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terça-feira, 27 de maio de 2014

A perspectiva de Thomas Kunh


Segundo Kuhn, a ciência suficientemente amadurecida estrutura-se e orienta-se por paradigmas. Na ausência de um paradigma, não existe ainda ciência propriamente dita. Permanece-se, ainda, no período da pré-ciência.

A pré-ciência corresponde à actividade desorganizada e diversa que marca o período que precede a formação de uma ciência e que termina quando uma comunidade científica adere a um paradigma.

Neste período, não existe ainda um trabalho concertado entre os investigadores, nem um acordo acerca dos fundamentos da investigação científica. São os paradigmas que fundam a ciência e organizam o trabalho dos cientistas.

Um paradigma é uma estrutura teórica que oferece a uma comunidade de investigadores uma visão
do mundo e uma forma específica de fazer ciência.

O período pré-científico é ultrapassado quando alguém propõe uma teoria de tal modo poderosa que toda a comunidade de investigadores se une em seu torno. O conceito de paradigma apresenta-se como o conceito central da filosofia da ciência de Kuhn e encerra em si alguns elementos distintivos.

1. Um paradigma inclui, antes de mais, leis e pressupostos teóricos fundamentais. Centra-se num corpo de leis científicas e de pressupostos gerais acerca do que uma teoria científica deve ser. Por exemplo, o paradigma copernicano centra-se na tese heliocêntrica, e o paradigma newtoniano nas leis do movimento e na lei da gravitação universal de Newton.
2. Um paradigma inclui também regras para aplicar as leis à realidade, ou seja, mostra como lidar com objectos e situações concretas a partir das leis. Por exemplo, o paradigma newtoniano inclui regras para aplicar as leis de Newton a objectos como planetas, pêndulos e bolas de bilhar.
3. Além disso, um paradigma integra regras para usar instrumentos científicos. Por exemplo, o astrónomo dinamarquês Tycho Brahe (1546-1601) desenvolveu instrumentos para o paradigma copernicano que permitiram formular as leis do movimento dos planetas. Um paradigma diz que instrumentos se devem usar e como fazê-lo.
4. Por fim, um paradigma envolve princípios metafísicos e filosóficos. Um paradigma diz-nos que coisas existem no mundo e contém pressupostos gerais sobre a natureza e o funcionamento do universo, como o pressuposto de que tudo o que acontece tem uma causa e obedece a leis deterministas.

A ciência normal

Kuhn defende que, depois da instituição de um paradigma, se inicia um período de ciência normal. O paradigma determina o trabalho dos cientistas durante este período. Quando surge o paradigma é bastante impreciso e deixa em aberto uma infinidade de questões, o que permite que se desenvolva muita investigação a partir dele. A ciência normal caracteriza-se, pois, pelas tentativas de desenvolver o paradigma, tornando-o mais pormenorizado e completo. Os investigadores envolvidos na ciência normal não estão interessados em grandes problemas. Em vez disso, resolvem enigmas geralmente muito específicos e detalhados à luz de um paradigma. Um dos muitos enigmas teóricos que os cientistas que trabalhavam sob o paradigma newtoniano enfrentaram foi o de desenvolver pressupostos adequados para aplicar as leis de Newton ao movimento dos fluidos. E um enigma experimental foi o de tornar mais rigorosas as observações telescópicas.

A ciência normal é uma actividade de resolução de enigmas, tanto teóricos como experimentais, governada pelas leis e regras do paradigma.

Durante os períodos de ciência normal, os cientistas não são críticos em relação ao paradigma no âmbito do qual trabalham. O paradigma é aceite por uma comunidade científica que, ao contrário do que acontecia no período da pré-ciência, não questiona os pressupostos teóricos a partir dos quais a sua actividade se desenvolve. Esta actividade consiste num esforço para alargar o leque dos factos explicáveis pelo paradigma e de articular as teorias que o paradigma já inclui. No entanto, não se procura a invenção de novas teorias, nem a descoberta de novos tipos de fenómenos. Aliás, nem todos os fenómenos da natureza interessam ao cientista. É o paradigma no qual trabalha que determina que fenómenos observáveis têm interesse.

