quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

O conceito de cultura



CULTURA E DIVERSIDADE CULTURAL

Conceito de cultura: Segundo o sociólogo inglês Raymond Williams, a palavra cultura vem do latim – colere – e definia inicialmente o cultivo das plantas, o cuidado com os animais e também com a terra (por isso se fala em agricultura);

Definia, ainda, o cuidado com as crianças e a sua educação; o cuidado com os deuses (o seu culto); o cuidado com os antepassados e os seus monumentos (a sua memória);

Chegaríamos ao sentido mais comum do termo na nossa sociedade: o homem que tem cultura é o homem “culto”. Mas, se pensássemos em cultura apenas nesse sentido, teríamos que perguntar: só quem lê muito, quem passou um longo tempo na escola é que tem cultura? E o camponês, o operário, o comerciante, estes não têm cultura?

Numa outra perspectiva, poderíamos responder que cultura é cinema, pintura, teatro, as manifestações artísticas em geral. Nesse caso, só os artistas é que teriam cultura? Mas e as festas populares, as crenças, as chamadas tradições, seriam o quê?

A maneira de agir, pensar e sentir de um grupo de pessoas ou classe social seria ou não cultura? O “modo de ser” dos portugueses tem algo a ver com “cultura”, com “cultura portuguesa”?

Antes de tentar responder a essas perguntas, devemos partir, especificamente, da compreensão do próprio conceito. Pensar em cultura requer que se pense, inicialmente, na sua relação com outros dois conceitos fundamentais: o de civilização e o de história. Foi na Europa, a partir do século XVIII, que o conceito de cultura passou a ser associado ao conceito de civilização. Os pensadores do período, preocupados em estudar o homem e a sociedade, pensavam a relação entre o conceito de cultura e de civilização de maneiras diversas.

Jean-Jacques Rousseau (1712-1778): cultura seria definida como bondade natural, solidariedade espontânea. A essa ideia positiva de cultura, Rousseau opunha a ideia negativa de civilização. O conceito de civilização era pensado como aprisionamento da bondade humana natural, por meio de regras e convenções artificiais e exteriores ao homem;

Voltaire (1694-1778) e Kant (1724-1808): cultura e civilização representavam, ambas, o processo de aperfeiçoamento moral e racional da sociedade.

Hegel (1770-1831): Compreendida em sua relação com a história, a cultura é definida como o conjunto organizado dos vários modos de vida de uma sociedade. Segundo o filósofo alemão, a cultura resultaria da forma de ser dos homens. Assim, a concepção de cultura estaria relacionada com as formas como os homens vão compreendendo, representando e se relacionando com os vários elementos componentes da sua existência: o trabalho, a religião, a linguagem, as ciências, as artes e a política.

Os estudos antropológicos desenvolveram em torno deste conceito alargado de cultura: A antropologia, como ciência, desenvolveu-se principalmente a partir do século XVIII com a expansão colonial europeia. Novos territórios vinham sendo descobertos e ocupados pelas potências europeias (principalmente a Inglaterra) e novos povos (considerados primitivos, quando comparados com a sociedade ocidental) eram contactados. Era preciso conhecer os seus hábitos, costumes e valores, principalmente para melhor os dominar. A antropologia surgiu, como se pode deduzir, como conseqüência da política imperialista e com o intuito de auxiliá-la. Ao longo do tempo, porém, a atuação dos antropólogos desenvolveu-se de maneira mais independente e num sentido muitas vezes oposto ao que deles se exigia.

Nas últimas décadas, o estudo do “outro” (os outros povos, as suas crenças e costumes) passa a desenvolver-se no sentido político de mostrar que as diferenças culturais não significam inferioridade nem justificam a dominação. Por essa razão, a antropologia ajudou a desqualificar o etnocentrismo (isto é, a tendência a valorizar a própria cultura, tomando-a como parâmetro para avaliar as demais) e a admitir o relativismo cultural e, posteriormente, o interculturalismo. Para ela, cada sociedade possui o direito de se desenvolver de modo autónomo, não existindo uma teoria sobre a humanidade que possua alcance universal, e que seja capaz de impor-se a outras, com base em qualquer tipo de superioridade.

