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sábado, 7 de fevereiro de 2015

Os valores e a cultura




Este texto e a questão 1 foram copiados daqui.

"É verdade que, do ponto de vista cultural, os seres humanos conquistaram, pouco a pouco e com muitos esforços, aquilo que eles consideram – e que nós consideramos ainda – como valores. Os valores não caíram todos do céu; noutros termos, os homens não descobriram os valores a partir de uma evidência já dada, como se fosse necessário perscrutar o próprio coração ou olhar para dentro de si mesmo para compreender quais são os objectivos da acção que são valores autênticos. O que é evidente, por exemplo, é a procura espontânea dos bens que mantêm a nossa vida física.
Estes “valores básicos “ não precisam de reflexão para serem vividos; o que exigiu o pensamento foi a construção dos meios técnicos (instrumentos como o machado de pedra para matar os animais, as técnicas de construção para habitação, etc…) para os realizar. Mas o que exigiu ainda mais tempo de reflexão e mais actos concretos, o que exigiu, por assim dizer, uma longa vida feita de tentativas fracassadas ou coroadas de êxito é a descoberta dos valores a que chamamos superiores. Tais valores, que regulam a vida relacional entre seres humanos, pressupõem um longo percurso civilizacional, percurso de que se pode às vezes reconhecer os marcos. Os “ Direitos do Homem” foram, depois de 1789, proclamados solenemente em 1948, no termo de uma guerra mundial que fez mais de 50 milhões de mortos.
Ainda que muitos povos já aplicassem estes direitos antes da Declaração Universal, não se pode negar que 1948 constitui um ponto de referência “histórico” na descoberta dos valores de respeito pelo ser humano enquanto pessoa. Há, deste modo, valores cuja origem está ligada com determinada cultura; citemos por exemplo a hospitalidade para os antigos Gregos, a pessoa para o mundo cristão, a democracia em Atenas e, depois da Revolução Francesa, a igualdade entre raças com a abolição da escravatura e, em seguida, do apartheid, a liberdade dos povos de decidir o seu futuro, com a descolonização depois da Segunda Guerra Mundial. Quando se afirma que os valores são historicamente marcados diz-se que é possível determinar, com certa margem de imprecisão, o seu nascimento enquanto valores reconhecidos quer por um grupo, quer pela maior parte das pessoas, quer pelo acordo quase universal das nações.
Os valores são todos relativos à época e ao contexto da sua descoberta na história dos seres humanos. As formas que os valores assumem variam com o tempo. Quanto mais básicos são, mais variam as formas da sua vivência. Em sentido contrário, quanto mais elevados são os valores, mais estável é o seu núcleo intangível., de tal modo que, através das vicissitudes das suas formas de apresentação, eles se manifestam como valendo apenas para todos os seres humanos."
Michel Renaud, “ Viver a Cidadania” , Educar Hoje – Enciclopédia dos Pais.


1. A partir de uma leitura do texto, estabeleça a diferença entre os “ valores básicos” e os “ valores superiores”.

2. Partindo de uma análise do texto, relacione os "valores básicos" e os "valores superiores" com a historicidade dos valores.

Para aceder à correção clique no link:

O homem como produto e produtor da cultura






De uma forma muito geral podemos definir a cultura como tudo o que é produzido pelo homem enquanto ser social.

Em primeiro lugar, a cultura é aprendida. É aprendida, porque existe graças a um processo de transmissão de geração em geração e não existe independentemente dos indivíduos e dos grupos sociais que compõem as sociedades humanas

A aprendizagem da cultura começa a partir do nascimento, e dá-se essencialmente por imitação dos outros. A esse processo chamamos enculturação e uma das principais vertentes da socialização. É pelo processo de socialização / enculturação que se dá a reprodução social que é um complemento indispensável da reprodução biológica

A cultura também é simbólica, pois todas as culturas possuem símbolos que são compreendidos de modo semelhante por todas as pessoas que as integram. É uma forma de comunicação, é uma rede de sentidos que torna possíveis as relações pessoais. Tudo nas culturas é de carácter simbólico. A base de cada cultura é a língua partilhada pelos membros de cada comunidade.

