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sábado, 7 de fevereiro de 2015

A acção do homem sobre a Natureza






“Em virtude da sua vinculação ao mundo pela corporalidade e da sua diferença em relação ao mundo mediante a consciência‑liberdade, o homem está chamado  a exercer uma função exclusivamente sua a respeito do mundo: a transformação da natureza.   A presença do homem no mundo representa, pois, uma ativação das possibilidades escondidas da natureza, que leva a resultados que a natureza, por si só, não podia conseguir. Às ilimitadas potencialidades objectivas da natureza corresponde a ilimitada potencialidade projetiva do homem. E vice‑versa: à possibilidade ilimitada de criar o novo, própria do homem, corresponde a possibilidade ilimitada da natureza de ser transformada.
A função do homem a respeito do mundo apresenta‑se polifacetada. Um dos seus aspectos mais evidentes é o de transformar as coisas do mundo pelo trabalho, isto é, por meio da produção dos bens de que o homem necessita para a sua própria sobrevivência. Mas deve sobretudo notar‑se que a função do homem em relação ao mundo não se pode reduzir à produtividade mediante o trabalho. O homem é curioso em saber como é o mundo, em conhecer o enigma do mundo; simplesmente em conhecê‑lo por o conhecer. Deste desejo de saber brotaram e continuam a brotar as grandes descobertas que assinalam as etapas do progresso humano. Ao procurar conhecer como é o mundo, o homem busca também, e sobretudo, conhecer‑se a si próprio: progredindo no conhecimento do mundo, desenvolve as suas próprias capacidades de conhecer e atuar, e assim progride no conhecimento dele mesmo. Quanto mais senhor da natureza o homem se toma, tanto mais relevante se faz o porquê último da sua atividade e da sua existência no mundo; isto é, quanto mais o homem emerge sobre a natureza tanto mais se encontra a si mesmo perante a questão última: o porquê último do mundo e da relação "homem‑mundo", o porquê derradeiro do próprio homem.
Finalmente, não podem esquecer‑se outros aspectos fundamentais da função do homem relativamente ao mundo, diferentes do trabalho e mais criativos: a arte em todas as suas formas, a linguagem, a cultura, etc. São atividades em que o homem exprime a sua interioridade, fazendo da natureza mero instrumento expressivo da sua subjetividade, estas atividades provêm, sim, de uma necessidade do homem, mas de uma necessidade diversa das biológicas: da necessidade que o homem sente de expressar‑se a si próprio criando uma beleza irredutível à da natureza, uma linguagem de que a natureza carece, uma cultura feita à medida do homem. Tudo isto quer dizer que o resultado principal da ação do homem sobre o mundo é o progresso do homem enquanto homem, precisamente no que é específico do homem e o diferencia da natureza. O homem é capaz de mudar a sua própria relação com a natureza; crescendo no domínio dela, muda‑se a si mesmo.”

J. ALFARO



Atividades:
1.  Faça, por palavras suas, o resumo do texto (não deve ultrapassar as duzentas palavras).
2.   Comente a seguinte afirmação: “Às ilimitadas potencialidades objectivas da natureza corresponde a ilimitada potencialidade projetiva do homem. E vice‑versa: à possibilidade ilimitada de criar o novo, própria do homem, corresponde a possibilidade ilimitada da natureza de ser transformada.”
3.   Identifique e caracterize as diversas formas de relação do homem com o mundo (com a Natureza), presentes no texto.

Os valores e a cultura




Este texto e a questão 1 foram copiados daqui.

"É verdade que, do ponto de vista cultural, os seres humanos conquistaram, pouco a pouco e com muitos esforços, aquilo que eles consideram – e que nós consideramos ainda – como valores. Os valores não caíram todos do céu; noutros termos, os homens não descobriram os valores a partir de uma evidência já dada, como se fosse necessário perscrutar o próprio coração ou olhar para dentro de si mesmo para compreender quais são os objectivos da acção que são valores autênticos. O que é evidente, por exemplo, é a procura espontânea dos bens que mantêm a nossa vida física.
Estes “valores básicos “ não precisam de reflexão para serem vividos; o que exigiu o pensamento foi a construção dos meios técnicos (instrumentos como o machado de pedra para matar os animais, as técnicas de construção para habitação, etc…) para os realizar. Mas o que exigiu ainda mais tempo de reflexão e mais actos concretos, o que exigiu, por assim dizer, uma longa vida feita de tentativas fracassadas ou coroadas de êxito é a descoberta dos valores a que chamamos superiores. Tais valores, que regulam a vida relacional entre seres humanos, pressupõem um longo percurso civilizacional, percurso de que se pode às vezes reconhecer os marcos. Os “ Direitos do Homem” foram, depois de 1789, proclamados solenemente em 1948, no termo de uma guerra mundial que fez mais de 50 milhões de mortos.
Ainda que muitos povos já aplicassem estes direitos antes da Declaração Universal, não se pode negar que 1948 constitui um ponto de referência “histórico” na descoberta dos valores de respeito pelo ser humano enquanto pessoa. Há, deste modo, valores cuja origem está ligada com determinada cultura; citemos por exemplo a hospitalidade para os antigos Gregos, a pessoa para o mundo cristão, a democracia em Atenas e, depois da Revolução Francesa, a igualdade entre raças com a abolição da escravatura e, em seguida, do apartheid, a liberdade dos povos de decidir o seu futuro, com a descolonização depois da Segunda Guerra Mundial. Quando se afirma que os valores são historicamente marcados diz-se que é possível determinar, com certa margem de imprecisão, o seu nascimento enquanto valores reconhecidos quer por um grupo, quer pela maior parte das pessoas, quer pelo acordo quase universal das nações.
Os valores são todos relativos à época e ao contexto da sua descoberta na história dos seres humanos. As formas que os valores assumem variam com o tempo. Quanto mais básicos são, mais variam as formas da sua vivência. Em sentido contrário, quanto mais elevados são os valores, mais estável é o seu núcleo intangível., de tal modo que, através das vicissitudes das suas formas de apresentação, eles se manifestam como valendo apenas para todos os seres humanos."
Michel Renaud, “ Viver a Cidadania” , Educar Hoje – Enciclopédia dos Pais.


