domingo, 8 de maio de 2016

Senso comum e conhecimento científico



O senso comum (conhecimento vulgar)

Texto 1 

O senso comum é um saber que nasce da experiência quotidiana, da vida que os homens levam em sociedade. É, assim, um saber acerca dos elementos da realidade em que vivemos; um saber sobre os hábitos, os costumes, as práticas, as tradições, as regras de conduta, enfim, sobre tudo o que necessitamos para podermos orientar-nos no nosso dia-a-dia: como comer à mesa, acender a luz de uma sala, acender a televisão, como fazer uma chamada telefónica, apanhar o autocarro, o nome das ruas da localidade onde vivemos, etc.,etc...
É, por isso, um saber informal, que se adquire de uma forma natural (é espontâneo), através do nosso contacto com os outros, com as situações e com os objetos que nos rodeiam. É um saber muito simples e superficial, que não exige grandes esforços, ao contrário dos saberes formais (tais como as ciências) que requerem um longo processo de aprendizagem escolar.
O senso comum adquire-se quase sem se dar conta, desde a mais tenra infância e, apesar das suas limitações, é um saber fundamental, sem o qual não nos conseguiríamos orientar na nossa vida quotidiana.
Sendo assim, torna-se facilmente compreensível que todos os homens possuam senso comum, mas este varia de sociedade para sociedade e, mesmo dentro duma mesma sociedade, varia de grupo social para grupo social ou, também, por exemplo, de grupo profissional para grupo profissional.
Mas, sendo imprescindível, o senso comum não é suficiente para nos compreendermos a nós próprios e ao mundo em que vivemos, pois se na nossa reflexão sobre a nossa situação no mundo, nos ficarmos pelos dados do senso comum, por assim dizer os dados mais básicos da nossa consciência natural, facilmente caímos na ilusão de que as coisas são exatamente aquilo que parecem, nunca nos chegando a aperceber que existe uma radical diferença entre a aparência e a realidade.


Posições face à relação entre o senso comum e a ciência

Bachelard

– Ruptura – Tese descontínuista:
• É necessária uma ruptura epistemológica, ou seja, um corte entre o senso comum e a ciência;
• As opiniões a que os cientistas aderem são o principal obstáculo (=senso comum) que impede a chegada a um conhecimento objetivo;
• O conhecimento científico constrói-se em luta contra os obstáculos;
• A opinião traduz necessidades em conhecimentos, ou seja, impede que se veja aquilo que realmente é.

Texto 2 

“Quando nós lemos num livro de química contemporânea que "a estrutura cristalina do gelo é análoga à da wurtzita", que é um sulfureto de zinco, nós sabemos que estamos, evidentemente, numa outra perspectiva de pensamentos em relação ao senso comum. Nós abandonamos a linha das experiências primitivas, dos interesses cósmicos primitivos, dos interesses estéticos. A nossa  consciência quando é dirigida sobre um objeto natural dá-nos uma objetividade ocasional. E ao mesmo tempo uma intencionalidade sem grande profundidade, subjetiva e sem alcance verdadeiramente objetivo. Uma tal intencionalidade vai no máximo dar-nos uma revelação da consciência ociosa, da consciência livre precisamente porque ela não encontrou um verdadeiro interesse de conhecimento objetivo, um verdadeiro envolvimento com a realidade.
Precisamente no simples exemplo que nós acabamos de evocar, e que comparávamos o gelo e o sulfureto de zinco, vê-se aparecer a ruptura da intencionalidade do conhecimento científico e da intencionalidade da consciência comum.
A especialização é um penhor de intencionalidade estritamente penetrante. Ela remete, do lado do sujeito, a camadas profundas, onde o racional é mais profundo que o simples consciencial. Numa experiência que envolve a cultura científica, como o quer a aproximação gelo-wurtzita, há, pelo menos, consciência desdobrada da observação e da experimentação.
Mas a vantagem filosófica do trabalho científico para uma meditação deste aprofundamento racionalista da consciência, é que este trabalho é produtivo, é que ele é materialmente inovador: ele determina a criação de matérias novas.
A química moderna  não pode nem deve deixar nada no seu estado natural. Nós dissemos que ela deve tudo purificar, tudo retificar, tudo recompor.”
Gaston Bachelard, Le Matérialisme rationnel, 1953. Retirado da Revista Tempo Brasileiro n. 28, 1972.
(Texto adaptado).

Popper

– Prolongamento – Tese contínuista:
• Defende a continuidade entre o senso comum e a ciência;
• Apesar das diferenças entre eles, têm um grau de parentesco;
• A ciência é o prolongamento do senso comum;
• É um acrescimento e um aperfeiçoamento;
• As suas diferenças são apenas de grau (a ciência é mais desenvolvida);
• Defende que o senso comum é o ponto de partida para todo o conhecimento do real;
• O senso comum tem um caráter inseguro;
• O grande instrumento para progredir (avançar do senso comum para o conhecimento científico) é a crítica.
• Toda a ciência e filosofia são senso comum esclarecido (nelas tudo é sujeito a crítica).

