segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Caracterização dos valores



As principais características dos valores

“O homem percebe em torno de si uma multiplicidade de coisas boas e más, uma multiplicidade de objectos belos e feios, grandiosos e mesquinhos, nobres e vulgares. O nosso mundo não consta apenas, nem principalmente, das coisas, mas dessas atracções e repulsões que a realidade circundante exerce sobre a nossa alma. O mundo real e concreto, o mundo que efectivamente vivemos, não é o que a física, a química, a matemática, nos descrevem, mas um imenso arsenal de bens e de males, com os quais edificamos a vida.

A noção do valor tem sido objecto de muitos estudos na mais recente filosofia. Não posso expor em todos os seus pormenores os descobrimentos que se fizeram no campo dos valores, durante as últimas décadas. Para o objecto que neste estudo me proponho bastarão proposições gerais.

1. Os valores não são coisas. Não podem perceber‑se como se percebem as coisas, o modo de perceber os valores não consiste em os vermos com os olhos da cara ‑ o que não obsta a que os valores sejam tão clara e autenticamente vividos por nós como as coisas e os objectos matemáticos. Os valores, pois, são qualidades que atribuímos às coisas, mas que não estão nas coisas de modo real e sensível, como estão a figura, o peso, a cor, etc.

2. O ser dos valores não é, portanto, o mesmo ser que o da realidade material. Se quisermos ser rigorosos, devemos distinguir vários modos de ser; um deles é o ser sensível, outro o ser ideal (como, por exemplo, o dos objectos matemáticos) e um terceiro modo de ser é o valer, e é este que precisamente corresponde aos valores. Em sentido próprio, os valores não existem nem são, mas valem.

3. Assim, os valores não são conhecidos, como são conhecidas as coisas físicas e os objectos ideais, mas são estimados. 

4. O valor não se caracteriza pelo prazer que produz, se o produz. É erróneo dizer que as coisas são valiosas, porque nos produzem prazer. Na realidade, os valores valem independentemente do prazer que produzem. O prazer é valioso; é preferível à dor. Porém, do prazer ser um valor não se infere legitimamente que todo o valor seja prazer.

5. O valor não se caracteriza também pelo desejo. Quando desejamos uma coisa é porque percebemos valor nela, o que, todavia não quer dizer que inversamente todo o valor seja desejado. Ocorre frequentemente percebermos um valor numa coisa e não a desejarmos.

6. Os valores têm matéria, polaridade e hierarquia

A matéria do valor é o que distingue uns valores dos outros. Por directa apreensão do significado que damos às palavras, distinguimos a santidade da beleza, a elegância da justiça. Todos eles são valores; mas cada um distingue‑se do outro  pelo seu conteúdo próprio, pela sua própria consistência.

A polaridade é a propriedade que têm todos os valores de se contraporem num pólo positivo e num pólo negativo. À beleza contrapõe‑se a fealdade, à generosidade a mesquinhez, à santidade a profanidade.

A hierarquia é a propriedade que possuem os valores de se subordinarem uns aos outros, isto é, de serem uns mais valiosos que outros. A justiça é, em hierarquia, superior à elegância; e é‑o com a mesma evidência com que a soma dos dois lados do triângulo é maior que o terceiro lado. Poderíamos dizer que todos os valores valem, mas que uns valem mais que os outros.

7. Os valores podem classificar‑se também em valores‑meio e valores‑fim. Os valores‑meio são aqueles cuja valia consiste em servir para a obtenção de outros valores; os valores‑fim são os que valem por si e sem necessidade de servirem à obtenção de outros valores.

8. Não podem definir‑se os valores. Conhecê‑los é estimá‑los, e estimá‑los é percebê‑los, intuí‑los. Para revelar um valor cumpre colocá‑lo intuitivamente perante a pessoa; mas como os valores não são coisas, é preciso, para que se percebam estimativamente, perceber coisas e imaginar coisas (objectos, acções, etc.) em que os valores estejam realizados, efectivados. Para dar a conhecer uma cor, temos que a exibir; para dar a estimar um valor, temos que o apresentar numa coisa.”
G. Morente (Texto adaptado)
_________
Atividades:

I.
I.1. O que são os valores?
I.2. O que é a matéria dos valores?
I.3. O que é a polaridade dos valores?
I.4. O que é a hierarquia dos valores?
I.5. O que são valores-meio?
I.6. O que são valores-fim?