1. A partir de uma leitura do texto, estabeleça a diferença entre os “ valores básicos” e os “ valores superiores”.

2. Partindo de uma análise do texto, relacione os "valores básicos" e os "valores superiores" com a historicidade dos valores.

Para aceder à correção clique no link:

O homem como produto e produtor da cultura






De uma forma muito geral podemos definir a cultura como tudo o que é produzido pelo homem enquanto ser social.

Em primeiro lugar, a cultura é aprendida. É aprendida, porque existe graças a um processo de transmissão de geração em geração e não existe independentemente dos indivíduos e dos grupos sociais que compõem as sociedades humanas

A aprendizagem da cultura começa a partir do nascimento, e dá-se essencialmente por imitação dos outros. A esse processo chamamos enculturação e uma das principais vertentes da socialização. É pelo processo de socialização / enculturação que se dá a reprodução social que é um complemento indispensável da reprodução biológica

A cultura também é simbólica, pois todas as culturas possuem símbolos que são compreendidos de modo semelhante por todas as pessoas que as integram. É uma forma de comunicação, é uma rede de sentidos que torna possíveis as relações pessoais. Tudo nas culturas é de carácter simbólico. A base de cada cultura é a língua partilhada pelos membros de cada comunidade.

A cultura também domina a natureza, pois sobrepõe-se ao que há de biológico em nós. Cada necessidade biológica é expressa e saciada de forma diferente, consoante a cultura. Por exemplo, a necessidade de alimento é comum a todos os seres humanos, mas que é satisfeita é de modo diferente (difere no tipo de comida, no modo como se toma a refeição, as horas…). Por isso se diz que a cultura é como uma segunda natureza para o ser humano.

A cultura mostra-se como geral e específica ao mesmo tempo, visto que todos os homens, em qualquer sociedade, têm uma determinada cultura (não há ninguém que não tenha cultura, nasça ou exista sem ela), mas também porque as culturas são diferentes, têm características próprias, que a individualizam. 

Também é dito que a cultura abarca o todo. É simples; a cultura está presente em todos os aspectos da vida humana (sociais, organização do tempo e do espaço, biológicos); ou seja, a cultura está presente em tudo na nossa vida e nada está fora da cultura, pois existem conhecimentos, normas, regras, padrões de comportamento em todas as actividades humanas. 

Outro aspecto da cultura, é o facto de esta ser partilhada, porque não é propriedade de um indivíduo, é de todas as pessoas de uma sociedade, a sociedade e a cultura são inseparáveis, elas são a forma de viver do ser humano. 

Este texto foi adaptado a partir deste original.




Clique na imagem para ampliar


O homem é produto e produtor da Cultura


A cultura é obra humana, é o resultado da acção humana sobre o mundo ( sobre o próprio homem).

O ser humano é capaz de conhecer a realidade em que vive, o que significa que o ser humano é sujeito de conhecimento: consegue representar mentalmente a realidade e, a partir daí, pode interrogar-se sobre o porquê das coisas e das ações dos homens. 
Com base no conhecimento acerca de si e do mundo em que vive, o ser humano pode valorar aquilo de que tem conhecimento, a partir de padrões de escolha e de avaliação que tornam a realidade capaz de ser transformada pela ação humana. 
Com base nos juízos de valor que faz sobre o mundo, o ser humano pode agir procurando alcançar metas individuais e/ou coletivas. Fá-lo porque é capaz de comunicar e de cooperar com os outros humanos - chamamos cultura a toda esta rede de conhecimentos, valorações e ações e constituem o mundo humano, o habitat da espécie humana.
Sem um meio sócio-cultural o ser humano é como um peixe fora de água, não pode viver na plenitude das suas capacidades, perde o sentido do que é a sua humanidade. Por isso o pior castigo que pode recair sobre um ser humano é o isolamento em relação à sociedade dos homens.
A rejeição é o pior dos infernos.
Isto porque o ser humano é o principal produto cultural da sociedade em que nasce e se desenvolve. Sem a socialização seríamos como o menino selvagem quando foi capturado: animais muito limitados sem quaisquer características humanas. Nós somos o resultado da educação que recebemos, acrescido das nossas escolhas pessoais. Somos, no fundo, um produto da ação cultural dos que nos educaram.
Mas também somos produtores de cultura, porque comunicamos, pensamos, valoramos e agimos, alterando, de forma variável, o mundo em que vivemos, ou seja a cultura da sociedade a que pertencemos.
Há seres humanos que conseguem ter um grande impacto na cultura da sua sociedade, como os artistas, os cientistas, os criadores de obras culturais de relevo. Mas cada ser humano deixa uma marca no mundo dos homens, por mais pequena que seja.


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

O conceito de cultura



CULTURA E DIVERSIDADE CULTURAL

Conceito de cultura: Segundo o sociólogo inglês Raymond Williams, a palavra cultura vem do latim – colere – e definia inicialmente o cultivo das plantas, o cuidado com os animais e também com a terra (por isso se fala em agricultura);

Definia, ainda, o cuidado com as crianças e a sua educação; o cuidado com os deuses (o seu culto); o cuidado com os antepassados e os seus monumentos (a sua memória);

Chegaríamos ao sentido mais comum do termo na nossa sociedade: o homem que tem cultura é o homem “culto”. Mas, se pensássemos em cultura apenas nesse sentido, teríamos que perguntar: só quem lê muito, quem passou um longo tempo na escola é que tem cultura? E o camponês, o operário, o comerciante, estes não têm cultura?

Numa outra perspectiva, poderíamos responder que cultura é cinema, pintura, teatro, as manifestações artísticas em geral. Nesse caso, só os artistas é que teriam cultura? Mas e as festas populares, as crenças, as chamadas tradições, seriam o quê?

A maneira de agir, pensar e sentir de um grupo de pessoas ou classe social seria ou não cultura? O “modo de ser” dos portugueses tem algo a ver com “cultura”, com “cultura portuguesa”?

Antes de tentar responder a essas perguntas, devemos partir, especificamente, da compreensão do próprio conceito. Pensar em cultura requer que se pense, inicialmente, na sua relação com outros dois conceitos fundamentais: o de civilização e o de história. Foi na Europa, a partir do século XVIII, que o conceito de cultura passou a ser associado ao conceito de civilização. Os pensadores do período, preocupados em estudar o homem e a sociedade, pensavam a relação entre o conceito de cultura e de civilização de maneiras diversas.