A teoria do balde

Texto 3 
"Ainda que deva ser criticado, o senso comum tem de ser sempre o nosso ponto de partida.
A teoria do senso comum é muito simples. Se qualquer um de nós desejar conhecer algo que desconhece sobre o mundo, não terá mais que abrir os olhos e olhar em volta. Temos de dirigir as orelhas e ouvir os ruídos. Os diversos sentidos são pois as nossas fontes de conhecimento  - as fontes ou os acessos à nossa mente. Referi-me muitas vezes a esta teoria, designando-a a teoria da mente, como um balde.
A nossa mente é, em princípio, um balde, mais ou menos vazio, que se enche através dos sentidos.
No mundo filosófico esta teoria é designada por teoria da mente como tábua rasa! A nossa mente é um recipiente vazio em que os sentidos gravam as mensagens. A tese importante da teoria do balde é que aprendemos a maioria das coisas, senão todas, mediante a entrada da experiência através das aberturas dos nossos sentidos, de modo que toda a experiência consta de informação recebida através dos sentidos.
A teoria do senso comum está errada em vários pontos. É essencialmente uma teoria sobre a génese do conhecimento: a teoria do balde debruça-se sobre a nossa aquisição de conhecimentos - em grande medida passiva -, pelo que também constitui uma teoria do que denominei o aumento de conhecimento, ainda que como teoria do aumento de conhecimento seja manifestamente falsa. A teoria da tábua rasa é absurda: em cada estádio da evolução da vida temos de supor a existência de algum conhecimento sob a forma de disposições e expectativas.
Posto isto, o aumento de conhecimento consiste na modificação do conhecimento prévio, quer alterando-o, quer destruindo-o.
O conhecimento não parte nunca do zero, pressupõe sempre um conhecimento básico - conhecimento que se dá por suposto num momento determinado - juntamente com algumas dificuldades e alguns problemas. Regra geral surgem do choque entre as expectativas inerentes ao nosso conhecimento básico e algumas descobertas novas, como observações ou hipóteses sugeridas por eles.
A ciência, a filosofia e o pensamento racional surgem todos do senso comum. O senso comum, contudo, não é um ponto de partida seguro: o termo senso comum que aqui emprego é muito vago porque denota algo vago e mutante - os instintos e opiniões das gentes, muitas vezes adequados e verdadeiros, mas muitas outras inadequados ou falsos. Toda a ciência é, tal como a filosofia, senso comum ilustrado.
A minha primeira tese é que partimos do senso comum, sendo a critica  o nosso grande instrumento de progresso."
Karl. Popper, Conhecimento Objectivo. Texto adaptado.

Síntese:

Conhecimento vulgar/Senso comum:
• Espontâneo;
• Assistematicamente construído a partir da transmissão social, das informações sensoriais e da experiência;
• Permite-nos resolver os problemas do nosso quotidiano;
• Não nos dá uma explicação, pois não ultrapassa aquilo que é visível;
• Dá-nos por vezes, informações erradas, pois não vai até ao fundo da questão;
• Ametódico – não segue determinadas regras/métodos;
• Assistemático – não é organizado;
• Acrítico – muitas vezes é entendido como dogmático (como verdade incontestável);
• Subjetivo – não é rigoroso nem preciso e depende de cada pessoa e da sua opinião;
• Apesar de inferior à ciência, não deve ser menosprezado.

Conhecimento científico/Ciência:
• Sistematizado e metódico (organizado e respeita determinados métodos/regras);
• Utiliza a experiência, mas também raciocínios, provas e demonstrações que permitem atingir conclusões gerais/universais;
• Pretende formular leis e teorias explicativas;
• Explicação precisa e rigorosa;
• Fenómenos suscetíveis de verificação;
• Objetivo - trata apenas da questão em si, sem misturar ideias ou sentimentos pessoais; o cientista tem de ser imparcial.

O método científico: Verificacionismo versus Falsificacionismo



Karl Popper arranjou maneira de dar resposta à questão do indutivismo como método científico. 
O Indutivismo enquanto a concepção do método científico consiste, primeiramente, em considerar que é a partir de observações que são formuladas as hipóteses. Destas hipóteses retira-se uma conclusão generalizada e formula-se uma teoria. Esta, se for verdadeira para todos os casos, pode ser considerada verificada, isto é, comprovada a partir da experiência.
No entanto, o indutivismo sofre algumas críticas. Segundo esta perspectiva a investigação científica necessita que a observação seja pura e o cientista imparcial (não influenciável), mas não é o que ocorre na realidade, pois o cientista recorre ao auxilio de instrumentos para fazer as suas observações e acaba sempre por ser influenciado pelas teorias que já conhece.
Outra crítica é que existem teorias científicas que foram formuladas a partir de objetos não observáveis ou que, pelo menos, não eram observáveis na altura em que a teoria foi formulada.
Mais ainda, o método indutivo apresenta outro problema que já tinha sido discutido por David Hume que é o de justificar o princípio de indução. As inferências indutivas pressupõem o principio de indução, o qual requer que a Natureza seja uniforme. Esse principio não pode ser justificado a priori, pois não é uma verdade necessária. Também não pode ser justificado a posteriori, pois isto leva a formular outro argumento indutivo, o que leva a uma petição de princípio. Como principio de indução não pode ser justificado nem a priori nem a posteriori, então este principio é injustificável. Daí resulta o problema de mostrar que algumas das inferências que fazemos são justificadas.
Karl Popper que concorda com o argumento de Hume em relação ao método indutivo, constrói uma outra interpretação do método científico (hipotético-dedutivo) para justificar as teorias científicas e dissolve o problema da indução, mostrando que os problemas da indução não invalidam a credibilidade e racionalidade da ciência. Pois, segundo o seu ponto de vista, as teorias científicas não são descobertas a partir do método indutivo, mas sim utilizando apenas o raciocínio dedutivo, visto que é por dedução que se obtém as consequências preditivas das hipóteses que são experimentadas e que, se        forem corroboradas, se aceitam como teorias provisoriamente válidas.
A ciência evolui por tentativa e erro, isto é, uma conjectura deve ser sempre posta à prova por meio da experiência tentando mostrar que é falsa e se ela for falsa elimina-se essa conjectura e parte-se para outra; se esta resistir então, inicialmente, é corroborada. Mesmo assim, esta teoria corroborada pode ser mais tarde refutada e substituída por outra.
Assim, nunca temos a certeza de termos encontrado uma teoria verdadeira, mas sim uma teoria próxima da verdade que descobrimos por meio de eliminação das teorias falsas.

O Método Hipotético-Dedutivo






















O método hipotético-dedutivo, foi defendido por Karl Popper, a partir de uma crítica profunda ao indutivismo (ao verificacionismo). Nesse método o caminho para se chegar ao conhecimento passa pelas seguintes etapas:
- formulação de problemas;
-solução proposta através de uma conjectura;
-dedução das consequências na forma de proposições passíveis de testes;
-testes de falsificação (tentativa de refutação, entre outros meios, pela observação e experimentação.