Tiago Dantas
http://sociologiadeplantao.blogspot.pt/2009/08/conceito-de-cultura.html

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Cultura, identidade e diversidade cultural







O conceito de aculturação
Aculturação é um termo criado inicialmente por antropólogos norte-americanos para designar as mudanças que podem acontecer em uma sociedade diante de sua fusão com elementos culturais externos, geralmente por meio de dominação política, militar e territorial. Porém, segundo o historiador francês Nathan Watchel, aculturação é todo fenómeno de interação social que resulta do contato entre duas culturas, e não somente da sobreposição de uma cultura a outra.

Já Alfredo Bosi, em Dialética da colonização, afirma que esse fenómeno provém do contacto entre sociedades distintas e pode ocorrer em diferentes períodos históricos, dependendo apenas da existência do contacto entre culturas diversas, constituindo-se, assim, um processo de sujeição social de uma sociedade a outra.

A maioria dos autores acreditam que a aculturação é sempre um fenómeno de imposição cultural.

Trata-se,também,  de aculturação quando duas culturas distintas ou parecidas são absorvidas uma pela outra, formando uma nova cultura diferente. Além disso, aculturação pode ser também entendida como a absorção de uma cultura pela outra, onde essa nova cultura terá aspectos da cultura inicial e da cultura absorvida. Um exemplo é o Brasil que adquiriu traços da cultura de Portugal, da África, que juntamente com a cultura indígena formaram a cultura brasileira.

Com a crescente globalização, um novo entendimento de aculturação vem-se tornando um dos aspectos fundamentais na sociedade. Pela proximidade a grandes culturas e rapidez de comunicação entre os diferentes países do globo, alguns autores sustentam que cada cultura está a perder a sua identidade cultural e social, aderindo em parte a outras culturas. Um exemplo disso são elementos da cultura ocidental que são cada vez mais homogéneos em muitos países distintos. Mesmo assim a aculturação não tira totalmente a identidade social de um povo, crendo-se que talvez no futuro não exista mais uma diferença cultural tão acentuada como a aquela que hoje ainda se observa, em especial entre o Oriente e o Ocidente.
http://pt.wikipedia.org
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O texto inserido a seguir foi copiado a partir do Portal das Escolas
(No ficheiro não não é indicado o nome do(s) autores(s))


Multiculturalismo

As vivências dos indivíduos em diferentes contextos sociais, com as suas hierarquias de valores, com a sua cultura própria colocam sérias dificuldades de convivência intercultural. Porém, por razões particulares, acontece que pessoas de espaços culturais diversos são muitas vezes obrigadas a relacionar-se e a ter de conviver.

Fala-se de multiculturalismo ou diversidade cultural para designar este fenómeno, o qual tem vindo a merecer a atenção de inúmeros investigadores. Entre eles, uns preocupam-se com a descrição e análise das diferenças culturais entre os povos que habitam regiões distintas do globo; outros analisam o facto de, num mesmo espaço social, pessoas com culturas diferentes terem de lidar umas com as outras.

Devido à emigração, é possível num país, ou mesmo numa cidade, a existência de diversos núcleos culturais. 
Acrescente-se ainda a existência de grupos sociais que, por inúmeras razões, se sentem marginalizados pelos elementos da sociedade, como é o caso dos deficientes, dos idosos, dos homossexuais e de outros.

Atitudes face à diversidade cultural

Perante a existência de seres humanos com normas e hábitos culturais diferentes, as pessoas podem assumir atitudes e condutas muito variadas. Mencionaremos algumas dessas atitudes: etnocentrismo, relativismo cultural e interculturalismo.


Etnocentrismo

Incluem-se aqui as pessoas que observam as outras culturas em função da sua própria cultura, tomando-a como padrão para valorar e hierarquizar as restantes. Desta atitude podem, de imediato, resultar duas consequências:

• Incompreensão em relação aos aspectos das outras culturas, pois o etnocentrista é incapaz de aceitar os que não adoptam modos de vida semelhantes aos seus.
• Aumento da coesão dos elementos do grupo e do sentimento de superioridade em relação aos elementos das culturas com que têm de coexistir.

