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sábado, 29 de outubro de 2016

Filosofia para Totós



“Só desejo que a filosofia possa aparecer perante os nossos olhos em toda a sua unidade, tal como, nas noites sem núvens, toda a extensão do firmamento está estendida perante nós para a admirarmos! Essa seria uma visão próxima à que temos do firmamento. Pois então decerto que a filosofia iria extasiar todos os mortais que a amam; devíamos abandonar todas aquelas coisas que, na nossa ignorância acerca do que é realmente importante, nós acreditamos que são importantes [sem o serem].
Séneca (Filósofo estóico do século I d.C.).

Filosofia para Totós? Que conceito! É o oxímoro, uma contradição nos termos, ou pelo menos uma contradição evidente, um exercício de futilidade, tal como “Cálculo Avançado para Imbecis”, ou “Neurocirurgia para Desastrados”?

Não. De forma nenhuma. O filósofo antigo Sócrates (século V a.C.), ensinou que, quando estão em causa as Questões Últimas (as questões mais importantes) todos nós começamos por ser totós. Mas se estivermos humildemente conscientes do quão pouco de facto sabemos, então poderemos, de facto, começar a aprender.

De facto, Platão  (cerca de 428-347 a.C.), o mais próximo discípulo de Sócrates, conta-nos uma história interessante sobre o seu mestre: diz-nós que Sócrates soube que o oráculo de Delfos tinha dito que ele era o homem mais sábio de Atenas. Chocado com este anúncio inesperado, começou a procurar os homens que em Atenas tinham a maior reputação de serem sábios e começou a questioná-los de forma intensiva. Depressa descobriu que, em relação a assuntos-chave e verdadeiramente importantes, eles, realmente, pouco ou nada sabiam acerca daquilo que estavam convencidos conhecer. Com base nesta experiência, ele lentamente começou a compreender que a sua própria sabedoria deveria consistir na sua consciência de quão pouco de facto sabia acerca das coisas que mais importam e o quanto é importante procurarmos tudo o que pudermos acerca desses assuntos. Não é o intelectual arrogante é convencido que dá mostras de ter sabedoria, mas aquele que procura a verdade com uma curiosidade autêntica e com uma mente genuinamente aberta. [...]

A palavra filosofia significa apenas “amor à sabedoria”. Isto é fácil de entender quando compreendemos que o amor é um compromisso e que a sabedoria é procurarmos ver a vida por dentro, [de forma plenamente consciente]. A filosofia é, no seu melhor, um compromisso apaixonado de procurar e abraçar as verdades mais fundamentais e as perspectivas mais penetrantes sobre a vida.

Aristóteles (384-322 a.C) também teve uma compreensão profunda que nos pode também guiar aqui. Este grande pensador, discípulo de Platão durante muitos anos e preceptor de Alexandre o Grande (muito antes de ele ser conhecido dessa forma, uma vez então ainda era o pequeno Alexandre), escreveu numa das suas obras mais importantes que “a filosofia começa com o espanto”. E ele estava certo. Se nos permitirmos sentir espanto acerca das nossas vidas, acerca daquelas coisas que temos como garantidas, e acerca daquelas grandes questões que frequentemente conseguimos  ignorar à medida que nos entregamos aos afazeres corriqueiros da vida quotidiana, estaremos a começar a comportar-nos como verdadeiros filósofos. Se pensarmos empenhadamente nessas questões e disciplinarmos o nosso raciocínio, de tal forma que possamos fazer verdadeiros progressos, começaremos a agir como bons filósofos. Mas não podemos verdadeiramente agir como filósofos se não começarmos a viver de acordo com as nossas descobertas filosóficas. Para sermos filósofos no sentido mais profundo, temos que pôr em ação a nossa sabedoria.\

Tom Morris, Philosophy for Dummies.

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Confronto da filosofia com a Ciência



Diferencas Entre Filosofia Ciencia by paulofeitais on Scribd




Mapas conceptuais










sexta-feira, 21 de outubro de 2016

A Filosofia e a Ciência



No seu começo, a ciência estava ligada à filosofia, sendo o filósofo o sábio que refletia sobre todos os setores da indagação humana. Nesse sentido, os filósofos Tales e Pitágoras eram também geómetras, e Aristóteles escreveu sobre física e astronomia.
Na ordem do saber estipulada por Platão, o homem começa a conhecer pela forma imperfeita da opinião (doxa), depois passa ao grau mais avançado da ciência (episteme), para só então ser capaz de atingir o nível mais alto do saber filosófico.
A partir do século XVII, a revolução metodológica iniciada por Galileu promove a autonomia da ciência e o seu desligamento da filosofia. Pouco a pouco, desse período até o século XX, aparecem as chamadas ciências particulares - física, astronomia, química. biologia, psicologia, sociologia etc. -, delimitando um campo especifico de pesquisa.
Na verdade, o que estava a ocorrer era o nascimento da ciência, como a entendemos modernamente. Com a fragmentação do saber, cada ciência ocupa-se de um objeto especifico: à física cabe investigar o movimento dos corpos; à biologia, a natureza dos seres vivos; à química, as transformações substanciais, e assim por diante. Além da delimitação do objeto da ciência, acrescenta-se o aperfeiçoamento do método científico, fundado sobretudo na experimentação e matematização do real. 
O confronto dos resultados e a sua verificabilidade permitem uniformidade de conclusões e, portanto, objetividade. As afirmações da ciência são chamadas juízos de realidade (ou juízos de facto), já que, de uma forma ou de outra, pretendem mostrar como os fenómenos ocorrem, quais as suas relações e, consequentemente, como prevê-los.
A primeira questão que nos assalta é imaginar o que resta à filosofia se ao longo do tempo foi "esvaziada" do seu conteúdo pelo aparecimento das ciências particulares, tornadas independentes. Ainda mais que, no século XX, até as questões referentes ao homem passam a reivindicar o estatuto de cientificidade, representado pela procura do método das ciências humanas.
Ora, a filosofia continua a tratar da mesma realidade apropriada pelas ciências. Apenas que as ciências se especializam e observam "recortes" do real, enquanto a filosofia nunca renuncia a considerar o seu objeto do ponto de vista da totalidade. A visão da filosofia é de conjunto, ou seja, o problema tratado nunca é examinado de modo parcial, mas sempre sob a perspectiva de conjunto, relacionando cada aspecto com os outros do contexto em que está inserido.
Se a ciência tende cada vez mais para a especialização, a filosofia, no sentido inverso, quer superar a fragmentação do real, para que o homem seja resgatado na sua integridade e não sucumba à alienação do saber parcelado. Por isso a filosofia tem uma função de interdisciplinaridade, estabelecendo o elo entre as diversas formas do saber e do agir.
O trabalho da filosofia sob esse aspecto é importante e, sem negar o papel do especialista nem o valor da técnica que deriva desse saber, é preciso reconhecer que o saber especializado, sem a devida visão de conjunto, leva à exaltação do "discurso competente” e às consequentes formas de dominação.
A filosofia ainda se distingue da ciência pelo modo como aborda o seu objeto: em todos os setores do conhecimento e da ação, a filosofia está presente como reflexão crítica a respeito dos fundamentos desse conhecimento e desse agir. Então, por exemplo, se a física ou a química se denominam ciências e usam determinado método, não é da alçada do próprio físico ou do químico saber o que é a ciência, o que distingue esse conhecimento de outros, o que é o método, qual a sua validade, e assim por diante. Eles até podem dedicar-se a esses assuntos, mas, quando o fazem, passam a colocar-se questões filosóficas. O mesmo acontece com o psicólogo ao usar, por exemplo, o conceito de homem livre. Indagar sobre o que é a liberdade é fazer filosofia.
[...] A filosofia não faz juízos de realidade, como a ciência, mas juízos de valor. O filósofo [...] não vê apenas como é [a realidade humana], mas como deveria ser. Julga o valor da ação humana [em todos os seus horizontes], sai em busca do significado dela. Filosofar é dar sentido à experiência.