Assim, de acordo com Kaplan, " o cientista, através de uma combinação de observação
cuidadosa, hábeis antecipações e intuição científica, alcança um conjunto de postulados que governam os fenómenos pelos quais está interessado, daí deduz as consequências por meio de experimentação e, dessa maneira, refuta os postulados, substituindo-os, quando necessários por outros."

Como se vê no esquema, ao contrário do que é defendido pelos seguidores do método indutivo, a investigação científica não parte da observação, mas de um problema que vai orientar os investigadores para procurarem uma resposta - como se vê, a observação é ela própria uma tentativa de resposta, pelo que não é neutra, nem um ponto de partida ingénuo, capaz de dar ao investigador acesso a um conhecimento definitivo sobre os fenómenos estudados - ao contrário do que defendem os verificacionistas indutivistas, a experiência é importante na investigação científica, mas é sempre necessário proceder a conjecturas racionais que permitam formular enunciados universais. Essas conjecturas ficam sempre sujeitas à refutabilidade empírica.



Para tentar explicar a dificuldade expressa no problema, são formuladas conjecturas (hipóteses). Das hipóteses formuladas, deduzem-se consequências que deverão ser testadas ou falsificadas. Falsificar significa tentar tornar falsas as consequências deduzidas das hipóteses. Enquanto no método indutivo se procura a todo custo confirmar as hipóteses, no método hipotético-dedutivo, pelo contrário, procuram-se evidências empíricas para refutá-las, ou seja, falsificá-las. Quando não se consegue demonstrar qualquer caso capaz de falsificar uma hipótese, tem-se a sua corroboração, ou seja, a hipótese sobrevive aos testes e será tida como uma teoria científica até que venha a ser refutada no futuro, nunca perdendo a sua natureza conjectural.
De acordo com Popper, a hipótese corroborada mostra-se válida, pois superou todos os testes, mas não definitivamente confirmada, já que a qualquer momento poderá surgir um facto que a invalide.
Concluindo, o método hipotético-dedutivo passa por fases certas e não discutíveis, com a idéia de um problema, parte para a observação cuidadosa, hábeis antecipação e intuição científica, dedução das consequências na forma de proposições passíveis de testes, quando não consegue mostrar o que pode falsear a hipótese, tem-se uma corroboração.
O método se funde na observação e, hipóteses que podem ser confundidos com o indutivo, pois também tem esse rumo de explicação, mas o hipotétivo- dedutivo não se limita a generalização com o empírico das observações segue o caminho das teorias e leis. Como os resultados podem deduzir e fazer previsões, que podem ser confirmadas ou negadas.
http://www.partes.com.br/reflexao/sobremetodos.asp
(não consultar este link porque pode induzir em erro os alunos, especialmente os que se estão a preparar para exame) Texto adaptado.

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Exercícios Silogismo (IV) - Teste Intermédio

1. Construa um silogismo válido da 2ª figura, com os seguintes termos:      
a) Termo Médio: 'Europeus';      
b) Termo Menor: 'Portugueses';      
c) Termo Maior: 'Pacifistas'.

 2. Dado o seguinte silogismo:

 Todos os animais são seres vivos
 Todos os homens são seres vivos
  Todos os homens são animais

 2.1. Identifique a figura e o modo do silogismo.
 2.2. Identifique a(s) falácia(s) formal(ais) presente(s) no silogismo. Justifique com base nas regras de validade silogística.

 3. Demonstre que:

 3.1. Todos os homens são animais;
 3.2. Alguns europeus são militares;
 3.3. Nenhuma baleia é peixe;
 3.4. Alguns europeus não são militares.

 4. Leia atentamente o texto: "António Rodrigues é um conhecido cientista ambiental. Numa conferência causou muita celeuma, porque defendeu que Os automóveis não são a principal causa das mudanças climáticas. Isto porque As emissões de metano são a principal causa das mudanças climáticas e porque os automóveis não produzem emissões de metano."

 4.1. Reduza este argumento à forma normal silogística.
 4.2. Este argumento é válido? Justifique com base nas regras de validade silogística.

________
Correção:

1.
Nenhum pacifista é europeu
Todos os portugueses são europeus
Nenhum português é pacifista


2. 
 Todos os animais são seres vivos
 Todos os homens são seres vivos
  Todos os homens são animais

2.1. Figura:2ª; Modo: AAA
2.2. Neste silogismo é cometida a falácia formal do termo médio não distribuído, uma vez que o termo médio não está distribuído em nenhuma das premissas, uma vez que, em ambas as premissas ocorre como predicado e, sendo estas proposições do tipo A, não têm o predicado distribuído.

3.1. 
Todos os primatas são animais
Todos os homens são primatas
∴Todos os homens são animais

3.2. 
Alguns militares são cidadãos da união europeia
Todos os cidadãos da união europeia são europeus
∴Alguns europeus são militares

3.3. 
Nenhum mamífero é peixe
Todos as baleias são mamiferos
∴Nenhuma baleia é peixe

3.4.
Nenhum militar é pacifista
Alguns europeus são pacifistas
Alguns europeus não são militares

O método indutivo (método experimental simples)




