domingo, 1 de fevereiro de 2015

Juízos de Facto e Juízos de Valor


Nós, ao contrário dos animais, não vivemos num ambiente estritamente natural, vivemos num mundo humano, um mundo culturalmente transformado pelo homem. A nossa experiência do mundo é uma experiência em grande medida filtrada pelas nossas preferências, tanto pessoais, como colectivas, e pelas nossas repulsas: há coisas de que gostamos, que consideramos boas ou belas, há coisas que consideramos feias ou desprezíveis, como há acções que consideramos nobres, outras que consideramos más ou injustas, há paisagens que consideramos sublimes, há locais que consideramos horríveis, há sítios onde gostaríamos de viver e outros onde não gostamos de estar, enfim, quando olhamos à nossa volta somos, irresistivelmente, levados a tomar uma posição em relação ao que vemos, emitindo juízos de valor sobre as coisas, as situações, as acções e as pessoas com que nos deparamos.
     Quando nos levantamos e abrimos a janela, podemos dizer ‘hoje está um belo dia’, ou quando vemos um edifício e dizemos ‘que prédio feio!’, estamos a emitir juízos de valor, estamos a posicionar-nos subjectivamente face ao mundo. Qualquer outra pessoa pode discordar destes nossos juízos: um dia que para nós é belo, por estar sol ou estar a chover, pode ser feio para qualquer outra pessoa, exactamente pelas mesmas razões que nos levam a considerá-lo belo. Como diz o povo: gostos não se discutem, ou seja, cada pessoa tem o direito de gostar ou não gostar disto ou daquilo, desde que, é claro, que isso não se torne incompatível com o direito de gostar.
    Podemos, então, afirmar que os juízos de valor são, sempre, subjectivos exprimem, não as características efectivamente presentes nas coisas, mas a forma como as coisas afectam a nossa sensibilidade. Por isso, os juízos de valor não podem ser unanimemente aceites, pois cada um reage ao mundo a partir das suas preferências individuais.
Pelo contrário, os juízos de facto diferem dos juízos de valor precisamente por serem objectivos, ou seja, porque exprimem características efectiva e comprovadamente presentes nas coisas. Por isso, os juízos de facto, também designados como juízos de realidade, são unanimemente aceites.
    Assim, as observações científicas assumem a forma de juízos de facto, enquanto que os juízos de valor são considerados não-científicos. ‘A água ferve à temperatura de cem graus’, ou ‘uma molécula de água é composta por dois átomos de hidrogénio e por um átomo de oxigénio’, são dois juízos de facto, enquanto que: ‘a água é um líquido agradável’ e ‘a água deste rio é bela quando faz sol’, são juízos de valor. Os primeiros são objectivos e comprováveis: descrevem propriedades efectivas da água, cuja existência pode ser comprovada. Sendo assim, os juízos de facto podem ser verdadeiros ou falsos, caso estejam ou não de acordo com a realidade. Os segundos, são subjectivos e não podem ser submetidos a qualquer tipo de comprovação. Por esta razão os juízos de valor não podem ser considerados verdadeiros ou falsos, podem ser sinceros ou não, exagerados ou não, podemos ser ou não ser capazes de os compreender.



Teste 2 - 10ºD - Versão 2

Grupo I
Escolha apenas uma alternativa em cada questão.
(10 x 6 pontos)
1. O motivo é:

     A. O objectivo que o agente quer alcançar;
     B. a principal consequência da ação;
     C. a causa principal da ação;
     D. a razão de ser da ação.

2. Os atos voluntários:

     A. Estão dependentes do mecanismo do estímulo-resposta;
     B. não dependem da liberdade do agente;
     C. são atos intencionais;
     D. não são motivados.

3. "A Filosofia distingue-se das ciências porque estuda a totalidade do real". Esta afirmação é:

     A. Verdadeira, porque a filosofia é um saber universal e radical;
     B. verdadeira porque a Filosofia é uma ciência como as outras;
     C. falsa, porque a Filosofia não é um saber racional;
     D. falsa, porque a Filosofia é uma ciência como qualquer outra.

4. Segundo o determinismo radical:

     A. O ser humano é livre de escolher o seu destino;
     B. todos os comportamentos, mesmo os dos seres humanos, dependem da causalidade natural;
     C. a liberdade é uma característica fundamental da natureza humana;
     D. os seres humanos não estão totalmente dependentes da causalidade natural.

5. “A liberdade é uma ilusão livremente criada por nós”. Este enunciado:

     A. Viola o princípio do terceiro excluído;
     B. não viola nenhum princípio lógico;
     C. viola o princípio da identidade;
     D. viola o princípio da não-contradição.


6. Aristóteles afirma que a Filosofia começa com o espanto. Isto significa que:

     A. A filosofia é um saber antidogmático;
     B. a filosofia não se distingue do senso comum;
     C. a filosofia é um saber acrítico;
     D. em Filosofia não há qualquer conhecimento.

7. O menino selvagem, quando foi capturado:

     A. Tinha um comportamento humano;
     B. tinha a consciência de que não era um ser humano;
     C. não conseguia executar atos involuntários;
     D. não tinha liberdade.