ARANHA, Maria Lucia de Arruda. Filosofando, introdução à Filosofia. 2ª. São Paulo: Editora Moderna, 1993. 

domingo, 16 de outubro de 2016

Interpretação da alegoria da caverna



Platão escreveu esta alegoria há mais de dois mil anos mas ela permanece importante para nós porque nos diz muito sobre o que a filosofia é.

Em primeiro lugar, na alegoria, a filosofia corresponde a uma atividade, a uma viagem que nos deve conduzir do fundo da caverna em direção à luz.

Sendo uma atividade, a filosofia não é um simples conjunto de teorias. É evidente que os filósofos produziram muitas teorias sobre muitas questões fundamentais. Mas não se trata em filosofia de estudá-las para simplesmente as memorizar. Vais estudá-las, em vez disso, para aprender como se faz filosofia. Ao compreenderes como alguns dos melhores filósofos fizeram filosofia, ao considerares os problemas a que tentaram responder com as suas teorias e o modo como construíram essas teorias terás ao teu dispor um instrumento precioso para saber o que é filosofar e para aprenderes a filosofar.
Em segundo lugar, a alegoria da caverna de Platão mostra-nos que a filosofia (sair da caverna e regressar a esta) é uma atividade difícil. Porquê? Porque a viagem que nos faz subir da caverna em direção à luz exterior implica questionar as nossas crenças mais básicas, crenças que nos parecem dados adquiridos e incontestáveis. Mais claramente, é difícil porque ao questionarmos as nossas crenças fundamentais podemos ter de enfrentar a incompreensão dos outros, das pessoas que se satisfazem com ideias feitas. É difícil também porque exige disciplina intelectual, esforço crítico e autocrítico. Vamos por partes.

Dispormo-nos a examinar as nossas crenças mais básicas não é tarefa fácil porque pode fazer-nos chegar a conclusões que a maioria dos membros da sociedade desaprovam e porque exige uma atitude crítica que lança a dúvida sobre o que nos habituámos a considerar verdadeiro. Por exemplo, a filosofia examina as crenças básicas nas quais se apoia a religião quando pergunta:
Será que Deus existe? Que razões temos para acreditar nisso? Há uma vida para além da morte?

Também questiona as ideias fundamentais que constituem os pressupostos das nossas relações sociais ao perguntar:

 O que é uma sociedade justa? Será que devemos obedecer a quem nos governa? O Estado é uma instituição necessária? Estas questões podem ser consideradas como desafios às ideias estabelecidas e falta de respeito pelo que a tradição definiu.
Basta pensares nos problemas que enfrentam os que defendem, por exemplo, a ideia de direitos dos animais.

A atitude filosófica é também difícil porque exige que pensemos criticamente e rigorosamente acerca de crenças fundamentais que nos foram transmitidas e que aceitámos de forma acrítica. Com efeito, em muitos casos adquirimos ideias como quem contrai gripe, por contágio. À semelhança do vírus da gripe, as crenças estabelecidas parecem fazer parte do nosso ambiente e respiramo-las quase sem dar por isso. Assim, as crenças que eram da nossa cultura tornam-se as nossas crenças. Até podem ser verdadeiras e excelentes, mas como havemos de o saber se as interiorizámos de forma acrítica, sem pensar? Ao examinarmos as ideias básicas, nossas e dos outros, que se transformaram em hábitos mentais, devemos como filósofos perguntar:

O que justifica essas crenças? Que razões temos para supor que são verdadeiras? Podemos definir a filosofia como a atividade que critica e rigorosamente examina as razões subjacentes às nossas crenças fundamentais. Sair da caverna é procurar encontrar crenças fundamentais que sejam racionalmente justificadas.

Velasquez, Manuel, Philosophy, A text with readings, Wadsworth, 1999, pp 8-9.

A utilidade da filosofia

Kazuya Akimoto, "The Second Coming of Geometric Virgin Mary"

Inútil? Útil?

O primeiro ensinamento filosófico é perguntar: O que é o útil? Para que e para quem algo é útil? O que é o inútil? Por que e para quem algo é inútil? O senso comum da nossa sociedade considera útil o que dá prestígio, poder, fama e riqueza. Julga o útil pelos resultados visíveis das coisas e das ações, identificando utilidade e a famosa expressão “ganhar em todas as situações”. Desse ponto de vista, a Filosofia é inteiramente inútil e defende o direito de ser inútil.

Não poderíamos, porém, definir o útil de outra maneira?

Platão definia a Filosofia como um saber verdadeiro que deve ser usado em benefício dos seres humanos.

Descartes dizia que a Filosofia é o estudo da sabedoria, conhecimento perfeito de todas as coisas que os humanos podem alcançar para o uso da vida, a conservação da saúde e a invenção das técnicas e das artes.

Espinosa afirmou que a Filosofia é um caminho árduo e difícil, mas que pode ser percorrido por todos, se desejarem a liberdade e a felicidade.