O método experimental foi desenvolvido por Galileu Galilei no âmago da revolução científica que deu origem à moderna visão do mundo. A popularidade deste método levou a que ficasse conhecido como método científico, mas as ciências utilizam outros métodos, onde e quando a experimentação é impossível. Nas ciências naturais o método experimental é muito mais utilizado do que nas ciências humanas, porque há limites éticos para a experimentação com seres humanos. Por exemplo, é impensável, para saber quais os efeitos da privação de alimentos nos seres humanos não se podem fazer experiências que causem sofrimento às possíveis cobaias. Assim pode recolher-se dados em situações de guerra ou catástrofe que não tenham sido provocadas pelos investigadores e que sejam inevitáveis. 
  Nas ciências naturais há, também, situações em que a experimentação não é possível: por exemplo, para saber se o impacto de um asteróide pode destruir um determinado planeta, não é possível (e se o fosse, não seria desejável) provocar a colisão de um asteróide com esse planeta. Podem, isso sim, fazer-se observações de fenómenos aproximáveis que possam ocorrer, por exemplo, a colisão de um asteróide com outro corpo celeste. Os avanços no campo da informática também permitem fazer simulações cujos resultados podem ser extrapolados estatisticamente para a realidade.  No entanto, mesmo nestas situações em que não é possível executar experimentações, pode afirmar-se que os princípios gerais do método indutivo são aplicados na investigação (podemos até considerar que este método se tornou progressivamente num modelo de cientificidade cujos princípios são seguidos pelos outros métodos científicos). Podemos sintetizar estes princípios da seguinte forma:
  • A natureza é uniforme (isso está pressuposto no Princípio da Razão Suficiente; tudo o que acontece pode ser explicado racionalmente e o universo obedece às mesmas leis em qualquer lugar. Assim, tudo pode ser explicado de forma causal: explicar um fenómeno é indicar a sua causa, o que permite não só dar conta da realidade tal como se apresenta ao investigador, mas, também, prever o seu comportamento no futuro - daí a previsibilidade ser apresentada como uma das principais características da ciência.
  • A Razão tem a capacidade de explicar o funcionamento da natureza, porque possui um conjunto de princípios que são o garante da coerência do pensamento - os Princípios Lógicos da Razão - estes princípios são a base da Lógica e da Matemática. Assim, se a investigação científica utilizar instrumentos matemáticos para analisar os fenómenos poderá chegar a explicações racionais sobre o funcionamento da realidade. Por isso é que os dados recolhidos pela observação científica são quantificáveis, excluindo-se à partida todos os elementos que não dependam da quantificação, uma vez que estes elementos estão contaminados pela subjetividade dos investigadores.
  • O conhecimento científico é objetivo, ou seja, procura descrever e explicar a realidade tal como ela é, sem a interferência de elementos subjetivos (por isso a investigação prefere as características quantificáveis às que têm uma natureza qualitativa).
  • A experiência é a base da formulação de hipóteses e, também, a única via para confirmar as hipóteses científicas. Por isso a investigação científica faz-se através da colaboração entre a Razão e a experiência.
  • Para que a experiência possa ser a base da investigação, tem que se admitir a indução como forma de chegar a respostas universais para os problemas, uma vez que as teorias científicas têm que ser universais (têm que explicar todos os fenómenos do mesmo tipo, caso contrário a ciência não poderia ser explicativa e preditiva. Deve existir, portanto, um princípio lógico da indução que permita garantir a validade das extrapolações indutivas. Face às objeções de David Hume quanto à possibilidade da existência desse princípio, os filósofos positivistas tentaram encontrar na estatística e no cálculo de probabilidades um fundamento lógico (matemático) para as induções científicas.
  • A investigação científica procura verificar hipóteses. Quando uma hipótese é confirmada experimentalmente, considera-se que se encontra verificada, ou seja, que se provou a sua verdade. Sendo assim, a ciência avança pela acumulação de conhecimentos, sendo que a verdade científica é necessária e encontra-se provada: uma vez generalizada uma hipótese confirmada experimentalmente esta passa a ser encarada como uma teoria científica. As teorias científicas exprimem leis da natueza, poderão, então, servir para explicar e prever os fenómenos.
Por sua vez o método experimental clássico (o método indutivo) apresenta as seguintes etapas:
  1. Observação. Nesta etapa recolhem-se dados quantificáveis sobre os fenómenos. Esses dados são recolhidos por meio de instrumentos de medida, de observação e de registo que garantem a sua objetividade e exatidão. Trata-se de um momento em que os investigadores procurar recolher a maior quantidade possível de dados com vista a garantir uma boa base empírica para a extrapolação indutiva que permitirá chegar a explicações universais a partir de dados particulares.
  2. Formulação de hipóteses. Tendo adquirido um conjunto de dados suficiente para proceder a induções com um grau de fiabilidade minimamente aceitável, os investigadores formulam hipóteses que permitem explicar, ainda que de forma provisória/ não confirmada, os fenómenos observados. Quanto maior for o número de hipóteses que possam ser formuladas, mais provável será encontrar uma explicação para os fenómenos.
  3. Experimentação. Depois de formuladas as hipóteses, estas vai ser testadas, numa situação controlada pelos investigadores, quase sempre em laboratório. Na experimentação também existe observação, mas esta ocorre já numa situação em que se procurou isolar os fenómenos de qualquer interferência exterior a eles que pudesse dificultar a identificação objetiva das suas causas. Geralmente as hipóteses científicas são inferências causais que necessitam de confirmação. Assim, quando uma hipótese é confirmada provou-se que entre dois acontecimentos (ou fenómenos) há uma ligação de causa efeito. E, feita essa prova, existem bases para generalizar indutivamente a hipótese confirmada (verificada) experimentalmente. E falamos aqui no singular porque só pode haver uma explicação para cada tipo de fenómeno, quando uma hipótese é provada, sabe-se à partida que encontrou uma verdade científica e não faz sentido continuar a formular mais hipóteses. 
  4. Generalização da hipótese confirmada experimentalmente. Aqui repetimos o que foi dito acima: uma vez generalizada uma hipótese confirmada experimentalmente esta passa a ser encarada como uma teoria científica. As teorias científicas exprimem leis da natueza, poderão, então, servir para explicar e prever os fenómenos.



Problemas/ limitações do método indutivo

O principal problema deste modelo reside na indução - sem garantir a validade das inferências indutivas não será viável uma concepção verificacionista da investigação científica.
As objeções de David Hume à indução não foram cabalmente respondidas pelos positivistas (aqui englobamos igualmente os neopositivistas do Círculo de Viena do qual Karl Popper fez parte até considerar que essa abordagem não conseguia resolver este problema). 
O neopositivismo (também conhecido como positivismo lógico) procurou formular uma teoria da teoria da confirmação, de carácter verificacionista que pudesse garantir a solidez da ciência e, ao mesmo tempo, pudesse servir como um princípio de demarcação entre ciência e não ciência. Assim a verificabilidade seria, segundo este movimento, o princípio de demarcação e seria, igualmente, a base do método científico de cariz indutivo (exposto acima).