II. Explique as seguintes afirmações:

a) "O mundo real e concreto, o mundo que efectivamente vivemos, não é o que a física, a química, a matemática, nos descrevem, mas um imenso arsenal de bens e de males, com os quais edificamos a vida."

b) "Os valores, pois, são qualidades que atribuímos às coisas, mas que não estão nas coisas de modo real e sensível, como estão a figura, o peso, a cor, etc."

Os valores - Introdução

Axiologia




A axiologia é a disciplina filosófica que estuda os valores, também designada como filosofia dos valores.
Esta disciplina estuda um conjunto de problemas fundamentais para a compreensão de todos os fenómenos humanos, em especial os que se ligam aos campos da moral, da estética e da religião:

O que são os valores?
Qual a função dos valores?
Qual a origem dos valores?
Os valores são absolutos ou relativos?
Qual a relação entre os valores e a cultura?
Qual a origem da atual crise dos valores?

Estas são algumas das questões que exploram os principais problemas axiológicos.
_____

Axiológico é tudo aquilo que se refere a um conceito de valor.

O aspecto axiológico ou a dimensão axiológica de determinado assunto implica a noção de escolha do ser humano pelos valores morais, éticos, estéticos e espirituais.

A axiologia é a teoria filosófica responsável por investigar esses valores. Etimologicamente, a palavra "axiologia" significa "teoria do valor", sendo formada a partir dos termos gregos "axios" (valor) + "logos" (estudo, teoria).

Neste contexto, o valor, ou aquilo que é valorizado pelas pessoas, é uma escolha individual, subjetiva e produto da cultura onde o indivíduo está inserido.

De acordo com o filósofo alemão Max Scheler, os valores morais obedecem a uma hierarquia, surgindo em primeiro plano os valores positivos relacionados com o que é bom, depois ao que é nobre, depois ao que é belo, e assim por diante.

A ética e a estética estão vinculadas de forma intrínseca aos valores desenvolvidos pelo ser humano. A ética é um ramo da filosofia que investiga os princípios morais (bom/mau, certo/errado etc.) na conduta individual e social. A estética estuda os conceitos relacionados à beleza e harmonia das coisas.

Os gatos não têm vertigens



O filme e a crise (dos valores)

Os Gatos não têm Vertigens, onde assuntos sérios são tratados com uma leveza fluida, não se enquadra na categoria de comédia romântica, tão pouco de thriller. É uma história de vida, mais próxima de Jaime do que de Call Girl ou A Bela e o Paparazzo, até porque reincide na vasta temática da adolescência. O que o filme tem de melhor é a forma como evidencia, em pano de fundo e de forma absolutamente transversal, a questão da crise. Não é uma crise generalizada, é mesmo esta que os portugueses vivem e sofrem. Está presente nos pormenores, do vizinho que perde o emprego e é obrigado a voltar à terra, da casa que não se consegue vender, do talho que abre falência.

Essa crise é também um dos planos centrais da trama intergeracional: o rapaz abandonado por pai e mãe que não tem onde cair morto, a velhota abandonada pela família que faz de tudo para contornar a solidão. Lembra o audacioso programa que existe no Porto, em que idosos recebem estudantes universitários, alojamento em troca de companhia, um bom negócio para ambas as partes.

No plano exterior, em Os Gatos não têm Vertigens tudo rui. Sobretudo a família que está em crise, não só no sentido urbano pós-moderno - os pais não têm tempos para os filhos e mais tarde os filhos não têm tempo para os pais -, mas também no sentido trágico e 'neorrealista': o pai é bêbedo e dá pancada no filho, que rouba para viver numa delinquência forçada e vai parar a um terraço onde Rosa a trata como um gato.