Imagem retirada do manual Um outro olhar sobre o mundo
Para preservar os traços da sua cultura, o etnocentrista pode assumir posturas negativas, entre as quais se contam:
• Xenofobia, ou seja, ódio em relação aos estrangeiros.
• Racismo, isto é, repúdio violento de determinados grupos étnicos.
• Chauvinismo, quer dizer, patriotismo fanático.


Relativismo cultural

Para além dos etnocentristas, há outras pessoas que perspectivam as outras culturas a partir dos valores por que se regem e não dos valores das culturas em causa. São os defensores do relativismo cultural.
Porém, afastam-se dos etnocentristas ao recomendarem a tolerância face as diferentes expressões culturais  das outras comunidades.
Esta tolerância, sendo aparentemente uma atitude positiva, manifesta alguns aspectos negativos:

• a proclamação dos respeito e tolerância pelas outras culturas encerra a ideia de que cada cultura deve promover os seus próprios valores, ficando fechada em si própria.
• Não incentivando a abertura aos modelos das outras comunidades, os defensores do relativismo não promovem, antes dificultam, o diálogo entre culturas.

Neste sentido, os relativistas não escapam a certos riscos. Entre eles, anotam-se os seguintes:

Racismo
Embora proponham o respeito pelos modos de vida de todos os povos, os relativistas estão a preservar a sua própria cultura. A melhor forma de as pessoas se preservarem consiste em não se misturarem. Daí não serem adeptos do diálogo cultural.


Isolamento
Apesar da tolerância, o relativismo promove a separação entre culturas, não manifestando interesse em estabelecer contacto com povos diferentes. A defesa de que cada ser humano deve ficar no seu país e viver segundo a sua cultura acaba por ser, muitas vezes, um modo de justificar a proibição da entrada de imigrantes.

Estagnação 
Há uma visão estática das culturas, considerando que o importante é manter
as tradições. Certamente que é bom manter as tradições para conservar a memória colectiva; porém, a cultura é algo de vivo que se deve adaptar a novas circunstâncias e, para isso, os contactos entre culturas são altamente enriquecedores. Esta é a perspectiva adoptada pelos defensores do interculturalismo.


Interculturalismo

Este movimento tem como ponto de partida o respeito pelas outras culturas, superando as falhas do relativismo cultural, ao defender o encontro, em pé de igualdade, entre todas elas.

O interculturalismo propõe-se promover os seguintes objectivos:
• Compreender a natureza pluralista da nossa sociedade e do nosso mundo.
• Promover o diálogo entre culturas.
• Compreender a complexidade e riqueza da relação entre as diferentes culturas, tanto no plano pessoal como no comunitário.
• Colaborar na busca de respostas aos problemas mundiais que se colocam nos âmbitos social, económico, político e ecológico.

Dado que não se pode considerar que qualquer cultura tenha atingido o seu total desenvolvimento, o diálogo entre povos de diferentes culturas é o meio de possibilitar o enriquecimento mútuo de todas elas. O interculturalismo propõe, assim, que se aprenda a conviver num mundo pluralista e  se respeite e defenda a humanidade no seu conjunto. 


A importância do diálogo entre culturas

O diálogo entre culturas corresponde a uma exigência do nosso tempo, dada a necessidade de dar respostas comuns a desafios que se colocam a toda a humanidade. Para o levar a cabo é necessário, contudo, ter como base um conjunto de valores morais partilhados, entre os quais se evidenciam os seguintes:
• Salvaguarda dos direitos humanos.
• Apreço pela liberdade, igualdade e solidariedade.
• Respeito pelas diferenças culturais.
• Promoção de uma atitude dialogante.
• Implementação de um tolerância activa.