8. "Ousa saber! Tem a coragem de usares o teu próprio entendimento!". Esta afirmação de Kant refere-se a uma característica da Filosofia. A qual?

     A. À historicidade;
     B. à autonomia;
     C. à universalidade;
     D  à radicalidade.

9. A Filosofia existiria se o determinismo radical tivesse razão?

     A. Sim, por que a Filosofia é um saber radical;
     B. não, porque sem liberdade não há autonomia;
     C. não, porque a Filosofia é um saber dogmático;
     D. sim, porque só existe Filosofia porque o homem é um animal racional.

10. "Todos os conteúdos do senso comum são inúteis". Esta afirmação é:

     A. Falsa, porque tudo no senso comum é falso;
     B. verdadeira porque o senso comum é um saber comprovado;
     C. falsa, porque o senso comum é imprescindível à nossa vida quotidiana;
     D. verdadeira, porque o senso comum é um saber ilusório.




Grupo II

Texto 1
   “Com os homens nunca podemos ter bem a certeza, ao passo que com os animais, ou outros seres naturais, sim. Os castores fazem represas nos ribeiros e as abelhas favos com alvéolos hexagonais: não há castores que se sintam tentados a fazer alvéolos de favos, nem abelhas que se dediquem à engenharia hidráulica. No seu meio natural cada animal parece saber perfeitamente o que é bom e o que é mau para ele, sem discussões nem dúvidas.
     Por grande que seja a nossa programação biológica ou cultural, nós, seres humanos, podemos acabar por optar por algo que não está no programa (pelo menos que lá não está totalmente). Podemos dizer «sim» ou «não», «quero» ou «não quero». Por muito apertados que nos vejamos pelas circunstâncias, nunca temos um só caminho, mas sempre vários.”                                      
Fernando Savater, Ética para um jovem.

    1. Identifique e formule o problema central do texto 1. (10 pontos)

O problema central do texto pode ser formulado da seguinte forma (bastava referir uma questão):

O ser humano é livre?
Existe liberdade?
O nosso comportamento é totalmente determinado?
O comportamento humano é previsível?

    2. Qual é a tese central do texto 1? (15 pontos)

O texto defende a tese de que o comportamento humano não é prevísivel/ O ser humano é livre -   "Por grande que seja a nossa programação biológica ou cultural, nós, seres humanos, podemos acabar por optar por algo que não está no programa (pelo menos que lá não está totalmente)."

    3. Exponha o(s) argumentos(s) com que o autor justifica a tese central do texto. (20 pontos)

Os argumentos/ justificações:

1. O comportamento humano é imprevisível, ao contrário do que se passa com os animais: "Com os homens nunca podemos ter bem a certeza, ao passo que com os animais, ou outros seres naturais, sim";
2. O comportamento animal está biologicamente padronizado e é invariante: "Os castores fazem represas nos ribeiros e as abelhas favos com alvéolos hexagonais: não há castores que se sintam tentados a fazer alvéolos de favos, nem abelhas que se dediquem à engenharia hidráulica."
3. Os animais não precisam de ponderar o que fazer (o seu comportamento é instintivo): "No seu meio natural cada animal parece saber perfeitamente o que é bom e o que é mau para ele, sem discussões nem dúvidas";
4. O ser humano tem sempre mais do que uma opção: "Podemos dizer «sim» ou «não», «quero» ou «não quero». Por muito apertados que nos vejamos pelas circunstâncias, nunca temos um só caminho, mas sempre vários".

Texto 2

“A verdade é que existe uma diferença entre o que simplesmente me acontece (viro um copo com um safanão na mesa ao ir buscar o sal), o que faço sem me dar conta e sem querer ...), o que faço sem me dar conta mas segundo uma rotina adquirida voluntariamente (como meter os pés nos chinelos quando me levanto da cama meio adormecido) e o que faço apercebendo-me e querendo (...). Parece que a palavra "ação" é uma palavra que apenas convém à última destas possibilidades. É evidente que ainda existem outros gestos difíceis de classificar mas que à partida parecem qualquer coisa menos "ações": por exemplo, fechar os olhos e levantar o braço quando alguém me atira alguma coisa à cara ou procurar algo a que me agarrar quando estou quase a cair. Não decididamente uma "ação" é apenas o que eu não teria feito se não tivesse querido fazê-lo: chamo ação a um ato voluntário. (...)
Mas como podemos saber se um ato é voluntário ou não?
Fernando Savater, As perguntas da vida