A cultura também domina a natureza, pois sobrepõe-se ao que há de biológico em nós. Cada necessidade biológica é expressa e saciada de forma diferente, consoante a cultura. Por exemplo, a necessidade de alimento é comum a todos os seres humanos, mas que é satisfeita é de modo diferente (difere no tipo de comida, no modo como se toma a refeição, as horas…). Por isso se diz que a cultura é como uma segunda natureza para o ser humano.

A cultura mostra-se como geral e específica ao mesmo tempo, visto que todos os homens, em qualquer sociedade, têm uma determinada cultura (não há ninguém que não tenha cultura, nasça ou exista sem ela), mas também porque as culturas são diferentes, têm características próprias, que a individualizam. 

Também é dito que a cultura abarca o todo. É simples; a cultura está presente em todos os aspectos da vida humana (sociais, organização do tempo e do espaço, biológicos); ou seja, a cultura está presente em tudo na nossa vida e nada está fora da cultura, pois existem conhecimentos, normas, regras, padrões de comportamento em todas as actividades humanas. 

Outro aspecto da cultura, é o facto de esta ser partilhada, porque não é propriedade de um indivíduo, é de todas as pessoas de uma sociedade, a sociedade e a cultura são inseparáveis, elas são a forma de viver do ser humano. 

Este texto foi adaptado a partir deste original.




Clique na imagem para ampliar


O homem é produto e produtor da Cultura


A cultura é obra humana, é o resultado da acção humana sobre o mundo ( sobre o próprio homem).

O ser humano é capaz de conhecer a realidade em que vive, o que significa que o ser humano é sujeito de conhecimento: consegue representar mentalmente a realidade e, a partir daí, pode interrogar-se sobre o porquê das coisas e das ações dos homens. 
Com base no conhecimento acerca de si e do mundo em que vive, o ser humano pode valorar aquilo de que tem conhecimento, a partir de padrões de escolha e de avaliação que tornam a realidade capaz de ser transformada pela ação humana. 
Com base nos juízos de valor que faz sobre o mundo, o ser humano pode agir procurando alcançar metas individuais e/ou coletivas. Fá-lo porque é capaz de comunicar e de cooperar com os outros humanos - chamamos cultura a toda esta rede de conhecimentos, valorações e ações e constituem o mundo humano, o habitat da espécie humana.
Sem um meio sócio-cultural o ser humano é como um peixe fora de água, não pode viver na plenitude das suas capacidades, perde o sentido do que é a sua humanidade. Por isso o pior castigo que pode recair sobre um ser humano é o isolamento em relação à sociedade dos homens.
A rejeição é o pior dos infernos.
Isto porque o ser humano é o principal produto cultural da sociedade em que nasce e se desenvolve. Sem a socialização seríamos como o menino selvagem quando foi capturado: animais muito limitados sem quaisquer características humanas. Nós somos o resultado da educação que recebemos, acrescido das nossas escolhas pessoais. Somos, no fundo, um produto da ação cultural dos que nos educaram.
Mas também somos produtores de cultura, porque comunicamos, pensamos, valoramos e agimos, alterando, de forma variável, o mundo em que vivemos, ou seja a cultura da sociedade a que pertencemos.
Há seres humanos que conseguem ter um grande impacto na cultura da sua sociedade, como os artistas, os cientistas, os criadores de obras culturais de relevo. Mas cada ser humano deixa uma marca no mundo dos homens, por mais pequena que seja.


sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Os conflitos de valores



O que são conflitos de valores?

É comum assistirmos ao fim de relações humanas e institucionais antes que os seus objetivos se cumpram porque as partes entram em conflito. Com frequência, as desavenças dão-se por motivos facilmente superáveis, mas as pessoas envolvidas não sabem como procurar o entendimento nem dispõem de instrumentos para tal. Em muitos casos, nem percebem que se envolveram numa disputa e não entendem o fracasso da relação.