Kant afirmou que a Filosofia é o conhecimento que a razão adquire de si mesma para saber o que pode conhecer e o que pode fazer, tendo como finalidade o progresso da humanidade.

Marx declarou que a Filosofia havia passado muito tempo apenas contemplando o mundo e que se tratava, agora, de conhecê-lo para transformá-lo, transformação que traria justiça, abundância e felicidade para todos.

Merleau-Ponty escreveu que a Filosofia é um despertar para ver e mudar o nosso mundo.

Qual seria, então, a utilidade da Filosofia?

Se abandonar a ingenuidade e os preconceitos do senso comum for útil; se não se deixar guiar pela submissão às ideias dominantes e aos poderes estabelecidos for útil; se buscar compreender a significação do mundo, da cultura, da história for útil; se conhecer o sentido das criações humanas nas artes, nas ciências e na política for útil; se dar a cada um de nós e à nossa sociedade os meios para serem conscientes de si e de suas ações numa prática que deseja a liberdade e a felicidade para todos for útil, então podemos dizer que a Filosofia é o mais útil de todos os saberes de que os seres humanos são capazes.

Marilena Chauí, Convite à Filosofia.


O valor da Filosofia 

O valor da filosofia, na realidade, deve ser buscado, em grande medida, na sua própria incerteza. O homem que não tem umas tintas de filosofia caminha pela vida fora preso a preconceitos derivados do senso comum, das crenças habituais da sua época e do seu país, e das convicções que cresceram no seu espírito sem a cooperação ou o consentimento de uma razão deliberada. Para tal homem o mundo tende a tornar-se finito, definido, óbvio; para ele os objetos habituais não levantam problemas e as possibilidades não familiares são desdenhosamente rejeitadas. Quando começamos a filosofar, pelo contrário, imediatamente nos damos conta (como vimos nos primeiros capítulos deste livro) de que até as coisas mais comuns conduzem a problemas para os quais somente respostas incompletas podem ser dadas. A filosofia, apesar de incapaz de nos dizer com certeza qual é a verdadeira resposta para as dúvidas que ela própria levanta, é capaz de sugerir numerosas possibilidades que ampliam nossos pensamentos, livrando-os da tirania do hábito. Desta maneira, embora diminua o nosso sentimento de certeza com relação ao que as coisas são, aumenta em muito o nosso conhecimento a respeito do que as coisas podem ser; ela remove o dogmatismo um tanto arrogante daqueles que nunca chegaram a empreender viagens nas regiões da dúvida libertadora; e vivifica o nosso sentimento de admiração, ao mostrar as coisas familiares num determinado aspecto não familiar.

Bertrand Russell, Problemas da Filosofia.

Qual é a coisa mais importante da vida?

“Qual é a coisa mais importante da vida? Se o perguntarmos a alguém num país com o problema da fome, a resposta é: a comida. Se pusermos esta questão a alguém que esteja com frio, neste caso a resposta é: o calor. E se perguntarmos a uma pessoa que se sinta muito sozinha a resposta será certamente: a companhia de outras pessoas.
Mas admitindo que todas estas necessidades estão satisfeitas – será que resta alguma coisa de que todos os homens precisam? Os filósofos acham que sim. Segundo eles, o homem não vive apenas do pão. É evidente que todos os homens precisam de comer. Todos precisam de amor e de atenção, mas há algo mais de que todos os homens precisam. Precisam de descobrir quem somos e porque é que vivemos.”

Jostein Gaarder, O Mundo de Sofia.

"A Filosofia é grega"

Kazuya Akimoto, "The Black Parthenon"

A Filosofia é grega


A Filosofia, entendida como aspiração ao conhecimento racional, lógico e sistemático da realidade natural e humana, da origem e causas do mundo e das suas transformações, da origem e causas das ações humanas e do próprio pensamento, é um facto tipicamente grego.

Evidentemente, isso não quer dizer, de modo algum, que outros povos, tão antigos quanto os gregos, como os chineses, os hindus, os japoneses, os árabes, os persas, os hebreus, os africanos ou os índios da América não possuam sabedoria, pois possuíam e possuem. Também não quer dizer que todos esses povos não tivessem desenvolvido o pensamento e formas de conhecimento da Natureza e dos seres humanos, pois desenvolveram e desenvolvem.

Quando se diz que a Filosofia é um facto grego, o que se quer dizer é que ela possui certas características, apresenta certas formas de pensar e de exprimir os pensamentos, estabelece certas concepções sobre o que sejam a realidade, o pensamento, a ação, as técnicas, que são completamente diferentes das características desenvolvidas por outros povos e outras culturas. [...].

A Filosofia é um modo de pensar e exprimir os pensamentos que surgiu especificamente com os gregos e que, por razões históricas e políticas, se tornou, depois, o modo de pensar e de se exprimir predominante da chamada cultura europeia ocidental [...].

Através da Filosofia, os gregos instituíram para o Ocidente europeu as bases e os princípios fundamentais do que chamamos razão, racionalidade, ciência, ética,
política, técnica, arte.

Aliás, basta observarmos que palavras como lógica, técnica, ética, política, monarquia, anarquia, democracia, física, diálogo, biologia, cronologia, génese, genealogia, cirurgia, ortopedia, pedagogia, farmácia, entre muitas outras, são palavras gregas, para percebermos a influência decisiva e predominante da Filosofia, e da cultura, grega sobre a formação do pensamento e das instituições das sociedades europeias ocidentais.


O legado da Filosofia grega para o Ocidente europeu

Desse legado, podemos destacar como principais contribuições as seguintes:

     • A ideia de que a Natureza opera obedecendo a leis e princípios necessários e universais, isto é, os mesmos em toda a parte e em todos os tempos. Assim, por exemplo, [foi pela continuação da indagação iniciada pelos filósofos] gregos [que], no século XVII da nossa era, o filósofo inglês Isaac Newton estabeleceu a lei da gravitação universal de todos os corpos da Natureza. A lei da gravitação afirma que todo corpo, quando sofre a ação de um outro, produz uma reação igual e contrária, que pode ser calculada usando como elementos do cálculo a massa do corpo afetado, a velocidade e o tempo com que a ação e a reação se deram.

Essa lei é necessária, isto é, nenhum corpo do Universo escapa dela e pode funcionar de outra maneira que não desta; e esta lei é universal, isto é, válida para todos os corpos em todos os tempos e lugares.

