domingo, 16 de outubro de 2016

"A Filosofia é grega"

Kazuya Akimoto, "The Black Parthenon"

A Filosofia é grega


A Filosofia, entendida como aspiração ao conhecimento racional, lógico e sistemático da realidade natural e humana, da origem e causas do mundo e das suas transformações, da origem e causas das ações humanas e do próprio pensamento, é um facto tipicamente grego.

Evidentemente, isso não quer dizer, de modo algum, que outros povos, tão antigos quanto os gregos, como os chineses, os hindus, os japoneses, os árabes, os persas, os hebreus, os africanos ou os índios da América não possuam sabedoria, pois possuíam e possuem. Também não quer dizer que todos esses povos não tivessem desenvolvido o pensamento e formas de conhecimento da Natureza e dos seres humanos, pois desenvolveram e desenvolvem.

Quando se diz que a Filosofia é um facto grego, o que se quer dizer é que ela possui certas características, apresenta certas formas de pensar e de exprimir os pensamentos, estabelece certas concepções sobre o que sejam a realidade, o pensamento, a ação, as técnicas, que são completamente diferentes das características desenvolvidas por outros povos e outras culturas. [...].

A Filosofia é um modo de pensar e exprimir os pensamentos que surgiu especificamente com os gregos e que, por razões históricas e políticas, se tornou, depois, o modo de pensar e de se exprimir predominante da chamada cultura europeia ocidental [...].

Através da Filosofia, os gregos instituíram para o Ocidente europeu as bases e os princípios fundamentais do que chamamos razão, racionalidade, ciência, ética,
política, técnica, arte.

Aliás, basta observarmos que palavras como lógica, técnica, ética, política, monarquia, anarquia, democracia, física, diálogo, biologia, cronologia, génese, genealogia, cirurgia, ortopedia, pedagogia, farmácia, entre muitas outras, são palavras gregas, para percebermos a influência decisiva e predominante da Filosofia, e da cultura, grega sobre a formação do pensamento e das instituições das sociedades europeias ocidentais.


O legado da Filosofia grega para o Ocidente europeu

Desse legado, podemos destacar como principais contribuições as seguintes:

     • A ideia de que a Natureza opera obedecendo a leis e princípios necessários e universais, isto é, os mesmos em toda a parte e em todos os tempos. Assim, por exemplo, [foi pela continuação da indagação iniciada pelos filósofos] gregos [que], no século XVII da nossa era, o filósofo inglês Isaac Newton estabeleceu a lei da gravitação universal de todos os corpos da Natureza. A lei da gravitação afirma que todo corpo, quando sofre a ação de um outro, produz uma reação igual e contrária, que pode ser calculada usando como elementos do cálculo a massa do corpo afetado, a velocidade e o tempo com que a ação e a reação se deram.

Essa lei é necessária, isto é, nenhum corpo do Universo escapa dela e pode funcionar de outra maneira que não desta; e esta lei é universal, isto é, válida para todos os corpos em todos os tempos e lugares.

Um outro exemplo: as leis geométricas do triângulo ou do círculo, conforme demonstraram os filósofos gregos, são universais e necessárias, isto é, seja em Tóquio em 1993, em Copenhague em 1970, em Lisboa em 1810, em São Paulo em 1792, em Moçambique em 1661, ou em Nova York em 1975, as leis do triângulo ou do círculo são necessariamente as mesmas.

     • A ideia de que as leis necessárias e universais da Natureza podem ser plenamente conhecidas pelo nosso pensamento, isto é, não são conhecimentos misteriosos e secretos, que precisariam ser revelados por divindades, mas são conhecimentos que o pensamento humano, por sua própria força e capacidade, pode alcançar.

     • A ideia de que o nosso pensamento também opera obedecendo a leis, regras e normas universais e necessárias, segundo as quais podemos distinguir o verdadeiro do falso. Por outras palavras, a ideia de que o nosso pensamento é lógico ou segue leis lógicas de funcionamento.

