quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

O Empirirsmo e o Racionalismo (O problema da origem do conhecimento)

Imagem de Gilbert Garcin
O problema da origem do conhecimento
Introdução
A epistemologia, também chamada teoria do conhecimento ou gnosiologia, é o ramo da filosofia interessado na investigação da natureza, fontes e validade do conhecimento. Entre as questões principais que ela tenta responder estão as seguintes: O que é o conhecimento? Como nós o alcançamos? Podemos conseguir meios para defendê-lo contra o desafio céptico? Essas questões são, implicitamente, tão velhas quanto a filosofia.
Um passo óbvio na direcção de responder à primeira questão é tentar uma definição de conhecimento. A definição padrão, preliminarmente, é a de que o conhecimento é crença verdadeira justificada. Esta definição parece plausível porque, ao menos, ela dá a impressão de que para conhecer algo alguém deve acreditar nele, que a crença deve ser verdadeira, e que a razão de alguém para acreditar deve ser satisfatória à luz de algum critério, pois alguém não poderia dizer conhecer algo se a sua razão para acreditar fosse arbitrária ou aleatória. Assim, cada uma das três partes da definição parece expressar uma condição necessária para o conhecimento, e a reivindicação é a de que, tomadas em conjunto, elas são suficientes.

A origem do conhecimento
Paralelamente a esse debate sobre como definir o conhecimento há um outro sobre como o conhecimento é adquirido. Na história da epistemologia tivemos duas principais escolas de pensamento sobre o que constitui o meio mais importante para o conhecer. Uma é a escola "racionalista", que mantém que a razão é responsável por esse papel. A outra é a "empirista", que mantém que é a experiência, principalmente o uso dos sentidos, ajudados, quando necessário, por instrumentos, que é responsável por tal papel.
O paradigma de conhecimento para os racionalistas é a matemática e a lógica, onde verdades necessárias são obtidas por intuição e inferência racionais. Questões sobre a natureza da razão, a justificação da inferência e a natureza da verdade, especialmente da verdade necessária, são um desafio para esta corrente.
O paradigma dos empiristas é a ciência natural, onde observações e experimentações são cruciais para a investigação.
|Elliott Sober. Tradução de Paula Mateus. Texto retirado do livro Core Questions in Philosophy, de Elliott Sober (Prentice Hall, 2008), in http://criticanarede.com/fil_con

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Imagina que enfrentaste o cepticismo e superaste o desamparo em que ele queria deixar-te. Vais pressupor que sabemos algumas coisas. Mesmo que esse conhecimento seja trivial, isso basta para os nossos propósitos. Por exemplo, sabes que "a teoria de Darwin é tratada na página 99 do manual de Biologia"; se alguém te perguntar por que razão o sabes, a tua resposta será "porque consultei o manual e vi que a teoria de Darwin era tratada na página 99". Sabes que "o mar está calmo" porque foste à praia e viste que o mar estava calmo. Nos dois casos, afirmas que tens conhecimento com base no que viste. A experiência de ver é a justificação para as tuas crenças. Daí podermos dizer que a experiência é a origem destes conhecimentos. A teoria associada à ideia de que a origem do conhecimento está na experiência é o empirismo. Na sua forma extrema, o empirismo defende que, em última instância, todo o conhecimento deriva de, ou consiste em, verdades obtidas apenas a partir da experiência (a posteriori).