5. Responda à questão colocada no final do texto 2. (25 pontos)

Os atos voluntários são atos que dependem da nossa vontade, são intencionais. Os atos involuntários são, em contrapartida, atos que executamos sem querer (podendo, até, em casos extremos, ser executados contra a nossa vontade), como diz o texto: "uma "ação" é apenas o que eu não teria feito se não tivesse querido fazê-lo".
Se bem que os atos involuntários possam ser conscientes (os atos involuntários podem ser conscientes ou inconscientes), nesse caso, apesar de termos consciência da execução do ato, pois damos conta da sua execução, sabemos que não somos nós que estamos a comandá-los - o exemplo do texto do copo que viramos sem querer mostra-o bem. 
Os atos voluntários são sempre conscientes, porque são comandados/ controlados pela consciência, realizamo-los porque queremos. 
No caso dos atos que executamos, é fácil sabermos se são voluntários ou não, porque sabemos se os estamos a realizar de forma intencional ou não. Já no que se refere aos atos das outras pessoas, pode, em muitas circunstâncias, ser mais difícil, pois não podemos entrar na cabeça dos outros para ver o que se passa realmente 'lá dentro': um vizinho sonâmbulo pode passar por mim na rua atuando sob um ataque de sonambulismo que, se não houver um indício desse facto (estar de pijama ou andar como um zombie), eu poderei julgar que ele estaria a passear, executando, por isso, uma ação, um ato voluntário.
Mas em muitos casos nós sabemos se a pessoa tinha alternativa, se podia ter feito algo de diferente: ser vir uma pessoa a voltar para trás repetidas vezes para ver se trancou o carro, posso concluir que se trata de alguém com um comportamento compulsivo (a ser assim, os seus atos repetitivos seriam involuntários, porque a pessoa simplesmente não podia deixar de os executar). Por outro lado, se for com um amigo a um café e ele pedir um água, sei que se trata de um ato voluntário, porque ele teria um leque variado de opções: não beber nada, beber um café, uma cola, etc..

6. Dê um exemplo de uma ação e identifique nesse exemplo os elementos constitutivos da ação. (20 pontos)

O João, como tinha teste de História daí a três dias, foi estudar para a biblioteca municipal. Hoje pensa que as horas que passou a estudar foram determinantes para o resultado: uma classificação de 18 valores.

Agente: O João;
Motivo: O teste de História - que está na origem da necessidade de estudar;
Intenção: Estudar para aprender a matéria do teste;
Consequências: a classificação de 18 valores.


Grupo III
Este grupo é composto por uma questão de desenvolvimento.

Texto 3
“O tema deste livro é uma pergunta que me persegue, creio que desde que faço uso da razão. Mais, ou ainda pior: é a pergunta que deu sentido ao uso da minha razão e também a que que revelou o sentido de tal racionalidade. Para começar, ingenuamente, posso colocá-la assim: em que consiste a liberdade?  Mas, mal é formulado enreda-se-me com outras – como costuma ocorrer com as verdadeiras questões filosóficas – que obstruem e retardam a sua resposta direta: existe realmente liberdade? É algo que tenho antes de o saber que o tenho ou algo que só adquiro ao saber que o tenho ou algo que para ter devo renunciar a saber com precisão o que é? Sou capaz de liberdade ou sou liberdade e por isso capaz de ser humano?”
Fernando Savater, A Coragem de Escolher, p. 13.
   
 1. Responda às questões colocadas no texto 3 posicionando-se perante o problema do livre-arbítrio. Deve defender argumentativamente a sua tese referindo-se expressamente às teorias sobre o livre-arbítrio estudadas. (50 pontos)

Perante o problema do livre-arbítrio defendo o compatibilismo.
O compatibilismo sustenta que se bem que exista um determinismo natural, pois, tal como é pressuposto pelo Princípio da Razão Suficiente "nada acontece sem razão", ou "tudo o que acontece tem uma causa", nós também podemos causar as nossas ações porque somos dotados de uma vontade livre.
Assim, em relação à questão: "Existe realmente liberdade", a minha resposta é sim. Sou livre de escolher o que fazer, mas isso não significa que possa fazer tudo o que quiser - ao contrário do que é defendido pelo libertismo, a minha liberdade é condicionada pela causalidade natural e, também, pela causalidade racional - ao escolher eu sigo o que me parece melhor, em virtude das minhas aprendizagens anteriores. 
A liberdade consiste no poder de fazer escolhas a partir daquilo que acontece: se o deflagrar um incêndio na sala onde estou a trabalhar, posso escolher enfrentar o fogo, tentando apagá-lo com o que tiver à mão, ou fugir, procurando socorro. A escolha é minha, mas as opções são ditadas pelas circunstâncias (pela causalidade exterior/material ou, também, pela causalidade interior/mental - posso optar por fugir se não souber que perto dali existe um extintor, ou se, sabendo-o, eu não souber utilizar o extintor).
Quanto à questão: "(A liberdade) é algo que tenho antes de o saber que o tenho ou algo que só adquiro ao saber que o tenho ou algo que para ter devo renunciar a saber com precisão o que é?", a resposta só pode ser complexa, como a própria questão:
1º - Nós somos livres mesmo que não saibamos o que é a liberdade, aliás, seria impossível vivermos uma vida humana sem fazermos escolhas livres. Mas ao descobrirmos que somos livres podemos aperfeiçoar a nossa capacidade de escolha, porque podemos aprender a fazer escolhas mais ponderadas, o que aumenta o nosso campo de ação e as nossas possibilidades de acerto;
2º - há muitas coisas na nossa natureza que não são ainda conhecidas com precisão - quer porque ainda não conseguimos ter um conhecimento profundo sobre isso, quer porque é provável que possam ser sempre uma incógnita (por mais que descubramos a sei respeito saberemos sempre pouco). A ciência ainda está muito longe de descobrir o que é a liberdade, não é por acaso que o problema do livre-arbítrio é um dos mais importantes, e mais constantes, da história da filosofia. E isso é bom: ao levantarmos questões sobre a liberdade, estamos a usar a liberdade e, ao mesmo tempo, a alargar os seus limites. Assim, acho que não devemos renunciar ao questionamento, mas não devemos ter a pretensão de alcançar uma resposta definitiva, porque o ser humano é um ser em aberto;
3º - isto permite-nos responder à última questão ("Sou capaz de liberdade ou sou liberdade e por isso capaz de ser humano?"): uma coisa não é separável da outra, sem liberdade não seríamos humanos, por isso, podemos dizer que sermos humanos é sermos capazes de liberdade e sermos capazes de liberdade é sermos humanos, a nossa humanidade exerce-se através da liberdade, sermos humanos é sermos livres.