Jean-Jacques Rousseau (1712-1778): cultura seria definida como bondade natural, solidariedade espontânea. A essa ideia positiva de cultura, Rousseau opunha a ideia negativa de civilização. O conceito de civilização era pensado como aprisionamento da bondade humana natural, por meio de regras e convenções artificiais e exteriores ao homem;

Voltaire (1694-1778) e Kant (1724-1808): cultura e civilização representavam, ambas, o processo de aperfeiçoamento moral e racional da sociedade.

Hegel (1770-1831): Compreendida em sua relação com a história, a cultura é definida como o conjunto organizado dos vários modos de vida de uma sociedade. Segundo o filósofo alemão, a cultura resultaria da forma de ser dos homens. Assim, a concepção de cultura estaria relacionada com as formas como os homens vão compreendendo, representando e se relacionando com os vários elementos componentes da sua existência: o trabalho, a religião, a linguagem, as ciências, as artes e a política.

Os estudos antropológicos desenvolveram em torno deste conceito alargado de cultura: A antropologia, como ciência, desenvolveu-se principalmente a partir do século XVIII com a expansão colonial europeia. Novos territórios vinham sendo descobertos e ocupados pelas potências europeias (principalmente a Inglaterra) e novos povos (considerados primitivos, quando comparados com a sociedade ocidental) eram contactados. Era preciso conhecer os seus hábitos, costumes e valores, principalmente para melhor os dominar. A antropologia surgiu, como se pode deduzir, como conseqüência da política imperialista e com o intuito de auxiliá-la. Ao longo do tempo, porém, a atuação dos antropólogos desenvolveu-se de maneira mais independente e num sentido muitas vezes oposto ao que deles se exigia.

Nas últimas décadas, o estudo do “outro” (os outros povos, as suas crenças e costumes) passa a desenvolver-se no sentido político de mostrar que as diferenças culturais não significam inferioridade nem justificam a dominação. Por essa razão, a antropologia ajudou a desqualificar o etnocentrismo (isto é, a tendência a valorizar a própria cultura, tomando-a como parâmetro para avaliar as demais) e a admitir o relativismo cultural e, posteriormente, o interculturalismo. Para ela, cada sociedade possui o direito de se desenvolver de modo autónomo, não existindo uma teoria sobre a humanidade que possua alcance universal, e que seja capaz de impor-se a outras, com base em qualquer tipo de superioridade.

Tiago Dantas
http://sociologiadeplantao.blogspot.pt/2009/08/conceito-de-cultura.html

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Cultura, identidade e diversidade cultural







O conceito de aculturação
Aculturação é um termo criado inicialmente por antropólogos norte-americanos para designar as mudanças que podem acontecer em uma sociedade diante de sua fusão com elementos culturais externos, geralmente por meio de dominação política, militar e territorial. Porém, segundo o historiador francês Nathan Watchel, aculturação é todo fenómeno de interação social que resulta do contato entre duas culturas, e não somente da sobreposição de uma cultura a outra.

Já Alfredo Bosi, em Dialética da colonização, afirma que esse fenómeno provém do contacto entre sociedades distintas e pode ocorrer em diferentes períodos históricos, dependendo apenas da existência do contacto entre culturas diversas, constituindo-se, assim, um processo de sujeição social de uma sociedade a outra.

A maioria dos autores acreditam que a aculturação é sempre um fenómeno de imposição cultural.

Trata-se,também,  de aculturação quando duas culturas distintas ou parecidas são absorvidas uma pela outra, formando uma nova cultura diferente. Além disso, aculturação pode ser também entendida como a absorção de uma cultura pela outra, onde essa nova cultura terá aspectos da cultura inicial e da cultura absorvida. Um exemplo é o Brasil que adquiriu traços da cultura de Portugal, da África, que juntamente com a cultura indígena formaram a cultura brasileira.

Com a crescente globalização, um novo entendimento de aculturação vem-se tornando um dos aspectos fundamentais na sociedade. Pela proximidade a grandes culturas e rapidez de comunicação entre os diferentes países do globo, alguns autores sustentam que cada cultura está a perder a sua identidade cultural e social, aderindo em parte a outras culturas. Um exemplo disso são elementos da cultura ocidental que são cada vez mais homogéneos em muitos países distintos. Mesmo assim a aculturação não tira totalmente a identidade social de um povo, crendo-se que talvez no futuro não exista mais uma diferença cultural tão acentuada como a aquela que hoje ainda se observa, em especial entre o Oriente e o Ocidente.
http://pt.wikipedia.org
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O texto inserido a seguir foi copiado a partir do Portal das Escolas
(No ficheiro não não é indicado o nome do(s) autores(s))


Multiculturalismo

As vivências dos indivíduos em diferentes contextos sociais, com as suas hierarquias de valores, com a sua cultura própria colocam sérias dificuldades de convivência intercultural. Porém, por razões particulares, acontece que pessoas de espaços culturais diversos são muitas vezes obrigadas a relacionar-se e a ter de conviver.

Fala-se de multiculturalismo ou diversidade cultural para designar este fenómeno, o qual tem vindo a merecer a atenção de inúmeros investigadores. Entre eles, uns preocupam-se com a descrição e análise das diferenças culturais entre os povos que habitam regiões distintas do globo; outros analisam o facto de, num mesmo espaço social, pessoas com culturas diferentes terem de lidar umas com as outras.

Devido à emigração, é possível num país, ou mesmo numa cidade, a existência de diversos núcleos culturais. 
Acrescente-se ainda a existência de grupos sociais que, por inúmeras razões, se sentem marginalizados pelos elementos da sociedade, como é o caso dos deficientes, dos idosos, dos homossexuais e de outros.

Atitudes face à diversidade cultural

Perante a existência de seres humanos com normas e hábitos culturais diferentes, as pessoas podem assumir atitudes e condutas muito variadas. Mencionaremos algumas dessas atitudes: etnocentrismo, relativismo cultural e interculturalismo.