Considera um exemplo diferente. Imagina que tens três gatinhos e dois cestos e que vais distribuir alguns gatinhos por um dos cestos e alguns gatinhos pelo outro. Quantas maneiras tens de o fazer? Poderás descobrir experimentando e contando todas as possibilidades. Ou poderás descobrir raciocinando da seguinte maneira: o primeiro gatinho pode ir para o cesto direito ou para o esquerdo, o que dá duas maneiras de começar; cada uma destas maneiras pode ser continuada pondo o segundo gatinho no cesto direito ou no cesto esquerdo, o que faz duas vezes duas ou quatro maneiras de realizar a tarefa; por último, o terceiro gatinho pode ir para o cesto direito ou esquerdo, o que dará um total de quatro vezes duas ou oito maneiras de distribuir os gatinhos pelos cestos. Neste caso, descobres quantas maneiras tens de distribuir os gatinhos sem recorrer a indícios empíricos; sabes a verdade previamente a qualquer indício empírico. Se tiveste dificuldade em entender este exemplo, podes simplesmente pensar num exercício de aritmética elementar como somar 85 a 23. Caso resolvas o exercício apenas pelo pensamento, dispensando o recurso a uma máquina de calcular, também neste caso sabes a verdade previamente a qualquer indício empírico. Diz-se por isso que estes conhecimentos são a priori: a sua origem está na razão. A teoria associada à ideia de que a origem do conhecimento está na razão é o racionalismo. Na sua forma extrema, o racionalismo defende que, em última instância, todo o conhecimento deriva ou depende de verdades obtidas apenas a partir da razão (a priori).

O a priori e o a posteriori são modos de conhecimento. Os exemplos dos gatinhos e da soma é elucidativo: podes saber certas coisas de um modo a priori ou a posteriori. Se sabes através da experiência, sabes a posteriori, se sabes pelo pensamento apenas, sabes a priori. Em si, as crenças não são a priori ou a posteriori. Mas não penses que a noção de a priori é pacífica entre os filósofos especializados na discussão de questões epistémicas. Aceitar que podemos conhecer coisas a priori é, em geral, aceitar que podemos saber coisas acerca do mundo sem olhar para ele, independentemente da experiência. Contudo, não é fácil explicar como isso é possível, e alguns filósofos rejeitam que isso seja possível.
Arrumar os filósofos mais importantes da Idade Moderna em racionalistas e empiristas poderá ser útil para fins didácticos, mas deves ter consciência desde já que na maior parte dos casos se trata de uma simplificação grosseira por não dar conta das diferenças subtis entre os filósofos em questão. Poucos foram os filósofos que exemplificaram sem sombra de dúvida a forma extrema de racionalismo ou a forma extrema de empirismo. Isto quer dizer que na maior parte dos casos há apenas uma diferença relativamente ao tipo de explicação que se tem do a priori. Dito isto, vais agora estudar Descartes, filósofo francês do século XVII, do lado do racionalismo; e do lado do empirismo, David Hume, filósofo escocês do século XVIII.

Questões de revisão:

1. Segundo o empirismo, qual é a justificação última das crenças?
2. Segundo o racionalismo, qual é a justificação última das crenças?
3. Mostra, recorrendo a exemplos diferentes dos que são apresentados no texto,  o que é o a priori e o a posteriori, explicando esses exemplos.


segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

"O homem é a medida de todas as coisas"

Imagem de Gilbert Garcin

Protágoras de Abdera (480 - 411 a.C.)

A base da filosofia de Protágoras está na máxima:

 "O Homem é a medida  de todas as coisas, daquelas que são por aquilo que são e daquelas que não são por aquilo que não são." 


Com essa máxima Protágoras tinha por objetivo negar a existência de um critério absoluto para distinguir o ser do não ser (e a verdade da falsidade). O critério para a diferenciação torna-se o homem, cada homem. Ele explica melhor: "Tal como cada coisa se apresenta para mim, assim ela é para mim, tal como ela se apresenta para você, assim ela é para você." O vento que sopra é frio ou quente? A resposta vai depender de cada pessoa, para algumas vai estar frio e para outras vai estar quente, dessa forma ninguém vai estar errado e a verdade vai estar em cada sujeito e no que ele pensa sobre a sua experiência.

Se os homens são a medida de todas as coisas, por consequência, nenhuma medida pode ser a medida para todos os homens. As coisas assim vão ser definidas pelas pessoas que as definem, o que vale para determinada situação não vai valer para outras. As coisas vão ser conhecidas particularmente por cada indivíduo.