O nosso pensamento diferencia uma afirmação de uma negação porque, na afirmação, atribuímos alguma coisa a outra coisa (quando afirmamos que “Sócrates é um ser humano”, atribuímos humanidade a Sócrates) e, na negação, retiramos alguma coisa de outra (quando dizemos “este caderno não é verde”, estamos a ‘retirar’ do caderno a cor verde).

O nosso pensamento distingue quando uma afirmação é verdadeira ou falsa. Se alguém apresentar o seguinte raciocínio: “Todos os homens são mortais. Sócrates é homem. Logo, Sócrates é mortal”, diremos que a afirmação “Sócrates é mortal” é verdadeira, porque foi concluída de outras afirmações que já sabemos serem verdadeiras.

      • A ideia de que as práticas humanas, isto é, a ação moral, a política, as técnicas e as artes dependem da vontade livre, da deliberação e da discussão, da nossa escolha passional (ou emocional) ou racional, das nossas preferências, segundo certos valores e padrões, que foram estabelecidos pelos próprios seres humanos e não por imposições misteriosas e incompreensíveis, que lhes teriam sido feitas por forças secretas, invisíveis, sejam elas divinas ou naturais, e impossíveis de serem conhecidas.

     • A ideia de que os acontecimentos naturais e humanos são necessários, porque obedecem a leis naturais ou da natureza humana, mas também podem ser contingentes ou acidentais, quando dependem das escolhas e deliberações dos homens, em condições determinadas.[...]

      • A ideia de que os seres humanos, por Natureza, aspiram ao conhecimento verdadeiro, à felicidade, à justiça, isto é, que os seres humanos não vivem nem agem cegamente, mas criam valores pelas quais dão sentido às suas vidas e às suas ações.


A Filosofia surgiu, portanto, quando alguns gregos, admirados e espantados com a realidade, insatisfeitos com as explicações que a tradição lhes dera, começaram a fazer perguntas e buscar respostas para elas, demonstrando que o mundo e os seres humanos, os acontecimentos e as coisas da Natureza, os acontecimentos e as ações humanas podem ser conhecidos pela razão humana, e que a própria razão é capaz de conhecer-se a si mesma.

Em suma, a Filosofia surge quando se descobriu que a verdade do mundo e dos humanos não era algo secreto e misterioso, que precisasse de ser revelado por divindades a alguns escolhidos, mas que, pelo contrário, podia ser conhecida por todos, através da razão, que é a mesma em todos; quando se descobriu que tal conhecimento depende do uso correto da razão ou do pensamento e que, além da verdade poder ser conhecida por todos, podia, pelo mesmo motivo, ser ensinada ou transmitida a todos.

Marilena Chauí, Convite à Filosofia, Ed. Ática, S. Paulo, 2000, pp.20-24.


sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Sócrates: o filme


Sócrates



O legado de Sócrates

“Mas, meu caro Críton, por que haveremos
de prestar tanta atenção àquilo que ‹‹a
maior parte das pessoas›› pensa?”

SÓCRATES, no diálogo Críton, de Platão
(c. 390 a. C.)

Por que razão Sócrates foi condenado?