O homem é um ser biocultural

Dizer que o homem é um ser biocultural não é simplesmente justapor entes dois termos, mas mostrar que ele se co-produzem e que se desembocam nesta dupla proposição:

    - Todo o acto humano é biocultural (comer, dormir, defecar, acasalar, cantar, dançar, pensar ou meditar).

    - Todo humano o acto humano é, ao mesmo tempo, totalmente biológico e totalmente cultural.

Comecemos pelo primeiro ponto: o homem é um ser totalmente biológico. Antes de mais é preciso ver que todos os traços propriamente humanos derivam de traços específicos dos primatas ou dos mamíferos que se desenvolvem e se tornam permanentes. Neste sentido, o homem é um superprimata : traços que eram esporádicos ou provisórios no primata - o bipedismo, a utilização de utensílios e mesmo uma certa forma de curiosidade, de inteligência, de. consciência de si - tornaram-se sistemáticos no ser humano. Os sentimentos de fraternidade e de rivalidade que se encontram nos mamíferos desenvolveram-se também na nossa espécie: o homem tornou-se capaz da maior amizade com o da maior hostilidade para com o seu semelhante.

Falta mostrar agora que o homem é totalmente cultural. Antes de mais, é preciso recordar que qualquer acto é totalmente culturizado: comer, dormir e mesmo sorrir ou chorar. Sabemos bem, por exemplo, que o sorriso do japonês não é igual à gargalhada do americano! E a coisa mais espantosa aqui é que os actos que são mais biológicos são precisamente os que são mais culturais: nascer, morrer, casar…

A ideia de uma definição biocultural do homem é fundamental e rica de consequências. O processo biocultural é um processo incessantemente recomeçado que, a cada instante, se refaz a nível dos indivíduos e a nível das sociedades. Eu definiria, por isso, a base da nova antropologia do seguinte modo: o ser humano é totalmente humano porque é, ao mesmo tempo, plena e totalmente vivo e plena e totalmente cultural.
|Edgar Morin, A unidade do homem - Vol.III, Ed. Cultrix.
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Actividades:

1. Identifique o problema central do texto.

1.1.Identifique a tese central do texto.

1.2.Explique a tese central do texto. (Min.200 palavras).


2. Explique a passagem sublinhada no texto.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Somos os heróis da vida uns dos outros?



Serei eu o herói da minha vida ou ocupará alguém esse lugar? E o que é ser um herói?

Alguém com super poderes, capaz de ultrapassar todas as barreiras e dificuldades?Alguém indestrutível que no fim sai sempre vencedor?

Penso que não, pois, se assim fosse com certeza que não seria esse herói.
Ou será simplesmente alguém que faz a diferença?Que está sempre lá na hora certa? E que se importa o suficiente para nos fazer pensar, para nos amparar e nos ajudar a ultrapassar os momentos difíceis?Que pode fazer a diferença no rumo que tomamos, mudar a nossa vida simplesmente por estar ali do nosso lado e continuar a lutar por nós mesmo quando nós próprios nos consideramos uma guerra perdida.

No fundo, o que eu acho é que todos nós somos um bocadinho heróis na vida uns dos outros, pois, em algumas alturas da nossa vida através dos nossos atos, mesmo não tendo consciência, podemos influenciar a vida de quem nos rodeia e torná-la assim um pouco mais leve.

Simples palavras, simples gestos podem fazer coisas grandes como ajudar a construir um rumo na vida de quem se tinha sido perdido, e que, com a nossa ajuda, ganhou força para voltar a andar.

Será assim então possível que eu seja o herói da minha vida?

Carolina Almeida nº8 10ºE(2014/2015)

somos os Herós da nossa vida?

Será que eu vou ser a heroína da minha vida ou esse lugar vai ser ocupado por outra pessoa?
Charles Dickens, David Copperfield / 'Os gatos não têm vertigens'




Como todas as questões  em filosofia, esta é só mais uma entre várias perguntas que nos fazem pensar intensamente no significado de cada palavra e como é que estas influenciam a nossa vida.