Um outro exemplo: as leis geométricas do triângulo ou do círculo, conforme demonstraram os filósofos gregos, são universais e necessárias, isto é, seja em Tóquio em 1993, em Copenhague em 1970, em Lisboa em 1810, em São Paulo em 1792, em Moçambique em 1661, ou em Nova York em 1975, as leis do triângulo ou do círculo são necessariamente as mesmas.

     • A ideia de que as leis necessárias e universais da Natureza podem ser plenamente conhecidas pelo nosso pensamento, isto é, não são conhecimentos misteriosos e secretos, que precisariam ser revelados por divindades, mas são conhecimentos que o pensamento humano, por sua própria força e capacidade, pode alcançar.

     • A ideia de que o nosso pensamento também opera obedecendo a leis, regras e normas universais e necessárias, segundo as quais podemos distinguir o verdadeiro do falso. Por outras palavras, a ideia de que o nosso pensamento é lógico ou segue leis lógicas de funcionamento.

O nosso pensamento diferencia uma afirmação de uma negação porque, na afirmação, atribuímos alguma coisa a outra coisa (quando afirmamos que “Sócrates é um ser humano”, atribuímos humanidade a Sócrates) e, na negação, retiramos alguma coisa de outra (quando dizemos “este caderno não é verde”, estamos a ‘retirar’ do caderno a cor verde).

O nosso pensamento distingue quando uma afirmação é verdadeira ou falsa. Se alguém apresentar o seguinte raciocínio: “Todos os homens são mortais. Sócrates é homem. Logo, Sócrates é mortal”, diremos que a afirmação “Sócrates é mortal” é verdadeira, porque foi concluída de outras afirmações que já sabemos serem verdadeiras.

      • A ideia de que as práticas humanas, isto é, a ação moral, a política, as técnicas e as artes dependem da vontade livre, da deliberação e da discussão, da nossa escolha passional (ou emocional) ou racional, das nossas preferências, segundo certos valores e padrões, que foram estabelecidos pelos próprios seres humanos e não por imposições misteriosas e incompreensíveis, que lhes teriam sido feitas por forças secretas, invisíveis, sejam elas divinas ou naturais, e impossíveis de serem conhecidas.

     • A ideia de que os acontecimentos naturais e humanos são necessários, porque obedecem a leis naturais ou da natureza humana, mas também podem ser contingentes ou acidentais, quando dependem das escolhas e deliberações dos homens, em condições determinadas.[...]

      • A ideia de que os seres humanos, por Natureza, aspiram ao conhecimento verdadeiro, à felicidade, à justiça, isto é, que os seres humanos não vivem nem agem cegamente, mas criam valores pelas quais dão sentido às suas vidas e às suas ações.


A Filosofia surgiu, portanto, quando alguns gregos, admirados e espantados com a realidade, insatisfeitos com as explicações que a tradição lhes dera, começaram a fazer perguntas e buscar respostas para elas, demonstrando que o mundo e os seres humanos, os acontecimentos e as coisas da Natureza, os acontecimentos e as ações humanas podem ser conhecidos pela razão humana, e que a própria razão é capaz de conhecer-se a si mesma.

Em suma, a Filosofia surge quando se descobriu que a verdade do mundo e dos humanos não era algo secreto e misterioso, que precisasse de ser revelado por divindades a alguns escolhidos, mas que, pelo contrário, podia ser conhecida por todos, através da razão, que é a mesma em todos; quando se descobriu que tal conhecimento depende do uso correto da razão ou do pensamento e que, além da verdade poder ser conhecida por todos, podia, pelo mesmo motivo, ser ensinada ou transmitida a todos.

Marilena Chauí, Convite à Filosofia, Ed. Ática, S. Paulo, 2000, pp.20-24.


quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Espanto: a origem do filosofar

Edvard Munch, "O Grito" (Pormenor)

“Com efeito, foi pelo espanto (thauma) que os homens começaram a filosofar tanto no princípio como agora; perplexos, de início, perante as dificuldades mais óbvias, avançaram pouco a pouco e colocaram problemas a respeito das maiores, como os fenómenos da Lua, do Sol, e das estrelas, assim como da génese do universo.
E o homem que é tomado de perplexidade e admiração julga-se ignorante; portanto, como filosofavam para fugir à ignorância, é evidente que buscavam o conhecimento a fim de saber, e não com uma finalidade utilitária.”

Aristóteles, Metafísica

Origem da Filosofia, segundo Aristóteles. "O que levou os homens às pesquisas filosóficas foi o espanto", Aristóteles. 01-Na sua obra Metafísica, Aristóteles explica a origem da filosofia e o objetivo que ela persegue: "O que na origem levou os homens às pesquisas filosóficas foi, tal como hoje, o espanto". 02 - Aristóteles retoma o ensinamento de Platão que escreveu no Teeteto: "É absolutamente próprio de um filósofo esse sentimento: o espanto. A filosofia não tem outra origem...". O espanto, para os gregos, é portanto a verdadeira origem da pesquisa filosófica. 03 - A sensação de se conhecer aquilo que se vê geralmente não passa de ilusão. O espanto sentido pelo filósofo é antes de tudo a admiração diante da natureza e a admissão da sua incompreensão diante dos seus mecanismos. 04-"Perceber uma dificuldade e espantar-se é reconhecer a própria ignorância (...) e foi portanto para fugir à ignorância que os primeiros filósofos se dedicaram à filosofia". A filosofia não tem outro propósito senão o de tentar explicar o mundo e essa explicação só se consegue indo à procura do desconhecido.
05 - A separação entre a ciência e a filosofia é muito tardia (admitindo-se que ela seja verdadeiramente aceitável). Data aproximadamente do século XVIII, e todos os grandes nomes da filosofia foram também, pelo menos até essa época, grandes nomes das ciências. 06 - A filosofia tenta explicar aquilo que é. Seja simplesmente construindo uma descrição detalhada dos mecanismos que estão na base do funcionamento da realidade (e com isso surge a tentativa científica de explicação da natureza e das suas leis), seja tentando explicar-lhes o sentido. Chega-se assim às questões dita metafísicas: "Por que existe o ser, em vez do nada?" (Leibniz). 07 - A filosofia, de acordo com a lição de Sócrates, começa com a confissão da ignorância, o seu objetivo é fazer cessar essa ignorância. O seu objetivo é o conhecimento: "É evidente que eles buscavam a ciência para saber, e não tendo em vista qualquer outra utilidade", Aristóteles. 08 - Os filósofos buscam o saber pelo saber, e não por alguma utilidade prática imediata. 09 - É só quando os problemas urgentes da vida já estão resolvidos que as pessoas se lançam nas ciências ou na pesquisa. 10 - A filosofia arranca-nos da condição simplesmente humana, de seres perecíveis e obcecados com a sobrevivência, para nos fazer participar de uma forma de prazer divino: a compreensão pura e desinteressada.
12 - O homem não se pode reduzir a um simples ser natural que procura viver da maneira mais confortável possível, e sim que ele participa de um outro tipo de prazer, o da compreensão e mesmo da contemplação (o conhecimento racional). Aristóteles recorda-nos esse sentimento primeiro e motor de toda e qualquer pesquisa: o espanto ou admiração perante aquilo que é. 13 - Aristóteles observa que existe em todo o ser humano um prazer desinteressado em compreender, o qual se manifesta também na arte, mas que atinge seu ápice na atividade filosófica, a qual nos faz participar, tanto quanto possível, de uma vida digna dos deuses. Fonte: Anne Amiel, 50 Grandes Citações Filosóficas Explicadas. (Texto adaptado).