No Museu Britânico há uma estátua de Sócrates que pode ter sido esculpida em 330 a. C., apenas sessenta e nove anos após a sua morte. Sócrates é retratado como um homem baixo, musculado e careca, com barba e um nariz largo e achatado. Estes detalhes são compatíveis com aquilo que Platão, que era seu discípulo, nos diz sobre a sua aparência. Sócrates nada escreveu pelo que quase tudo o que sabemos a seu respeito provém de Platão, que era seu discípulo. Nos diálogos de Platão encontramos Sócrates nos lugares públicos de Atenas a discutir as grandes questões da Verdade e da Justiça com os jovens da cidade. Mas vemo-lo também ser acusado de
corromper esses jovens – e depois julgado e condenado à morte. A razão pela qual isso aconteceu é u pouco misteriosa. Os atenienses eram democratas, orgulhosos dos seus feitos e liberdade intelectuais. Por que haveriam de condenar um filosofo à morte
por causa daquilo que ele ensinava?
De acordo com Platão, Sócrates foi acusado de «corrromper a juventude›› e de ‹‹impiedade para com os deuses››. A primeira acusação é vaga e não nos são
dados detalhes. O próprio Sócrates sugeriu, talvez de forma enganadora, que estava a ser acusado apenas de ensinar os jovens a colocar questões. A segunda acusação também parece forçada. Sócrates não era anti-religioso, e no seu julgamento alegou ser fiel nas suas práticas religiosas. Porém, aparentemente tinha opiniões que não eram ortodoxas. O estudioso clássico Gregory Vlastos sugere que, embora ter ideias não convencionais sobre os deuses não fosse suficiente para conduzir a problemas com a justiça, «empurrá-las para as ruas de Atenas››, como Sócrates sem dúvida fizera,
poderia levá-lo facilmente a meter-se em dificuldades.
Ainda assim, a descrição de Platão faz-nos interrogar se esta será a história toda.
Por que razão, então, Sócrates foi condenado? Pode ser útil recordar que Sócrates, embora tenha sido venerado pelas gerações posteriores, não era uma figura popular na sua época. (Ele próprio sugere que as acusações resultaram do facto de as pessoas não gostarem de si.) O Oráculo de Delfos dissera-lhe que ele era o mais sábio dos homens, e Sócrates aceitou o elogio, mas com uma qualificação peculiar. Disse que era sábio porque tinha compreendido como era ignorante.
Esta afirmação parece agradavelmente modesta. O problema foi Sócrates ter considerado que a sua «missão divina›› era mostrar aos outros que também eles
eram ignorantes. Numa típica conversa socrática, Sócrates mostrava aos seus interlocutores, para manifesto desagrado destes, que todas as suas opiniões eram 
erradas. Isto pode ter contribuído para que as pessoas tivessem vontade de o ver em apuros, mesmo que não justifique a sua condenação à morte.
A política também pode ter contribuído. Os atenienses tinham orgulho das suas instituições democráticas, mas Sócrates não partilhava esse sentimento. Segundo 
Platão, era o crítico mais feroz da democracia.  Objetava que a democracia colocava os homens em posição de autoridade não por causa da sua sabedoria ou do seu talento para governar, mas devido à sua capacidade de influenciar as massas com retórica vazia.
Numa democracia, aquilo que interessava não era a verdade, mas as relações públicas. Já existiam especialistas nessa área em Atenas. Os professores mais influentes da altura eram os sofistas, que ensinavam a arte da persuasão e eram abertamente cépticos quanto à «verdade». Se tivessem vivido 2400 anos depois, teriam sido spin-doctors, consultores de media ou especialistas de opinião pública.
Se a democracia ateniense fosse estável, a hostilidade de Sócrates poderia ter sido ignorada, do mesmo modo que hoje as democracias ocidentais toleram a crítica. Mas essa democracia não era estável; tinha sofrido uma série de ataques traumáticos. O último deles ocorrerá apenas cinco anos antes do julgamento de Sócrates, quando um grupo conhecido por «Trinta Tiranos» - liderado por Crítias, que fora um dos discípulos de Sócrates - organizou um golpe sangrento.
No seu julgamento, que ocorreu depois de a democracia ter sido restaurada, Sócrates censurou vivamente os Trinta Tiranos, chamando-lhes «perversos». Ainda assim, é fácil imaginar que os líderes de Atenas pudessem sentir-se mais confortáveis com Sócrates fora do horizonte. 