Não obstante estes ligeiros traços, não há qualquer proximidade com o neorrealismo (nem o do cinema italiano, nem o mais recente do cinema romeno, tão pouco do Cinema Novo onde as primeiras obras de António-Pedro se poderiam enquadrar). Porque o realizador faz questão de artificializar este mundo real, sacando-o do domínio palpável, pois só assim entra no território da fábula. E é isso que o filme é ou em que se transforma: um conto de fadas urbano, que envolve uma história de amor platónico (Rosa substitui o marido por Jô). E assim, o pesado contexto de crise (monetária e de valores) é tratado de forma leve, com uma moral positiva e fácil, indicando que por mais trágicos que sejam os factos, há sempre uma saída limpa. Os gatos não têm vertigens porque caem sempre de pé.

Manuel Halpern

Je Suis Charlie


sábado, 6 de dezembro de 2014

A Ação Humana - Ficha Formativa 04


"Suponhamos que apanhei o comboio e paguei o meu bilhete. Durante o  percurso vou distraído, pensando nas minhas coisas, sem me dar conta de que brinco com o pedacito de cartão, enrolo-o e desenrolo-o, até que finalmente o atiro descuidadamente pela janela aberta. Nessa altura aparece-me o cobrador e pede-me o bilhete: desespero e provavelmente vou levar uma multa. Posso apenas murmurar para me desculpar: " Atirei-o da janela...sem me aperceber." O revisor, que é também um pouco filósofo, comenta: "Bom, se não se apercebeu do que estava do que estava a fazer, não pode dizer que o tenha atirado pela janela. É como se ele tivesse caído".

Mas eu não estou disposto a aceitar essa restrição: "Desculpe, mas uma coisa é que me tenha caído o bilhete e outra tê-lo atirado, mesmo que o tenha feito inadvertidamente." Parece que esta discussão agrada mais ao revisor do que multar-me: " Veja, "deitar fora" o bilhete é uma ação, algo diferente de que nos caia, que é apenas uma dessas coisas que acontecem. Quando alguém faz uma ação é porque uma dessas coisas que acontecem. Quando alguém faz uma ação é porque quer fazê-la, não é verdade? Mas em contrapartida as coisas acontecem sem querer. De maneira que como você quis atirar o bilhete podemos dizer que na realidade ele lhe caiu.". Revolto-me contra esta interpretação mecanicista: "Não e não! Poderíamos dizer que o bilhete me tinha caído se eu tivesse adormecido, por exemplo, ou até se uma rabanada de vento mo tivesse atrancado da mão. Mas eu estava bem acordado, não fazia vento e o que acontece é que atirei o bilhete sem querer." "Basta disse o revisor riscando o seu caderno com um lápis -, E se não o quis fazer, como é você sabe que foi você, exactamente você, quem atirou? Porquê "atirar" uma coisa é fazer uma coisa e ninguém pode fazer uma coisa se não quiser fazê-lo." "Pois sabe o que lhe digo? Atirei a porcaria do bilhete porque me deu na realíssima gana!"

A verdade é que existe uma diferença entre o que simplesmente me acontece (viro um copo com um safanão na mesa ao ir buscar o sal), o que faço sem me dar conta e sem querer ( o belo do bilhete atirado pela janela), o que faço sem me dar conta mas segundo uma rotina adquirida voluntariamente (como meter os pés nos chinelos quando me levanto da cama meio adormecido) e o que faço apercebendo-me e querendo (atirar o revisor bruscamente pela janela para que vá buscar o bilhete). Parece que a palavra "ação" é uma palavra que apenas convém à última destas possibilidades. É evidente que ainda existem outros gestos difíceis de classificar mas que à partida parecem qualquer coisa menos "ações": por exemplo, fechar os olhos e levantar o braço quando alguém me atira alguma coisa à cara ou procurar algo a que me agarrar quando estou quase a cair. Não decididamente um "ação" é apenas o que eu não teria feito se não tivesse querido fazê-lo: chamo ação a um ato voluntário. O "finado" revisor tinha portanto razão...

