C                           6.A
 7.B                           7.C
 8.D                           8.B
 9.C                            9.C
 10.                           10.

Grupo II

1. Aceitava-se uma das seguintes frases interrogativas:
   -  O que é a filosofia?
    - O que caracteriza a filosofia?
    - O que caracteriza a interrogação filosófica?
    - O que é que caracteriza a atitude filosófica?

2. A filosofia é uma atividade crítica/ um saber crítico (“A face positiva e a face negativa da atitude filosófica constituem o que chamamos atitude crítica e pensamento crítico”).

3.  Argumento 1 – “A primeira característica da atitude filosófica é negativa – é um dizer não ao senso comum”;
     Argumento 2 – A atitude filosófica é interrogativa (“A segunda característica da atitude filosófica é positiva, isto é, uma interrogação sobre o que são as coisas, as ideias, os factos, as situações, os comportamentos, os valores, nós mesmos (...)”;
    Argumento 3 – A filosofia começa com o reconhecimento da ignorância (“A filosofia (...) começa por dizer que não sabemos o que imaginávamos saber).

As repostas dadas a seguir servem apenas para ilustrar o que se pedia no enunciado, não são respostas modelo, ou seja, são possíveis respostas diferentes que obedeçam às instruções do enunciado das questões.

4. O texto defende que a Filosofia é um saber crítico: por um lado, pressupõe uma ruptura com o senso comum "(a atitude filosófica) é um dizer não ao senso comum". Por outro lado, assenta no reconhecimento da ignorância e no questionamento sobre o que somos e sobre a realidade.
Há muitas questões que podemos colocar, no sentido de clarificar esta tese:
Em primeiro lugar, em relação à ruptura com o senso comum: em que é que consiste esta ruptura? O senso comum é um saber totalmente desprovido de sentido? Poderá haver verdade no senso comum?
O problema não está no senso comum, mas na forma como o encaramos: para vivermos a nossa vida quotidiana precisamos do senso comum, na medida em que ele nos dá informações básicas sobre o mundo em que vivemos, sobre como funcionam as coisas e os processos necessários à nossa vida (como utilizar a energia elétrica, abrir as portas, como nos orientarmos no espaço, etc.), sem essas informações não conseguiríamos levar uma vida 'normal'.
Contudo, se não saírmos desse nível de conhecimento, muito superficial, acabamos por viver numa ignorância que nos aprisiona, isto porque a realidade é muito mais complexa do que podemos imaginar à primeira vista e, também, porque o sentido da nossa vida depende do que acreditamos acerca de nós próprios e da realidade. Se vivermos mergulhados em preconceitos nunca poderemos ter uma compreensão profunda e abrangente sobre tudo (o universo, a vida, nós próprios...). É aqui que temos que romper com o senso comum: libertando-nos de preconceitos e assumindo que só através da razão (do questionamento e da argumentação) poderemos compreender o sentido disto tudo...
Nem tudo no senso comum é falso, mas se não tivermos uma atitude crítica em relação a ele, nunca poderemos, por assim dizer, separar 'o trigo do joio', a verdade da falsidade. E isso só acontece se desenvolvermos a nossa Razão, se nos tornarmos capazes de colocar questões cada vez mais profundas que nos permitam alcançar respostas cada vez mais bem fundamentadas. É aqui que intervém o reconhecimento da nossa ignorância, sem ele acabamos por achar que o nosso conhecimento é suficiente e, nesse caso, o mundo, para nós, resume-se à 'caverna' das nossas ilusões.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Teste Sumativo I 10ºE - Correção

Pode visualizar o teste clicando aqui


Filosofia 10                                 Teste Sumativo 1  - correção
Professor Paulo Gomes

Grupo I

Versão 1            Versão 2
 1.C                           1.B
 2.D                           2.A
 3.C                           3.A
 4.D                           4.B
 5.B                           5.D
 6.A                           6.C
 7.A                           7.C
 8.D                           8.C
 9.C                            9.D
 10.C                         10.A

Grupo II

1. Aceitava-se uma das seguintes frases interrogativas:
   -  O que é a filosofia?
    - O que caracteriza a filosofia?
    - O que caracteriza a interrogação filosófica?
    - O que é que caracteriza a atitude filosófica?

2. A filosofia é uma atividade crítica/ um saber crítico (“A face negativa e a face negativa da atitude filosófica constituem o que chamamos atitude crítica e pensamento crítico”).

3.  Argumento 1 – “A primeira característica da atitude filosófica é negativa – é um dizer não ao senso comum”;
     Argumento 2 – A atitude filosófica é interrogativa (“A segunda característica da atitude filosófica é positiva, isto é, uma interrogação sobre o que são as coisas, as ideias, os factos, as situações, os comportamentos, os valores, nós mesmos (...)”;
    Argumento 3 – A filosofia começa com o reconhecimento da ignorância (“A filosofia (...) começa por dizer que não sabemos o que imaginávamos saber).