Ora, a teoria da confirmação dos neopositivistas não conseguiu resolver o problema da indução. O máximo que é possível alcançar indutivamente é a probabilidade de os fenómenos ocorrerem da forma como é prevista pelas teorias científicas (aqui convém ter em conta o que aprendemos sobre a validade indutiva). Nunca se poderá chegar a uma confirmação absoluta das hipóteses científicas, pois é sempre possível que algo tenha escapado à observação.
E aqui surge outro problema: a observação científica nunca é neutra, ao contrário do que é pressuposto pelo verificacionismo indutivista, os investigadores nunca partem para a observação sem terem expectativas sobre aquilo que vai resultar da observação. Os próprios instrumentos utilizados já pressupõem essas expectativas e, também, concepções teóricas no quadro das quais vão ser realizadas as observações.
Aquilo que Karl Popper critica no empirismo (e no senso comum) através da teoria do balde aplica-se cabalmente à investigação científica:

segunda-feira, 25 de abril de 2016

As teorias filosóficas

Pintura Surrealista de Jacek Yerka


As teorias. 

Como é óbvio, os filósofos não se limitam a enunciar problemas intrincados e subtis. Querem também resolvê-los. é por isso que constroem teorias, também elas muitas vezes intrincadas e subtis. No entanto, se não percebermos que problemas procuram eles resolver é altamente improvável que compreendamos e possamos apreciar o valor das suas teorias: o mais natural é ficarmo-nos pela aceitação ou rejeição epidérmica (e que muitas vezes é falsamente identificada com uma postura estética, como se gostar realmente de uma sinfonia pudesse ser uma atitude a crítica e epidérmica). "Penso, logo existo" é a fórmula mágica da teoria de Descartes. Mas que significa isto realmente? Por que se deu ele ao trabalho de escrevê-lo? Que procurava ele resolver com o “cogito ” (o termo com que a sua teoria é conhecida)? Estas são as perguntas prévias que têm de orientar a nossa compreensão de uma teoria filosófica. Posteriormente, temos de tentar compreender os labirintos da teoria que estamos a estudar. Como é que a teoria funciona? E funciona? Não terá alguns problemas de concepção? Por exemplo, poderá Descartes, na situação em que se coloca, saber realmente que pensa e que existe? E tratar-se-á a expressão que enuncia o princípio da sua teoria ("penso, logo existo") de uma inferência, como o indica a palavra "logo"? Ou quererá ele apenas dizer que, por mais que duvide de tudo, a condição de possibilidade para poder duvidar é existir e pensar? E como se articula o resto da sua teoria com este princípio tão básico? Como consegue ele inferir a existência de Deus e do mundo a partir deste princípio tão básico? Estarão essas inferências corretas? Ou terá cometido erros? Este é o tipo de avaliação crítica que o estudante terá de fazer, de forma progressivamente mais minuciosa e sistemática, ao longo do seu estudo. 

Os argumentos. 

Muito bem, estive a fazer um bocadinho de batota . não comecei por falar do mais importante de tudo em filosofia - os argumentos. Mas espero que, depois de ler esta secção, se perceba subitamente que todo o trabalho que descrevi nas seções anteriores não é possível realizar sem argumentos. Precisamos de argumentos para nos convencer que o problema do conhecimento de Descartes é realmente um problema e não uma fantasia de um soldado aborrecido fechado num quarto aquecido. Precisamos de argumentos para nos convencer que as causas filosóficas de certo problema são estas e não aquelas, e que as suas consequências não são estas mais aquelas. E precisamos de argumentos para nos convencer que a teoria consegue realmente resolver o que pretendia resolver e que é verdadeira e não apenas um agregado de frases talvez atraentes mais escandalosamente afastadas da verdade. E o que são argumentos? Os argumentos são razões que apresentamos para sustentar uma qualquer afirmação. Há vários tipos de argumentos: dedutivos, por analogia, causais, de autoridade, através de exemplos. Para todos eles há regras que nos ajudam a apreciar o seu valor. é por isso que estudar um livro como “A Arte de Argumentar” é importante. Muitas vezes os filósofos são lidos mais ou menos com a mesma atitude com que os gregos consultavam o oráculo e os portugueses lêem o horóscopo: acriticamente. Esta atitude é muito bizarra porque, tal como as profecias oraculares e as prescrições dos horóscopos, os filósofos contradizem-se. De maneira que é muito difícil lê-los a todos como fontes de verdade: não podem ter toda a razão. Pode ser que um deles tenha razão; mas mesmo que queiramos tomar a atitude arriscada de defender que era Kant, ou Descartes, ou Aristóteles, ou Russell, ou Frege que tinha razão, se o quisermos fazer de forma razoavelmente racional teremos de mostrar que têm de fato razão. A alternativa é aceitar aquele filósofo cujas teorias vão ao encontro dos nossos pré-conceitos. Mas isto é, claramente, o contrário de uma atitude crítica, que é exatamente o que caracteriza, supostamente, a filosofia. É muito mais provável que todos os filósofos, como todos os cientistas e todas as pessoas em geral, tenham a sua cota de verdade e falsidade - misturadas, como sempre. Também aqui, o que se impõe é o estudo cuidadoso das suas teorias e argumentos, com o objetivo último de destrinchar um bocadinho mais a verdade da falsidade, do erro e da ilusão - essas constantes humanas a que alguns, talvez tocados pelos deuses, dizem ter escapado. 
Christian José Quintana Pinedo e Karyn Siebert Pinedo, Introdução à Epistemologia da Ciência. (texto copiado aqui - 17/11/2014).


domingo, 24 de abril de 2016

Silogismo - Exercícios (Preparação teste intermédio/exame)

1. Verifique a validade dos seguintes silogismos, justificando a sua resposta com base nas regras de validade silogística:
1.1. 1ª figura; modo: AIO;
1.2. 3ª figura; modo: EIO;
1.3. 4ª figura; modo: AIO;
1.4. 2ª figura; modo: EAA;
1.5. 1ª figura; modo: AEE;
1.6. 3ª figura; modo: AEE;
1.7. 2ª figura; modo: AAI.