A dificuldade de identificar os conflitos decorre, principalmente, da falta de clareza com que o problema se apresenta. É fácil perceber uma divergência se há ataques frontais, mas a maioria das disputas assume contornos subtis. Duas pessoas que almejam o mesmo cargo, por exemplo, não revelam as suas intenções, mas fazem o que podem para denegrir o concorrente.

Conflito, etimologicamente, está ligado à ideia de luta. A palavra latina conflictu quer dizer choque. O estratega prussiano Von Clausewitz, contemporâneo de Napoleão Bonaparte, afirmava que “o conflito é o encontro de duas vontades irreconciliáveis”. As pessoas entram em conflito porque percebem que têm menos poder e auto-estima do que seus interlocutores ou quando uma das partes identifica uma invasão no seu espaço objetivo (corpo e bens) ou no seu mundo subjetivo (sentimentos, valores, crenças e idéias).

Há vários tipos de conflito. Os conflitos de informação decorrem da sonegação de dados ou de mensagens mal compreendidas. Os conflitos de interesse surgem quando os recursos são escassos; quando há divergência sobre decisões; ou quando há questões emocionais em jogo. Já os conflitos emocionais resultam da distância entre as pessoas.

Os conflitos de valores - que são os que nos interessam aqui - dão-se entre pessoas que têm modos diferentes de vida ou critérios divergentes de como avaliar comportamentos.

Tais conflitos ocorrem quando as partes divergem fundamentalmente nas suas percepções sobre o desejável. É isso que se vê no exemplo apresentado na página 82 do manual: deve-se construir a barragem ou deve-se travar a construção em nome da preservação do meio ambiente? O que é desejável? É preferível garantir a satisfação das necessidades energéticas do país durante uma década (com todas as vantagens económicas associadas), ou manter a integralidade da paisagem e dos ecossistemas que serão irremediavelmente afetados pela construção da barragem?

Os valores surgem como uma expressão cultural específica das necessidades, das motivações básicas e dos requisitos do desenvolvimento comuns a todos os seres humanos. Estas necessidades incluem segurança, identidade, reconhecimento e desenvolvimento em geral. Quando as necessidades básicas para a sobrevivência de um grupo ou para sua identidade não são satisfeitas, os integrantes do grupo tendem a lutar para conseguir o querem, de uma maneira ou outra. As necessidades e sua satisfação não podem ser negociadas. Todavia, é possível identificar uma série de maneiras para satisfazer as necessidades humanas básicas, e as metas de solução de conflitos podem ser obtidas por meio do processo de identificação e satisfação daquelas necessidades.

Para solucionar conflitos de uma maneira geral, é preciso conhecer bem as razões do outro. Expor as próprias ideias é essencial, mas deve-se ter cuidado, pois críticas demasiado duras ou radicais impedem a interação. Ao ouvir o outro, é importante focarmo-nos no que ele está a dizer e não na elaboração de uma resposta ao que nos está a ser dito. Devemos, acima de tudo, procurar compreender os argumentos do outro, atendendo à sua consistência, em vez de procurarmos defender a nossa posição de qualquer ataque. Isso implica que saibamos ouvir os outros. Sem isso também não nos conseguiremos expressar com clareza.

A racionalidade é essencial porque nos leva a perceber as diferenças e a ficar aberto a soluções criativas. Isso não quer dizer que a pessoa deva ficar contida ou distante, mas deve tentar resolver o problema em cooperação (em colaboração) com os seus interlocutores. Se uma das partes não se importa com o resultado da disputa ou considera esse resultado menos importante que a solução do conflito, a escolha correta pode ser render-se aos desejos do outro. Mas a verdadeira colaboração é encontrar uma boa solução para ambas as partes.

A solução de um conflito depende do controlo que temos sobre as respostas que surgem da nossa compreensão da realidade. Ao tentar solucioná-lo, é essencial ser transparente, agir com objetividade, respeitar a perspectiva do outro e demonstrar disponibilidade para cooperar.