sábado, 1 de outubro de 2016

A Filosofia face ao Senso Comum



A educação filosófica não consiste na adoção de umas tantas das opiniões de um filósofo, mas no treino da atitude crítica, no exercício pessoal de um pensar autêntico, no uso metódico de um ceticismo ativo, na prática da elucidação dos problemas básicos.

Filosofia fácil, filosofia falsa. O prosélito amador que tudo crê resolvido por meia dúzia de fórmulas extremamente simplórias (tomadas, não raro, de vulgarizações deturpantes) é um espírito ingénuo que resolveu os problemas sem chegar a perceber onde os problemas jazem, que dificuldades os formam, em que é que eles consistem. Adota um caminho sem que tenha entendido quais caminhos há; em que aspetos diferem; que vantagens oferecem; que obstáculos opõem; a quais rumos seguem. Ao aprendiz de filósofo […] rogo que não se apresse a adotar soluções, que não leia obras de uma só escola, que procure conhecer as argumentações de todas, e que queira tomar como primário escopo a singela façanha de compreender os problemas: de compreendê-los bem, de os compreender a fundo, habituando-se a ver as dificuldades reais que se deparam nas coisas que se afiguram fáceis ao simplismo e à superficialidade do senso comum (a filosofia é, em não pequena parte, a luta do bom senso contra o senso comum) […]. A filosofia se não pode responder a tantos enigmas como desejáramos que respondesse, tem o poder, pelo menos, de fazer perguntas e de levantar problemas, que tornam o mundo muito mais interessante, e que mostram o estranho, o maravilhoso, logo por baixo da vulgaríssima pele das vulgaríssimas coisas do comum […].

Ora, se a nota fundamental da filosofia é a crítica e se a filosofia deve ser estudada, não pelo mérito das respostas precisas sobre um certo número de questões primárias, senão que pelo valor que em si mesma assume, para a cultura do espírito, a mera discussão de tais problemas, segue-se que é ideia inteiramente absurda a de se dar a alguém uma iniciação filosófica pela pura transmissão das respostas precisas com que pretendeu resolver esses tais problemas um determinado autor ou uma certa escola. Deverá pois a iniciação filosófica assumir um caráter essencialmente crítico, e consistir num debate dos problemas básicos que não seja dominado pelo intuito dogmático de cerrar as portas às discussões ulteriores; e um bom professor do lidar filosófico é como um indivíduo que nos leciona a ginástica procedendo ele próprio como um bom ginasta, e obrigando-nos a nós a fazer ginástica; é quem nos ministra um trabalho crítico, um modelo de elucidação da faina de problemas (...). Repito: seja a filosofia para o aprendiz do filósofo, não uma pilha de conclusões adotadas, e sim uma atividade de elucidação dos problemas. É esta atividade o que realmente importa, e não o aceitar e propagandear conclusões. [...]

Por isso mesmo, ao lermos um filósofo de genuíno mérito de dois erros opostos nos cumprirá guardar-nos: o primeiro, o de nos mantermos eternamente passivos e de tudo aceitarmos como se fossem dogmas, de que depois tentaremos convencer os outros; o segundo, o de criticarmos demasiado cedo, antes de chegarmos à compreensão do texto. […]

Pois que (não nos cansemos de o repetir) não é a filosofia uma coleção de dogmas que nos cumpre decorar e repetir aos outros […].

António Sérgio, “Prefácio”, in Bertrand Russell, Os Problemas da Filosofia, 
Coimbra, Arménio Amado, 1974, pp. 5-24.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