Protágoras ensinava também técnicas e métodos para  tornar um argumento fraco num argumento forte. Ele ensinava a aptidão de fazer sobressair um ponto de vista sobre um ponto de vista contrário. Os homens têm em si a faculdade de julgar com justiça, a função do sofista é fazer com que eles expressem essa capacidade.

Para ele as coisas são portanto relativas aos indivíduos e aos seus pareceres. Não existe uma verdade absoluta assim como não existem padrões morais absolutos, o que existem são coisas mais oportunas, úteis e convenientes. A pessoa sábia vai ser aquela que consegue distinguir o que é mais vantajoso e decente para cada situação. O sábio vai conseguir também convencer os outros a reconhecer essa qualidade superior e fazer com que eles a ponham em prática.

Protágoras afirmou também que em relação aos deuses ele não poderia afirmar se existem ou se não existem pois muitas coisas o impediam de fazer tais afirmações, ele considerava o assunto obscuro e a vida demasiado breve para se encontrar uma resposta para a questão. Mostrava-se agnóstico nas suas crenças pois o divino vai além da capacidade humana de compreensão dessa experiência sendo o homem limitado no seu saber. Para ele era possível criarmos argumentos tanto a favor como contra a existência dos deuses.

Ele dizia ainda que os sábios e os bons oradores deveriam guiar através de conselhos as outras pessoas.

Aforismos:
- Sobre qualquer questão existem dois argumentos contrários entre si.
- Sobre os deuses não posso saber se existem ou se não existem.
- Das coisas belas umas são belas por natureza e outras por lei, mas as coisas justas não são justas por causa da natureza, os homens estão continuamente a disputar pela justiça e a alteram também continuamente.
- Toda a vida do homem tem necessidade de ordem e de adaptação.

domingo, 13 de dezembro de 2015

Auditório Universal



No quadro da teoria da argumentação, o auditório universal é uma noção descritiva que caracteriza um género específico de discurso: o discurso  filosófico. Ela é forjada para responder à questão: «como representaremos  para nós próprios os auditórios aos quais é conferido o papel normativo que permite decidir do carácter convincente de uma argumentação? 
Os filósofos aspiram à universalidade e não se contentam em ser persuasivos: aspiram a convencer e isso é indissociável do recurso a uma imagem de razão que procuram incarnar com o seu discurso. Uma consideração histórica das  aspirações filosóficas mostra a recorrente associação entre a imagem de  razão, as características da necessidade e da universalidade e a  consideração da razão como razão eterna. Neste sentido, escrevem, «uma  argumentação que se dirige a um auditório universal deve convencer o  leitor do carácter constrangedor das razões fornecidas, da sua evidência,  da sua validade intemporal e absoluta, independentemente das  contingências locais ou históricas» (Perelman & Olbrechts-Tyteca). 
Neste sentido, o recurso ao auditório universal surge como «norma  de argumentação objetiva» (Perelman & Olbrechts-Tyteca),  ainda que esta norma seja sempre construída pelo próprio orador. [...]Independentemente da conceção associada ao auditório universal, este caracteriza-se por ser um apelo à razão.
[...]É esta vocação para a universalidade que, em última análise, faz da filosofia um diálogo sem fim e do tipo de justificação  da racionalidade filosófica algo que não se encontra, nunca, concluído. 
[...]O auditório universal é assim uma noção normativa intimamente ligada à conceção retórica da filosofia e ao seu  papel positivo de regulação dos homens enquanto comunidade cuja  partilha e comunhão de princípios e valores universais implicam uma ideia  de razão como razoabilidade e assente na historicidade das práticas  sociais.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Os atos do pensamento e a sua expressão lógica


   