Estes mínimos morais são os alicerces para a construção de uma “civilização mundial”. Tal civilização será obra de todas as culturas e raças e terá de ser edificada através de um diálogo intercultural sério e frutífero. 

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Os perigos do etnocentrismo

"É norma socialmente reconhecida entre nós que devemos cuidar dos nossos pais e de familiares quando atingem uma idade avançada; os Esquimós deixam-nos morrer de fome e de frio nessas mesmas condições. Algumas culturas permitem práticas homossexuais enquanto outras as condenam (pena de morte na Arábia Saudita). Em vários países muçulmanos a poligamia é uma prática normal, ao passo que nas sociedades cristãs ela é vista como imoral e ilegal. Certas tribos da Nova Guiné consideram que roubar é moralmente correcto; a maior parte das sociedades condenam esse acto. O infanticídio é moralmente repelente para a maior parte das culturas, mas algumas ainda o praticam. Em certos países a pena de morte vigora, ao passo que noutras foi abolida; algumas tribos do deserto consideravam um dever sagrado matar após terríveis torturas um membro qualquer da tribo a que pertenciam os assassinos de um dos seus.

Centenas de páginas seriam insuficientes para documentarmos a relatividade dos padrões culturais, a grande diversidade de normas e práticas culturais que existem actualmente e também as que existiram.

Até há bem pouco tempo muitas culturas e sociedades viviam praticamente fechadas sobre si mesmas, desconhecendo-se mutuamente e desenvolvendo bizarras crenças acerca das outras.

 Os europeus que viajaram para as Américas no século XVI acreditavam que iam encontrar gigantes, amazonas e pigmeus, a Fonte da Eterna Juventude, mulheres cujos corpos nunca envelheciam e homens que viviam centenas de anos. Os índios americanos foram inicialmente olhados como criaturas selvagens que tinham mais afinidades com os animais do que com os seres humanos. Paracelso, nunca lá tendo ido, descreveu o continente norte-americano povoado por criaturas que eram meio homens meio bestas. Julgava-se que os índios, os nativos desse continente, eram seres sem alma nascidos espontaneamente das profundezas da terra. O bispo de Santa Marta, na Colômbia, descrevia os indígenas como homens selvagens das florestas e não homens dotados de uma alma racional, motivo pelo qual não podiam assimilar nenhuma doutrina cristã, nenhum ensinamento, nem adquirir a virtude.

Anthony Giddens, Sociology, Polity Press, Cambridge, p. 30

Durante o século XIX os missionários cristãos em África e nas ilhas do Pacífico forçaram várias tribos nativas a mudar os seus padrões de comportamento. Chocados com a nudez pública, a poligamia e o trabalho no dia do Senhor, decidiram, paternalistas, reformar o modo de vida dos "pagãos". Proibiram os homens de ter mais de uma mulher, instituíram o sábado como dia de descanso e vestiram toda a gente. Estas alterações culturais, impostas a pessoas que dificilmente compreendiam a nova religião, mas que tinham de se submeter ao poder do homem branco, revelaram-se, em muitos casos, nocivas: criaram mal-estar social, desespero entre as mulheres e orfandade entre as crianças.

Se bem que o complexo de superioridade cultural não fosse um exclusivo dos Europeus (os chineses do século XVIII consideraram desinteressantes e bárbaros os seus visitantes ingleses), o domínio tecnológico, científico e militar da Europa, bem vincado a partir das Descobertas, fez com que os Europeus julgassem os próprios padrões, valores e realizações culturais como superiores. Povos pertencentes a sociedades diferentes foram, na sua grande maioria, desqualificados como inferiores, bárbaros e selvagens.

O etnocentrismo é a atitude característica de quem só reconhece legitimidade e validade às normas e valores vigentes na sua cultura ou sociedade. Tem a sua origem na tendência de julgarmos as realizações culturais de outros povos a partir dos nossos próprios padrões culturais, pelo que não é de admirar que consideremos o nosso modo de vida como preferível e superior a todos os outros. Os valores da sociedade a que pertencemos são, na atitude etnocêntrica, declarados como valores universalizáveis, aplicáveis a todos os homens, ou seja, dada a sua "superioridade" devem ser seguidos por todas as outras sociedades e culturas. Adoptando esta perspectiva, não é de estranhar que alguns povos tendam a intitular-se os únicos legítimos e verdadeiros representantes da espécie humana.