Tentar explicar um acontecimento que ocorreu há 2400 anos é uma tarefa frustrante, sujeita a uma incerteza ainda maior pelo facto de as diversas pessoas envolvidas terem os seus próprios motivos. Quem sabe por que razão os mais de quinhentos jurados votaram como votaram? Platão não ajuda: apresenta-nos o discurso de Sócrates, mas não o dos acusadores. Seja como
for, Sócrates foi julgado, considerado culpado e condenado à morte. A sentença parece excessiva, mas em certa medida Sócrates foi responsável por ela. Depois de ter sido considerado culpado, permitiram-lhe, em conformidade com as regras do tribunal, que propusesse o seu próprio castigo. Em vez de sugerir algo razoável, propôs que lhe dessem uma pensão vitalícia pelos serviços prestados ao Estado - os «serviços» eram as atividades pelas quais acabara de ser condenado. Só depois de os seus amigos terem intervindo é que Sócrates se dispôs a pagar uma pequena multa.
Não é surpreendente que os jurados tenham aceite a proposta alternativa dos seus acusadores.
No entanto, a sentença não foi assim tão dura, já que ninguém esperava que Sócrates morresse efectivamente. O exílio era uma alternativa informal. Enquanto aguardava a execução, deram-lhe meios para fugir.
Várias cidades estavam dispostas a recebê-lo e chegaram emissários com dinheiro. Platão faz-nos perceber que ninguém teria impedido Sócrates de fugir. Os seus inimigos queriam forçá-lo a partir e os seus amigos estavam prontos para se despedir de si.
Mas Sócrates não partiu. Em vez disso, começou â examinar as razões para fugir e para não o fazer. Defendera sempre que a nossa conduta se deve guiar
pela razão. Em qualquer situação, afirmou, devemos fazer aquilo que tem as melhores razões do seu lado.
Aqui estava, então, o teste decisivo ao seu compromisso com essa ideia. Enquanto a carruagem aguardava, disse a Críton que partiria se os melhores argumentos fossem para partir, mas que ficaria se os seus melhores argumentos fossem para ficar. Depois, tendo examinado a questão de todas as perspetivas, Sócrates concluiu que não poderia justificar a desobediência à ordem do tribunal. Por isso ficou, bebeu a cicuta – o veneno prescrito pelo tribunal - e morreu. Talvez pressentisse que o seu ato torna-lo-ia uma figura memorável para as gerações futuras. Avisou os atenienses de que não era a sua reputação, mas a deles, que ficaria manchada pela sua morte.[...]
Sócrates não foi «o primeiro filósofo» - tradicionalmente, esse título é reservado para Tales, que viveu um século antes. (Porquê Tales? Porque Aristóteles
o listou em primeiro lugar.) Ainda assim, os historiadores costumam designar Tales e os outros filósofos anteriores a Sócrates por «pré-socráticos», sugerindo assim que eles pertencem a uma espécie de pré-história filosófica e que Sócrates assinala o verdadeiro começo.
Aquilo que colocou Sócrates em destaque foi o seu método, e não tanto as suas doutrinas. Sócrates baseava-se na argumentação, insistindo que só se descobre
a verdade pelo uso da razão. O seu legado reside sobretudo na sua convicção inabalável de que mesmo as questões mais abstratas admitem uma analise racional. O que é a justiça? Será que a alma e imortal? Poderá alguma vez ser certo maltratar alguém? Será possível saber o que é certo fazer e, ainda assim, proceder de outro modo? Sócrates pensava que estes problemas não eram meras questões de opinião. Existem respostas verdadeiras para eles, que podemos descobrir se pensarmos de forma suficientemente profunda. Era também isto que incomodava os acusadores de Sócrates, os quais, segundo o relato de Platão, desconfiavam da razão e preferiam basear-se na opinião popular, no costume e na autoridade religiosa.
Sócrates acreditava que alguns argumentos eram tão fortes que o compeliam a permanecer em Atenas e a aceitar a morte.
Poderá isto ser verdade? Que argumentos poderiam ser assim tão poderosos? A questão essencial, disse a Críton, era a de saber se tinha a obrigação de obedecer às leis de Atenas. As leis tinham-lhe feito uma exigência. Teria de lhes obedecer? A sua discussão foi a primeira investigação filosófica sobre a natureza da obrigação política.