As repostas dadas a seguir servem apenas para ilustrar o que se pedia no enunciado, não são respostas modelo, ou seja, são possíveis respostas diferentes que obedeçam às instruções do enunciado das questões.

4. A filosofia é um saber crítico, porque o seu ponto de partida é o reconhecimento da ignorância (o espanto) que nasce da ruptura com o senso comum.
O filósofo põe em causa o dogmatismo do senso comum, pondo em dúvida tudo o que parece óbvio, todas as evidências que nascem da nossa experiência quotidiana do mundo e da vida.
A alegoria da caverna mostra isso muito bem: nós somos os homens que estão presos na caverna. É certo que não estamos amarrados, mas é como se o estivéssemos: enquanto não nos interrogamos sobre o que é o mundo, o que somos, até que ponto o que conhecemos é  verdadeiro, estamos numa situação semelhante à dos prisioneiros da caverna.
Se nos interrogarmos, se duvidarmos de tudo o que nos parece evidente sem que, de facto, tenhamos uma justificação racional para tal, então, somos como o homem que se liberta da caverna, porque rompemos com as ilusões do senso comum, com o ‘ilusionismo’ de tudo nos parecer banal e sem qualquer mistério na sua base...
Tal como o homem que se liberta da caverna se espanta ao aperceber-se da ignorância em que vivia antes de sair da caverna, também nós iremos descobrir que afinal a realidade é muito mais vasta do que julgávamos.

5. O poema pode ilustrar a atitude filosófica porque assume uma orientação interrogativa marcada pela radicalidade. Ao perguntar ‘Que sou eu?’ o poeta coloca-se na posição socrática da busca do conhecimento de si próprio. Para Sócrates a filosofia baseava-se na máxima ‘conhece-te a ti mesmo’, porque quem não procura conhecer-se a si próprio nunca poderá reconhecer a sua ignorância, ficando preso às ilusões do senso comum.
O reconhecimento da ignorância é predominante no poema (“Ignoramos; dar-lhe o nome de Deus não nos conforta”). E este é acompanhado pela formulação de hipóteses explicativas, mesmo que não seja dada uma resposta conclusiva às interrogações, somos ‘espicaçados’, obrigados a questionarmo-nos sobre nós e a nossa situação no mundo: “Talvez o destino humano, (...), Seja instrumento de Outro”.

6. A filosofia é um saber radical porque não se contenta com respostas parcelares para os problemas. A interrogação filosófica não tem limites, ela é levada às últimas consequências, daí dizer-se que a filosofia vai à raiz dos problemas.
Por isso a interrogação filosófica tem por objecto a totalidade do real, é uma busca pelo sentido de tudo, do universo e da nossa existência.
As questões filosóficas permitem-nos encontrar respostas que suscitam novas questões. Ao responder a uma questão o filósofo não está a fechar o questionamento, mas, pelo contrário, está a tentar ir ainda mais longe, porque a única certeza que tem é a de que a possibilidade de questionar e de responder é ela própria um enigma: questionando pomos em causa o que sabemos e o que somos, porque o que julgamos saber define-nos a nós e ao mundo, se reconhecermos a nossa ignorância, mudamos de mundo e mudamo-nos – deixamos de estar fechamos num mundo sem graça, completamente definido e desinteressante, para descobrirmos que a vida é uma aventura sem fim, em vez de nos vermos como tristes repetidores do que é habitual, vemo-nos como decifradores de enigmas, espetadores e atores no maior espetáculo que imaginar: o universo é fabuloso!

Grupo III

1. Na resposta a esta questão exigia-se a formulação de uma tese geral sobre as tortura que deveria ser justificada. Depois essa tese deveria ser aplicada ao caso concreto.
Neste caso, o único limite que temos na nossa argumentação são os princípios lógicos da razão – não podemos entrar em contradição.
Se defendermos a tese de que a tortura é aceitável temos que definir com clareza em que circunstâncias. É que este caso parece claro, mas, se admitirmos que há situações em que a tortura é aceitável, como saberemos que esta não será aplicada a inocentes?
E aquele que tortura não se torna mau? Quem pode ser bom se for capaz de torturar outro ser humano?
Para justificarmos filosoficamente (o enunciado diz ‘argumentativamente’) uma tese temos, necessariamente que colocar questões pertinentes cuja resposta possa dar consistência à nossa argumentação.

sábado, 25 de outubro de 2014

Por que existe o Ser e não o Nada?



 Já alguma vez parou para pensar como tudo começou? Sobre o início das coisas, o começo? Ou, talvez, o significado de “nada”? Quando nos referimos a “nada” é normal associar este termo a uma espécie de vazio ou vácuo. Mas será mesmo esse o seu significado? Na verdade, o que é o NADA?