Devemos esclarecer a distinção lógica entre os actos do pensamento e a sua expressão em termos de linguagem formal: no caso do conceito, este é expresso na linguagem natural através da palavra. Como a Lógica se deve afastar o mais possível da ambiguidade polissémica da linguagem natural, o conceito é expresso através do termo. 
Assim, o termo corresponde à designação lógica do símbolo, ou conjunto de símbolos, que se convencionou utilizar para expressar um conceito. De igual modo, a expressão lógica de um juízo designa-se proposição, enquanto que a expressão lógica de um raciocínio tem a designação lógica de argumento. Por razões práticas, daqui para a frente poderemos referir-nos quer aos conceitos, juízos e raciocínios, quer aos termos, proposições e argumentos, ficando estabelecido que, do ponto de vista prático, é indiferente utilizarmos um ou outro tipo de designação. 
Para que se compreenda esta correspondência, consulte-se o seguinte quadro:




O que é definir um conceito?

Tipos de definições

Há quem defenda que definir um conceito é dizer em que consiste e caso não saibamos defini-lo dessa maneira também não estamos em condições de o utilizar adequadamente. Defender isto é o mesmo que dizer que há apenas uma forma de definir conceitos, o que não é o caso. Ao contrário do que é vulgar pensar-se, não existe apenas um tipo de definições. Sabemos utilizar perfeitamente o conceito “azul” sem que, no entanto, o possamos definir dessa maneira. Não o saber definir dessa maneira não é o mesmo que o não poder definir. Para compreendermos isso é preciso distinguir dois tipos de definições: definições explícitas e definições implícitas.

Diz-se que uma definição é explícita quando apresentamos as condições necessárias e suficientes do conceito a definir. Mas o que são condições necessárias e suficientes? Oferecemos uma condição necessária de X se apresentarmos uma propriedade que qualquer objecto tem de ter para ser X. Por exemplo, se dissermos que uma mãe é alguém que já teve filhos, estamos apenas a referir uma condição necessária para alguém ser mãe (de facto ninguém pode ser mãe se não tiver tido pelo menos um filho); só que isso não é suficiente, pois há pessoas que já tiveram filhos, como é o caso dos homens com filhos, e que não são mães. A condição necessária aplica-se a todas as mães, mas não tem de se aplicar só às mães. Temos, pois, de definir “mãe” de tal maneira que a definição inclua as mães e só as mães, o que se faz indicando a condição suficiente. Uma condição suficiente de X é uma característica tal que se um qualquer objecto a possui, então esse objecto é X. Isso indica-nos que se trata de uma característica de X e apenas de X. A condição suficiente de X não nos garante, pois, a inclusão de tudo o que queremos incluir na definição de X. Para dar um exemplo, é condição suficiente viver no Algarve para viver em Portugal, embora essa não seja uma condição necessária. Afinal de contas, as pessoas que vivem no Minho também vivem em Portugal. Voltando ao meu primeiro exemplo, se quisermos dar uma definição explícita de “mãe” teremos de dizer qualquer coisa como isto: “alguém é uma mãe se, e somente se, é do sexo feminino e já teve filhos”. Ser do sexo feminino e ter tido filhos são em conjunto propriedades suficientes para alguém ser mãe; mas cada uma delas em separado é apenas condição necessária.

Já numa definição implícita não temos de oferecer as condições necessárias e suficientes de um conceito. Exigir, por exemplo, as condições necessárias e suficientes do conceito de azul, é fazer uma exigência que não pode ser satisfeita. Penso que o mesmo acontece também com o conceito de filosofia. Daí o embaraço do professor de filosofia quando o aluno lhe pede que defina a disciplina que lecciona. Significa isso que não podemos definir tais conceitos? Se estivermos a pensar numa definição explícita, é claro que não. Mas é perfeitamente possível dar uma definição implícita, que é o que fazemos com as crianças quando lhes queremos ensinar as cores (e com os alunos quando nos perguntam o que é a filosofia) e o que provavelmente teríamos de fazer se nos aparecesse por aí algum extraterrestre interessado em compreender o que dizemos. Assim, para dar uma definição de X, usamos esse conceito em situações diferentes de tal modo que, ao fazê-lo, estamos a exemplificar as propriedades dos objectos que com X queremos identificar. Diríamos, então, ao extraterrestre que o céu (poderíamos até apontar) é azul, que o mar é azul, que as camisolas do Belenenses são azuis, e por aí em diante.