Etnocentrismo

Incluem-se aqui as pessoas que observam as outras culturas em função da sua própria cultura, tomando-a como padrão para valorar e hierarquizar as restantes. Desta atitude podem, de imediato, resultar duas consequências:

• Incompreensão em relação aos aspectos das outras culturas, pois o etnocentrista é incapaz de aceitar os que não adoptam modos de vida semelhantes aos seus.
• Aumento da coesão dos elementos do grupo e do sentimento de superioridade em relação aos elementos das culturas com que têm de coexistir.

Imagem retirada do manual Um outro olhar sobre o mundo
Para preservar os traços da sua cultura, o etnocentrista pode assumir posturas negativas, entre as quais se contam:
• Xenofobia, ou seja, ódio em relação aos estrangeiros.
• Racismo, isto é, repúdio violento de determinados grupos étnicos.
• Chauvinismo, quer dizer, patriotismo fanático.


Relativismo cultural

Para além dos etnocentristas, há outras pessoas que perspectivam as outras culturas a partir dos valores por que se regem e não dos valores das culturas em causa. São os defensores do relativismo cultural.
Porém, afastam-se dos etnocentristas ao recomendarem a tolerância face as diferentes expressões culturais  das outras comunidades.
Esta tolerância, sendo aparentemente uma atitude positiva, manifesta alguns aspectos negativos:

• a proclamação dos respeito e tolerância pelas outras culturas encerra a ideia de que cada cultura deve promover os seus próprios valores, ficando fechada em si própria.
• Não incentivando a abertura aos modelos das outras comunidades, os defensores do relativismo não promovem, antes dificultam, o diálogo entre culturas.

Neste sentido, os relativistas não escapam a certos riscos. Entre eles, anotam-se os seguintes:

Racismo
Embora proponham o respeito pelos modos de vida de todos os povos, os relativistas estão a preservar a sua própria cultura. A melhor forma de as pessoas se preservarem consiste em não se misturarem. Daí não serem adeptos do diálogo cultural.


Isolamento
Apesar da tolerância, o relativismo promove a separação entre culturas, não manifestando interesse em estabelecer contacto com povos diferentes. A defesa de que cada ser humano deve ficar no seu país e viver segundo a sua cultura acaba por ser, muitas vezes, um modo de justificar a proibição da entrada de imigrantes.

Estagnação 
Há uma visão estática das culturas, considerando que o importante é manter
as tradições. Certamente que é bom manter as tradições para conservar a memória colectiva; porém, a cultura é algo de vivo que se deve adaptar a novas circunstâncias e, para isso, os contactos entre culturas são altamente enriquecedores. Esta é a perspectiva adoptada pelos defensores do interculturalismo.


Interculturalismo

Este movimento tem como ponto de partida o respeito pelas outras culturas, superando as falhas do relativismo cultural, ao defender o encontro, em pé de igualdade, entre todas elas.

O interculturalismo propõe-se promover os seguintes objectivos:
• Compreender a natureza pluralista da nossa sociedade e do nosso mundo.
• Promover o diálogo entre culturas.
• Compreender a complexidade e riqueza da relação entre as diferentes culturas, tanto no plano pessoal como no comunitário.
• Colaborar na busca de respostas aos problemas mundiais que se colocam nos âmbitos social, económico, político e ecológico.

Dado que não se pode considerar que qualquer cultura tenha atingido o seu total desenvolvimento, o diálogo entre povos de diferentes culturas é o meio de possibilitar o enriquecimento mútuo de todas elas. O interculturalismo propõe, assim, que se aprenda a conviver num mundo pluralista e  se respeite e defenda a humanidade no seu conjunto. 


A importância do diálogo entre culturas

O diálogo entre culturas corresponde a uma exigência do nosso tempo, dada a necessidade de dar respostas comuns a desafios que se colocam a toda a humanidade. Para o levar a cabo é necessário, contudo, ter como base um conjunto de valores morais partilhados, entre os quais se evidenciam os seguintes:
• Salvaguarda dos direitos humanos.
• Apreço pela liberdade, igualdade e solidariedade.
• Respeito pelas diferenças culturais.
• Promoção de uma atitude dialogante.
• Implementação de um tolerância activa.

Estes mínimos morais são os alicerces para a construção de uma “civilização mundial”. Tal civilização será obra de todas as culturas e raças e terá de ser edificada através de um diálogo intercultural sério e frutífero. 

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Os perigos do etnocentrismo

"É norma socialmente reconhecida entre nós que devemos cuidar dos nossos pais e de familiares quando atingem uma idade avançada; os Esquimós deixam-nos morrer de fome e de frio nessas mesmas condições. Algumas culturas permitem práticas homossexuais enquanto outras as condenam (pena de morte na Arábia Saudita). Em vários países muçulmanos a poligamia é uma prática normal, ao passo que nas sociedades cristãs ela é vista como imoral e ilegal. Certas tribos da Nova Guiné consideram que roubar é moralmente correcto; a maior parte das sociedades condenam esse acto. O infanticídio é moralmente repelente para a maior parte das culturas, mas algumas ainda o praticam. Em certos países a pena de morte vigora, ao passo que noutras foi abolida; algumas tribos do deserto consideravam um dever sagrado matar após terríveis torturas um membro qualquer da tribo a que pertenciam os assassinos de um dos seus.

Centenas de páginas seriam insuficientes para documentarmos a relatividade dos padrões culturais, a grande diversidade de normas e práticas culturais que existem actualmente e também as que existiram.

Até há bem pouco tempo muitas culturas e sociedades viviam praticamente fechadas sobre si mesmas, desconhecendo-se mutuamente e desenvolvendo bizarras crenças acerca das outras.

 Os europeus que viajaram para as Américas no século XVI acreditavam que iam encontrar gigantes, amazonas e pigmeus, a Fonte da Eterna Juventude, mulheres cujos corpos nunca envelheciam e homens que viviam centenas de anos. Os índios americanos foram inicialmente olhados como criaturas selvagens que tinham mais afinidades com os animais do que com os seres humanos. Paracelso, nunca lá tendo ido, descreveu o continente norte-americano povoado por criaturas que eram meio homens meio bestas. Julgava-se que os índios, os nativos desse continente, eram seres sem alma nascidos espontaneamente das profundezas da terra. O bispo de Santa Marta, na Colômbia, descrevia os indígenas como homens selvagens das florestas e não homens dotados de uma alma racional, motivo pelo qual não podiam assimilar nenhuma doutrina cristã, nenhum ensinamento, nem adquirir a virtude.