“Nada: 1 coisa nenhuma; ausência quer absoluta, quer relativa, de ser ou de realidade; o que não existe. 2 nenhuma coisa, zero. 3 coisa sem importância ; (…) o não-ser;”

Ou seja, o nada não existe, definimos algo que não existe por nada.
  Mas vamos supor o contrário. Se num passado muito longínquo, existisse o nada num estado absoluto, o “Nada Absoluto”, atualmente eu não teria escrito este texto, ninguém estaria a lê-lo, nem a própria folha existiria porque o “Nada Absoluto” estaria ainda presente, a completa ausência do ser. Pois, deste modo, não havia a possibilidade de algo ter sido criado nem gerado. Mas como todos sabemos, as coisas existem e eu e mais 7 bilhões de pessoas de carne e osso somos a prova viva que o nada simplesmente não existe e nunca existiu, mas sim o ser. 
No entanto, mesmo que o “Nada Absoluto” nunca tenha existido, em algum momento da vida foi necessário algo que eternamente existiu. Mas o que seria essa coisa? O que nos leva mais uma vez ao enigma da explicação do inicio de todas as coisas, de todas as pessoas e do universo, no geral. Esta questão, que durante anos, leva a humanidade a tentar encontrar uma resposta exata. Uns optam por várias teorias que explicam mais cientificamente a criação do universo, tal como a Teoria do Big Bang ou mesmo em crenças mais religiosas relacionadas com Deus, que eu pessoalmente respeito, mas com as quais não concordo.

Bruna Ferreira - 10º E (2014/2015)

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Teste 1 - Matriz

Filosofia - 10º ano

Nota: neste teste é obrigatório o uso de folha de teste.
Seja original e crítico nas suas respostas.
O teste terá a duração de 90 minutos.

Critérios gerais de correção de testes sumativos

Esclarecimento de dúvidas por email - clicar aqui.
(até 24 horas antes do teste - deve indicar o nome, nº. e turma)


Conteúdos:

1. Abordagem introdutória à filosofia e ao filosofar.
1.1.1. O que é a filosofia?
1.1.2. A definição etimológica do termo 'Filosofia'.
1.1.3. A alegoria da caverna.
1.1.4. O espanto como a origem da filosofia: a importância filosófica do reconhecimento da ignorância.
1.1.5. O exemplo de Sócrates.
1.1.5.1. O método socrático.
1.1.6. A especificidade da filosofia.
1.1.6.1. A filosofia como uma atividade crítica.
1.1.6.2. A filosofia como um saber problematizante.

1.2. Quais são as questões da filosofia?
1.2.1. Os diversos tipos de questão.
1.2.1.1. As características das questões filosóficas: a) respostas abertas ao questionamento (as questões filosóficas nunca têm uma resposta unívoca; b) universalidade; c) abstração.
1.2.1. Senso comum, ciência e filosofia.
1.2.1.1. As principais características do senso comum.
1.2.1.2. A filosofia e a ciência enquanto saberes racionais.
1.2.1.2.1. A filosofia e a ciência como saberes que buscam a verdade.
1.2.1.2.1. A filosofia como uma visão integradora do saber (totalizante), distinta da visão parcelar (especializada) da ciência.
1.2.1.3. As principais características da filosofia: radicalidade, autonomia, historicidade e universalidade.

Conceitos:

Autonomia    Atitude Filosófica      Alegoria    Conceito   Crítica     Dúvida
Especificidade   (especificidade da Filosofia)
Filosofia  
Historicidade      Heteronomia
Método
Pensar   (pensar por si próprio)
Problema      Questão    (os diversos tipos de questão)    (as questões filosóficas)
Pressuposto(s)
Radicalidade        Reflexão      Senso Comum
Universalidade   Utilidade da Filosofia
Tese
Verdade

Objectivos:

1. Definir etimologicamente o termo 'Filosofia';
2. Analisar situações que permitam comparar a atitude dos homens comuns com a atitude do filósofo;
3. Reconhecer a importância filosófica do 'conhece-te a ti mesmo' socrático;
4. Refletir sobre o método socrático;
5. Reconhecer a importância filosófica do espanto/da admiração (o reconhecimento da ignorância); (Apresentação sobre a especificidade da Filosofia).
6. Caracterizar a filosofia como uma busca da verdade;
7. Caracterizar o senso comum;
8. Distinguir a filosofia do senso comum; (Apresentação sobre a alegoria da caverna e o senso comum + Apresentação sobre a especificidade da Filosofia).
 9. Caracterizar a filosofia a partir das suas principais características (radicalidade; autonomia; historicidade e universalidade);
10. Distinguir a Filosofia e a Ciência;
11. Confrontar a filosofia com a ciência tendo em conta o objecto de cada um destes saberes ("A filosofia visa a totalidade do real");
12. Explicar a alegoria da caverna; (O texto da alegoria da caverna + vídeo). (Apresentação sobre a alegoria da caverna e o senso comum).
13. Definir o conceito de problema;
14. Identificar os diversos tipos de questão utilizados na Filosofia;
15. Distinguir as questões filosóficas dos outros tipos de questão;
16. Explicar a atitude filosófica;
17. Reconhecer que a filosofia é um saber pessoal e a ciência, um saber objetivo (impessoal);
18. Problematizar a utilidade da Filosofia;
19. Identificar os pressupostos de teses (opiniões);
20. Posicionar-se criticamente perante teses (opiniões);
21. Interpretar textos filosóficos;
22. Construir argumentações sólidas.