Anomalias e crise do paradigma

A actividade de resolução de enigmas nem sempre corre da melhor forma. Por vezes, os cientistas vêem-se confrontados com um enigma que não conseguem resolver recorrendo ao paradigma - mas que supostamente deveriam conseguir resolver. Surge então uma anomalia.

Uma anomalia é um enigma, teórico ou experimental, que não encontra solução no âmbito do paradigma vigente.

Quando surge uma anomalia, como uma falsificação experimental, não se consegue fazer ajustar devidamente a natureza ao paradigma: a natureza não se comporta como seria de esperar. Mas a mera existência de anomalias isoladas não provoca uma crise, não conduz a uma quebra de confiança no paradigma. Uma anomalia só será considerada séria se ameaçar os fundamentos do paradigma, se resistir durante demasiado tempo às tentativas de solução ou se puser em causa a satisfação de qualquer necessidade social. E, sempre que podem, os cientistas procuram ignorar a anomalia ou diminuir a sua importância, esperando que um dia o fenómeno que lhe dá origem possa ser acomodado pelo paradigma. Kuhn critica o falsificacionismo de Popper porque o que observa na prática científica é uma tentativa de salvar a todo o custo o paradigma vigente, e não um esforço constante para falsificar as teorias adoptadas. Apesar disto, a existência de anomalias que ameacem os princípios fundamentais do paradigma ou tenham importância prática favorece, de facto, a emergência de uma crise.

Uma crise é um período de insegurança evidente durante o qual a confiança num paradigma é abalada por sérias anomalias.

Ciência extraordinária e revolução científica


As anomalias tornam-se tema de amplo debate na comunidade científica. Progressivamente instala-se um momento de ciência extraordinária, indispensável ao surgimento de uma revolução geradora de um novo período de ciência normal.


A ciência extraordinária corresponde ao período de crise, em que se confrontam propostas explicativas novas e incompatíveis a com os procedimentos e crenças do paradigma vigente.

Durante este período, os fundamentos do paradigma vigente acabarão por ser questionados e serão levadas a cabo disputas metafísicas e filosóficas que, geralmente, em nada contribuem para a manutenção do paradigma. O fim de uma crise na ciência depende, obviamente, do surgimento de um paradigma rival que conquiste a adesão da comunidade científica. Todavia, a implantação de um novo paradigma não ocorre rápida e facilmente. Os cientistas resistem a abandonar o paradigma no qual trabalham, chegando mesmo a negar a evidência de algumas anomalias. Além disso, para que um novo paradigma se imponha, é preciso que primeiro surja uma nova teoria proposta por um cientista profundamente envolvido na crise. Só quando isso acontece, pensa Kuhn, se dá o passo decisivo para uma revolução científica.

A revolução científica corresponde ao abandono de um paradigma e à adopção de outro paradigma (novo) por parte de toda a comunidade científica.

Contrariamente a Popper, que acredita que a ciência está em permanente evolução, Kuhn afirma que as revoluções na ciência são raras, mas é através delas que a ciência muda historicamente. Uma revolução científica corresponde à aceitação, pela comunidade científica, de um novo paradigma incompatível com o anterior.
Contudo, não se pode dizer que as revoluções científicas se constituam como aproximações à verdade: dado que os paradigmas são incomensuráveis, estes não podem ser comparados a partir de um critério de verdade - a existirem critérios de verdade, estes são definidos por cada um dos paradigmas, não podendo servir de base à comparação entre paradigmas.

A incomensurabilidade dos paradigmas

Cada paradigma apresenta-nos um mundo constituído por objectos diferentes. A química anterior a Antoine Lavoisier (1743-1794), por exemplo, afirmava que na natureza existia uma substância chamada flogisto que explicava a combustão, mas no paradigma de Lavoisier o flogisto desapareceu. A teoria do electromagnetismo de James Clerk Maxwell (1831-1879) postulava a existência de um éter no universo, mas o paradigma de Einstein eliminou o éter. Os conceitos que fazem parte de um paradigma não são, pois, aqueles que surgem com o paradigma posterior. E assim, sustenta Kuhn, não há forma de fazê-los corresponder, ou seja, é impossível dizer que um conceito de um paradigma corresponde a um outro conceito do paradigma que o substituiu.