Quais os perigos da atitude etnocêntrica? A negação da diversidade cultural humana (como se uma só cor fosse preferível ao arco-íris) e, sobretudo os crimes, massacres e extermínios que a conjugação dessa atitude ilegítima com ambições económicas provocou ao longo da História.

Depois da Segunda Guerra Mundial e do extermínio de milhões de indivíduos pertencentes a povos que pretensos representantes de valores culturais superiores definiram como sub-humanos, a antropologia cultural promoveu a abertura das mentalidades, a compreensão e o respeito pelas normas (valores das outras culturas Mensagens fundamentais: a) Em todas as culturas encontramos valores positivos e valores negativos; b) Se certas normas e práticas nos parecem absurdas devemos procurar o seu sentido integrando-as na totalidade cultural sem a qual são incompreensíveis, c) O conhecimento metódico e descomplexado de culturas diferentes da nossa permite-nos compreender o que há de arbitrário nalguns dos nossos costumes, torna legítimo optar, por exemplo, por orientações religiosas que não aquelas em que fomos educados, questionar determinados valores vigentes, propor novos critérios de valoração das relações sociais, com a natureza, etc.

A defesa legítima da diversidade cultural conduziu, contudo, muitos antropólogos actuais a exagerarem a diversidade das culturas e das sociedades: não existiriam valores universais ou normas de comportamentos válidos independentemente do tempo e do espaço. As valorações são relativas a um determinado contexto cultural, pelo que julgar as práticas de uma certa sociedade, não existindo escala de valores universalmente aceite, seria avaliá-los em função dos valores que vigoram na nossa cultura.

Cairíamos de novo, segundo a maioria dos antropólogos, nessa atitude dogmática que é o etnocentrismo.»

RODRIGUES, Luís (2003). Filosofia 10.º ano. Lisboa: Plátano Editora.

De que modo podem os valores orientar e guiar o agir?

Os valores orientam a ação porque servem de padrões de avaliação do real e de critérios de deliberação.

Isto torna-se inteligível a partir da análise do que chamámos a bússola dos valores:

Quando fazemos escolhas e deliberamos qual a decisão a tomar em cada caso, usamos os valores, tendo em conta as suas características fundamentais: a matéria, a polaridade e a hierarquia.
Procuramos dar sentido à situação em que nos encontramos (atribuindo valor às coisas, aos acontecimentos, às ações) e analisando os prós e os contras de cada opção ao nosso dispor).

A bússola nasce do cruzamento da polaridade e da hierarquia dos valores.

As tomadas de decisão tendem a situar-se no quadrante positivo/superior: tendemos sempre a escolher o que achamos melhor.

A bússola funciona tendo em conta critérios de avaliação que podem diferir de indivíduo para indivíduo: uma pessoa egoísta tenderá a escolher opções que a beneficiem, mesmo que sejam prejudiciais para os outros, enquanto que uma pessoa altruísta irá considerar que a melhor opção será a que beneficiar os outros, enquanto que uma pessoa utilitarista considerará que a melhor escolha em cada momento deverá ser a que privilegiar o bem do maior número de pessoas.