Recursos:

Manual - da p.8 à p. 24; da p. 26.

Documentos:










Recursos digitais



Estrutura do teste:

Grupo I - 10 questões de escolha múltipla.
             - 5 a 10 questões de verdadeito/falso.

Grupo II - 2 a 3 questões de resposta orientada.

Grupo III - 1 questão de desenvolvimento.


TESTE MODELO
Filosofia - 10º Ano
Teste Sumativo 1          Outubro de 2014    
Professor Paulo Gomes
_________________________________________________________________________
Leia todo o enunciado, antes de começar a responder.
Responda apenas ao que é pedido no enunciado das questões.
Seja original e crítico nas suas respostas.


Grupo I
Escolha apenas uma alternativa em cada questão

1. A palavra ‘Filosofia’ significa etimologicamente:

     A. ‘Amor à sabedoria’;
     B. ‘sabedoria do amor’;
     C. ‘amor da sabedoria’;
     D. nenhuma das alternativas anteriores está correta.

2. Das seguintes alternativas escolha a que se refere à radicalidade da filosofia:

    A. A filosofia é um saber independente de qualquer outro saber ou de qualquer interesse ou poder exteriores a ela;
    B. O filósofo não recua perante nada nem ninguém na busca da verdade;
    C. A filosofia é fruto da História: tem uma tradição e radica a sua problematização nas solicitações de cada época histórica.
    D. Os problemas da filosofia interessam a todos os seres humanos, do passado, do presente e do futuro.

3. A Lógica:

     A. Estuda a estrutura e o funcionamento da linguagem;
     B. estuda a estrutura do pensamento e as regras para a elaboração do raciocínio correto;
     C. trata as formas de organização da vida comunitária;
     D. é a filosofia da arte.

4. “Deus não existe nem deixa de existir”. Este enunciado:

     A. Obedece ao princípio do terceiro excluído;
     B. viola o princípio da não-contradição;
     C. viola o princípio da identidade;
     D. viola o princípio do terceiro excluído.

5. "A Filosofia distingue-se das ciências porque estuda a totalidade do real". Esta afirmação é:
     A. Falsa, porque a Filosofia não é um saber racional;
     B. verdadeira porque a Filosofia é uma ciência como as outras;
     C. Falsa, porque a Filosofia é uma ciência como qualquer outra;
     D. verdadeira, porque cada ciência tem um objecto de estudo específico.

6. Aristóteles afirma que a Filosofia começa com o espanto. Isto significa que:

     A. Só pode ser filósofo quem reconhecer a sua ignorância;
     B. a filosofia não se distingue do senso comum;
     C. só os ignorantes podem filosofar;
     D. em Filosofia não há qualquer conhecimento.

7. Na alegoria da caverna, a caverna representa:

     A. a Filosofia;
     B. a Filosofia e as ciências;
     C. as sociedades primitivas;
     D. o senso comum.

8. Podemos pensar de forma coerente, desobedecendo aos Princípios Lógicos da Razão?

     A. Sim, se quisermos ser criativos;
     B. nunca;
     C. só quando não tivermos uma resposta conclusiva para um problema;
     D. só nos casos em que não estiverem em causa verdades científicas.

9. "O senso comum é um saber completamente inútil". Esta afirmação é:

     A. Falsa, porque a Filosofia é a melhor parte do senso comum;
     B. verdadeira porque o senso comum só serve para nos atrapalhar;
     C. Falsa, porque o senso comum serve para nos orientarmos nas tarefas quotidianas;
     D. verdadeira, porque o senso comum só coloca questões, não dando respostas.

10. "Ousa saber! Tem a coragem de usares o teu próprio entendimento!". Esta afirmação de Kant refere-se a uma característica da Filosofia. A qual?