A Razão deve ser usada para resolver os conflitos de valor:

"Todas as pessoas são respeitáveis, sejam quais forem as suas opiniões, mas nem todas as opiniões são respeitáveis. Uma pessoa que diz que dois e dois são cinco, não pode ser encarcerada, não pode ser objecto de nenhuma represália, mas o que é evidente é que a ideia de que dois e dois são cinco não é tão respeitável como a ideia de que dois e dois são quatro. A mitificação da opinião própria conduz a considerá-la como algo que se subtrai à discussão, em vez de algo que se põe sobre a mesa, algo que não é nem meu nem teu mas que temos que discutir – discutere é, em latim, ver se uma árvore tem raízes, se as coisas têm raízes –, ver se está enraizada em algo. Quando se propõe uma opinião, não se propõe como quem se fecha num castelo, como quem se encouraça, não se supõe que todas as opiniões são igualmente válidas, mas pelo contrário que estão abertas a confrontar-se com provas e dados. Se não, não são opiniões, são dogmas. A ideia de que todas as opiniões valem o mesmo, de que a opinião do aluno do infantário vale tanto, em questões matemáticas, como a do professor de aritmética, não é verdade. E a ideia de que é um sinal de democracia ou de liberdade que qualquer ideia valha tanto como qualquer outra e que é indiferente que quem a sustenta ignore os mecanismos do assunto, não possa aduzir nenhuma prova, não tenha dados, seja incapaz de raciocinar a sua postura, que essa vale tanto como a opinião de quem conhece o assunto, parece-me preocupante.

No entanto, há uma mitificação da opinião igual a essa espécie de encastelamento de quem se sente ofendido quando contrariado, como se as opiniões se pudessem ferir, e como se cada qual pudesse sentir feridas as suas opiniões. A ideia de que as opiniões formam um corpo connosco, e que o dizer "é a minha opinião" dá um grau de razão superior ao da opinião do vizinho, parece-me preocupante, sobretudo porque se considera um sinal de liberalidade intelectual reconhecer as opiniões de cada um, quando a única liberalidade que existe é reconhecer que as opiniões devem estar fundadas na razão e que ninguém tem direito a expor as suas opiniões se não tem razões para as justificar. A posição autenticamente livre, aberta e revolucionária é sustentar que é a razão que vale e que as opiniões devem submeter-se-lhe, e não que são as opiniões que por si mesmas, por ter uma pessoa por trás, se convertem em invioláveis porque a pessoa o é.

Ensinar estas coisas e ensinar a diferença que há entre o respeito pelas pessoas e os modelos de uma capacidade de escuta, a razão não se nota somente quando alguém argumenta como também quando alguém compreende argumentos. Ser racional é poder ser persuadido por argumentos, não apenas persuadir com argumentos. Ninguém pode aspirar à condição de racional se as suas razões, as vê muito claras, mas nunca vê claramente nenhuma razão alheia. Ver as razões dos outros faz parte, necessariamente, da racionalidade. Aceitar ter sido persuadido por razões costuma ser muito mal visto, como se dar mostras de racionalidade fosse algo muito mau, quando o facto de alguém mudar de opinião demonstra que a razão lhe continua a funcionar. O mundo está cheio de pessoas que se orgulham de pensar o mesmo que pensavam aos 18 anos; provavelmente não pensavam nada, nem agora nem aos 18 anos, e graças a isso mantêm-se invulneráveis a todo o tipo de argumentação, razões, conhecimento do mundo, etc.