James Rachels, Problemas da Filosofia, Trad. de Pedro Galvão, Gradiva, Lisboa, 2010, pp.13-18.

Ver também:

O Método Socrático

Tales de Mileto




Tales de Mileto, (em grego antigo: Θαλῆς ὁ Μιλήσιος) foi um filósofo, matemático, engenheiro, homem de negócios e astrónomo da Grécia Antiga, o primeiro filósofo ocidental de que se tem notícia. De ascendência fenícia, nasceu em Mileto, antiga colónia grega, na Ásia Menor, atual Turquia, por volta de 623 a.C. ou 624 a.C. e faleceu aproximadamente em 546 a.C. ou 548 a.C..
Tales é apontado como um dos sete sábios da Grécia Antiga. Além disso, foi o fundador da Escola Jónica. Considerava a água como sendo a origem de todas as coisas, e seus seguidores, embora discordassem quanto à “substância primordial” (que constituía a essência do universo), concordavam com ele no que dizia respeito à existência de um “princípio único" (arquê ) para essa natureza primordial.


[...]Tales, que era suficientemente velho para ter podido prever um eclipse em 585 [, foi considerado o primeiro filósofo por Aristóteles].  [...] Era um geómetra, apesar de lhe serem atribuídos teoremas bastante simples, como o de que o diâmetro de um círculo divide este último em duas partes iguais.[...] Quando descobriu como inscrever um triângulo retângulo num círculo sacrificou um boi aos deuses. Mas a sua geometria tinha um lado prático: foi capaz de medir a altura das pirâmides medindo as suas sombras. Tales interessava-se também por astronomia, tendo identificado a constelação da Ursa Menor, sublinhando a sua utilidade para a navegação. Foi, diz-se, o primeiro grego a fixar a duração do ano em 365 dias e fez estimativas dos tamanhos do Sol e da Lua.
Tales foi talvez o primeiro [...] a levantar questões sobre a estrutura e a natureza do cosmos como um todo. Sustentava que a Terra repousa sobre a água, como um madeiro que flutua num regato. (Aristóteles perguntaria, mais tarde: a água repousa sobre o quê?) Mas a Terra e os seus habitantes não se limitavam a flutuar na água: Tales pensava que, num certo sentido, tudo era feito de água. Mesmo na antiguidade as pessoas não podiam fazer mais do que levantar conjeturas sobre as bases desta crença: seria porque todos os animais e plantas precisam de água ou porque todas as sementes são húmidas?
Por causa da sua teoria sobre o cosmos, os autores posteriores chamaram físico ou filósofo da natureza a Tales (physis é a palavra grega para natureza). Apesar de ser um físico, Tales não era materialista, isto é, não pensava que mais nada existisse a não ser a matéria física. Um dos dois adágios que nos chegaram dele textualmente é talvez dada pela sua afirmação de que o íman, porque desloca o ferro, tem alma. Tales não acreditava na doutrina da transmigração de Pitágoras, mas sustentava a imortalidade da alma.
Tales não foi apenas um teorizador. Foi um conselheiro político e militar do rei Creso da Lídia e ajudou-o a passar um rio a vau desviando um caudal de água. Prognosticando uma colheita de azeitona extraordinariamente boa, arrendou todos os lagares e enriqueceu.

Anthony Kenny, História Concisa da Filosofia Ocidental, Tradução: Desidério Murcho, Fernando Martinho, Maria José Figueiredo, Pedro Santos e Rui Cabral, Porto Editora, p. 21. 


quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Espanto: a origem do filosofar

Edvard Munch, "O Grito" (Pormenor)

“Com efeito, foi pelo espanto (thauma) que os homens começaram a filosofar tanto no princípio como agora; perplexos, de início, perante as dificuldades mais óbvias, avançaram pouco a pouco e colocaram problemas a respeito das maiores, como os fenómenos da Lua, do Sol, e das estrelas, assim como da génese do universo.
E o homem que é tomado de perplexidade e admiração julga-se ignorante; portanto, como filosofavam para fugir à ignorância, é evidente que buscavam o conhecimento a fim de saber, e não com uma finalidade utilitária.”