     A. À historicidade;
     B. à radicalidade;
     C. à universalidade;
     D. à autonomia.


Grupo II

Texto 1
A utilidade da filosofia

"Quem não tem umas tintas de filosofia é homem que caminha pela vida fora sempre agrilhoado a preconceitos que derivam do senso-comum, das crenças habituais do seu tempo e do seu país, das convicções que cresceram no seu espírito sem a cooperação ou o consentimento de uma razão deliberada. 
O mundo tende, para tal homem, a tornar-se finito, definido, óbvio; para ele os objectos habituais não levantam problemas, e as possibilidades não familiares são desdenhosamente rejeitadas. 
Quando começamos a filosofar, pelo contrário, imediatamente nos damos conta de que até os objectos mais ordinários conduzem o espírito a certas perguntas a que incompletissimamente se dá resposta. A filosofia, se bem que incapaz de dizer ao certo qual venha a ser a verdadeira resposta às variadas dúvidas que ela própria evoca, sugere numerosas possibilidades que nos conferem amplidão aos pensamentos, descativando-nos da tirania do hábito. Varre o dogmatismo, um tudo nada arrogante, dos que nunca chegaram a empreender viagens nas regiões da dúvida libertadora; e vivifica o sentimento de admiração."
Bertrand Russell

1. Identifique e formule o problema central do texto 1.
2. Qual é a tese central do texto 1?
3. Exponha o(s) argumentos(s) com que o autor justifica a tese central do texto.
4. Concorda com a tese central e os argumentos do autor? Justifique a sua resposta confrontado a filosofia com o senso comum.


Texto 2
Por que existe o Ser e não o Nada?

 Já alguma vez parou para pensar como tudo começou? Sobre o início das coisas, o começo? Ou, talvez, o significado de “nada”? Quando nos referimos a “nada” é normal associar este termo a uma espécie de vazio ou vácuo. Mas será mesmo esse o seu significado? Na verdade, o que é o NADA?
“Nada: 1 coisa nenhuma; ausência quer absoluta, quer relativa, de ser ou de realidade; o que não existe. 2 nenhuma coisa, zero. 3 coisa sem importância ; (…) o não-ser;”
Ou seja, o nada não existe, definimos algo que não existe por nada.
  Mas vamos supor o contrário. Se num passado muito longínquo, existisse o nada num estado absoluto, o “Nada Absoluto”, atualmente eu não teria escrito este texto, ninguém estaria a lê-lo, nem a própria folha existiria porque o “Nada Absoluto” estaria ainda presente, a completa ausência do ser. Pois, deste modo, não havia a possibilidade de algo ter sido criado nem gerado. Mas como todos sabemos, as coisas existem e eu e mais 7 bilhões de pessoas de carne e osso somos a prova viva que o nada simplesmente não existe e nunca existiu, mas sim o ser. 
No entanto, mesmo que o “Nada Absoluto” nunca tenha existido, em algum momento da vida foi necessário algo que eternamente existiu. Mas o que seria essa coisa? O que nos leva mais uma vez ao enigma da explicação do início de todas as coisas, de todas as pessoas e do universo, no geral. Esta questão, que durante anos, leva a humanidade a tentar encontrar uma resposta exata. Uns optam por várias teorias que explicam mais cientificamente a criação do universo, tal como a Teoria do Big Bang ou mesmo em crenças mais religiosas relacionadas com Deus, que eu pessoalmente respeito, mas com as quais não concordo. /Bruna Ferreira 10ºE (2014/2015)

5. O texto 2 refere-se a uma das mais difíceis questões filosóficas. De acordo com o Princípio da Razão Suficiente é possível responder a esta questão. Explique porquê.

6. O texto 2 é um texto filosófico? Justifique a sua resposta tendo em conta as principais características da filosofia.


Grupo III
Este grupo é composto por uma questão de desenvolvimento.

                                                Texto 3
Uma mulher norte-americana de 29 anos com um cancro cerebral terminal decidiu pôr fim à sua própria vida no próximo dia 1 de novembro. Mas, antes, associou-se a um movimento civil para pedir aos responsáveis políticos dos Estados Unidos o alargamento da legislação sobre a eutanásia a mais locais do país.

“Não há nenhuma célula suicida no meu corpo”, disse Brittany Maynard numa entrevista à People. Em janeiro deste ano, Brittany viu ser-lhe diagnosticado um glioblastoma multiforme de nível 4, uma forma severa de tumor cerebral com uma taxa muito baixa de sobrevivência. Na altura, os médicos deram-lhe seis meses de esperança de vida e Brittany optou por não fazer os tratamentos de radioterapia adequados à doença, que afetariam significativamente a sua qualidade de vida.

“O meu glioblastoma vai matar-me e isso está fora do meu controlo. Falei com muitos especialistas sobre como ia morrer disso e é uma forma terrível, terrível de morrer. Escolher morrer com dignidade é menos assustador”, afirma Brittany.

A doente lançou na segunda-feira um vídeo onde explica as razões da sua decisão. A iniciativa tem o apoio de um movimento civil, o Compassion & Choices, que criou, juntamente com Brittany, o The Brittany Maynard Fund, um site que tem como objetivo recolher donativos para aquele movimento, que luta pela expansão da eutanásia de pacientes terminais a todos os estados dos Estados Unidos da América.