Mas como podemos saber se um ato é voluntário ou não? Porque talvez antes de o levar a cabo pondero entre várias possibilidades e finalmente decido-me por uma delas.
Claro que não é o mesmo "decidir-me a fazer algo" que "fazê-lo”. “Decidir-se" é por fim a uma deliberação mental sobre o que quero realmente fazer. Mas uma vez decidido, tenho ainda que fazer. O que decido é o objectivo ou fim da minha ação, mas talvez não a própria acção. Por exemplo decido apanhar o copo e estendo o braço para o apanhar. O que é que decidi realmente fazer, apanhar o copo ou estender o braço? E qual é a verdadeira ação: apanhar o copo ou estender o braço? Se estendo o braço e deixo fora o copo posso dizer que agi ou não ? Ou agi a meias?"
Fernando Savater, As Perguntas da Vida

Responda às seguintes questões colocadas no texto:

1. Como podemos saber se um ato é voluntário ou não?

2. Decido apanhar o copo e estendo o braço para o apanhar. O que é que decidi realmente fazer, apanhar o copo ou estender o braço? E qual é a verdadeira ação: apanhar o copo ou estender o braço?


Correção (clique no link abaixo para aceder):


A Ação Humana - Ficha Formativa 03




Texto 1
O João deseja herdar uma fortuna. O seu pai é muito rico, mas nunca o ajudou, sempre foi distante e desinteressado pelo filhos. É até provável que o pai acabe por deserdá-lo.  Quando se dirigia para o trabalho ao volante do seu carro, preocupado com o facto de já estar atrasado, acelera para tentar ganhar tempo, ao mesmo tempo que lhe vem à ideia que e o melhor a fazer para resolver de vez todos os seus problemas seria matar o seu pai abastado. Mas este pensamento põe-no ainda mais nervoso que, ao conduzir desajeitadamente o seu carro, mata um peão que atravessava na passadeira depois de se ter acendido o sinal verde para os peões. Quando sai do carro descobre que o peão que acabava de atropelar é o seu pai!

1. O João deve ser julgado e condenado por parricídio? Ele, de facto, assassinou o seu pai?

2. Os membros de uma família estão sentados à mesa a comer uma feijoada. Estão todos a fazer a mesma ação ou ações diferentes? Justifique com base na rede conceptual da ação.



Correção:

1. A atribuição da responsabilidade depende de determinarmos se a morte de seu pai constitui, ou não, uma ação do João.
Temos, então, de procurar qual é o aspeto que nos permite dizer que um acontecimento é uma ação.
Será a sua associação a um ser humano? Mas há acontecimentos que envolvem pessoas, mas que claramente não são ações – por exemplo, escorregar.
Será a existência de movimentos corporais? Mas há ações sem movimento corporal (estar imóvel a estudar) e há movimentos corporais que não são ações (respirar).
Uma outra resposta a este problema afirmaria que a intenção é aquilo que distingue os acontecimentos que contam como ações:
Um acontecimento é uma ação apenas no caso de ser possível descrevê-lo de forma a exibir a presença de uma intenção no agente.
Neste caso, o João não tinha a intenção de atropelar alguém, muito menos o seu pai (a hipótese de poder matá-lo para herdar a fortuna não passou de uma ideia sem nexo, como tantas que nos ocorrem e que acabamos por considerar absurdas). O atropelamento é, assim, um ato involuntário, não é o resultado de uma deliberação da vontade do João.
Logo, o João não assassinou o seu pai: de facto, ele nem sabia que se tratava do seu pai. Contudo, o João é responsável pela condução imprudente, mas isso é outra questão, fosse quem fosse que atravessasse a passadeira naquele momento seria atropelado, quis o acaso que fosse o seu pai.

2. Por um lado, podemos dizer que todos os familiares estão a comer a mesma coisa, no mesmo local e à mesma hora.
Por outro lado, cada pessoa poderá possuir uma intenções diferentes ao comer (apenas matar a fome, regozijar-se com o sabor dos feijões, etc.) e os seus movimentos físicos não são inteiramente coincidentes nem no espaço nem no tempo.
Pode dizer-se que aquelas pessoas estão a praticar ações diferentes. Isto se olharmos apenas ao ato de comer. Contudo, se aquela refeição tivesse um objectivo que transcendesse a ingestão dos alimentos, a coisa pode mudar de figura: pode tratar-se de uma festa de aniversário.
Nesse caso todos estariam ali com a mesma intenção: celebrar o aniversário de um familiar. É que há ações que só podem fazer-se através da cooperação entre diversos agentes. Mas mesmo assim cada um estaria a agir de forma voluntária e em cada um a ação assumiria uma tonalidade diferente.