2.Demonstre silogisticamente que:
2.1. Todos os animais precisam de oxigénio;
2.2. Alguns europeus não são portugueses;
2.3. Nenhum avião aterra em Kabul;
2.4. Algumas turmas não têm Matemática;
2.5. Todos os futebolistas são atletas;
2.6. Alguns alunos são aplicados.

3. Construa os seguintes silogismos, com termos à sua escolha:
3.1. 1ª figura; modo AAA;
3.2. 2ª figura; modo AIO;
3.3. 3ª figura; modo AEO;
3.4. 4ª figura; modo AAI.

4. Em cada caso, construa um silogismo válido:
4.1. Com o termo médio ‘Voluntários’;
4.2. Com o termo menor ‘Polícias’;
4.3. Com o termo menor: ’Cientistas’;
     E com o termo maior: ‘Competentes’.

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Validade e solidez dos argumentos


Comecemos com o termo «válido». Na linguagem quotidiana, as pessoas falam de alguém ter uma opinião válida ou de ter afirmações válidas. No discurso filosófico, contudo, o termo «válido» não se aplica a opiniões, nem a frases, nem a ideias. O termo válido é exclusivamente reservado à avaliação de argumentos. Só os argumentos podem ser válidos. Apesar de contrariar uma forma de falar e de pensar, até aqui não há problemas de maior. Trata-se de respeitar a linguagem técnica própria de cada disciplina. Contudo, os problemas começam quando apresentamos exemplos de argumentos válidos tais como este:
Qualquer fatia de queijo é mais inteligente do que um estudante de filosofia
O meu gato é uma fatia de queijo
Logo, o meu gato é mais inteligente do que um estudante de filosofia
Trata-se de um argumento completamente disparatado mas, apesar disso, do ponto de vista estritamente lógico, é um exemplo perfeito de argumento válido. O que se passa?

Definindo validade dedutiva
A validade é uma propriedade de argumentos bem construídos. No caso dos argumentos dedutivos - os mais usados em filosofia – a conclusão é apresentada como consequência necessária das premissas.
O que é intrigante para muitas pessoas é que um argumento pode ser válido mesmo que as suas premissas e conclusão sejam todas falsas. A validade é essencialmente uma característica da forma ou estrutura de um argumento. Por isso mesmo, no que respeita à validade, o conteúdo (a verdade ou a falsidade factual) das proposições que os compõem é irrelevante.
Consideremos a estrutura. O argumento que apresentámos sobre gatos, queijo e estudantes de filosofia é um exemplo de uma estrutura argumentativa com a forma:
Todos o A são B
(Qualquer fatia de queijo é mais inteligente do que um estudante de filosofia)
C é A
(O meu gato é uma fatia de queijo)
Logo, C é B
(Logo, o meu gato é mais inteligente do que um estudante de filosofia)
 No nosso exemplo, fatia de queijo é substituída por A e seres que são mais inteligentes do que qualquer estudante de filosofia é substituída por B.O meu gato é um termo substituído por C.
O que se deve notar é que não é preciso atribuir nenhum significado a estas variáveis para ver que este argumento temforma válida ou seja que é correcto. Sejam quais forem os termos que usemos para substituir aquelas variáveis a conclusão será sempre uma consequência necessária das premissas seconsiderarmos as premissas verdadeiras (embora não o sejam neste caso).A conclusão, correctamente obtida, só pode ser também verdadeira.
A noção de validade é neutral a respeito do conteúdo das proposições de um argumento. Não interessa qual é o conteúdo das proposições do argumento, não interessa o seu valor de verdade. Quando se trata da validade o que importa é a correcção lógica na ligação entre premissas e conclusão. O nosso exemplo é o de um argumento perfeitamente válido: se as suas premissas ridículas forem consideradas verdadeiras, a sua ridícula conclusão também terá de ser verdadeira porque da verdade (suposta ou factual) não pode logicamente derivar a falsidade. Que premissas e conclusão sejam ridículas não impede em nada que o argumento seja válido, bem construído. 

Argumentos sólidos ou bons
É evidente que em filosofia, nas ciências e noutras áreas do saber pretendemos mais do que rigor lógico do pensamento. Queremos argumentos bons com premissas e conclusão de facto verdadeiras ou pelo menos muito credíveis.
Dizer que um argumento é válido não significa dizer que é sólido. Estamos perante um argumento sólido quando e só quando (1) o argumento é válido e (2) as premissas são de facto verdadeiras (e por conseguinte, a conclusão também é verdadeira). Podemos colocar esta explicação sob a forma de um argumento condicional. Dizer que um argumento é sólido é dizer duas coisas que podem ser entendidas como premissas:
1)      Se as premissas do argumento são ditas verdadeiras, então a conclusão tem de ser verdadeira. (significa que o argumento é válido)
2)      As premissas do argumento são de (facto) verdadeiras.
3)      Por conseguinte a conclusão do argumento é verdadeira.

A importância da validade

Um argumento só é sólido se for válido mas ser válido não é suficiente para ser sólido. Um argumento para ser sólido tem de ser válido e também constituído por premissas de facto verdadeiras.
Apesar do que dissemos, há quem se interrogue sobre a grande importância atribuída à validade. No fim de contas, dirão alguns, um argumento válido pode ser absurdo no seu conteúdo e falso na sua conclusão. Na verdade, a solidez é o que realmente procuramos num argumento. Fixa, contudo, que a validade é um componente indispensável da solidez: não há solidez sem validade».
Baggini,Julian e S.Fosl,Peter, The philosopher’s toolkit,Blackwell,pp12-14.
Texto copiado daqui.