Atualmente são cinco os que permitem a morte medicamente assistida. Depois de tomar a decisão sobre a sua própria morte, Brittany e o seu marido mudaram-se de São Francisco, no estado da Califórnia, para Portland, no Oregon, um dos estados que tem legislação que permite a eutanásia por motivos médicos. Para a morte ser autorizada, o estado de saúde do doente tem de ser atestado por dois médicos que, depois, fornecem medicação própria para o efeito.

Há pouco mais de duas semanas, Brittany foi hospitalizada brevemente, mas logo após a alta retomou a sua atividade física normal, que em tempos a levou a escalar o Kilimanjaro. “Quero mesmo festejar o aniversário do meu marido, que é a 26 de outubro”, afirma, para explicar porque escolheu 1 de novembro para a data da sua morte. “Estou a ficar cada vez mais doente, tenho cada vez mais dores”, refere.


No dia 1 de novembro, quando morrer, aos 29 anos, Brittany Maynard estará acompanhada pela sua mãe, pelo seu marido e por um amigo próximo. Morrerá no seu quarto, ouvindo música de que gosta.
observador.pt

      1. Concorda com a decisão de Britney? Responda a esta questão justificando argumentativamente a sua posição sobre a eutanásia e aplicando-a a este caso concreto.



_______________
Correção:

Grupo I

 1.  A;
 2.  B;
 3.  B;
 4.  D;
 5.  D;
 6.  A;
 7.  D;
 8.  B;
 9.  C;
10. D.

Grupo II

Texto 1
" /Argumento 1/ Quem não tem umas tintas de filosofia é homem que caminha pela vida fora sempre agrilhoado a preconceitos que derivam do senso-comum, das crenças habituais do seu tempo e do seu país, das convicções que cresceram no seu espírito sem a cooperação ou o consentimento de uma razão deliberada. 

/Argumento 2/ O mundo tende, para tal homem, a tornar-se finito, definido, óbvio; para ele os objectos habituais não levantam problemas, e as possibilidades não familiares são desdenhosamente rejeitadas. 

/Argumento 3/  Quando começamos a filosofar, pelo contrário, imediatamente nos damos conta de que até os objectos mais ordinários conduzem o espírito a certas perguntas a que incompletissimamente se dá resposta.   

/Argumento 4/ A filosofia, se bem que incapaz de dizer ao certo qual venha a ser a verdadeira resposta às variadas dúvidas que ela própria evoca, sugere numerosas possibilidades que nos conferem amplidão aos pensamentos, descativando-nos da tirania do hábito. 

Varre o dogmatismo, um tudo nada arrogante, dos que nunca chegaram a empreender viagens nas regiões da dúvida libertadora; e vivifica o sentimento de admiração."

1. O problema central do texto pode ser formulado através das seguintes questões: 
                       Qual a função da Filosofia? 
                       Para que serve a Filosofia?
                       A Filosofia tem utilidade? Qual? 

2. A tese central do texto encontra-se no excerto sublinhado: A função principal da filosofia é libertar-nos do dogmatismo do senso comum.

3. No texto é possível identificar quatro argumentos que sustentam a tese central:
        
 /Argumento 1/ As pessoas que não cultivam uma atitude filosófica estão presas a preconceitos do senso comum - as crenças que não são analisadas pela razão;

 /Argumento 2/  As pessoas que vivem presas ao senso comum vivem numa realidade que não as leva a questionarem-se, têm uma mente fechada, não pondo em causa aquilo que sabem (não reconhecem a sua ignorância), não admitem a possibilidade de evoluírem no conhecimento do mundo.

 /Argumento 3/ Quando começamos a filosofar descobrimos que tudo pode ser objecto de questionamento, mesmo aquilo que antes considerávamos óbvio.

 /Argumento 4/ As respostas da Filosofia podem nem sempre ser conclusivas, mas abrem sempre para novas possibilidades (de questionamento, bem como de compreensão), o que nos liberta do hábito e ampliam a nossa mente.


5. Demos as seguintes formulações do Princípio da Razão Suficiente:
       
         a) 'Nada acontece sem Razão'
         b) 'Tudo o que acontece tem uma causa'

A ideia subjacente a este princípio é a de que tudo o que acontece tem uma explicação racional, sendo assim, a questão 'porque existe o Ser e não o Nada?' tem uma resposta racional, porque o Ser tem que ter uma Causa que explique a sua existência.
Mesmo que não possamos conhecer essa causa através da experiência, a Razão pode levantar hipóteses coerentes que nos permitirão esboçar, no mínimo, respostas logicamente possíveis. 