A Especificidade da Filosofia





As evidências do quotidiano

Na nossa vida quotidiana, afirmamos, negamos, desejamos, aceitamos ou recusamos coisas, pessoas, situações. Fazemos perguntas como “que horas são?”, ou “que dia é hoje?”. Dizemos frases como “ele está  a sonhar”, ou “ela ficou maluca”. Fazemos afirmações como “onde há fumo, há fogo ”, ou “não ande à chuva para não se constipar”. Avaliamos coisas e pessoas, dizendo, por exemplo, “esta casa é mais bonita do que a outra” e “a Maria está mais jovem do que a Joana”.
Numa discussão, quando os ânimos estão exaltados, um dos contendores pode gritar ao outro: “Mentiroso! Eu estava lá e não foi isso o que aconteceu”, e alguém, querendo acalmar a briga, pode dizer: “Vamos ser objetivos, cada um diga o que viu e vamo-nos entender”.
Também é comum ouvirmos os pais e amigos dizerem que somos muito subjetivos quando o assunto é o namorado ou a namorada. Frequentemente, quando aprovamos uma pessoa, o que ela diz, como ela age, dizemos que essa pessoa “é porreira”.
Vejamos um pouco mais de perto o que dizemos no nosso quotidiano. Quando pergunto “que horas são?” ou “que dia é hoje?”, a minha expectativa é a de que alguém, tendo um relógio ou um calendário, me dê a resposta exata. Em que acredito quando faço a pergunta e aceito a resposta? Acredito que o tempo existe, que ele passa, pode ser medido em horas e dias, que o que já passou é diferente de agora e o que virá também há-de ser diferente deste momento, que o passado pode ser lembrado ou esquecido, e o futuro, desejado ou temido. Assim, uma simples pergunta contém, silenciosamente, várias crenças não questionadas por nós.
Quando digo “ele está a sonhar”, referindo-me a alguém que diz ou pensa alguma coisa que julgo impossível ou improvável, tenho igualmente muitas crenças silenciosas: acredito que sonhar é diferente de estar acordado, que, no sonho, o impossível e o improvável se apresentam como possível e provável, e também que o sonho se relaciona com o irreal, enquanto a vigília se relaciona com o que existe realmente.
Acredito, portanto, que a realidade existe fora de mim, posso percebê-la e conhecê-la tal como é, sei diferenciar realidade de ilusão. A frase “ela ficou maluca” contém essas mesmas crenças e mais uma: a de que sabemos diferenciar razão de loucura e maluca é a pessoa que ‘inventa’ uma realidade existente só para ela. Assim, ao acreditar que sei distinguir razão de loucura, acredito também que a razão se refere a uma realidade que é a mesma para todos, ainda que não gostemos das mesmas coisas.
Quando alguém diz “onde há fumo, há fogo” ou “não ande à  chuva para não se constipar”, afirma silenciosamente muitas crenças: acredita que existem relações de causa e efeito entre as coisas, que onde houver uma coisa certamente houve uma causa para ela, ou que essa coisa é causa de alguma outra (o fogo causa o fumo como efeito, a chuva causa a constipação como efeito). Acreditamos, assim, que a realidade é feita de causalidades, que as coisas, os factos, as situações se encadeiam em relações causais que podemos conhecer e, até mesmo, controlar para o uso da nossa vida.
Quando avaliamos que uma casa é mais bonita do que a outra, ou que Maria está mais jovem do que a Joana, acreditamos que as coisas, as pessoas, as situações, os factos podem ser comparados e avaliados, julgados pela qualidade (bonito, feio, bom, mau) ou pela quantidade (mais, menos, maior, menor). Julgamos, assim, que a qualidade e a quantidade existem, que podemos conhecê-las e usá-las na nossa vida.
Se, por exemplo, dissermos que “o sol é maior do que o vemos”, também estamos a acreditar que a nossa percepção alcança as coisas de modos diferentes, ora tal como são em si mesmas, ora tal como nos aparecem, dependendo da distância, da nossas condições de visibilidade ou da localização e do movimento dos objetos. 
Acreditamos, portanto, que o espaço existe, possui qualidades (perto, longe, alto, baixo) e quantidades, podendo ser medido (comprimento, largura, altura). No exemplo do sol, também se nota que acreditamos que a nossa visão pode ver as coisas diferentemente do que elas são, mas nem por isso diremos que estamos a sonhar ou que ficámos malucos.
Numa briga, quando alguém chama o outro mentiroso porque não estaria a dizer os factos exatamente como aconteceram, está presente a nossa crença de que há diferença entre verdade e mentira. A primeira diz as coisas tais como são, enquanto a segunda faz exatamente o contrário, distorcendo a realidade.
No entanto, consideramos a mentira diferente do sonho, da loucura e do erro porque o sonhador, o louco e o que erra se iludem involuntariamente, enquanto o mentiroso decide voluntariamente deformar a realidade e os factos.
Com isso, acreditamos que o erro e a mentira são falsidades, mas diferentes porque somente na mentira há a decisão de enganar.
Ao diferenciarmos erro de mentira, considerando o primeiro uma ilusão ou um engano involuntários e a segunda uma decisão voluntária, manifestamos silenciosamente a crença de que somos seres dotados de vontade e que dela depende dizer a verdade ou a mentira.
Ao mesmo tempo, porém, nem sempre avaliamos a mentira como alguma coisa má: não gostamos tanto de ler romances, ver novelas, ver filmes? E não são mentira? É que também acreditamos que quando alguém nos avisa que está a mentir, a mentira é aceitável, não seria uma mentira “a sério”.
Quando distinguimos entre verdade e mentira e distinguimos mentiras inaceitáveis de mentiras aceitáveis, não estamos apenas a referir-nos ao conhecimento ou desconhecimento da realidade, mas também ao carácter da pessoa, à sua moral. Acreditamos, portanto, que as pessoas, porque possuem vontade, podem ser morais ou imorais, pois cremos que a vontade é livre para o bem ou para o mal.
No exemplo da briga, quando uma terceira pessoa pede às outras duas para que sejam “objetivas” ou quando falamos dos namorados como sendo “muito subjetivos”, também estamos cheios de crenças silenciosas. Acreditamos que quando alguém quer defender muito intensamente um ponto de vista, uma preferência, uma opinião, até brigando por isso, ou quando sente um grande afeto por outra pessoa, esse alguém “perde” a objetividade, ficando “muito subjetivo”.
Com isso, acreditamos que a objetividade é uma atitude imparcial que alcança as  coisas tal como são verdadeiramente, enquanto a subjetividade é uma atitude parcial, pessoal, ditada por sentimentos variados (amor, ódio, medo, desejo). Assim, não só acreditamos que a objetividade e a subjetividade existem, como ainda acreditamos que são diferentes e que a primeira não deforma a realidade, enquanto a segunda, voluntária ou involuntariamente, a deforma. 
Ao dizermos que alguém “é porreiro” porque tem os mesmos gostos, as mesmas ideias, respeita ou despreza as mesmas coisas que nós e tem atitudes, hábitos e  costumes muito parecidos com os nossos, estamos, silenciosamente, a acreditar que a vida com as outras pessoas - família, amigos, escola, trabalho, sociedade, política - nos faz semelhantes ou diferentes em por influência de normas e valores morais, políticos, religiosos e artísticos, regras de conduta, finalidades de vida.
Achando óbvio que todos os seres humanos seguem regras e normas de conduta, possuem valores morais, religiosos, políticos, artísticos, vivem na companhia dos seus semelhantes e procuram distanciar-se dos diferentes dos quais discordam e com os quais entram em conflito, acreditamos que somos seres sociais, morais e racionais, pois regras, normas, valores, finalidades só podem ser estabelecidos por seres conscientes e dotados de raciocínio. Como se pode notar, a nossa vida quotidiana é toda feita de crenças silenciosas, da aceitação tácita de evidências que nunca questionamos porque nos parecem naturais, óbvias. Cremos no espaço, no tempo, na realidade, na qualidade, na quantidade, na verdade, na diferença entre realidade e sonho ou loucura, entre verdade e mentira; cremos também na objetividade e na diferença entre ela e a subjetividade, na existência da vontade, da liberdade, do bem e do mal, da moral, da sociedade.