Anthony Giddens, Sociology, Polity Press, Cambridge, p. 30

Durante o século XIX os missionários cristãos em África e nas ilhas do Pacífico forçaram várias tribos nativas a mudar os seus padrões de comportamento. Chocados com a nudez pública, a poligamia e o trabalho no dia do Senhor, decidiram, paternalistas, reformar o modo de vida dos "pagãos". Proibiram os homens de ter mais de uma mulher, instituíram o sábado como dia de descanso e vestiram toda a gente. Estas alterações culturais, impostas a pessoas que dificilmente compreendiam a nova religião, mas que tinham de se submeter ao poder do homem branco, revelaram-se, em muitos casos, nocivas: criaram mal-estar social, desespero entre as mulheres e orfandade entre as crianças.

Se bem que o complexo de superioridade cultural não fosse um exclusivo dos Europeus (os chineses do século XVIII consideraram desinteressantes e bárbaros os seus visitantes ingleses), o domínio tecnológico, científico e militar da Europa, bem vincado a partir das Descobertas, fez com que os Europeus julgassem os próprios padrões, valores e realizações culturais como superiores. Povos pertencentes a sociedades diferentes foram, na sua grande maioria, desqualificados como inferiores, bárbaros e selvagens.

O etnocentrismo é a atitude característica de quem só reconhece legitimidade e validade às normas e valores vigentes na sua cultura ou sociedade. Tem a sua origem na tendência de julgarmos as realizações culturais de outros povos a partir dos nossos próprios padrões culturais, pelo que não é de admirar que consideremos o nosso modo de vida como preferível e superior a todos os outros. Os valores da sociedade a que pertencemos são, na atitude etnocêntrica, declarados como valores universalizáveis, aplicáveis a todos os homens, ou seja, dada a sua "superioridade" devem ser seguidos por todas as outras sociedades e culturas. Adoptando esta perspectiva, não é de estranhar que alguns povos tendam a intitular-se os únicos legítimos e verdadeiros representantes da espécie humana.

Quais os perigos da atitude etnocêntrica? A negação da diversidade cultural humana (como se uma só cor fosse preferível ao arco-íris) e, sobretudo os crimes, massacres e extermínios que a conjugação dessa atitude ilegítima com ambições económicas provocou ao longo da História.

Depois da Segunda Guerra Mundial e do extermínio de milhões de indivíduos pertencentes a povos que pretensos representantes de valores culturais superiores definiram como sub-humanos, a antropologia cultural promoveu a abertura das mentalidades, a compreensão e o respeito pelas normas (valores das outras culturas Mensagens fundamentais: a) Em todas as culturas encontramos valores positivos e valores negativos; b) Se certas normas e práticas nos parecem absurdas devemos procurar o seu sentido integrando-as na totalidade cultural sem a qual são incompreensíveis, c) O conhecimento metódico e descomplexado de culturas diferentes da nossa permite-nos compreender o que há de arbitrário nalguns dos nossos costumes, torna legítimo optar, por exemplo, por orientações religiosas que não aquelas em que fomos educados, questionar determinados valores vigentes, propor novos critérios de valoração das relações sociais, com a natureza, etc.

A defesa legítima da diversidade cultural conduziu, contudo, muitos antropólogos actuais a exagerarem a diversidade das culturas e das sociedades: não existiriam valores universais ou normas de comportamentos válidos independentemente do tempo e do espaço. As valorações são relativas a um determinado contexto cultural, pelo que julgar as práticas de uma certa sociedade, não existindo escala de valores universalmente aceite, seria avaliá-los em função dos valores que vigoram na nossa cultura.

Cairíamos de novo, segundo a maioria dos antropólogos, nessa atitude dogmática que é o etnocentrismo.»

RODRIGUES, Luís (2003). Filosofia 10.º ano. Lisboa: Plátano Editora.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

A sociedade e a origem dos valores




A importância da sociedade


Se é verdade que o homem transforma a natureza através da sua acção, também é verdade que essa intervenção do homem não é caótica. Tendo em conta que cada ser humano é dotado de uma consciência racional e de liberdade, é de facto surpreendente a forma como os homens se organizam de forma a conseguirem atingir objectivos comuns, sem que as diferenças individuais impeçam o sucesso dos projectos colectivos.

    Também é de registar que os homens vivem em sociedade e que todas as sociedades humanas são diferentes, têm formas de funcionamento diferentes, mas todas têm em comum a existência de regras, relativas a todos os aspectos significativos da convivência entre os indivíduos que as compõem. Essas regras podem ser transmitidas de geração em geração, sob a forma de costume, ou podem ser codificadas em corpos legislativos mais ou menos complexos, que regulam a vida dos indivíduos e orientam a prática da justiça.

    Desde a antiguidade que os filósofos, os historiadores e, a partir do século XIX, os investigadores das ciências humanas, como a Sociologia, a Psicologia, a Antropologia, entre outras, procuram descobrir o que está na base da sociabilidade humana, o que mantém as sociedades humanas coesas, apesar das diferenças que existem entre os indivíduos. Não andará longe da verdade, quem disser que o que mantém a coesão das sociedades humanas é o sentimento de pertença a um grupo, em primeiro lugar à família, e em segundo lugar à comunidade mais alargada em que os indivíduos nascem, e dentro da qual se dá a sua formação. De facto, a socialização forma nos indivíduos esta consciência da identidade com a comunidade, a consciência de que os outros membros do grupo social são importantes, de que a vida individual só tem sentido no seio de uma vida colectiva que a enquadra e lhe dá significado.

     Ser humano é ser para e com os outros. “Ninguém é um ilha”, como disse o poeta inglês John Donne: não há nada mais destrutivo para o indivíduo do que a solidão e tudo aquilo que contribui para cortar os seus laços com os outros. A nossa consciência e a nossa liberdade são intersubjectivas: nós pensamos e agimos, sempre, em relação com, ou em relação a, outrem. Ora isto não deve ser considerado como uma forma de desvalorização do indivíduo, mas antes pelo contrário. Para nos relacionarmos com os outros de uma forma construtiva, temos que estar bem cientes das nossas capacidades e das nossas escolhas individuais.