5. Trata-se de um texto filosófico. Em primeiro lugar, nele há a prevalência da interrogação. E essa interrogação é levada suficientemente longe para podermos considerá-la radical. Por isso, podemos afirmar que a reflexão desenvolvida no texto tem radicalidade, uma das características fundamentais da filosofia.
Por outro lado, a autora do texto posiciona-se criticamente perante a questão e as possíveis respostas, dando mostras de autonomia.
Apesar disso, a autora coloca-se num ponto de vista universal - a sua argumentação é válida para todos os seres humanos, encarados  como seres racionais, não exprime um ponto de vista restrito que não possa ser partilhado e/ou avaliado pelos outros seres pensantes - mesmo que cada um destes possa defender posições diferentes, os argumentos referem-se ao que pode ser compreendido por todos.
Ao referir-se à permanência da questão ao longo do tempo, estamos perante a historicidade, outra das características específicas da Filosofia.

Teste 1 - Teste - Modelo

Filosofia - 10º Ano
Teste Sumativo 1 (modelo)                                          Outubro de 2016  
Professor Paulo Gomes                                        Duração: 90 minutos
______________________________________________________________
Leia todo o enunciado, antes de começar a responder.
Responda apenas ao que é pedido no enunciado das questões.
Seja original e crítico nas suas respostas.


Grupo I

Subgrupo I.1
Escolha apenas uma alternativa em cada questão

1. A palavra ‘Filosofia’ significa etimologicamente:

     A. ‘Amor à sabedoria’;
     B. ‘sabedoria do amor’;
     C. ‘amor da sabedoria’;
     D. nenhuma das alternativas anteriores está correta.

2. Das seguintes alternativas escolha a que se refere à radicalidade da filosofia:

    A. A filosofia é um saber independente de qualquer outro saber ou de qualquer interesse ou poder exteriores a ela;
    B. O filósofo não recua perante nada nem ninguém na busca da verdade;
    C. A filosofia é fruto da História: tem uma tradição e radica a sua problematização nas solicitações de cada época histórica.
    D. Os problemas da filosofia interessam a todos os seres humanos, do passado, do presente e do futuro.

3. "O senso comum é um saber universal". Esta afirmação é:

     A. Falsa, porque o senso comum é um saber que só alguns homens possuem;
     B. Verdadeira porque todos os homens possuem senso comum;
     C. Falsa, porque, embora todos os homens possuam senso comum, este é um saber relativo;
     D. Verdadeira, porque o senso comum é um saber sobre o universo.

4. “Só sei que nada sei”. Com esta afirmação Sócrates:

     A. reconhece que a filosofia não é um saber;
     B. reconhece que é mais sábio do que aqueles que vivem mergulhados no senso comum;
     C. reconhece que o objetivo da filosofia é a ignorância;
     D. reconhece que os filósofos são ignorantes.

5. "A Filosofia distingue-se das ciências porque estuda a totalidade do real". Esta afirmação é:
     A. Falsa, porque a Filosofia não é um saber racional;
     B. verdadeira porque a Filosofia é uma ciência como as outras;
     C. Falsa, porque a Filosofia é uma ciência como qualquer outra;
     D. verdadeira, porque cada ciência tem um objecto de estudo específico.

6. Aristóteles afirma que a Filosofia começa com o espanto. Isto significa que:

     A. Só pode ser filósofo quem reconhecer a sua ignorância;
     B. a filosofia não se distingue do senso comum;
     C. só os ignorantes podem filosofar;
     D. em Filosofia não há qualquer conhecimento.

7. Na alegoria da caverna, a caverna representa:

     A. a Filosofia;
     B. a Filosofia e as ciências;
     C. as sociedades primitivas;
     D. o senso comum.

8. As questões filosóficas são:

     A. Fechadas, infinitas e universais;
     B. universais, abertas e abstratas;
     C. finitas, abertas e abstratas;
     D. inconclusivas, abrangentes e pessoais.

9. "O senso comum é um saber completamente inútil". Esta afirmação é:

     A. Falsa, porque a Filosofia é a melhor parte do senso comum;
     B. verdadeira porque o senso comum só serve para nos atrapalhar;
     C. Falsa, porque o senso comum serve para nos orientarmos nas tarefas quotidianas;
     D. verdadeira, porque o senso comum só coloca questões, não dando respostas.

10. "Ousa saber! Tem a coragem de usares o teu próprio entendimento!". Esta afirmação de Kant refere-se a uma característica da Filosofia. A qual?

     A. À historicidade;
     B. à radicalidade;
     C. à universalidade;
     D. à autonomia.



Subgrupo I.2

Decida da verdade ou falsidade dos seguintes enunciados:

1. A filosofia é um saber ametódico.
2. O senso comum é um saber superficial.
3. Quem é filósofo é ignorante.
4. Uma característica das questões filosóficas é que estas não admitem uma resposta conclusiva.
5. Autonomia significa: viver na dependência de outrem.
6. A principal diferença da filosofia em relação ao senso comum é que não é possível responder às questões filosóficas.
7. Uma das características da filosofia é a universalidade, uma vez que se trata de um saber que interessa a todos os seres humanos.
8. As questões filosóficas têm origem na nossa curiosidade, no desejo que todos temos de saber mais acerca da realidade.
9. O filósofo, ao colocar questões, interroga-se a si mesmo.
10. A filosofia está mais próxima da ciência do que do senso comum.