Conhecer, Valorar e Agir

Sem os valores não saberíamos como agir, eles são-nos necessários porque somos livres. Se o nosso comportamento fosse completamente instintivo não teríamos liberdade e, então, não teríamos que fazer escolhas. 
Isso significa que não teríamos preferências, pois estaríamos totalmente dependentes do nosso determinismo biológico, seríamos pouco diferentes das formigas, embora pudéssemos lidar com uma quantidade de informação astronomicamente maior, estaríamos, como elas, totalmente dependentes da causalidade natural, o nosso comportamento seria sempre uma reação cega aos estímulos do meio.
Por sermos livres somos agentes e como agentes podemos determinar o curso da nossa vida fazendo escolhas, tomando decisões, e instando os outros a fazerem o mesmo. Muitas vezes as nossas ações inserem-se num esforço coletivo, agimos de forma coordenada com outros agentes. Isso pressupões que possamos entender-nos e aí a linguagem simbólica, própria do ser humano, é uma preciosa ferramenta. 
A linguagem permite-nos estruturar um pensamento racional que também segue princípios de organização formal - e é aí que entra a Lógica. Tal como a linguagem com as suas regras gramaticais e as suas referências semânticas ao mundo das coisas, a Razão também segue regras formais na estruturação do pensamento (nós já estudámos os Princípios Lógicos da Razão e não foi por acaso). 
A Razão, porque assenta em princípios lógicos comuns a todos os sujeitos (daí dizermos que o conhecimento racional é universal) permite-nos chegar a conclusões objetivas e sistemáticas sobre o mundo em que vivemos (nós e os outros seres humanos, sempre em interação).
Assim, para podermos agir precisamos de conhecer a realidade que, constantemente, nos desafia a agir (estão sempre a acontecer situações que exigem tomadas de decisão da nossa parte) e na qual se vão refletir os efeitos das nossas ações - tudo o que fazemos tem um impacto na realidade. A nossa ação reflete-se sobre as coisas e as pessoas, com consequências que à partida podem ser imprevisíveis.
Por isso conhecer é importante para podermos agir de forma adequada. 
É a partir do conhecimento que adquirimos sobre cada situação que se exerce a valoração. Só podemos atribuir valor de forma adequada, quando conhecemos o objeto sobre o qual vai recair a nossa valoração. Muitas vezes enganamo-nos sobre a natureza do objeto e a nossa apreciação do mesmo pode revelar-se desadequada. Isto mostra a importância do conhecimento para a valoração e a ação: conhecendo bem as situações podemos fazer deliberações com um grau elevado de possibilidade de nos conduzirem a uma ação eficaz ou, também ela adequada à situação que a motivou.
A necessidade da valoração existe porque o conhecimento não nos dá toda a informação sobre o que está em causa quando temos que agir. Se fôssemos como as formigas o conhecimento seria um mero input que desencadearia em nós uma reação, de forma direta, imediata, sem a intervenção da reflexão racional. Se assim fosse, a Razão seria de todo supérflua, pois não serviria para nada. As formigas não são racionais e no entanto a razão não lhes faz falta para nada porque a sua programação biológica lhes permite 'resolver' todas as situações.
A valoração é necessária à ação porque o conhecimento, por mais objetivo e verdadeiro que seja, não nos consegue dar toda a informação: para além dos estados do mundo exterior, como a temperatura ambiente, a distância dos objetos, ou qualquer outro dado conhecível de forma objetiva, nós somos mais complexos do que os animais ou as máquinas: nós temos emoções e sentimentos, temos a necessidade de muitas 'coisas' que não são materiais que, em muitos casos, dependem do comportamento dos outros e não podem ser adquiridas através da resolução racional e impessoal dos problemas.
O conhecimento pode mostrar-nos que temos, numa dada situação, várias opções de escolha, várias alternativas aparentemente equivalentes e/ou adequadas a cada situação. É atribuindo valores a essas alternativas/ opções que conseguimos escolher a que nos parece preferível. Só depois é que agimos.




Teste 3 - Matriz / Plano de estudo

Nota: neste teste é obrigatório o uso de folha de teste.
Seja original e crítico nas suas respostas.