Definições e caracterizações

Mas acontece, ainda assim, que muitas das nossas definições implícitas nos deixam insatisfeitos. Precisamos de saber algo mais acerca dos conceitos definidos. Algo que seja relevante para a compreensão do conceito e que nos informe acerca das propriedades mais importantes dos objectos que fazem parte da sua extensão. Para isso é que servem as caracterizações, isto é, a apresentação das principais características daquilo que os conceitos referem. No caso da filosofia, o professor pode apontar exemplos de problemas, teorias e argumentos filosóficos. Estará assim a dar uma definição implícita de filosofia. Mas pode e deve ir mais longe, fazendo acompanhar a sua definição de uma caracterização. Nesse sentido, poderá referir o que distingue os problemas filosóficos dos problemas científicos e religiosos; as teorias filosóficas das teorias científicas, religiosas e artísticas, etc. É claro que tal caracterização nunca irá ser exaustiva nem pacífica, mas, concordemos ou não com ela, sempre clarifica aquilo que se tem em mente quando se usa tal conceito.

Aires Almeida
http://criticanarede.com/fil_tresteoriasdaarte.html



A definição dos conceitos – Regras da definição

Definir um conceito é, de acordo com a natureza formal dos conceitos, clarificar e distinguir com rigor a sua compreensão, de forma a que se possa delimitar com exactidão a sua extensão. Assim, ao definirmos um conceito, devemos centrar-nos na análise da sua compreensão, porque é quanto à compreensão que os conceitos se distinguem uns dos outros ( dois conceitos diferentes podem ter uma extensão equivalente ). E se atendermos ao conteúdo da regra RC1, a explicitação da compreensão de um conceito é suficiente para podermos conhecer a sua extensão.

Quanto melhor definidos os conceitos forem, mais rigorosos serão os nossos enunciados. Logo, a definição assume uma importância fulcral no que diz respeito aos saberes racionais, principalmente no domínio das ciências ( se bem que a sua importância também seja primordial em filosofia ). Por isso, é importante que aprendamos a definir correctamente os conceitos que empregamos. Para tal, necessitamos de seguir um pequeno conjunto de regras, que se referem à estrutura formal da definição dos conceitos. Uma definição que viole qualquer dessas regras é formalmente inválida, não podendo ser aceite como uma definição adequada do conceito a definir. 

As regras que indicamos a seguir, são as regras gerais da definição. Cada área do saber racional, para além de seguir essas regras gerais, pode seguir regras específicas, que devem ser estabelecidas no âmbito de cada disciplina, não pertencendo, por isso, ao campo da Lógica. Daí que as definições em Matemática obedeçam, para além das regras gerais da definição, a regras específicas da Matemática, o mesmo acontecendo com cada uma das ciências, de acordo com os seus métodos de investigação e do seu objecto de estudo.   


O princípio dos indefiníveis Não podem definir-se quer os conceitos singulares, quer os conceitos mais gerais ( Ser, etc. ); no primeiro caso, devido à impossibilidade de delimitar a compreensão dos conceitos singulares; no segundo caso, devido à impossibilidade de delimitar a extensão dos conceitos mais gerais.




segunda-feira, 12 de outubro de 2015

A Validade e a Verdade




Ficha 03 - A Validade e a Verdade - Ver Transferir (em pdf)