A atitude filosófica

Imaginemos, agora, alguém que tomasse uma decisão muito estranha e começasse a fazer perguntas inesperadas. Em vez de “que horas são?” ou “que dia é hoje?”, perguntasse: O que é o tempo? Em vez de dizer “está a sonhar” ou “ficou maluca”, quisesse saber: O que é o sonho? A loucura? A razão?
Se essa pessoa fosse substituindo sucessivamente suas perguntas, as suas afirmações por outras: “Onde há fumo, há fogo”, ou “não ande à chuva para não ficar constipado”, por: O que é causa? O que é efeito?; “seja objetivo ”, ou “eles são muito subjetivos”, por: O que é a objetividade? O que é a subjetividade?; “Esta casa é mais bonita do que a outra”, por: O que é “mais”? O que é “menos”? O que é o belo?
Em vez de gritar “mentiroso!”, questionasse: O que é a verdade? O que é o falso? O que é o erro? O que é a mentira? Quando existe verdade e por quê? Quando existe ilusão e por quê?
Se, em vez de falar na subjetividade dos namorados, inquirisse: O que é o amor? 

O que é o desejo? O que são os sentimentos? Se, em lugar de discorrer tranquilamente sobre “maior” e “menor” ou “claro” e “escuro”, resolvesse investigar: O que é a quantidade? O que é a qualidade? E se, em vez de afirmar que gosta de alguém porque possui as mesmas ideias, os mesmos gostos, as mesmas preferências e os mesmos valores, preferisse analisar: O que é um valor? O que é um valor moral? O que é um valor artístico? O que é a moral? O que é a vontade? O que é a liberdade?
Alguém que tomasse essa decisão, estaria a tomar distância da vida quotidiana e de si mesmo, teria passado a indagar o que são as crenças e os sentimentos que alimentam, silenciosamente, a nossa existência.
Ao tomar essa distância, estaria interrogando-se a si mesmo, desejando conhecer porque cremos no que cremos, porque sentimos o que sentimos e o que são as nossas crenças e os nossos sentimentos. Esse alguém estaria a começar a adoptar o que chamamos atitude filosófica.
Assim, uma primeira resposta à pergunta “O que é Filosofia?” poderia ser: A decisão de não aceitar como óbvias e evidentes as coisas, as ideias, os factos, as situações, os valores, os comportamentos da nossa existência quotidiana; nunca aceitá-los sem antes os haver investigado e compreendido.
Perguntaram, certa vez, a um filósofo: “Para que serve a Filosofia?”. E ele respondeu: “Para não darmos nossa aceitação imediata às coisas, sem maiores considerações”.

A atitude crítica

A primeira característica da atitude filosófica é negativa, isto é, um dizer não ao senso comum, aos pré-conceitos, aos pré-juízos, aos factos e às ideias da experiência quotidiana, ao que “todos dizem e pensam”, ao estabelecido.
A segunda característica da atitude filosófica é positiva, isto é, uma interrogação sobre o que são as coisas, as ideias, os factos, as situações, os comportamentos, os valores, nós mesmos. É também uma interrogação sobre o porquê disso tudo e de nós, e uma interrogação sobre como tudo isso é assim e não de outra maneira. O que é? Por que é? Como é? Essas são as indagações fundamentais da atitude filosófica.
A face negativa e a face positiva da atitude filosófica constituem o que chamamos atitude crítica e pensamento crítico.
A Filosofia começa por dizer não às crenças e aos preconceitos do senso comum e, portanto, começa por dizer que não sabemos o que imaginávamos saber; por isso, o patrono da Filosofia, o grego Sócrates, afirmava que a primeira e fundamental verdade filosófica é dizer: “Só sei que nada sei”. Para o discípulo de Sócrates, o filósofo grego Platão, a Filosofia começa com a admiração; já o discípulo de Platão, o filósofo Aristóteles, acreditava que a Filosofia começa com o espanto.
Admiração e espanto significam: tomarmos distância do nosso mundo costumeiro, através do nosso pensamento, olhando-o como se nunca o tivéssemos visto antes, como se não tivéssemos tido família, amigos, professores, livros e outros meios de comunicação que nos tivessem dito o que o mundo é; como se estivéssemos acabado de nascer para o mundo e para nós mesmos e precisássemos de perguntar o que é, por que é e como é o mundo, e precisássemos de perguntar também o que somos, por que somos e como somos.

Para quê a Filosofia?