A Rede Conceptual da Ação




Texto 1 - O homem e o Animal

      “Os animais (para já não falar nos minerais e nas plantas) não podem evitar ser como são e fazer aquilo que naturalmente estão programados para fazer. Não se lhes pode censurar que o façam nem aplaudi‑los pelo que fazem, porque não sabem comportar‑se de outro modo. As suas disposições obrigatórias poupam‑lhes sem dúvida muitas dores de cabeça.
Em certa medida, de início, nós, os homens, também estamos programados pela Natureza. Estamos feitos para beber água, e não lixívia, e tomemos as precauções que tomarmos, mais cedo ou mais tarde, morreremos. E de modo menos imperioso mas análogo, o nosso programa cultural, é também determinante: o nosso pensamento é condicionado pela linguagem que lhe dá forma (uma linguagem que nos é imposta de fora e que não inventámos para nosso uso pessoal) e somos educados em certas tradições, hábitos, formas de comportamento, lendas...; numa palavra, são‑nos inculcadas desde o berço certas fidelidades e não outras. Tudo isto pesa muito e faz com que sejamos bastante previsíveis.
     Com os homens nunca podemos ter bem a certeza, ao passo que com os animais, ou outros seres naturais, sim. Os castores fazem represas nos ribeiros e as abelhas favos com alvéolos hexagonais:
não há castores que se sintam tentados a fazer alvéolos de favos, nem abelhas que se dediquem à engenharia hidráulica. No seu meio natural cada animal parece saber perfeitamente o que é bom e o que é mau para ele, sem discussões nem dúvidas.
     Por grande que seja a nossa programação biológica ou cultural, nós, seres humanos, podemos acabar por optar por algo que não está no programa (pelo menos que lá não está totalmente). Podemos dizer «sim» ou «não», «quero» ou «não quero». Por muito apertados que nos vejamos pelas circunstâncias, nunca temos um só caminho, mas sempre vários.”                                        
Fernando Savater, Ética para um jovem.(Texto adaptado)

Texto 2 - Nem todos os atos do homem são atos humanos

"Deixando de lado alguns usos puramente técnicos da palavra ‘ação’ (por exemplo, ação como participação no capital de uma empresa), o núcleo significativo da palavra assenta na produção ou causação de um efeito. A palavra ‘ação’ emprega-se às vezes para falar de animais não humanos (diz-se que a ação das cigarras é benéfica para a agricultura) ou, inclusive, de objetos inanimados (diz-se que a gravitação é uma forma de ação à distância ou que a toda a ação exercida sobre um corpo corresponde uma ação igual de sentido contrário). Mas sobretudo usamos a palavra ‘ação’ para nos referirmos ao que fazem os humanos. Aqui só nos interessa este tipo de ação, a ação humana.
As nossas ações são (algumas das) coisas que fazemos. Na realidade o verbo ‘fazer’ cobre um campo semântico bastante mais amplo que o substantivo ‘ação’. O latim distingue o agere do facere (aos quais corresponde em português agir e fazer). Ao substantivo latino actio, derivado de agere, corresponde o substantivo ação. Assim, até de um ponto de vista etimológico, ‘ação’ só carrega a carga semântica de ‘agir’ e não propriamente de ‘fazer’.
Tudo quanto realizamos é parte da nossa conduta, mas nem tudo o que realizamos constitui uma ação. Enquanto dormimos realizamos muitas coisas: respiramos, suamos, damos voltas, apertamos a cabeça contra a almofada, sonhamos, talvez ressonemos alto ou falemos em voz alta ou andemos sonâmbulos pela casa. Todas estas coisas as realizamos inconscientemente, enquanto dormimos. Realizamo-las mas não damos conta delas, não temos consciência de que as realizamos. A estas coisas que fazemos inconscientemente não lhes vamos chamar ações. Vamos reservar o termo ‘ação’ para as coisas que realizamos conscientemente, dando-nos conta de que as fazemos.
Há, no entanto, coisas que fazemos conscientemente, dando-nos conta delas, mas sem que à sua realização corresponda uma intenção nossa. Damo-nos conta dos nossos ‘tiques' e de muitos dos nossos atos reflexos, mas realizamo-los involuntariamente, constatamo-los como espectadores, não os efetuamos como agentes. (A palavra ‘agente’ é outra das palavras derivadas do verbo latino agere). Por algo que sentimos depois de comer damo-nos conta de que estamos a fazer a digestão. Mas fazer a digestão não constitui (normalmente) uma ação. Pelos sorrisos dos que nos observam damo-nos conta de que estamos a ser ridículos. Mas ser ridículo (praticar atos ridículos) não é uma ação, mas uma reação, algo que nos passa despercebido e que lamentamos (a não ser que o façamos de propósito, como provocação; neste caso já seria uma ação). Também não chamamos ação a esses aspectos da nossa conduta de que nos damos conta, mas que não efectuados intencionalmente. No presente estudo limitar-nos-emos às ações humanas conscientes e voluntárias, às que daqui em diante chamaremos ações (sem mais).
Uma ação é uma interferência consciente e voluntária de um homem ou de uma mulher (o agente) no normal decurso das coisas, que sem a sua interferência haveriam seguido um caminho distinto do que por causa da ação seguiram. Uma ação consta, pois, de um evento que sucede graças à interferência de um agente e de um agente que tinha a intenção de interferir para conseguir que tal evento sucedesse.
Jesús MOSTERÍN - Racionalidad y Acción Humana.