As questões investigadas no âmbito de cada paradigma são também bastante distintas, assim como os critérios que permitem determinar o que importa observar e o que é central ou periférico na teoria. Além disso, os cientistas que aderem a paradigmas diferentes aceitam pressupostos metafísicos diferentes e trabalham à luz de métodos específicos também distintos. A mudança de paradigma é holística (palavra de origem grega holos, que significa todo), porque os aspectos que constituem o paradigma mudam em conjunto, como um todo e não de forma isolada ou independente. O paradigma determina de tal forma a sua visão do mundo que, quando olham na mesma direcção, dois cientistas que aceitam paradigmas diferentes vêem mundos diferentes. Entre os paradigmas existe, portanto, um abismo intransponível. Os paradigmas são, pensa Kuhn, incomensuráveis.

A incomensurabilidade dos paradigmas é a impossibilidade de compará-los objectivamente de maneira a concluir que um é superior ao outro, uma vez que eles propõem modos incompatíveis de conceber a realidade e a ciência.

Dado que Kuhn pensa que os paradigmas são incomensuráveis, pensa igualmente que não dispomos de um critério neutro, de uma medida comum, que nos permita afirmar que o novo paradigma está mais próximo da verdade que o paradigma anterior - não se pode mostrar que o novo paradigma constitui um avanço em direcção à verdade. Dizer que um paradigma constitui um avanço em relação ao seu antecessor implicaria comparar paradigmas entre si. Por isso, os proponentes do velho paradigma não podem ser objectivamente compelidos a rejeitá-lo.

Critérios objectivos e factores subjectivos

A tese da incomensurabilidade pode levar-nos a pensar que Kuhn defende que a escolha de paradigmas é completamente arbitrária. Todavia, como vimos, Kuhn acredita que as boas teorias científicas partilham certas características, que as demarcam da má ciência ou da pseudociência.

1. A exactidão ou precisão consiste na concordância entre as previsões decorrentes do paradigma (ou entre as previsões decorrentes das teorias fundamentais que compõem o paradigma) e os resultados das experimentações e das observações. Este é o mais decisivo dos cinco critérios, por ser o mais preciso e, também, por si especialmente valorizado pelos cientistas.
2. A consistência de um paradigma (ou de uma das suas teorias fundamentais) é tanto a sua consistência lógica interna, como a sua compatibilidade com outras teorias amplamente aceites e com aplicações reconhecidas a fenómenos afins.
3. O alcance ou a abrangência de um paradigma (ou de uma das suas teorias fundamentais) consiste na quantidade e na diversidade de fenómenos e de leis que o paradigma (ou uma das suas teorias fundamentais) abrange.
4. A simplicidade de um paradigma (ou de uma das suas teorias fundamentais) é parcimónia das suas explicações. Uma explicação é tanto mais parcimoniosa quanto menor é o número de leis a que apela para explicar os fenómenos observáveis e também quanto maior é o número de fenómenos dispares que, desse modo, consegue explicar.
5. A fecundidade de um paradigma (ou de uma das suas teorias fundamentais) é sua capacidade para originar novas descobertas científicas.