Educar para que as pessoas sejam vulneráveis aos raciocínios também faz parte da educação racional, e isto entra na distinção fundamental entre o racional e o razoável. A razão cobre um campo que abarca o meramente racional, no qual nos entendemos com as coisas o melhor possível, e o razoável, no qual nos entendemos com os sujeitos. É razoável incluir na minha própria a razão própria de outro sujeito, a possibilidade de aceitar os seus fins, de aceitar os seus objectivos, a sua própria busca da experiência como parte da minha própria razão. O funcionamento racional e o funcionamento razoável estão ligados, e há que educar em ambos. O razoável será esse outro uso que eu consiga dar aos conhecimentos racionais que tenho. Naturalmente que os usos também estão ligados à razão, mas a outra função diferente, isto é, ao reconhecimento de que não me movo só entre objectos, mas também entre sujeitos. E que o característico dos objectos é que eu posso impor-lhes os meus fins; e dos sujeitos, que eu devo conhecer os seus fins para de alguma forma os contrastar com os meus e buscar a possível cooperação."

Fernando Savater
Ver aqui uma versão mais completa deste texto.
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O que são critérios valorativos?

Critérios valorativos são o conjunto de valores e a sua hierarquia, os conhecimentos e as crenças presentes na consciência do sujeito e que funciona como grelha apreciativa do real.

Há 3 tipos de critérios valorativos: os individuais/pessoais, os sociais ou grupais e os universais.

Os critérios valorativos têm uma dimensão pessoal quando são os interesses pessoais, os sentimentos, gostos e ideias de cada uma orientar os juízos de valor que se fazem. Ex's:"a caneta é preciosa"; " a leitura de romances é uma perda de tempo"- Juízos de valor.

Contudo , cada sujeito, enquanto integra uma comunidade, em costumes, valores, crenças e cultura comuns, ao formular juízos, expressa esses critérios valorativos comuns. Ex's: "O futebol português tem pouca qualidade"; "A poupança é importante para o futuro".- Juízos colectivos.

Coloca-se a questão de saber se são possíveis critérios valorativos universais. E sendo possíveis, quais serão?

O problema da existência de critérios valorativos universais resulta de:

1 - Existirem problemas comuns que impõem soluções comuns;

2 - Todos os homens, sendo dotados de razão, pretendem que os seus juízos de valor se tornem universais.

A dignidade humana é um possível critério valorativo universal, enquanto cada sujeito o aprova para si e para os outros. Este critério, só é universal se for sustentado racionalmente com argumentos fortes e possa assim impor-se a todos os homens, enquanto seres racionais.

A dignidade humana consiste no respeito que cada homem merece em função da inviolabilidade dos seus próprios princípios e da sua vida. A dignidade é um critério universalizável, porque se pretende que o sujeito a aplique a si e aos outros.
http://filosofiadiogovieira.blogspot.pt/

As principais características dos valores


Para saber mais:

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Cultura, identidade e diversidade cultural







O conceito de aculturação
Aculturação é um termo criado inicialmente por antropólogos norte-americanos para designar as mudanças que podem acontecer em uma sociedade diante de sua fusão com elementos culturais externos, geralmente por meio de dominação política, militar e territorial. Porém, segundo o historiador francês Nathan Watchel, aculturação é todo fenómeno de interação social que resulta do contato entre duas culturas, e não somente da sobreposição de uma cultura a outra.

Já Alfredo Bosi, em Dialética da colonização, afirma que esse fenómeno provém do contacto entre sociedades distintas e pode ocorrer em diferentes períodos históricos, dependendo apenas da existência do contacto entre culturas diversas, constituindo-se, assim, um processo de sujeição social de uma sociedade a outra.

A maioria dos autores acreditam que a aculturação é sempre um fenómeno de imposição cultural.

Trata-se,também,  de aculturação quando duas culturas distintas ou parecidas são absorvidas uma pela outra, formando uma nova cultura diferente. Além disso, aculturação pode ser também entendida como a absorção de uma cultura pela outra, onde essa nova cultura terá aspectos da cultura inicial e da cultura absorvida. Um exemplo é o Brasil que adquiriu traços da cultura de Portugal, da África, que juntamente com a cultura indígena formaram a cultura brasileira.