Texto 3 - Os elementos constitutivos da ação

“Para compreendermos o que é a ação, e para a podermos distinguir dos outros atos do homem, temos que ter em conta os diversos elementos que a constituem.
 Graças a eles podemos compreender porque é que alguém agiu de determinada forma, o que é que essa pessoa queria efetivamente realizar com a sua acção, quais as consequências dessa ação e qual a sua responsabilidade face a essas consequências. É isso que acontece, por exemplo, na investigação criminal, mas não é preciso ir tão longe: em qualquer situação em que nos deparemos com uma ação, se não conhecemos todos os seus contornos, somos levados a levantar as seguintes questões:

1. Quem agiu (‘quem fez isto?’)?
2. Porquê? Com que motivo?
3. Para quê? Com que intenção? Com que finalidade?
4. Quais as consequências dessa acção? Todas elas foram ponderadas pelo agente?

A primeira questão remete-nos para o autor da ação, para o agente. Ora para que alguém seja agente de uma ação, é necessário que estejamos perante um ser dotado de consciência racional e de uma vontade livre. Assim, o agente é responsável pelas ações que pratica, porque estas são atos voluntários que resultam de uma deliberação. Podemos então concluir que todos os atos que nascem da nossa liberdade são da nossa responsabilidade. E responsabilidade, a este nível, significa que é o agente quem responde pelas suas cções e pelas respectivas consequências (sejam elas boas ou más), porque não há ninguém acima da sua liberdade: o agente age porque quer, ele é dotado de uma vontade soberana, ele é senhor das suas ações.
A segunda questão refere-se ao motivo da ação. Toda a ação é motivada, ou seja tem que existir uma causa, interna ou externa, que leve o agente a tomar a decisão de agir. Se não tivermos uma motivação para fazermos algo, não o fazemos. Assim, o motivo é a causa que suscita no agente a vontade de agir, que o leva, num dado momento, a preferir fazer uma coisa e não outra. Uma pessoa pode estar confortavelmente sentada a ouvir música, mas se sentir fome, pode decidir ir à cozinha fazer um lanche, por sentir fome. Pode, também, decidir ir estudar, por ter que realizar testes de avaliação na escola. Ou pode decidir desligar a aparelhagem por começar a sentir dores de cabeça.
A terceira questão tem a ver com a intenção do agente. Há quem considere que a intenção é a chave para a compreensão de uma ação. De facto, se nos situarmos num ponto de vista moral, para sabermos se uma ação é boa ou má, temos que conhecer a intenção do agente, temos que saber o que é que ele queria alcançar com a sua ação, quais os fins que ele queria atingir, enfim, o que é que ele projetou quando decidiu agir daquela forma. Por exemplo, se acontecer um incêndio de grandes proporções, e se as autoridades descobrirem que esse incêndio começou devido à ação de um determinado indivíduo, só poderão saber se esse indivíduo, que é responsável pelas suas ações, é criminalmente  responsável  pelo incêndio, depois de descobrirem qual a intenção desse indivíduo. Se ele acendeu uma pequena fogueira para assar sardinhas, e se uma rajada de vento espalhou as brasas ateando o incêndio, esse indivíduo pode não  ser criminalmente responsável pelo incêndio, apesar de, em última instância, ser o causador do mesmo. Caso tenha havido incúria, ou o desrespeito por uma proibição de atear fogo nesse local, então, nesse caso, o agente será criminalmente responsável, mesmo se a sua intenção não era provocar um incêncio. Mas se, por outro lado, se apurar que esse indivíduo agiu com a intenção de, através do incêndio, provocar danos a terceiros, motivado pelo ódio, então ele é duplamente responsável: ele é responsável por ser o causador do incêndio, e é criminalmente responsável, porque a sua intenção era criminosa.
Por fim, em relação à quarta questão, temos as consequências da ação. E elas existem porque todas as ações têm um impacto sobre o real, o agente interfere com a realidade, a sua ação é um acontecimento que dá origem a outros acontecimentos que, por sua vez, podem ter efeitos positivos ou negativos na vida das outras pessoas. O agente é, direta ou indiretamente, responsável pelas consequências das suas ações, mas a sua responsabilidade moral, só pode ser aferida tendo em conta a intenção que presidir a cada uma dessas ações. Isto faz com que o agente tenha o dever de pensar nas consequências das suas ações, antes de as pôr em prática. E, mesmo assim, podem acontecer resultados imprevistos, porque nós temos o poder de decidir fazer algo, mas não controlamos a forma como a realidade se vai comportar em relação às  nossas ações.”