Ora, estas características (precisão, abrangência, consistência, simplicidade e fecundidade) deveriam poder também contribuir significativamente para a comparação de paradigmas rivais, tornando a escolha de um deles um processo de decisão inteiramente objectivo. De facto, estes critérios objectivos de apreciação de teorias têm um papel a desempenhar na escolha dos investigadores. Contudo estes critérios não bastam para que a mudança de paradigmas se possa classificar como um processo objectivo. Kuhn afirma que a exactidão, a consistência, o alcance, a simplicidade e a fecundidade, embora sejam características valorizadas por todos os cientistas, não determinam a escolha entre paradigmas. Partindo do mesmo conjunto de critérios, dois cientistas podem chegar a conclusões muito diferentes; ou porque um valoriza mais um desses critérios do que o outro, ou até porque os interpretam de maneira diferente. O modo diferente como aplicam o mesmo conjunto de critérios (um cientista valoriza mais a simplicidade enquanto o outro prefere uma teoria menos simples e mais fecunda, por exemplo) só é explicável com recurso a factores pessoais,  como a experiência anterior e a personalidade; a factores sociais, como o contexto político, económico e religioso; e a factores grupais, como a pressão dos pares ou dos elementos mais influentes da comunidade científica. São estes factores subjectivos, associados aos critérios objectivos, que explicam a preferência por um ou outro paradigma.

O desenvolvimento da ciência não é, portanto, um processo absolutamente racional de eliminação de teorias falsas à luz de critérios objectivos, mas uma sucessão de paradigmas escolhidos por uma combinação de critérios objectivos e factores subjectivos. As mudanças que ocorrem na ciência estão, assim, dependentes dos contextos sociais e psicológicos em que os cientistas se movem. A experimentação e os testes empíricos não podem servir de critério objectivo na separação das boas ou más teorias (critério de demarcação), como pensava Popper, uma vez que é o paradigma que confere sustentabilidade a uma teoria.

Podemos afirmar que, segundo Kuhn, o desenvolvimento da ciência processa-se do seguinte modo:

Pré-ciência → Paradigma → Ciência normal → Crise do paradigma/Ciência extraordinária → Revolução científica → Paradigma → …

Critica à perspectiva de Kuhn

É a tese da incomensurabilidade que recebe a principal crítica que se pode fazer à perspectiva de Kuhn. Kuhn afirma que um paradigma entra em crise quando a acumulação de anomalias coloca em causa os seus fundamentos, quando este já não é capaz de responder aos enigmas colocados pela experiência. O novo paradigma que emergiu é capaz de solucionar os aspectos enigmáticos da experiência que levaram ao abandono do velho paradigma. Assim, a tese da incomensurabilidade parece não fazer sentido. Os paradigmas não são completamente incomensuráveis, uma vez que o novo paradigma parece apresenta-se como superior ao velho e as anomalias que existiam no anterior deixaram de existir no novo.

A tese de que não há, em ciência, uma aproximação à verdade até pode ser verdadeira, mas que as teorias hoje aceites permitem explicar, prever e controlar com mais sucesso os fenómenos também é verdade.

A ciência parece, cada vez mais, trilhar os caminhos da racionalidade e da objectividade.

domingo, 25 de maio de 2014

Filosofia da Ciência - Ficha Formativa

Grupo I
Texto 1
"Uma característica notável de muita informação que adquirimos através da experiência comum é que, embora ela possa ser suficientemente precisa dentro de certos  limites, raramente é acompanhada por qualquer explicaçāo que nos diga por que se deram os factos alegados."
Ernst Nagel


1. Identifique o tipo de conhecimento a que o texto se refere. Justifique.

2. Distinga ciência de senso comum, a partir das três características da ciência mais importantes (de acordo com a sua opinião).


Grupo II

1. De acordo com Karl Popper as teorias científicas podem ser verificadas? Porquê.
2. O conhecimento científico é objectivo? Responda a esta questão confrontando as perspectivas de Popper e Kuhn.

_____________________
Correção:

Grupo I

1. O texto refere-se ao senso com um (conhecimento vulgar). 
A "experiência comum" a que o texto se refere é a experiência sensorial, ingénua, não mediada racionalmente, através da qual contactamos com a realidade na nossa vida quotidiana.
Essa experiência espontânea dá-nos um conhecimento superficial da realidade, embora esse conhecimento possa ser muito variado, não é suficiente para ficarmos com uma visão sistemática do mundo.
O texto refere, ainda, que essa experiência "raramente é acompanhada por qualquer explicação": o conhecimento vulgar, ao contrário do que se passa com a ciência, não é explicativo, não procura descobrir as causas reais dos fenómenos. Isto porque se trata de um conhecimento que tem uma forte componente prática, é constituído por segmentos de informação que nos permitem funcionar no mundo em que vivemos: como acender a luz, como abrir uma fechadura, como apanhar um autocarro, como usar uma ferramenta, etc., não necessitando, assim, de grandes explicações.