Grupo II

Texto 1
A utilidade da filosofia

"Quem não tem umas tintas de filosofia é homem que caminha pela vida fora sempre agrilhoado a preconceitos que derivam do senso-comum, das crenças habituais do seu tempo e do seu país, das convicções que cresceram no seu espírito sem a cooperação ou o consentimento de uma razão deliberada. 
O mundo tende, para tal homem, a tornar-se finito, definido, óbvio; para ele os objectos habituais não levantam problemas, e as possibilidades não familiares são desdenhosamente rejeitadas. 
Quando começamos a filosofar, pelo contrário, imediatamente nos damos conta de que até os objectos mais comuns conduzem o espírito a certas perguntas a que incompletissimamente se dá resposta. A filosofia, se bem que incapaz de dizer ao certo qual venha a ser a verdadeira resposta às variadas dúvidas que ela própria evoca, sugere numerosas possibilidades que nos conferem amplidão aos pensamentos, descativando-nos da tirania do hábito. Varre o dogmatismo, um tudo nada arrogante, dos que nunca chegaram a empreender viagens nas regiões da dúvida libertadora; e vivifica o sentimento de admiração."
Bertrand Russell

1. Partindo de uma análise do texto, distinga a filosofia do senso comum.
2. Podemos afirmar que o texto 1 pode servir de base para a interpretação da alegoria da caverna? Justifique a sua resposta, explicando o que o autor entende por "dúvida libertadora".

Texto 2

A Ciência e a Filosofia

"Se a ciência tende cada vez mais para a especialização, a filosofia, no sentido inverso, quer superar a fragmentação do real, para que o homem seja resgatado na sua integridade e não sucumba à alienação do saber parcelado. Por isso a filosofia tem uma função de interdisciplinaridade, estabelecendo o elo entre as diversas formas do saber e do agir."
3. Comente o texto 2 explicando a relação entre a filosofia e a ciência.

Grupo III
Este grupo é composto por uma questão de desenvolvimento.

                                                Texto 3
Uma mulher norte-americana de 29 anos com um cancro cerebral terminal decidiu pôr fim à sua própria vida no próximo dia 1 de novembro. Mas, antes, associou-se a um movimento civil para pedir aos responsáveis políticos dos Estados Unidos o alargamento da legislação sobre a eutanásia a mais locais do país.

“Não há nenhuma célula suicida no meu corpo”, disse Brittany Maynard numa entrevista à People. Em janeiro deste ano, Brittany viu ser-lhe diagnosticado um glioblastoma multiforme de nível 4, uma forma severa de tumor cerebral com uma taxa muito baixa de sobrevivência. Na altura, os médicos deram-lhe seis meses de esperança de vida e Brittany optou por não fazer os tratamentos de radioterapia adequados à doença, que afetariam significativamente a sua qualidade de vida.

“O meu glioblastoma vai matar-me e isso está fora do meu controlo. Falei com muitos especialistas sobre como ia morrer disso e é uma forma terrível, terrível de morrer. Escolher morrer com dignidade é menos assustador”, afirma Brittany.

A doente lançou na segunda-feira um vídeo onde explica as razões da sua decisão. A iniciativa tem o apoio de um movimento civil, o Compassion & Choices, que criou, juntamente com Brittany, o The Brittany Maynard Fund, um site que tem como objetivo recolher donativos para aquele movimento, que luta pela expansão da eutanásia de pacientes terminais a todos os estados dos Estados Unidos da América.

Atualmente são cinco os que permitem a morte medicamente assistida. Depois de tomar a decisão sobre a sua própria morte, Brittany e o seu marido mudaram-se de São Francisco, no estado da Califórnia, para Portland, no Oregon, um dos estados que tem legislação que permite a eutanásia por motivos médicos. Para a morte ser autorizada, o estado de saúde do doente tem de ser atestado por dois médicos que, depois, fornecem medicação própria para o efeito.

Há pouco mais de duas semanas, Brittany foi hospitalizada brevemente, mas logo após a alta retomou a sua atividade física normal, que em tempos a levou a escalar o Kilimanjaro. “Quero mesmo festejar o aniversário do meu marido, que é a 26 de outubro”, afirma, para explicar porque escolheu 1 de novembro para a data da sua morte. “Estou a ficar cada vez mais doente, tenho cada vez mais dores”, refere.


No dia 1 de novembro, quando morrer, aos 29 anos, Brittany Maynard estará acompanhada pela sua mãe, pelo seu marido e por um amigo próximo. Morrerá no seu quarto, ouvindo música de que gosta.
observador.pt

      1. Concorda com a decisão de Britney? Responda a esta questão justificando argumentativamente a sua posição sobre a eutanásia e aplicando-a a este caso concreto.



_______________

CORREÇÃO