Atividades:

1. De acordo com o texto 1, o que é que distingue o homem dos outros animais? Justifique a sua resposta.

2. Todos os atos do homem são ações? O que é necessário para considerarmos um ato do homem uma ação? Justifique a sua resposta.

3. Pode dizer-se que os animais agem? Justifique a sua resposta.

4. Identifique e caracterize, por palavras suas, os elementos constitutivos da ação.

5. Comente a seguinte afirmação do texto 3: “E responsabilidade, a este nível, significa que é o agente quem responde pelas suas acções e pelas respectivas consequências (sejam elas boas ou más)”.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

A Ação Humana - Ficha Formativa 02

Escolha apenas uma opção em cada item.
Deve escolher a opção mais correta.

1. Os atos involuntários:

A. São sempre conscientes e são específicos do ser humano;
B. são sempre inconscientes e são específicos dos animais;
C. podem ser conscientes ou inconscientes e são comuns aos homens e aos animais;
D. são sempre inconscientes e são específicos do ser humano.

2. O que distingue os atos voluntários dos atos involuntários:

A. É que os primeiros são conscientes e os segundos, inconscientes;
B. é que os primeiros são inconscientes e os segundos são conscientes;
C. é que os primeiros são causados pela vontade do agente;
D. é que os segundos são causados pela vontade do agente.

3. Os atos involuntários:

A. Estão dependentes do mecanismo do estímulo-resposta;
B. dependem da vontade do agente;
C. são atos intencionais;
D. não são motivados.

4. Os atos voluntários são próprios do homem. Esta afirmação é:

A. Verdadeira, porque só o homem possui liberdade;
B. falsa, porque os animais têm liberdade;
C. verdadeira, porque só os homens têm uma programação biológica;
D. falsa, só o homem possui liberdade.

5. O comportamento humano não é totalmente previsível, porque:

A. Os seres humanos podem sempre escolher fazer o que não está 'programado';
B. os seres humanos nascem programados biologicamente;
C. os seres humanos, para além de uma programação biológica têm uma programação cultural;
D. o comportamento humano é fruto do acaso.

6. Segundo o determinismo radical:

A. O ser humano é livre de escolher o seu destino;
B. todos os comportamentos, mesmo os dos seres humanos, dependem da causalidade natural;
C. a liberdade é uma característica fundamental da natureza humana;
D. os seres humanos não estão totalmente dependentes da causalidade natural.