      As regras e padrões que dão coerência ao corpo social e orientam, ao mesmo tempo, a acção dos indivíduos, indicando-lhes padrões de conduta socialmente aceitáveis e dando-lhes a consciência da pertença a uma comunidade, são os valores

O subjetivismo axiológico centra a sua argumentação na valoração, encarada como um fenómeno individual, mas grande parte das experiências axiológicas tem a ver com a dimensão social da existência humana. Os seres humanos não se limitam a viver uma vida individual, a existência humana tem uma dimensão convivial, intersubjetiva.

Os valores têm uma origem social, são elementos fundamentais da cultura de cada uma das sociedades. 
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No filme 'O menino selvagem' vimos a importância socialização: nós, seres humanos, não nascemos humanos. Precisamos de um longo processo de transformações sucessivas para nos tornarmos humanos.
E como a própria humanidade está em contínua evolução, esse processo não tem fim, pois estamos sempre a adaptarmo-nos ao meio em que vivemos - a sociedade. O meio social é estruturado sob a forma de uma cultura que, ao mesmo tempo que estrutura a sociedade e permite a formação e a expressão da individualidade, também ganha novas formas à medida que os indivíduos e a sociedade, em parte ou no seu todo, tomam decisões e dão origem a novos bens, ideias,  comportamentos, etc.
Podemos definir a cultura como sendo tudo aquilo que é produzido pelo homem (enquanto ser social). O homem constrói-se produzindo cultura, modificando o meio em que vive, o que significa que à medida que modificamos o meio em que vivemos, também nos transformamos a nós próprios. Daí dizer-se que o homem é, ao mesmo tempo, produto e produtor de cultura.
Isto é válido tanto para os indivíduos como para a espécie. 
A espécie humana evoluiu com base na produção cultural: os nossos antepassados antropóides conseguiram libertar-se dos imperativos da evolução biológica (a lei da seleção natural) através da construção de ferramentas, de início muito rudimentares, que, progressivamente se tornaram poderosíssimas e permitiram que a nossa espécie se tornasse dominante num planeta onde existiam predadores com armas 'biológicas' (presas, garras, couraças, etc.) muito mais eficazes do que os parcos recursos que os indivíduos da nossa espécie traziam do útero materno. 
Ao contrário do que acontece com as outras espécies, o homem não se limita a adaptar-se ao meio em que vive: os seres humanos conseguem adaptar o meio à suas necessidades, arrasando montanhas, secando lagos, mudando o curso de rios, ganhando vastos territórios ao mar, construindo estações orbitais onde é possível viver fora da atmosfera terrestre, ou submarinos que permitem a vida debaixo de água... 
Os indivíduos, por sua vez, são introduzidos na sociedade em que nascem através dos processos de socialização:

A importância da socialização
De certeza que a maioria das pessoas já ouviu falar em socialização. No entanto, muitas delas não sabem o que significa essa palavra. A socialização é o processo através do qual nós vamos interiorizando hábitos e características que nos tornam membros de uma sociedade. A socialização é um processo contínuo, que se inicia após o nascimento e se faz sentir ao longo de toda a nossa vida, terminado apenas quando morremos.
Existem dois tipos de socialização: a socialização primária e a socialização secundária.
Podemos definir socialização primária como sendo o processo pelo qual os seres humanos aprendem as coisas mais básicas da vida, tais como comer com talheres, andar, falar, vestir-se sozinhos, entre muitas outras. Estas “regras” são-nos ensinadas fundamentalmente pelos nossos pais e pela escola, grupos sociais primários (a escola pode ser considerada um grupo social intermediário). Por exemplo, quando aprendemos a falar estamos a sofrer um processo de socialização primária e quem nos faz passar por esse processo são os nossos pais. A socialização primária levou-nos  a interiorizar um conjunto de “regras” que faz com que estejamos integrados numa determinada sociedade. Como tal, este processo constitui um papel imprescindível na nossa vida.
Relativamente à socialização secundária, esta também é um processo de aprendizagem mas, tal como o nome indica, é secundária. Isto significa que passamos por este processo quando nos deparamos com novas situações sociais ao longo da vida e temos de nos adaptar a essas situações que exigem a nossa integração em novos grupos sociais secundários, por exemplo, quando mudamos para uma escola nova, ou quando alguém muda de emprego, necessitando de se adaptar às regras de funcionamento da nova empresa. Outro exemplo: quando nos casamos temos de nos habituar a uma nova forma de vida, viver com uma pessoa, partilhar os mesmos problemas, etc. Nem sempre é fácil uma adaptação a novas situações porque quando nos acomodamos a uma certa situação temos dificuldade em aceitar que a vida muda e as coisas já não funcionam da mesma forma.
Ao longo de toda a nossa vida estamos constantemente a ser postos à prova e a passar por processos de socialização secundária. Cada nova situação que nos surge exige de nós uma nova adaptação.
Por este motivo, a socialização é o processo que permite a cada indivíduo desenvolver a sua personalidade e efetuar a sua integração na sociedade. Se repararmos, dois indivíduos reagem de forma completamente diferente perante a mesma situação, porque cada indivíduo é único e a sua personalidade também.
Como tal, resta apenas mencionar que é o facto de estarmos diariamente sujeitos a este processo que nos torna seres integrados numa sociedade e nos torna naquilo que somos.
| http://psicob.blogspot.com/2008/01/socializao-importncia-na-nossa-vida.html
(Texto adaptado).
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domingo, 1 de fevereiro de 2015

O que nos torna humanos?