2. É difícil selecionar as três características mais importantes da ciência, porque muitas dessas características estão interligadas. Mas podemos procurar os pontos de encontro das principais características da ciência: a sistematicidade, o carácter metódico, o carácter explicativo, a revisibilidade, entre outras, remetem para o facto da ciência ser um saber racional: o senso comum é um saber empírico, ou seja, é um saber que deriva de forma direta e acrítica da experiência quotidiana, sem 'filtros' que lhe garantam o rigor e sem a obediência a princípios lógicos que lhe garantam a coerência.
Pelo contrário, a ciência é um saber altamente testado, sofisticado do ponto de vista lógico e conceptual, que procura explicar o funcionamento da realidade (natureza, universo...). Este objectivo só é alcançável através da problematização: o carácter racional da ciência evidencia-se na problematização - ao colocar problemas, o cientista aprofunda o seu conhecimento da realidade, coloca-se na posição de quem mergulha para lá da superfície da experiência sensorial e vai ao fundamento de toda a explicação: as causas ocultas dos fenómenos. E não estamos perante nenhuma forma de 'ocultismo': as aparências sensoriais escondem o que de facto acontece na complexíssima fábrica do mundo, a constituição da matéria, as forças que atuam sobre os corpos, enfim, tudo o que está para além da imediatez do conhecimento sensorial.
Na problematização está pressuposta uma atitude crítica em relação aos dados da experiência, mas também em relação às explicações racionais: em ciência o dogmatismo funciona como um travão à descoberta, por isso as conclusões alcançadas são encaradas como boas respostas aos problemas que, no futuro, poderão ser substituídas por outras melhores. A ciência é, portanto, revisível, pode ser melhorada, com vista a que se encontrem explicações mais verdadeiras.
Outra característica da ciência que podemos destacar é a sua dimensão factual: a ciência assenta em factos, o que torna muito importante a experiência na sua construção. Mas já não se trata da experiência sensorial, tal com acontece ao nível do quotidiana, trata-se, pelo contrário, de uma experiência mediada racionalmente, que incorpora elementos metodológicos necessários ao cumprimento das metas da investigação: como observação, a experiência assume em ciência uma dimensão instrumental e quantitativa, os cientistas observam os fenómenos utilizando instrumentos que lhes permitem ultrapassar as lacunas do conhecimento dos sentidos (que estão na base da argumentação céptica e cartesiana). A observação científica assenta na medida, pelo que grande parte dos instrumentos de observação científica são instrumentos de medida ou têm na medição a razão de ser do seu funcionamento. Só assim é possível recolher dados quantitativos, objectivos, que podem ser trabalhados com base em instrumentos de análise matemática. Assim se ultrapassa o subjectivismo do conhecimento vulgar e se pode alcançar um conhecimento objectivo.
Mas a experiência em ciência também assume uma dimensão experimental: os cientistas, depois de formularem hipóteses explicativas, testam-nas construindo experiências que reproduzem os fenómenos naturais em situações controladas, frequentemente em laboratório. Aí a experiência é depurada de todos os elementos que possam introduzir imprecisões ou confusão para que se possa aquilatar com rigor as relações causais que produzem os fenómenos.
Por fim, podemos destacar a importância do conhecimento científico para a evolução histórica da humanidade. É que a ciência está na base da tecnologia e, através desta, te um impacto crescente na vida dos seres humanos e das sociedades. Vivemos hoje numa sociedade do conhecimento, em que se assiste a uma galopante sucessão de inovações tecnológicas que, de forma muito rápida, mudam a sociedade e a nossa vida, trazendo novas formas de comunicar, mais poder reivindicativo para os cidadãos, um alargamento inaudito da esperança média de vida e um acesso à informação e ao saber nunca antes experienciado.
Estas mudanças profundas são são possíveis graças à ciência e ao seu sentido progressivo: a ciência está sempre em evolução e, por isso, serve de motor da História, provoca transformações nas formas de pensar, nas relações sociais, nas transções económicas, no fundo em tudo o que faz a malha cada vez mais complexa da cultura e da sociedade que são a base da vida humana.
O senso comum, pode, pelo contrário, ser considerado conservador, uma vez que é um repositório acrítico de conhecimentos dispersos, onde o novo se confunde com o ancestral e o irracional muitas vezes trava a marcha da racionalidade.