Esclarecimento de dúvidas por email
(até 48 horas antes do teste - deve indicar o nome, nº. e turma)

Objectivos / Conteúdos:

1. Caracterizar a filosofia a partir das suas principais características: radicalidade; autonomia; historicidade e universalidade;
2. Identificar os diversos elementos constitutivos da ação (os conceitos da ‘rede conceptual da ação’);
3. Definir e relacionar os conceitos de agente, motivo, intenção e consequências (da ação);
4. Distinguir atos voluntários e involuntáriosApresentação
5. Explicar a influência das condicionantes biológicas no comportamento humano;
6. Explicar a importância das condicionantes sócio-culturais no comportamento humano;
7. Interpretar o filme 'Os gatos não têm vertigens' atendendo à temática dos valores;
8. Reconhecer que o ser humano não nasce humano;
9. Definir o conceito de valor.
10. Definir a Axiologia: a Teoria (ou Filosofia) dos valores;
11. Reconhecer os principais problemas da Axiologia;
12. Compreender a relação entre a ação humana e os valores;
13. Caracterizar os valores tendo em conta as suas principais características: matéria, polaridade e hierarquia;
14. Explicar a valoração e os critérios valorativos, tendo em conta a bússola dos valores;
15. Identificar diversos campos axiológicos (diversos tipos de valor, por exemplo: valores religiosos, valores éticos, valores estéticos, valores políticos, etc.);
16. Compreender a historicidade dos valores;
17. Caracterizar e distinguir juízos de facto e juízos de valor;
18. Problematizar a natureza dos valores: os valores são subjetivos ou objetivos?
19. Explicar a teoria objetivista tendo em conta as suas teses e argumentos;
20. Explicar a teoria subjetivista tendo em conta as suas teses e argumentos;
21. Explicar a teoria estruturalista tendo em conta as suas teses e argumentos;
22. Analisar conflitos de valores/ Definir o conceito de conflito de valores;
23. Definir o conceito de critério valorativo;
24. Reconhecer a importância da Razão como critério valorativo;
25. Definir o conceito de  cultura;
26. Explicar porque é que o homem é produto e produtor da cultura;
27. Definir o conceito de padrão cultural;
28. Analisar o conceito de identidade cultural;
29. Reconhecer a importância da diversidade cultural;
30. Definir o conceito de aculturação;
31. Definir e interpretar o etnocentrismo;
32. Definir e interpretar o relativismo cultural;
33. Definir e interpretar o interculturalismo;
34. Colocar problemas de forma pertinente;
35. Identificar problemas, teses e argumentos;
36. Construir argumentações sólidas.
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Questões de verificação da aprendizagem (pp.86 e 97 do manual)

1. Qual é a relação entre os valores e a acção humana?

2. O que são os valores?

3. O que significa dizer que os valores são construções humanas?

4. De que modo podem os valores orientar e guiar o agir?

5. Que tipos de valor estão presentes na nossa vida?

6. Que características podemos atribuir aos valores? Como explicar cada uma dessas características?

7. O que distingue juízo de facto de juízo de valor?

8. O que defende o objetivismo axiológico? E a teoria subjetivista?

9. O que são conflitos de valores? E critérios valorativos?

10. Sou capaz de dar exemplos de situações de conflito de valores?

11. A superação de conflitos de valores depende de que fatores?

12. Qual é a relação entre os valores e a cultura?

13. Qual a importância da identidade cultural e da diversidade cultural?

14. Como se caracteriza o etnocentrismo?

15. Como se caracteriza o relativismo cultural?

16. O que é o diálogo intercultural (interculturalismo) e como se articula com a diversidade cultural?



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Recursos:


Teste modelo sobre os valores. - Este teste modelo tem o mesmo nível de dificuldade de um  teste sumativo e foi elaborado a partir dos objetivos 10 - 35.

Ficha Formativa sobre os valores e a cultura

Guião de apoio ao trabalho

O que se pretende com este trabalho

Este trabalho consiste num projecto iniciação à pesquisa e análise filosófica, no âmbito da área temática proposta.
Assim, para além da aprendizagem dos conteúdos tratados, o trabalho tem por objectivos:

Desenvolver e melhorar competências:

discursivas
de conceptualização
de problematização
de argumentação
de compreensão
de dissertação

Desenvolver e melhorar capacidades de:

Recolher e organizar informação e utilizá-la de modo crítico
Dominar com rigor os conceitos filosóficos fundamentais
Analisar textos de carácter argumentativo
Compor textos de carácter argumentativo
Intervir oralmente/Participar em debates


É muito importante compreender que este trabalho obriga os alunos a serem responsáveis e intelectualmente honestos. Investigar é procurar resposta para o problema que nos propusemos tratar. Só é possível pela compreensão pessoal e crítica e pela capacidade da sua comunicação. Traduzindo: copiar é vigarice e incapacidade de explicar o que se escreveu apenas significa que não se investigou nada.