Todos nós crescemos a ver e ouvir histórias sobre os super-heróis mais famosos de sempre, desde o super-homem à mulher-maravilha, mas neste caso a palavra “herói” não se aplica à simples ideia de um indivíduo de capa vermelha e que estranhamente possui um poder extraordinário.

O que levanta a questão: “O que será verdadeiramente um herói?” ou “O que é ser um herói na realidade?”.

Será que podemos considerar um bombeiro ou um médico um herói por salvar vidas? Talvez, porque um herói é alguém que se dedica com tamanha convicção e vontade para alcançar os seus objectivos, pondo de lado as suas dificuldades. É também verdade, que para ser herói não é preciso acertar e ter sucesso constantemente, mas sim tentar sempre, pois um herói é aquele que nunca desiste. Ser herói não é só salvar vidas, ir para a guerra e arriscar a vida, mas é sim, todas as pequenas coisas, tal como a simples ideia de sairmos da nossa zona de conforto e fazermos algo a que não estamos habituados ou pensávamos que não conseguíamos fazer, realizar algo de uma maneira diferente – Ser diferente!

O que é muito raro fazer hoje em dia, porque fomos criados a não fazer aquilo que não estamos acostumados, ensinaram-nos a seguir sempre o mesmo caminho – o caminho certo ou muitas vezes, o mais fácil. E quando optamos por escolher o outro caminho, não somos elogiados, porque é simplesmente a natureza do ser humano (na maioria das vezes) – optando sempre pela maneira mais segura.

Mas na minha opinião, o facto de não o fazermos é o que nos faz heróis, o facto de sermos e agirmos de forma diferente do que os outros, arriscarmo-nos a escolher o “outro caminho”, inovarmos na nossa maneira de pensar e ao esquecermos o que é “certo” e o que é “errado”. Isto é o que todos os super-heróis que tanto admirávamos tinham e talvez seja o que deveríamos optar por fazer.

Mas será que eu vou ser isso na minha vida? Ou outra pessoa é que vai fazer isso por mim? Será que eu tenho a capacidade de me destacar dos outros ao fugir dos modelos de sucesso já programados e escolher o outro caminho?

Quando somos confrontados com esta questão, o nosso primeiro instinto é sempre dizer que sim, pois acreditamos em nós próprios e nas nossas capacidades, mas ao pensarmos cada vez mais começamos a duvidar da nossa pessoa e do nosso futuro.

Na minha opinião, eu, e provavelmente todos os outros, queríamos ser capazes de ser os heróis das suas vidas, mas a outra opção é também bastante real ou talvez o lugar de herói pode nem chegar a ser preenchido. Como é que sabemos então? Não sabemos. Eu acredito que todas as coisas têm a sua razão de acontecer, pois conseguimos tomar as nossas próprias decisões, mudando assim o decurso do nosso destino, por isso apenas podemos esperar e acreditar nas nossas próprias decisões e, com sorte, um dia percebemos que sim, fomos os heróis da nossa vida.

Bruna Alexandra Alves Ferreira  Nº6 10ºE(2014/2015)

Os diversos tipos de valor




Os valores

Como todos os valores se acham referidos a um sujeito – o sujeito humano, o homem - e este é, antes de mais nada, um ser constituído por sensibilidade e espírito, daí o poderem classificar-se imediatamente todos os valores nas duas classes fundamentais de: valores sensíveis e valores espirituais. Os primeiros referem-se ao homem enquanto simples ser da natureza, os segundos ao homem como ser espiritual.

A – Valores sensíveis
A esta categoria pertencem:

1 – Os valores do agradável e do prazer, também chamados “hedónicos”. Ela abrange não só todas as sensações de prazer e satisfação, como tudo aquilo que é apto a provocá-las (vestuário, comida, bebidas, etc.). À ética que apenas conhece estes valores chama-se geralmente hedonismo.

2 - Valores vitais ou da vida. São aqueles valores de que é portadora a vida, no sentido naturalista desta palavra, isto é, Bios. Cabem aqui o vigor vital, a força, a saúde, etc. Como se sabe, foram estes os valores que Nietzsche reputou os mais elevados de todos na sua escala axiológica, como os únicos mesmo. E ao que se chama biologismo ético ou naturalismo.

3 - Valores de utilidade. Coincidem com os chamados valores económicos. Referem-se a tudo aquilo que serve para a satisfação das nossas necessidades da vida (comida, vestuário, habitação, etc.) e ainda aos instrumentos que servem para a criação destes bens. Distinguem-se dos restantes valores desta classe, nomeadamente dos sensíveis, para os quais aliás concorrem, por não serem, do ponto de vista formal, autónomos, mas derivados, no sentido que acima vimos.