Validade e solidez dos argumentos
Comecemos com o termo «válido». Na linguagem quotidiana, as pessoas falam de alguém ter uma opinião válida ou de ter afirmações válidas. No discurso filosófico, contudo, o termo «válido» não se aplica a opiniões, nem a frases, nem a ideias. O termo válido é exclusivamente reservado à avaliação de argumentos. Só os argumentos podem ser válidos. Apesar de contrariar uma forma de falar e de pensar, até aqui não há problemas de maior. Trata-se de respeitar a linguagem técnica própria de cada disciplina. Contudo, os problemas começam quando apresentamos exemplos de argumentos válidos tais como este:

Qualquer fatia de queijo é mais inteligente do que um estudante de filosofia
O meu gato é uma fatia de queijo
Logo, o meu gato é mais inteligente do que um estudante de filosofia
Trata-se de um argumento completamente disparatado mas, apesar disso, do ponto de vista estritamente lógico, é um exemplo perfeito de argumento válido. O que se passa?

Definindo validade dedutiva
A validade é uma propriedade de argumentos bem construídos. No caso dos argumentos dedutivos - os mais usados em filosofia – a conclusão é apresentada como consequência necessária das premissas.
O que é intrigante para muitas pessoas é que um argumento pode ser válido mesmo que as suas premissas e conclusão sejam todas falsas. A validade é essencialmente uma característica da forma ou estrutura de um argumento. Por isso mesmo, no que respeita à validade, o conteúdo (a verdade ou a falsidade factual) das proposições que os compõem é irrelevante.
Consideremos a estrutura. O argumento que apresentámos sobre gatos, queijo e estudantes de filosofia é um exemplo de uma estrutura argumentativa com a forma:
Todos o A são B
(Qualquer fatia de queijo é mais inteligente do que um estudante de filosofia)
C é A
(O meu gato é uma fatia de queijo)
Logo, C é B
(Logo, o meu gato é mais inteligente do que um estudante de filosofia)
 No nosso exemplo, fatia de queijo é substituída por A e seres que são mais inteligentes do que qualquer estudante de filosofia é substituída por B.O meu gato é um termo substituído por C.
O que se deve notar é que não é preciso atribuir nenhum significado a estas variáveis para ver que este argumento temforma válida ou seja que é correcto. Sejam quais forem os termos que usemos para substituir aquelas variáveis a conclusão será sempre uma consequência necessária das premissas seconsiderarmos as premissas verdadeiras (embora não o sejam neste caso).A conclusão, correctamente obtida, só pode ser também verdadeira.
A noção de validade é neutral a respeito do conteúdo das proposições de um argumento. Não interessa qual é o conteúdo das proposições do argumento, não interessa o seu valor de verdade. Quando se trata da validade o que importa é a correcção lógica na ligação entre premissas e conclusão. O nosso exemplo é o de um argumento perfeitamente válido: se as suas premissas ridículas forem consideradas verdadeiras, a sua ridícula conclusão também terá de ser verdadeira porque da verdade (suposta ou factual) não pode logicamente derivar a falsidade. Que premissas e conclusão sejam ridículas não impede em nada que o argumento seja válido, bem construído. 

Argumentos sólidos ou bons
É evidente que em filosofia, nas ciências e noutras áreas do saber pretendemos mais do que rigor lógico do pensamento. Queremos argumentos bons com premissas e conclusão de facto verdadeiras ou pelo menos muito credíveis.
Dizer que um argumento é válido não significa dizer que é sólido. Estamos perante um argumento sólido quando e só quando (1) o argumento é válido e (2) as premissas são de facto verdadeiras (e por conseguinte, a conclusão também é verdadeira). Podemos colocar esta explicação sob a forma de um argumento condicional. Dizer que um argumento é sólido é dizer duas coisas que podem ser entendidas como premissas:

1)      Se as premissas do argumento são ditas verdadeiras, então a conclusão tem de ser verdadeira. (significa que o argumento é válido)
2)      As premissas do argumento são de (facto) verdadeiras.
3)      Por conseguinte a conclusão do argumento é verdadeira.