O objectivo do trabalho consiste em aprender a investigar em Filosofia, desenvolvendo processos autónomos de reflexão. Trata-se obviamente de um processo que se desenvolve ao longo das suas fases de execução. Um acompanhamento mais próximo permite corrigir eventuais insuficiências.


Orientação para a fase de projecto.

Antes de começar, é necessário ter uma visão global do trabalho a desenvolver. É o projecto de investigação que define tudo o que se fará em seguida.
Exige portanto escolhas fundamentadas e todas as dúvidas deverão ser esclarecidas antes da sua conclusão.
O projecto deverá clarificar:
1. Qual é o tema ou problema (filosófico) da investigação e justificar a escolha.
2. As fontes de apoio para o trabalho (bibliográficas e outras).
3. A estrutura do trabalho (esboço de índice, sequência de temas…).
3. Os procedimentos (método a utilizar, actividades a desenvolver).
4. Um calendário de tarefas.

A escolha do tema

Definir o problema e a pergunta de partida com rigor e clareza.

Definição do que se pretende fazer no trabalho.

Estrutura (índice, partes em que se divide e sua sequência)

Gosto do tema?
É um problema filosófico?
É interessante e importante?
Está definido com clareza e rigor?
Não é demasiado vasto?
Sei onde começa e acaba?
Sou capaz de estabelecer um plano de resposta ao problema (sequência de sub-temas, “partes” interligadas, método de trabalho)?
Tenho consciência de onde me estou a meter? Sei como vou fazer?
Tenho tempo para fazer o que me propus?

As fontes e os recursos

Fontes bibliográficas.
Fontes em suporte informático.
Especialistas.
Outros.


Como encontrar, recolher e seleccionar informação adequada e pertinente?

Compreendo os textos?
Como torno “meu” aquilo que outros escreveram? Como me aproprio dos textos?

Como cito e respeito as fontes e as integro no meu texto pessoal?

O calendário

Ter os prazos em atenção e programar as fases do trabalho no tempo.
Programar “vendo o filme ao contrário”:

1. Qual é a data de entrega do trabalho?
2. Para atingir esse objectivo, quando devo terminar a redacção do trabalho (dar tempo para organizar bibliografia, índice, tratar da encadernação, etc.)?
3. Para atingir o objectivo anterior, até que data devo ter os materiais lidos e os apontamentos pessoais elaborados?
4. Para atingir o objectivo anterior, quando devo ter reunidos e seleccionados os materiais necessários à investigação?
5. Para atingir o objectivo anterior, até quando devo ter bem definido o tema e o plano da pesquisa?

PROCEDA À AVALIAÇÃO DO SEU PROJECTO/PLANO CONSIDERANDO OS SEGUINTES ITENS:              

1
Identificação do tema/problema
-       é um tema/problema filosófico
-       está correctamente formulado
-       questões da investigação correctamente formuladas

2
Justificação da escolha (interesse e relevância do problema, justificação da opção pessoal)

3
Desenvolvimento
-       revela consciência das tarefas a realizar
-       revela coerência entre o tema/problema e os propósitos da investigação e organização do trabalho
4
Estrutura e expressão escrita
-       organização, encadeamento e estrutura do discurso
-       qualidade da expressão escrita
5
Apresentação formal
-       Apresentação, arrumação, limpeza, legibilidade
-       Clareza estrutural (índice, títulos, numeração, organização)
6
Identificação das fontes. Referências bibliográficas
-       referências adequadas aos conteúdos do projecto
-       referência formalmente correcta

Ana Ávila da Silva / Florbela Veríssimo Pires, Maleta de Filosofia