B – Valores espirituais.
Estes distinguem-se dos valores sensíveis, no seu conjunto, não só pela imaterialidade que acompanha a sua perdurabilidade, como pela sua absoluta e incondicional validade. Muitos filósofos, que encaram os valores só por este último lado, identificando-os por isso com o conceito de simples “valor” ou validade formal, pretendem que só os valores espirituais são verdadeiros valores.Porém, quem se lembraria de negar aos economistas o direito de usarem também do termo e do conceito de valor? À categoria dos valores espirituais pertencem:

1- Os valores lógicos. Quando se fala de valores lógicos, é preciso ter presente que se podem entender por esta expressão duas coisas distintas: a função do conhecimento – o saber, a posse da verdade e o esforço para a alcançar - e o conteúdo do conhecimento. No primeiro sentido, é óbvio que podemos falar, com todo o direito, em valores lógicos ou no valor do conhecimento. Contrapor-se-lhe-ão, como desvalor lógico, a ignorância, o erro, a falta de interesse pela verdade, a ausência de esforço para a alcançar, etc. Mas a expressão “valor lógico” pode significar também o próprio conteúdo do conhecimento. E, neste segundo caso, é “valor lógico” tudo aquilo que cai dentro do par de conceitos verdadeiro-falso [...].


2 - Valores éticos: ou do bem moral. Destes podem dar-se as seguintes características:


a) Só podem ser seus portadores as pessoas, nunca as coisas. Só seres espirituais podem encarnar valores morais. Por isso o âmbito destes valores é relativamente restrito; muito mais, por exemplo, que o dos estéticos.


b) Os valores éticos aderem sempre a suportes reais. Também, por este lado, se distinguem dos valores estéticos, cujo suporte é constituído por algo de irreal, de mera aparência.


c) Os valores éticos têm o carácter de exigências e imperativos absolutos. Dele desprende-se sempre um categórico “tu deves fazer” ou “tu não deves fazer”, "isto ou aquilo"; exigem, imperiosamente, que a consciência os atenda e os realize. E nisto se separam também dos estéticos que não impõem nenhuma exigência desta natureza, nem se nos impõem incondicionalmente. 

d) Os valores éticos dirigem-se ao homem em geral, a todos os homens; são universais, a sua pretensão a serem realizados é universal. Os estéticos não estão neste caso, apenas dirigem o seu apelo a alguns homens, para que estes os realizem, e nem todos podem ser obrigados a dar-lhe acolhimento, a fazer arte, ou a cultivá-las de qualquer maneira. 
e) Além disso, é, pode dizer-se, ilimitada também a exigência que os valores éticos nos fazem: constituem uma norma ou critério de conduta que afecta todas as esferas da nossa actividade e da nossa conduta da vida. Esta acha-se sujeita, total e incondicionalmente, a eles na sua imperiosa jurisdição e validade. Nada deve ser feito que os contrarie. Poderia definir-se esta característica dos valores éticos chamando-lhes totalitários. Não assim os valores estéticos. Estes só reclamam de nós que os realizemos em certas situações e momentos da vida, permanecendo calados durante os restantes; não somos obrigados a ser estetas e, menos ainda, a toda a hora (…).


3 - Valores estéticos, ou do Belo. Incluímos aqui no conceito de belo, no mais amplo sentido desta palavra, o sublime, o trágico, o amorável, etc.


4 - “Valores religiosos ou do”sagrado”. Já atrás aludimos ao que há de original nestes valores. A eles não adere propriamente nenhum “deve ser”. Não temos que realizar esses valores; nem isso é possível nem necessário. Não são valores de um “deve ser”, mas valores de um “ser”; Nisto se afastam dos valores éticos para se aproximarem dos estéticos com os quais estão numa relação muito íntima. Todavia, existe também entre eles e estes últimos uma diferença que cumpre salientar: a realidade do “sagrado”, não é, como a do “Belo”, apenas uma realidade aparente, mas uma realidade no mais eminente sentido desta palavra.

Johannes Hessen, Filosofia dos Valores, Ed. Arménio Amado; Coimbra. pp. 107-117
Texto recolhido aqui
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Glossário:

Sensibilidade - Refere-se à dimensão material do ser humano, relacionada com o conhecimento sensível (ou sensorial), relacionado com os sentidos. Neste sentido, é sensível o que é conhecido através dos sentidos (audição, tato, visão, paladar, olfato).
Por outro lado, a sensibilidade também se refere à dimensão emocional (emoções) e sentimental (sentimentos) do ser humano: as emoções são reações orgânicas aos estímulos do meio, dependem do corpo. Os sentimentos para além duma componente emocional, têm uma componente intelectual, pois integram padrões de pensamento que influenciam a tomada de decisões. Enquanto as emoções são reações de curta duração, os sentimentos prolongam-se no tempo, podendo marcar de forma profunda a personalidade dos indivíduos.
Hedónico - Esta palavra tem origem no termo grego hedonê que significa prazer, servindo, também, para designar a deusa do prazer. Assim, hedónico refere-se a tudo o que está relacionado com o prazer.

Atividades:

- De acordo com o texto:
1. O que são valores sensíveis?
2. O que são valores espirituais?
3. Qual a relação entre os valores e a natureza humana?