Desde que o naturalista inglês Charles Darwin propôs, em 1860, a sua famosa teoria da selecção natural, não temos mais dúvidas de que a espécie humana moderna, o Homo sapiens sapiens, evoluiu a partir de outras espécies, num contínuo que remete para um primata que foi, algum dia no passado distante, o "elo perdido" entre os primatas antropóides ("parecidos com o homem"), e o primeiro dos hominídeos ("género dos homens"). Ao longo do século XX, inúmeras descobertas paleoantropológicas demonstraram a existência de um grande número de espécies de hominídeos, como o Australopithecus, todas elas surgidas em África, num período que cobre os últimos 5,5 milhões de anos. O crescimento gradativo da capacidade craniana e do volume do cérebro, o aparecimento da postura erecta permanente, o surgimento do uso de ferramentas e da cultura simbólica, o domínio de tecnologias como o fogo e a construção de abrigos, a caça, etc., tudo isso é bastante evidente a partir do exame do registo arqueológico dos hominídeos, até ao surgimento, 2 milhões de anos atrás, do Homo habilis ("homem habilidoso") e do Homo erectus ("homem erecto"), as primeiras espécies que talvez possamos considerar "humanas", no seu sentido moderno, pois desenvolveram a linguagem falada complexa, a construção de ferramentas, as vestimentas, o fogo, a cocção dos alimentos, etc. A capacidade craniana aumentou de 500 cm3 para 1200 cm3 entre os primeiros Homo habilis e o Homo erectus, em pouco mais de um milhão de anos, embora a sua aparência facial continuasse a ser a de um antropóide. Foi, também, a primeira espécie humana a ter mobilidade em escala planetária, tendo-se espalhado pelo Médio Oriente, China e Java. Os seus sucessores, o Homo sapiens neandertalensis, surgido há 300 mil anos atrás, e o Homo sapiens sapiens, há 120 mil anos, aumentaram a capacidade craniana para o valor actual (1350 cm3), invadiram todos os rincões da Terra, mesmo os mais distantes e inóspitos, desenvolveram as representações simbólicas, como a arte pictórica, a escultura e a música, os adornos corporais, as armas de guerra, a medicina, a domesticação de animais, a agricultura, e as crenças espirituais, como as religiões, o culto ao invisível, os ritos funerários e as superstições mágicas. Todas essas características e "invenções" eram unicamente culturais e transmissíveis entre seres humanos através do ensino, e são únicas entre as espécies animais, inclusive entre os outros primatas.

Não é muito difícil chegar à conclusão de que somos realmente muito parecidos biologicamente com os nossos "primos", os grandes primatas antropóides. Nos tempos de Darwin, um dos eventos que mais influenciou a aceitação da sua teoria foi a exposição, pela primeira vez, de gorilas vivos no Jardim Zoológico de Londres. As muitas coisas que temos em comum com eles abalou as convicções profundas dos vitorianos da época, que defendiam que o ser humano tinha sido criado por Deus à sua imagem, como uma espécie totalmente à parte das demais. Por exemplo, herdámos dos primatas e antropóides algumas características fundamentais tais como a visão colorida, os dois olhos voltados para a frente, a face plana, o grande desenvolvimento do neocórtex, e a alta destreza manual, esta última incomparável a de qualquer outro mamífero. Comportamentalmente, todos os antropóides são capazes de manipular símbolos, demonstram enorme capacidade de adaptação ao ambiente através da aprendizagem, são capazes de usar ferramentas para uma variedade de tarefas, utilizam muito os tele-sentidos (visão e audição) para interagir com o ambiente, possuem transmissão cultural do conhecimento, têm uma bem estruturada vida social baseada na tribo, o comportamento sexual e reprodutivo, e complexas formas de intercomunicação intra-específica. Geneticamente também somos muito parecidos: a biologia molecular descobriu, por exemplo, que  98% do genoma do chimpanzé é igual ao nosso. Em suma, somos "macacos sem pêlos", como dizia o título de um livro que fez grande sucesso na década dos 70s, "The Naked Ape", do biólogo inglês Desmond Morris. Comparativamente a outros mamíferos superiores, somos extremamente desprotegidos. Não possuímos garras nem presas proeminentes, não temos pele grossa, temos poucos pêlos. Temos limitações em correr, saltar, nadar.

Então, como esse animal singularmente frágil conseguiu espalhar-se por todo o planeta, sobreviver nas condições mais extremas e ser capaz de dominar todos os tipos de ambiente, até mesmo o espaço sideral?  O que nos distingue das outras criaturas vivas? O que nos faz unicamente humanos? Esta tem sido uma indagação angustiada desde que Darwin nos "tirou" o estatuto de espécie dominante do universo...

De facto, o homem possui diversos atributos que o distinguem das outras espécies. A postura erecta e andar com os membros inferiores permitiu aos membros superiores ficarem livres para outras funções; a mão preênsil actua como uma verdadeira ferramenta e permite o desenvolvimento da tecnologia; o desenvolvimento da fala e da linguagem permitiu formas de comunicação mais adaptáveis; o alargamento do cérebro relativo ao tamanho do corpo; o desenvolvimento das interacções sociais e culturais: infância e juventude prolongada, desta forma oferecendo a base para a complexa organização social, bem como a divisão de tarefas na sociedade, controlo sobre o sexo e a agressão. Finalmente, os seres humanos expressam-se como indivíduos. As características que permitem isto incluem a emoção, a motivação, a expressão artística e espiritual.

Todas essas características, directa ou indirectamente, relacionam-se com o desenvolvimento do nosso cérebro. O nosso carácter único repousa no nosso cérebro. O enorme cérebro desenvolvido principalmente no córtex cerebral dotou-nos de propriedades que não existem, ou existem de forma primitiva noutros antropóides. É no córtex que possuímos os mais altos níveis de análise sintética. É lá que a nossa visão do mundo é analisada, planeada e programada para executarmos uma acção.

O grande desenvolvimento do cérebro, por sua vez, levou ao nascimento daquilo que o cognitivista americano Steven Pinker denominou de "uma espécie simbólica". Desenvolvemos, através de símbolos verbais, objectos da realidade e conceitos abstractos. Além da capacidade verbal do cérebro, desenvolvemos a capacidade de emitir sons de alta precisão que manipulados por este cérebro simbólico possibilitou, pela primeira vez na escala animal, a evolução extragénica: a evolução cultural, ou seja, a transmissão de símbolos de um ser humano para outro. Com isso desenvolveu-se o conhecimento, que é uma propriedade única do ser humano, e que se relaciona com o pensamento e a consciência (que certamente podem existir em outros primatas não humanos, mas que diferem num grau muito amplo em relação à espécie humana).