A importância da validade

Um argumento só é sólido se for válido mas ser válido não é suficiente para ser sólido. Um argumento para ser sólido tem de ser válido e também constituído por premissas de facto verdadeiras.
Apesar do que dissemos, há quem se interrogue sobre a grande importância atribuída à validade. No fim de contas, dirão alguns, um argumento válido pode ser absurdo no seu conteúdo e falso na sua conclusão. Na verdade, a solidez é o que realmente procuramos num argumento. Fixa, contudo, que a validade é um componente indispensável da solidez: não há solidez sem validade».
Baggini,Julian e S.Fosl,Peter, The philosopher’s toolkit,Blackwell,pp12-14.
Texto copiado daqui.


domingo, 11 de outubro de 2015

Um Toque de Canela




O filme 'Um Toque de Canela', sendo sobre gastronomia não deixa de ser uma reflexão sobre o sentido da existência. O avô de Fanis, a personagem principal do filme, faz a ligação entre a palavra 'gastronomia' e a palavra 'astronomia' - a arte da cozinha, assente no sortilégio dos condimentos e da magia da combinação dos ingredientes e a ciência que estuda o universo, o cosmos, como os antigos gregos lhe chamaram, veem-se misturadas nos vários níveis em que o filme se desenrola. E aqui não é de estranhar que Fanis, o menino que aprende a cozinhar e se torna fanático da arte culinária, o jovem que se torna um cozinheiro virtuoso, acabe por se tornar num famoso astrofísico com uma grande reputação académica. 

O astrónomo gastrónomo mostra-nos como o sentido da nossa vida se faz da interligação das pequenas coisas, misturadas na memória, mesmo quando estão separadas pelo tempo e pelo espaço, ambos relativos à forma como ligamos as nossas experiências dando-lhe um sentido único, ao mesmo tempo pessoal e universal - porque nunca somos desligados do todo, mesmo ínfimos, fazemos parte do universo imenso que mais parece um bailado que a tudo envolve, como nos é mostrado no final do filme quando Fanis regressa à loja do avô e se lembra da ligação entre as palavras mágicas que dão sentido ao filme, a gastronomia, representada pela farinha, o açúcar, os outros condimentos que Fanis dispõe sobre a mesa representado a Via Láctea, mostrando a ligação desses elementos primitivos da cozinha à astronomia. Ora a Via Láctea no seu nome tem um dos sabores mais universais - na realidade talvez o único que é verdadeiramente universal no que se refere à espécie humana, uma espécie de mamífero. Trata-se, como é óbvio, do leite. O outro sabor universal será o açúcar (o doce). 

Estes sabores estão representados pelo seio que aparece em dois momentos fulcrais do filme, mostrando que os seres humanos buscam desde o berço o consolo do aleitamento e o contentamento da doçura, talvez por isso desde há milénios se fala da terra prometida como um lugar onde jorram o leite e o mel. E isto coloca-nos perante o problema da felicidade. 

De facto este é um filme sobre a felicidade, sobre o sentido da existência e, também, sobre a forma como os seres humanos podem, dando sentido à sua vida, viver uma vida prazenteira e, ao mesmo tempo, repleta de significado.

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Atividade:  Elaborar uma reflexão crítica sobre o filme.

Ficha sobre o filme 'Um Toque de Canela', em formato para ser impresso e passado à mão.  Ver Transferir

Ficha sobre o filme 'Um Toque de Canela', em formato Word para ser processado no computador e enviado por email . Ver Transferir

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Ficha/modelo 01


Ficha/modelo01 - Ficha/modelo para elaboração de fichas de trabalho. Em formato Word para processar no computador.  Ver Transferir 

Ficha/modelo01 - Ficha/modelo para elaboração de fichas de trabalho. Em formato pdf para preencher à mão.                   Ver Transferir