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quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

EU vou ser a heroína da minha vida

Será que eu vou ser a heroína da minha vida ou esse lugar vai ser ocupado por outra pessoa?
Charles Dickens, David Copperfield / 'Os gatos não têm vertigens'





Eu ainda não sei ao certo se vou ser a heroína da minha vida ou se esse lugar irá ser ocupado por outra pessoa. Debruço-me e questiono-me sobre esta pergunta. Afinal de contas o que é ser uma heroína ou como é que nos sentimos estando no lugar de um herói ou de uma heroína? Para essa questão eu tenho uma resposta, o tempo, pois o tempo é que me vai levar à minha resposta. Só o tempo me dirá se vou ou não ser a heroína da minha vida.

Muitos dizem que o tempo passa a correr, para mim o tempo passa de uma maneira muito suave e clara.

Eu não quero crescer e pensar que não consegui e nem fui a heroína da minha vida.

Não digo que não quero salvar vidas ou defender pessoas que correm perigo como os heróis de banda desenhada, muito pelo contrário, eu quero deixar a minha marca e quero que ela fique bem visível para que todas possam vê-la, mas não quero que admirem a minha marca, eu quero deixar essa marca nos meus pais, amigos, conhecidos e sobretudo nos meus filhos.

Não quero que me tratem como uma heroína quero que me tratem pelo aquilo que sou e como sou, não quero ser o centro das atenções eu quero ser apenas aquilo que eu sempre fui e sou, afinal de contas eu sou um misto de coisas.

Eu disse que o tempo era a única “instância” que me podia dizer se eu vou ou não vou ser a heroína da minha vida, pois em relação a isso eu já tenho a minha resposta.

EU vou ser a heroína da minha vida e esse lugar não vai ser ocupado por outra pessoa.

Porque afinal de contas por detrás de cada um há sempre um herói ou uma heroína e não há ninguém que consiga ocupar esse lugar porque esse lugar sempre nos pertenceu e sempre nos pertencerá.

Noémi Barros 10ºE (2014/2015)

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Juízos de Facto e Juízos de Valor

Este post foi elaborado a partir da seguinte apresentação da autoria de Danilo Pires:
Juízos de facto e juízos de valor


O que é um juízo?
Comecemos por esclarecer o que significa dizer que alguém formulou um juízo sobre determinado assunto.

Fazer um juízo significa geralmente que alguém formou ou deu uma opinião. Esta opinião é comunicada oralmente ou por escrito através de uma frase declarativa, que exprime o juízo formulado. Se a frase pôde expressar a opinião ou juízo de alguém é porque há um significado associado à frase.


Factos e Valores

Em geral, distinguimos dois tipos de juízos: Juízos de facto e Juízos de valor.

Um exemplo do primeiro tipo seria:

o sol é uma estrela;

um exemplo do segundo tipo seria:

o aborto – em certas circunstâncias – é moralmente permissível.


Juízos de facto
Os juízos de facto são descritivos: informam-nos sobre o que se passa na realidade – dizem-nos, em suma, de que modo as coisas são.

Há mais chineses que portugueses

 “A atmosfera terrestre contém oxigénio”.

Juízos de facto têm valor de verdade: são verdadeiros ou falsos.

São objetivos: a realidade que descrevem, quer nos agrade quer não, é como é. 
Não depende do que possamos pensar ou sentir, dos nossos desejos ou aversões.

O filme que vi ontem na televisão, por exemplo, tem uma duração de 93 minutos: eis algo de objectivo, que em nada depende de mim (como existirem nove planetas no sistema solar também não depende de mim: mesmo que eu pensasse ou desejasse o contrário, a realidade não deixaria de ser a que é).

Os juízos de facto serem objetivos tem uma consequência importante: podemos estar errados quando os formulamos.

Se alguém pensar que a Terra ocupa o centro do universo, o seu juízo está objetivamente errado. O mesmo seria se todos pensássemos dessa maneira. 

Não é por todos estarmos de acordo sobre um certo assunto que nos faz estar na verdade.

Os juízos de facto são descritivos, têm valor de verdade e são objetivos.


Juízos de valor

“A pena de morte é injusta.”

Parece claro que este juízo exprime uma atitude desfavorável em relação à pena de morte: alguém que acredite nele sinceramente não está apenas a dizer-nos como as coisas se passam na realidade; não está apenas a descrevê-las. Está a dizer-nos como as coisas deviam ser, isto é, está a avaliá-las.

Dizer que a pena de morte é injusta significa fazer uma avaliação negativa desta prática.

Fazer uma avaliação negativa implica uma atitude de reprovação: estamos a dizer que a pena de morte não devia existir.

Não nos limitamos, portanto, a descrever um facto; estamos a propor a adoção de uma norma de comportamento – neste caso, a ser aplicada pelos tribunais.

As normas servem para indicar a maneira como devemos agir. É devido a esta característica que os juízos de valor são normativos.

Esta análise permite-nos concluir que os juízos de facto são descritivos e os juízos de valor têm, em muitas circunstâncias, uma função normativa. 

Os juízos de facto tratam daquilo que as coisas são, os juízos de valor de carácter normativo (como, por exemplos, os juízos morais) tratam daquilo que as coisas devem ser.