Aristóteles, Metafísica

Origem da Filosofia, segundo Aristóteles. "O que levou os homens às pesquisas filosóficas foi o espanto", Aristóteles. 01-Na sua obra Metafísica, Aristóteles explica a origem da filosofia e o objetivo que ela persegue: "O que na origem levou os homens às pesquisas filosóficas foi, tal como hoje, o espanto". 02 - Aristóteles retoma o ensinamento de Platão que escreveu no Teeteto: "É absolutamente próprio de um filósofo esse sentimento: o espanto. A filosofia não tem outra origem...". O espanto, para os gregos, é portanto a verdadeira origem da pesquisa filosófica. 03 - A sensação de se conhecer aquilo que se vê geralmente não passa de ilusão. O espanto sentido pelo filósofo é antes de tudo a admiração diante da natureza e a admissão da sua incompreensão diante dos seus mecanismos. 04-"Perceber uma dificuldade e espantar-se é reconhecer a própria ignorância (...) e foi portanto para fugir à ignorância que os primeiros filósofos se dedicaram à filosofia". A filosofia não tem outro propósito senão o de tentar explicar o mundo e essa explicação só se consegue indo à procura do desconhecido.
05 - A separação entre a ciência e a filosofia é muito tardia (admitindo-se que ela seja verdadeiramente aceitável). Data aproximadamente do século XVIII, e todos os grandes nomes da filosofia foram também, pelo menos até essa época, grandes nomes das ciências. 06 - A filosofia tenta explicar aquilo que é. Seja simplesmente construindo uma descrição detalhada dos mecanismos que estão na base do funcionamento da realidade (e com isso surge a tentativa científica de explicação da natureza e das suas leis), seja tentando explicar-lhes o sentido. Chega-se assim às questões dita metafísicas: "Por que existe o ser, em vez do nada?" (Leibniz). 07 - A filosofia, de acordo com a lição de Sócrates, começa com a confissão da ignorância, o seu objetivo é fazer cessar essa ignorância. O seu objetivo é o conhecimento: "É evidente que eles buscavam a ciência para saber, e não tendo em vista qualquer outra utilidade", Aristóteles. 08 - Os filósofos buscam o saber pelo saber, e não por alguma utilidade prática imediata. 09 - É só quando os problemas urgentes da vida já estão resolvidos que as pessoas se lançam nas ciências ou na pesquisa. 10 - A filosofia arranca-nos da condição simplesmente humana, de seres perecíveis e obcecados com a sobrevivência, para nos fazer participar de uma forma de prazer divino: a compreensão pura e desinteressada.
12 - O homem não se pode reduzir a um simples ser natural que procura viver da maneira mais confortável possível, e sim que ele participa de um outro tipo de prazer, o da compreensão e mesmo da contemplação (o conhecimento racional). Aristóteles recorda-nos esse sentimento primeiro e motor de toda e qualquer pesquisa: o espanto ou admiração perante aquilo que é. 13 - Aristóteles observa que existe em todo o ser humano um prazer desinteressado em compreender, o qual se manifesta também na arte, mas que atinge seu ápice na atividade filosófica, a qual nos faz participar, tanto quanto possível, de uma vida digna dos deuses. Fonte: Anne Amiel, 50 Grandes Citações Filosóficas Explicadas. (Texto adaptado).

domingo, 2 de outubro de 2016

As diversas ordens (tipos) de questões: exercício


Se me pergunto, “posso suicidar-me?”, a minha frase interrogativa pode revestir várias significações:

Questão de facto (f)
Se se trata-se de uma questão de facto, a resposta positiva é evidente, uma vez que eu tenho, de facto, essa possibilidade e, ao mesmo tempo, muitos meios ao meu dispor para o fazer (que vou inibir-me de discriminar). Uma questão de facto está relacionada com um fenómeno observável, ou com um conhecimento que se pode obter através dessa observação.