A capacidade simbólica do cérebro gerou coisas notáveis como uma habilidade geneticamente determinada de aprender qualquer língua ou inventar uma nova, por exemplo, o esperanto e as linguagens de computador. Também gerou a capacidade especial de inventar melodias, sons harmónicos, dança, elementos simbólicos que usam provavelmente as nossas estruturas cerebrais responsáveis pela fala, articulação dos movimentos e pela integração de tudo isso.

Entre as nossas características culturais únicas, a arte é talvez a mais nobre invenção humana. Imaginem, por exemplo,   a necessidade de recrutamento de bilhões de neurónicos, milhares de músculos, uma imensa capacidade sensorial, visual e auditiva, a espantosa capacidade de memória envolvida para saber de cor e executar um concerto para tocar uma serenata de Chopin ao piano.  São bilhões e bilhões de neurónios, treinados ao longo de anos de prática, espalhados por todas as regiões do cérebro, e trabalhando em harmonia para produzir um resultado de uma complexidade inimaginável.

Quando o homem se tornou um animal tribal, desde que começou a andar erecto, mais de 4 milhões de anos atrás, ele passou a ser um caçador e guerreiro tribal, onde a cooperação social era um factor importante de sobrevivência. Todos os instintos sociais humanos se desenvolveram bem antes da esfera intelectual: instinto maternal, cooperação, curiosidade, criatividade, compaixão, altruísmo, competitividade, etc., são muito antigos, e podem ser vistos nos antropóides, também. Mas, o ser humano novamente se distingue dos outros primatas através de uma característica mental muito forte: gradativamente desenvolvemos o auto-controlo, ou seja, a capacidade de modificarmos qualquer comportamento social, mesmo que instintivo, de maneira a torná-lo mais útil para a nossa sobrevivência. Quanto mais disciplinados, e capazes de auto-controlo e de planeamento, o quanto mais a nossa mente racional for capaz de dominar a emocional e instintiva, mais humanos seremos.

Portanto, a espécie humana também tem o singular dom de dominar o cérebro emocional por meio do cérebro racional. Isto, adicionado à capacidade de planear, gerou um animal capaz de vencer através da inteligência todas as suas restrições e debilidades físicas, tomando-se a espécie dominante do planeta, destruindo e devassando aquelas que se lhe opõem, ou usando para si aquelas espécies que são úteis para o seu próprio benefício como as bestas de carga, as cobaias de laboratório, os animais produzidos para alimento, etc.

O que nos aguarda no futuro? Como será a espécie humana no ambiente que aprendemos a moldar e reconstruir?

Ainda é cedo para respondermos. Precisamos, sem dúvida, de nos entendermos melhor. Existem motivos para duvidar que nos próximos 50 anos sejamos capazes de deslindar o funcionamento das funções intelectuais superiores, devido à enorme complexidade do sistema nervoso, para a qual ainda não existem métodos adequados de estudo.  Muitos filósofos colocam inclusive a dúvida de se um cérebro é capaz de entender-se a si mesmo algum dia. Talvez a complexidade estrutural e funcional do nosso cérebro seja tão grande, que nunca possamos chegar a entendê-la: seria necessário ter um cérebro mais desenvolvido para isso. 
Carl Sagan, Os Dragões do Éden.

Deve clicar sobre o mapa conceptual para melhorar a visualização


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Actividades:

GRUPO I

1. Construa um mapa conceptual do texto.
2. Faça o resumo do texto.

Ferramentas:

Como construir mapas conceptuais

Como fazer o resumo de um texto







  • GRUPO II 


  • 1. Com base numa análise do texto, responda à questão: o que nos torna humanos? (min. 150 palavras)



  • 2. Qual a importância do cérebro na evolução do ser humano? Responda a esta questão comparando a espécie humana com os outros animais. 
  • (min. 150 palavras)

  • 3. Tendo em conta os elementos apresentados no texto, explique a seguinte afirmação: “O homem é produto e produtor da cultura”. (min. 200 palavras)

    O homem é um ser biocultural

    Dizer que o homem é um ser biocultural não é simplesmente justapor entes dois termos, mas mostrar que ele se co-produzem e que se desembocam nesta dupla proposição:

        - Todo o acto humano é biocultural (comer, dormir, defecar, acasalar, cantar, dançar, pensar ou meditar).

        - Todo humano o acto humano é, ao mesmo tempo, totalmente biológico e totalmente cultural.

    Comecemos pelo primeiro ponto: o homem é um ser totalmente biológico. Antes de mais é preciso ver que todos os traços propriamente humanos derivam de traços específicos dos primatas ou dos mamíferos que se desenvolvem e se tornam permanentes. Neste sentido, o homem é um superprimata : traços que eram esporádicos ou provisórios no primata - o bipedismo, a utilização de utensílios e mesmo uma certa forma de curiosidade, de inteligência, de. consciência de si - tornaram-se sistemáticos no ser humano. Os sentimentos de fraternidade e de rivalidade que se encontram nos mamíferos desenvolveram-se também na nossa espécie: o homem tornou-se capaz da maior amizade com o da maior hostilidade para com o seu semelhante.

    Falta mostrar agora que o homem é totalmente cultural. Antes de mais, é preciso recordar que qualquer acto é totalmente culturizado: comer, dormir e mesmo sorrir ou chorar. Sabemos bem, por exemplo, que o sorriso do japonês não é igual à gargalhada do americano! E a coisa mais espantosa aqui é que os actos que são mais biológicos são precisamente os que são mais culturais: nascer, morrer, casar…

    A ideia de uma definição biocultural do homem é fundamental e rica de consequências. O processo biocultural é um processo incessantemente recomeçado que, a cada instante, se refaz a nível dos indivíduos e a nível das sociedades. Eu definiria, por isso, a base da nova antropologia do seguinte modo: o ser humano é totalmente humano porque é, ao mesmo tempo, plena e totalmente vivo e plena e totalmente cultural.
    |Edgar Morin, A unidade do homem - Vol.III, Ed. Cultrix.
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    Actividades:

    1. Identifique o problema central do texto.

    1.1.Identifique a tese central do texto.

    1.2.Explique a tese central do texto. (Min.200 palavras).


    2. Explique a passagem sublinhada no texto.