“A relva é verde” é um juízo verdadeiro porque descreve corretamente a realidade; por outro lado, o juízo “Camões é italiano” é falso porque descreve incorretamente a realidade. 
Para um juízo ter valor de verdade é, portanto, necessário ser descritivo.
Para ser verdadeiro, tem que descrever corretamente a realidade.

Os juízos de valor podem ser sinceros ou não, mas não têm um valor de verdade objetivamente comprovável.


segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Caracterização dos valores



As principais características dos valores

“O homem percebe em torno de si uma multiplicidade de coisas boas e más, uma multiplicidade de objectos belos e feios, grandiosos e mesquinhos, nobres e vulgares. O nosso mundo não consta apenas, nem principalmente, das coisas, mas dessas atracções e repulsões que a realidade circundante exerce sobre a nossa alma. O mundo real e concreto, o mundo que efectivamente vivemos, não é o que a física, a química, a matemática, nos descrevem, mas um imenso arsenal de bens e de males, com os quais edificamos a vida.

A noção do valor tem sido objecto de muitos estudos na mais recente filosofia. Não posso expor em todos os seus pormenores os descobrimentos que se fizeram no campo dos valores, durante as últimas décadas. Para o objecto que neste estudo me proponho bastarão proposições gerais.

1. Os valores não são coisas. Não podem perceber‑se como se percebem as coisas, o modo de perceber os valores não consiste em os vermos com os olhos da cara ‑ o que não obsta a que os valores sejam tão clara e autenticamente vividos por nós como as coisas e os objectos matemáticos. Os valores, pois, são qualidades que atribuímos às coisas, mas que não estão nas coisas de modo real e sensível, como estão a figura, o peso, a cor, etc.

2. O ser dos valores não é, portanto, o mesmo ser que o da realidade material. Se quisermos ser rigorosos, devemos distinguir vários modos de ser; um deles é o ser sensível, outro o ser ideal (como, por exemplo, o dos objectos matemáticos) e um terceiro modo de ser é o valer, e é este que precisamente corresponde aos valores. Em sentido próprio, os valores não existem nem são, mas valem.

3. Assim, os valores não são conhecidos, como são conhecidas as coisas físicas e os objectos ideais, mas são estimados. 

4. O valor não se caracteriza pelo prazer que produz, se o produz. É erróneo dizer que as coisas são valiosas, porque nos produzem prazer. Na realidade, os valores valem independentemente do prazer que produzem. O prazer é valioso; é preferível à dor. Porém, do prazer ser um valor não se infere legitimamente que todo o valor seja prazer.

5. O valor não se caracteriza também pelo desejo. Quando desejamos uma coisa é porque percebemos valor nela, o que, todavia não quer dizer que inversamente todo o valor seja desejado. Ocorre frequentemente percebermos um valor numa coisa e não a desejarmos.

6. Os valores têm matéria, polaridade e hierarquia

A matéria do valor é o que distingue uns valores dos outros. Por directa apreensão do significado que damos às palavras, distinguimos a santidade da beleza, a elegância da justiça. Todos eles são valores; mas cada um distingue‑se do outro  pelo seu conteúdo próprio, pela sua própria consistência.

A polaridade é a propriedade que têm todos os valores de se contraporem num pólo positivo e num pólo negativo. À beleza contrapõe‑se a fealdade, à generosidade a mesquinhez, à santidade a profanidade.

A hierarquia é a propriedade que possuem os valores de se subordinarem uns aos outros, isto é, de serem uns mais valiosos que outros. A justiça é, em hierarquia, superior à elegância; e é‑o com a mesma evidência com que a soma dos dois lados do triângulo é maior que o terceiro lado. Poderíamos dizer que todos os valores valem, mas que uns valem mais que os outros.

7. Os valores podem classificar‑se também em valores‑meio e valores‑fim. Os valores‑meio são aqueles cuja valia consiste em servir para a obtenção de outros valores; os valores‑fim são os que valem por si e sem necessidade de servirem à obtenção de outros valores.

8. Não podem definir‑se os valores. Conhecê‑los é estimá‑los, e estimá‑los é percebê‑los, intuí‑los. Para revelar um valor cumpre colocá‑lo intuitivamente perante a pessoa; mas como os valores não são coisas, é preciso, para que se percebam estimativamente, perceber coisas e imaginar coisas (objectos, acções, etc.) em que os valores estejam realizados, efectivados. Para dar a conhecer uma cor, temos que a exibir; para dar a estimar um valor, temos que o apresentar numa coisa.”
G. Morente (Texto adaptado)
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Atividades:

I.
I.1. O que são os valores?
I.2. O que é a matéria dos valores?
I.3. O que é a polaridade dos valores?
I.4. O que é a hierarquia dos valores?
I.5. O que são valores-meio?
I.6. O que são valores-fim?

II. Explique as seguintes afirmações:

a) "O mundo real e concreto, o mundo que efectivamente vivemos, não é o que a física, a química, a matemática, nos descrevem, mas um imenso arsenal de bens e de males, com os quais edificamos a vida."

b) "Os valores, pois, são qualidades que atribuímos às coisas, mas que não estão nas coisas de modo real e sensível, como estão a figura, o peso, a cor, etc."

Os valores - Introdução