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Ver também:

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Críticas ao falsificacionismo de Karl Popper




As insuficiências da corroboração
  • É possível que duas hipóteses resistam ao mesmo tempo aos testes experimentais, nesse caso a teoria de Popper não nos permite escolher qual das hipóteses devemos preferir, uma vez que ambas podem estar corroboradas e podem, igualmente, servir de base a previsões que se revelarão boas.
  • As refutações em ciência são muito mais raras do que as confirmações. Se estiver certo o pressuposto de Popper segundo o qual o conhecimento é precedido de predisposições e expetativas, então se os cientistas estiverem orientados para a verificação das teorias e não para a sua falsificação, é mais provável que na maior parte dos testes experimentais não se assista à refutação da conjeturas. Na verdade nem todos os cientistas concordam com o falsificacionismo (e talvez seja uma pequena minoria o número daqueles que se reivindicariam como falsificacionistas).

Texto 1
"Nos seus termos mais simples, a explicação de Popper para o conhecimento científico envolve generalizações e os seus testes observacionais. Se encontrarmos um contra-exemplo genuíno a uma generalização, podemos dizer que foi dedutivamente refutada. Segundo Popper, os casos negativos fornecem bases racionais para rejeitar generalizações. Se, contudo, fizermos observações e executarmos testes mas não encontrarmos instâncias negativas, tudo o que podemos dizer dedutivamente é que a generalização em questão não foi refutada. 

O conceito de corroboração de Popper foi concebido para medir o modo com conjecturas têm resistido a críticas severas, incluindo testes severos. Penso que esta é a tese crucial: que há uma base racional para preferir usar num argumento previsivo uma generalização não refutada em detrimento de outra refutada. Se isso for verdade, então Popper pode legitimamente afirmar que resolveu o problema da previsão racional. É que as teorias científicas são usadas tanto para fins teóricos como práticos - fins esses que incluem a previsão.
Ora esta perspectiva da corroboração contém dificuldades sérias. 

Watkins e Popper concordam, penso, que as afirmações corroboradas relatam observações do passado e do presente, e que afirmações deste tipo não têm em si conteúdo previsivo. As conjecturas, hipóteses, teorias é que têm conteúdo previsivo. Para fazer uma previsão, é necessário escolher uma conjectura que tenha conteúdo previsivo para ser usada como premissa num argumento previsivo. Para fazer uma previsão racional, parece-me ser necessário fazer uma escolha racional de uma premissa para tal argumento.
Porém, com base nas nossas provas observacionais e nas afirmações sobre a corroboração de uma dada conjectura não se garante qualquer avaliação previsiva. Assim, parece-me que a corroboração não fornece qualquer base racional para preferir uma conjectura a outra para fins de previsão prática.

Não estou a reclamar por não termos a certeza de que uma delas irá permitir uma previsão correcta e outra não. Estou a reclamar porque não se forneceu qualquer base racional para uma preferência deste tipo."

Wesley C. Salmon, Previsão Racional
(Adaptado)
http://portico-proffil.blogspot.pt/2008/05/uma-crtica-popper.html

Texto 2
"Consideremos a mais conhecida tese de Popper: a ciência não procede por «indução» – isto é, encontrando instâncias confirmativas de uma conjectura, mas antes falsificando conjecturas arriscadas e atrevidas. A confirmação, argu­mentou, é lenta e nunca é certa. Por contraste, uma falsificação pode ser súbita e definitiva. Além do mais, encontra-se no coração do método científico.
Um exemplo familiar de falsificação liga-se à asserção de que todos os cor­vos são pretos. Sempre que se encontra um novo corvo preto confirma-se obviamente a teoria, mas há sempre a possibilidade de que apareça um corvo não preto. Se tal acontece, a conjectura é imediatamente desacreditada. Quanto mais vezes uma conjectura enfrentar os esforços para a falsificar, afir­mou Popper, maior se torna a sua «corroboração», todavia, a corroboração é também incerta e não pode nunca quantificar-se o seu grau de probabilidade. Os críticos de Popper insistem em que «a corroboração» é uma forma de indução, e que Popper simplesmente introduziu à sorrelfa a indução pela porta das traseiras dando-lhe um novo nome. A questão famosa de David Hume era «Como é que a indução pode ser justificada?» Não pode, disse Popper, porque tal coisa como a indução não existe!
Há muitas objecções a esta afirmação assombrosa. Uma é a de que as fal­sificações são muito mais raras em ciência do que a procura de instâncias confirmativas. Os astrónomos procuram por sinais de água em Marte. Não pensam que estão a fazer esforços para falsificar a conjectura de que Marte nunca teve água. [...]
Popper reconheceu – mas descartou como não sendo importante – que a falsificação de uma conjectura é simultaneamente a confirmação de uma conjectura oposta e que cada instância confirmativa de uma conjectura é uma falsificação de uma conjectura oposta. [...]
Para os cientistas e filósofos estranhos à confraria popperiana, a ciência opera principalmente por indução (confirmação) e também e menos frequentemente por desconfirmação (falsificação). A sua linguagem é quase sempre a da indução. Se Popper aposta num certo cavalo para ganhar uma corrida e o cavalo ganha, não é de esperar que grite, «Boa, o meu cavalo não conseguiu perder».
Os astrónomos estão agora a encontrar evidência constringente de que planetas mais e mais pequenos orbitam sóis distantes. Seguramente esta é evidência indutiva de que pode haver planetas do tamanho da Terra mais além. Porquê preocupar-se em dizer, cada vez que um novo e mais pequeno planeta é descoberto, que tende a falsificar a conjectura de que não há plane­tas pequenos para além do nosso sistema solar? Porquê arranhar a orelha esquerda com a mão direita? [...]
Ernest Nagel, famoso professor de Filosofia da Ciência da Universidade de Columbia, na sua Teleology Revisited and Other Essays in the Philosophy and History of Science (1979), resumiu o assunto deste modo: «A con­cepção de Popper acerca do papel da falsificação... é uma sobressimplificação que está perto da caricatura dos procedimentos científicos.»
Para Popper, aquilo que o seu principal rival Rudolf Carnap designava por um «grau de confirmação» – uma relação lógica entre uma conjectura e toda a evidência relevante – é um conceito inútil. Em vez disso, como referi' anteriormente, quanto mais testes de falsificação uma teoria passar, mais ela ganha em corroboração. É como se alguém declarasse que a dedução não existe, mas que, certamente, algumas afirmações podem implicar logica­mente outras afirmações. Vamos inventar um novo termo para dedução, tal como «inferência justificada». Popper não discordava assim tanto de Carnap e de outros indutivistas, de modo que reformulou as suas ideias numa termi­nologia bizarra e esotérica."
Martin Gardner, A Sceptical Look at Karl Popper (Traduzido e adaptado).