Grupo II

1. 
De acordo com Karl Popper as teorias científicas não podem ser verificadas.
Em primeiro lugar, para haver lugar à verificação das teorias (que são universais) teria que ser possível conhecer todos os fenómenos explicáveis com base na teoria, ou ter um princípio de indução capaz de garantir à indução a possibilidade de derivar a verdade da conclusão da verdade das premissas (o que é uma característica da validade dedutiva). 
Karl Popper, seguindo na esteira de David Hume, rejeita o indutivismo que é a base do verificacionismo: quando se fazem testes experimentais às teorias não se pode pretender verificá-las, uma vez que é impossível garantir a verdade de conclusões universais a partir de premissas particulares, pois é sempre possível que existam excepções à teoria que ainda não foram observadas.
Sendo assim, a única forma de corroborar as teorias será através do princípio da falsificabilidade: a aparente fraqueza das teorias científicas, a sua inverificabilidade, é, no entanto, a sua força. ou seja o que garante a fecundidade da investigação científica e a revisibilidade evolutiva da ciência. Uma teoria só é científica se for falsificável, isto é, se, a partir do momento em que é formulada, abre as portas à possibilidade da sua falsificação.
A falsificabilidade é, por isso, o critério de demarcação que permite separar a ciência da não-ciência. O conhecimento científico não é dogmático nem evolui por acréscimos sucessivos de novas verdades, pelo contrário, a ciência avança, sim, mas pela eliminação do erro, não pela afirmação de verdades absolutas. Isto não quer dizer que na ciência não existem certezas: quando uma teoria é falsificada pela experiência há a certeza, absoluta e irrevogável, de que a teoria é falsa e deve ser substituída por outra melhor, mais ajustada à experiência.

2. 
De acordo com Karl Popper o conhecimento científico é objectivo porque se baseia na observação da realidade, tendo, por isso, uma base observacional e factual. Os factos não são construídos pelo sujeito cognoscente, embora sejam abordados observacionalmente a partir dos interesses de quem investiga: a observação científica é orientada pela problematização que, por sua vez, pressupõe uma participação activa do sujeito na busca e construção do saber.
No entanto os fenómenos observados em ciência têm uma dimensão positiva, factual e empírica, que não depende da natureza do sujeito cognoscente nem das condições subjectivas e culturais em que o conhecimento se desenrola. É isto que permite garantir o rigor da ciência e a corroboração das teorias.
No caso de Thomas Kuhn a resposta será radicalmente diferente: a ciência não é objectiva porque a definição do objecto da ciência depende do paradigma que serve de base à prática de cada comunidade científica. Sendo assim a própria forma como a realidade é entendida depende das orientações paradigmáticas e são estas que vão permitir decidir o que é ou não objecto da ciência e o que os cientistas devem poder esperar do seu objecto de investigação.
Quando muda o paradigma muda também a forma com os cientistas encaram os objectos por si estudados. Há a possibilidade de surgirem novas formas de conceber os objectos investigados e investigáveis, de abandonar as anteriores categorizações que diziam aos cientistas que tipos de ser poderiam encontrar na natureza e quais as relações que se podem estabelecer entre os diversos elementos da realidade. Se na Idade Média a existência dos anjos era praticamente inquestionável, hoje em dia os mesmos não passam de seres pertencentes ao campo do imaginário, completamente desprovidos da possibilidade de virem a ser considerados como objectos de qualquer conhecimento científico.