Ora, muitos fazem uma outra pergunta: afinal, para que serve a Filosofia? É uma pergunta interessante. Não vemos nem ouvimos ninguém perguntar, por exemplo, para que serve a matemática ou a física? Para que serve a geografia ou a geologia? Para que serve a história ou a sociologia? Para que serve a biologia ou a psicologia? Para que serve a astronomia ou a química? Para que serve a pintura, a literatura, a música ou a dança? Mas toda a gente acha muito natural perguntar: Para que serve a Filosofia? Em geral, essa pergunta costuma receber uma resposta irónica, conhecida dos estudantes de Filosofia: “A Filosofia é uma coisa com a qual e sem a qual o mundo permanece tal e qual”. Ou seja, a Filosofia não serve para nada. Por isso, se costuma chamar “filósofo” alguém sempre distraído, com a cabeça no mundo da lua, pensando e dizendo coisas que ninguém entende e que são perfeitamente inúteis.
Essa pergunta, “Para que serve a Filosofia?”, tem a sua razão de ser. Na nossa cultura e na nossa sociedade, costumamos considerar que alguma coisa só tem o direito de existir se tiver alguma finalidade prática, muito visível e de utilidade imediata. Por isso, ninguém pergunta para que servem as ciências, pois toda a gente imagina ver a utilidade das ciências nos produtos da técnica, isto é, na aplicação das teorias científicas à realidade.
Toda a gente também imagina ver a utilidade das artes, tanto por causa da compra e venda das obras de arte, quanto porque nossa cultura vê os artistas como gênios que merecem ser valorizados para o elogio da humanidade. Ninguém, todavia, consegue ver para que serviria a Filosofia, daí o dizer-se: “não serve para coisa alguma!”
Parece, porém, que o senso comum não vê algo que os cientistas sabem muito bem. As ciências pretendem ser conhecimentos verdadeiros, obtidos graças a procedimentos rigorosos de pensamento; pretendem agir sobre a realidade, através de instrumentos e objetos técnicos; pretendem fazer progressos nos conhecimentos, corrigindo-os e aumentando-os.
Ora, todas essas pretensões das ciências pressupõem que elas acreditam na existência da verdade, de procedimentos corretos para bem usar o pensamento, na tecnologia como aplicação prática de teorias, na racionalidade dos conhecimentos, porque podem ser corrigidos e aperfeiçoados.
Verdade, pensamento, procedimentos especiais para conhecer factos, relação entre teoria e prática, correção e acumulação de saberes: tudo isso não é ciência, são questões filosóficas. O cientista parte delas como questões já respondidas, mas é a Filosofia quem as formula e busca respostas para elas.
Assim, o trabalho das ciências pressupõe, como condição, o trabalho da Filosofia, mesmo que o cientista não seja filósofo. No entanto, como apenas os cientistas e filósofos sabem disso, o senso comum continua a afirmar que a Filosofia não serve para nada.
Para dar alguma utilidade à Filosofia, muitos consideram que, de facto, a Filosofia não serviria para nada, se “servir” fosse entendido como a possibilidade de fazer usos técnicos dos produtos filosóficos ou dar-lhes utilidade económica, obtendo lucros com eles; consideram também que a Filosofia nada teria a ver com a ciência e a técnica. 
Para quem pensa dessa forma, o principal para a Filosofia não seriam os  conhecimentos (que ficam por conta da ciência), nem as aplicações de teorias (que ficam por conta da tecnologia), mas o ensinamento moral ou ético. A Filosofia seria a arte do bem viver.
Estudando as paixões e os vícios humanos, a liberdade e a vontade, analisando a capacidade da nossa razão para impor limites aos nossos desejos e paixões, ensinando-nos a viver de modo honesto e justo na companhia dos outros seres humanos, a Filosofia teria como finalidade ensinar-nos a virtude, que é o princípio do bem-viver.
Essa definição da Filosofia, porém, não nos ajuda muito. De facto, mesmo para ser uma arte moral ou ética, ou uma arte do bem-viver, a Filosofia continua a fazer as suas perguntas desconcertantes e embaraçosas: O que é o homem? O que é a vontade? O que é a paixão? O que é a razão? O que é o vício? O que é a virtude? O que é a liberdade? Como nos tornamos livres, racionais e virtuosos? Porque é que a liberdade e a virtude são valores para os seres humanos? O que é um valor? Porque é que avaliamos os sentimentos e as ações humanas? 
Assim, mesmo se disséssemos que o objeto da Filosofia não é o conhecimento da realidade, nem o conhecimento da nossa capacidade para conhecer, mesmo se disséssemos que o objeto da Filosofia é apenas a vida moral ou ética, ainda assim, o estilo filosófico e a atitude filosófica permaneceriam os mesmos, pois as perguntas filosóficas - o que é, porquê e como - permanecem.

Atitude filosófica: indagar/questionar/problematizar/interrogar

Se, portanto, deixarmos de lado, por enquanto, os objetos com os quais a Filosofia se ocupa, veremos que a atitude filosófica possui algumas características que são as mesmas, independentemente do conteúdo investigado.
Essas características são:
- perguntar o que a coisa, ou o valor, ou a ideia, é. A Filosofia pergunta qual é a realidade ou natureza e qual é a significação de alguma coisa, não importa qual; qual é a estrutura e quais são as relações que constituem uma coisa, uma ideia ou um valor;
- perguntar porque é que a coisa, a ideia ou o valor, existe e é como é. A Filosofia pergunta pela origem ou pela causa de uma coisa, de uma ideia, de um valor.
A atitude filosófica inicia-se dirigindo essas indagações ao mundo que nos rodeia e às relações que mantemos com ele. Pouco a pouco, porém, descobre que essas questões se referem, afinal, à nossa capacidade de conhecer, à nossa capacidade de pensar.
Por isso, pouco a pouco, as perguntas da Filosofia se dirigem ao próprio pensamento: o que é pensar, como é pensar, por que há o pensar? A Filosofia torna-se, então, o pensamento interrogando-se a si mesmo. Por ser uma volta que o pensamento realiza sobre si mesmo, a Filosofia realiza-se como reflexão.

A reflexão filosófica

Reflexão significa movimento de volta sobre si mesmo ou movimento de retorno a si mesmo. A reflexão é o movimento pelo qual o pensamento se volta para si mesmo, interrogando-se a si mesmo.
A reflexão filosófica é radical porque é um movimento de volta do pensamento sobre si mesmo para conhecer-se a si mesmo, para indagar como é possível o próprio pensamento.
Não somos, porém, somente seres pensantes. Somos também seres que agem no mundo, que se relacionam com os outros seres humanos, com os animais, as plantas, as coisas, os factos e acontecimentos, e exprimimos essas relações tanto por meio da linguagem quanto por meio de gestos e ações. 
A reflexão filosófica também se volta para essas relações que mantemos com a realidade circundante, para o que dizemos e para as ações que realizamos nessas relações.
A reflexão filosófica organiza-se em torno de três grandes conjuntos de perguntas ou questões:

1. Porque é pensamos o que pensamos, dizemos o que dizemos e fazemos o que fazemos? Isto é, quais os motivos, as razões e as causas para pensarmos o que pensamos, dizermos o que dizemos, fazermos o que fazemos?
2. O que queremos pensar quando pensamos, o que queremos dizer quando falamos, o que queremos fazer quando agimos? Isto é, qual é o conteúdo ou o sentido do que pensamos, dizemos ou fazemos?
3. Para que é que pensamos o que pensamos, dizemos o que dizemos, fazemos o que
fazemos? Isto é, qual é a intenção ou a finalidade do que pensamos, dizemos e fazemos?

Essas três questões podem ser resumidas em: O que é pensar, falar e agir? E elas pressupõem a seguinte pergunta: As nossas crenças quotidianas são ou não um saber verdadeiro, um conhecimento?
Como vimos, a atitude filosófica inicia-se questionando: O que é? Como é? Por que é?, dirigindo-se ao mundo que nos rodeia e aos seres humanos que nele vivem e com ele se relacionam. São perguntas sobre a essência, a significação ou a estrutura e a origem de todas as coisas.
Já a reflexão filosófica indaga: Porquê?, O quê?, Para quê?, dirigindo-se ao pensamento, aos seres humanos no ato da reflexão. São perguntas sobre a capacidade e a finalidade humanas para conhecer e agir.

Marilena Chauí, Convite à filosofia