domingo, 17 de abril de 2016

A Teoria da Justiça de Rawls - ficha de exploração



Para resolver esta ficha, deve consultar os seguintes artigos:
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Deve, também, ter-se em conta os seguintes princípios:

A. Rawls é contratualista e, como tal, considera que os princípios corretos de justiça seriam aqueles que seriam escolhidos num acordo entre os interessados.

B. Para descobrirmos os princípios da sociedade justa devemos imaginar uma situação de partida, Posição Original, hipotética, em que indivíduos racionais estão a coberto de um Véu de Ignorância desconhecendo a sua posição na sociedade e as suas características particulares.

C. A experiência mental de situação original, sob um véu de ignorância, garante a  imparcialidade na escolha dos princípios.

D. Na posição original desconhecemos se somos homem ou mulher, qual a nossa raça, nacionalidade, classe social ou projetos de vida ; assim, não serão escolhidos princípios que favoreçam alguns. (não deveremos, no entanto, desconhecer o que é necessário para viver bem).

Texto 1
"Os sujeitos colocados na situação inicial escolheriam dois princípios[...]: 
primeiro[ - o  princípio da liberdade igual - ] exige a igualdade na atribuição dos direitos e deveres básicos, enquanto o segundo [ - o  princípio da diferença - ] afirma que as desigualdades económicas e sociais, por exemplo as que ocorrem na distribuição da riqueza e poder, são justas apenas se resultarem em vantagens compensadoras para todos e, em particular, para os mais desfavorecidos membros da sociedade. 
Decorre destes princípios que as instituições não podem ser justificadas pelo argumento de que as dificuldades de alguns são compensadas por um maior bem total. Pode, em certos casos, ser oportuno que alguns tenham menos para que outros possam prosperar, mas tal não é justo. Porém, não há injustiça no facto de alguns conseguirem benefícios maiores que outros, desde que a situação das pessoas menos afortunadas seja, por esse meio, melhorada. 
A ideia intuitiva é a seguinte: já que o bem-estar de todos depende de um sistema de cooperação sem o qual ninguém poderia ter uma vida satisfatória, a divisão dos benefícios deve ser feita de modo a provocar a cooperação voluntária de todos os que nele tomam parte, incluindo os que estão em pior situação. No entanto, tal só pode acontecer se os termos propostos forem razoáveis. 
Os dois princípios atrás mencionados parecem constituir uma base equitativa para um acordo, na base do qual os mais bem dotados, ou os que tiveram mais sorte na sua posição social — vantagens essas que não foram merecidas —, podem esperar obter a colaboração voluntária de outros, no caso de um sistema efectivo de cooperação ser uma condição necessária para o bem-estar de todos. 
Quando tentamos encontrar uma concepção de justiça que elimine os acasos da distribuição natural de qualidades e as contingências sociais como vantagens na busca de benefícios económicos e políticos, é a estes princípios que somos conduzidos. Eles são o resultado do facto de excluirmos os aspectos da realidade social que parecem arbitrários de um ponto de vista moral.
JOHN RAWLS, Uma Teoria da Justiça


Texto 2
O Véu da Ignorância
"Suponhamos que, num futuro não muito distante, deixa de haver oferta de árbitros de futebol. (…) Para muitos jogos, torna-se impossível descobrir um árbitro neutro. Suponhamos que foi isto que se passou no jogo entre o Futebol Clube do Porto e o Benfica e suponhamos também que o único árbitro qualificado a assistir ao desafio é o presidente do Futebol Clube do Porto.
Compreensivelmente, o Benfica não aceita a proposta de que seja ele a arbitrar o jogo. Contudo, a Liga de Futebol sabe que este problema surge de tempos a tempos e, por isso, inventou um fármaco. Quando tomamos esta substância, a nossa conduta é perfeitamente normal, com excepção de um aspecto: temos uma perda muito seletiva de memória. Deixamos de ser capazes de dizer qual o clube de futebol de que somos presidentes (…). Tendo tomado o fármaco em questão, como iria o presidente do Futebol Clube do Porto arbitrar o jogo?
A resposta é: poderia ser imparcial. Sabe que é presidente de um dos dois clubes, mas não qual. Assim, se escolher favorecer aleatoriamente uma equipa, pode vir a descobrir que prejudicou o seu próprio clube. Se presumirmos que ele não quer correr o risco de malograr injustamente as perspectivas do seu clube, só lhe restará agir tão justamente quanto lhe seja possível e deixar o jogo desenrolar-se de acordo com as regras. A ignorância gera imparcialidade.
Com isto em mente, podemos analisar a concepção de Rawls da posição original. As pessoas na posição original – os contratantes hipotéticos – têm à sua frente um «véu de ignorância» que não lhes permite aperceberem-se das suas circunstâncias particulares. Devido a esta ignorância, não sabem como ser parciais a seu favor e, assim, vêem-se obrigadas a agir imparcialmente."
Wolf, Introdução à Filosofia Política (adaptado) 

1. Para além dos princípios da justiça explicados por Rawls no texto 1, há ainda um terceiro princípio, derivado do princípio da diferença. Identifique esse princípio e explicite-o. Pode encontrar esse princípio explicitado aqui.

2. Explique o princípio da liberdade igual.
2.1. Mostre como o princípio da liberdade igual se manifesta na posição original (Véu da Ignorância). Pode encontrar bases para a resposta aqui.

2.2. Explique o princípio da diferença.
2.3. Confronte o principio da diferença com o igualitarismo.