Questão de ordem técnica (t)
Se encarar a questão como tendo a ver com os meios para alcançar um objetivo, que se prendem com a eficácia, então estamos perante uma questão técnica, na qual não estará envolvido qualquer problema filosófico. Por exemplo, posso não poder suicidar-me se estiver paralisado e não tiver ao meu alcance um dispositivo técnico que me permita executar essa ação. Neste caso, como acontece com todas as questões de ordem prática, a questão só admite uma resposta.

Questão jurídica (j)
Se entendermos a questão como querendo referir-se ao que é legal – “a lei permite que me suicide?” – a resposta é negativa. Até a incitação ao suicídio é considerada um crime à luz da lei portuguesa.

Questão científica (c)
Se modificarmos um pouco a questão percebe-se melhor quando pode assumir uma aceção científica: “Em que condições os seres humanos se suicidam?”/ “O que pode levar um ser humano ao suicídio?” Estamos no campo da psicologia e da sociologia.

Questão religiosa (r)
Encarada como questão religiosa, ela procura saber se o suicídio está de acordo com os dogmas religiosos (os valores religiosos) que orientam a vida do sujeito que assim se interroga. Poucas religiões toleram o suicídio e sabendo quais os valores que são defendidos por uma determinada religião, pode responder-se, sem qualquer lugar para dúvida, a esta questão, no quadro dessa religião.

Questão filosófica (fil)
É filosófica toda a questão que coloca o problema do sentido, da finalidade, do valor, da legitimidade, de uma situação, de um fenómeno, ou de uma ação para o homem (para a razão humana/ o auditório universal) e que não pode reduzir-se à explicação científica dos factos ou à modificação técnica da realidade.
Assim, podemos colocar essa questão do ponto de vista ético: “Podemos (moralmente) suicidar-nos?”/ “Moralmente, temos o direito de nos suicidar?” E aqui o problema ganha uma ressonância muito diferente em relação aos exemplos anteriores. Em primeiro lugar, não é possível responder apenas com sim ou não, temos que argumentar a favor de uma tese (posição/ opinião fundamentada), porque não é possível dar uma resposta que seja aceite por todos os seres humanos, encarados como seres racionais. É racionalmente possível argumentar de forma fundamentada em favor de teses contrárias, pelo que estamos perante uma questão que se abre à discussão. De facto, ao longo da história da filosofia surgiram posições filosóficas a favor do suicídio e posições contra pelo que temos que analisar de forma cuidadosa os argumentos que os filósofos apresentam para sustentar uma ou a outra tese.

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Vamos agora tentar aplicar todas estas distinções:

Exercício:
De entre as quinze questões apresentadas, decida quais são:
     - de ordem filosófica (fil);
     - questões de facto (f); científicas (c); técnicas (t); jurídicas (j) ou religiosas (r).
Deve justificar com uma frase cada uma das suas escolhas, tendo em especial atenção aos casos em que atribui à mesma questão várias qualificações.


Questão
Categoria
(fil;f;c;t;j;r)
Justificação da escolha
1) Porque existe o mal?



2) Qual é a diferença salarial, em média, entre homens e mulheres?


3) Podemos aprender a lidar construtivamente com a morte?


4)O Rap e o Grafiti, podem ser considerados arte?



5) A quando da formação do universo, como se deu o Big Bang?


6) Como armazenar, de forma segura para o ambiente, os resíduos nucleares?


7) Porque é que as mulheres devem ser consideradas iguais aos homens?


8) Qual foi o filósofo que disse: “Só sei que nada sei?”


9) Como ser feliz?


10) Quem deverá ter o direito de paternidade de uma criança nascida fora do casamento?


11) Como é que um homem poderia engravidar?


12) As bases de dados informáticas são uma ameaça às nossas liberdades?


13) As pessoas podem viver separadas sem serem juridicamente divorciadas?


14) Cristo existiu historicamente?


15) Abortar é pecado?




François Brooks