7. 'O João sentiu fome. Como estava em casa foi ao frigorífico e reparou que tinha todos os ingredientes para fazer uma sandes de fiambre. Decidiu, então comer uma sandes e beber um copo de leite. Depois deste lanche sentiu-se saciado.' 
Das seguintes opções, escolha a que melhor identifica os elementos constitutivos desta ação:

A. Agente: o João; Motivo: a fome; Intenção: a decisão de comer uma sandes e beber um copo de leite; Consequência(s) da ação: a saciedade;
B. Agente: o João; Motivo: a decisão de comer uma sandes e beber um copo de leite; Intenção: a fome ; Consequência(s) da ação: a saciedade;
C. Agente: o João; Motivo: o sentir-se saciado; Intenção: a fome ; Consequência(s) da ação: a decisão de comer uma sandes e beber um copo de leite;
D. Agente: o João; Motivo: a decisão de comer uma sandes e beber um copo de leite; Intenção: a saciedade; Consequência(s) da ação:  a fome.

8. Nem tudo o que fazemos é uma ação. Esta afirmação é...

A. falsa, porque tudo o que envolve um agente é uma ação;
B. verdadeira, porque só existe uma ação se o sujeito tiver a intenção de fazer algo;
C. falsa, porque tudo o que o sujeito faz de forma consciente é uma ação;
D. verdadeira, porque há acontecimentos que não envolvem sujeitos.

9. Todas as ações resultam de uma decisão. Esta afirmação é...

 A. verdadeira, porque fazer algo intencionalmente implica sempre uma escolha;
 B. falsa, porque os atos involuntários não resultam de decisão;
 C. verdadeira, porque a ação é voluntária e consciente;
 D. Falsa, porque a decisão implica escolha, tendo consciência de que há ações alternativas.

10. Se não há intenção, então não há ação. Esta afirmação é...

A. verdadeira, porque não há ação sem o propósito ou objetivo de fazer algo;
B. falsa, porque pode haver intenção sem ação;
C. verdadeira, porque a intenção faz parte da rede conceptual da ação;
D. falsa, porque existem ações que não se explicam.

11. O motivo é...

 A. a crença que acompanha a ação;
 B. o objetivo a alcançar com a ação;
 C. a justificação ou o porquê da ação;
 D. a relação entre a deliberação e a decisão da ação.

12. Não fazer nada, pode ser uma ação. Esta afirmação é...

A. verdadeira, porque o agente pode estar intencionalmente a não fazer nada;
B. falsa, porque só existe ação se o sujeito realiza algo;
C. verdadeira, porque não fazer nada é um acontecimento;
D.  Falsa, porque não fazer nada é sempre uma ação.

13. A ação é um acontecimento...

 A. porque ocorre, de forma involuntária, no espaço e no tempo;
 B. porque é algo que é feito por alguém;
 C. que um agente realiza intencionalmente;
 D. quando o sujeito tem consciência do que faz

Correção:

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Questões filosóficas - 10ºD (2014/2015)

1.      O que é a felicidade?
2.      Temos a obrigação de viver? Temos a obrigação de viver, mesmo sofrendo?
3.      Temos o direito de tirar a vida a alguém (eutanásia)?
4.      O que é a vida?
5.      Será que estamos a viver um filme?
6.      Será que vale a pena lutar por uma coisa que nos poderá matar?
7.      O que é a força de vontade?
8.      O que é a coragem?
9.      Será que o ser humano é um perigo para si próprio?
10.   O que é a valorização (de alguém)?
11.   Porque é que se matam os animais que estão em sofrimento e às pessoas não?
12.   Devemos enfrentar os nossos medos?
13.   Escolher morrer (no caso da eutanásia)  implica coragem?
14.   Deverá existir igualdade nos desportos?
15.   Porque é que os seres humanos sentem necessidade de se 'prenderem' a alguém?
16.   O que é o medo?
17.   O que é o sonho?
18.   Temos o direito de apressar a morte?
19.   Será que morremos quando morremos?
20.   Será que existe uma força superior ao ser humano?
21.   Temos o dever de pensar nos nossos familiares quando ponderarmos a eutanásia?
22.   O que é ter um rosto? Os animais têm um rosto?
23.   Porque é que morremos?
24.   Será que o sofrimento nos faz amadurecer?