Com a crescente globalização, um novo entendimento de aculturação vem-se tornando um dos aspectos fundamentais na sociedade. Pela proximidade a grandes culturas e rapidez de comunicação entre os diferentes países do globo, alguns autores sustentam que cada cultura está a perder a sua identidade cultural e social, aderindo em parte a outras culturas. Um exemplo disso são elementos da cultura ocidental que são cada vez mais homogéneos em muitos países distintos. Mesmo assim a aculturação não tira totalmente a identidade social de um povo, crendo-se que talvez no futuro não exista mais uma diferença cultural tão acentuada como a aquela que hoje ainda se observa, em especial entre o Oriente e o Ocidente.
http://pt.wikipedia.org
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O texto inserido a seguir foi copiado a partir do Portal das Escolas
(No ficheiro não não é indicado o nome do(s) autores(s))


Multiculturalismo

As vivências dos indivíduos em diferentes contextos sociais, com as suas hierarquias de valores, com a sua cultura própria colocam sérias dificuldades de convivência intercultural. Porém, por razões particulares, acontece que pessoas de espaços culturais diversos são muitas vezes obrigadas a relacionar-se e a ter de conviver.

Fala-se de multiculturalismo ou diversidade cultural para designar este fenómeno, o qual tem vindo a merecer a atenção de inúmeros investigadores. Entre eles, uns preocupam-se com a descrição e análise das diferenças culturais entre os povos que habitam regiões distintas do globo; outros analisam o facto de, num mesmo espaço social, pessoas com culturas diferentes terem de lidar umas com as outras.

Devido à emigração, é possível num país, ou mesmo numa cidade, a existência de diversos núcleos culturais. 
Acrescente-se ainda a existência de grupos sociais que, por inúmeras razões, se sentem marginalizados pelos elementos da sociedade, como é o caso dos deficientes, dos idosos, dos homossexuais e de outros.

Atitudes face à diversidade cultural

Perante a existência de seres humanos com normas e hábitos culturais diferentes, as pessoas podem assumir atitudes e condutas muito variadas. Mencionaremos algumas dessas atitudes: etnocentrismo, relativismo cultural e interculturalismo.


Etnocentrismo

Incluem-se aqui as pessoas que observam as outras culturas em função da sua própria cultura, tomando-a como padrão para valorar e hierarquizar as restantes. Desta atitude podem, de imediato, resultar duas consequências:

• Incompreensão em relação aos aspectos das outras culturas, pois o etnocentrista é incapaz de aceitar os que não adoptam modos de vida semelhantes aos seus.
• Aumento da coesão dos elementos do grupo e do sentimento de superioridade em relação aos elementos das culturas com que têm de coexistir.

Imagem retirada do manual Um outro olhar sobre o mundo
Para preservar os traços da sua cultura, o etnocentrista pode assumir posturas negativas, entre as quais se contam:
• Xenofobia, ou seja, ódio em relação aos estrangeiros.
• Racismo, isto é, repúdio violento de determinados grupos étnicos.
• Chauvinismo, quer dizer, patriotismo fanático.


Relativismo cultural

Para além dos etnocentristas, há outras pessoas que perspectivam as outras culturas a partir dos valores por que se regem e não dos valores das culturas em causa. São os defensores do relativismo cultural.
Porém, afastam-se dos etnocentristas ao recomendarem a tolerância face as diferentes expressões culturais  das outras comunidades.
Esta tolerância, sendo aparentemente uma atitude positiva, manifesta alguns aspectos negativos:

• a proclamação dos respeito e tolerância pelas outras culturas encerra a ideia de que cada cultura deve promover os seus próprios valores, ficando fechada em si própria.
• Não incentivando a abertura aos modelos das outras comunidades, os defensores do relativismo não promovem, antes dificultam, o diálogo entre culturas.

Neste sentido, os relativistas não escapam a certos riscos. Entre eles, anotam-se os seguintes:

Racismo
Embora proponham o respeito pelos modos de vida de todos os povos, os relativistas estão a preservar a sua própria cultura. A melhor forma de as pessoas se preservarem consiste em não se misturarem. Daí não serem adeptos do diálogo cultural.


Isolamento
Apesar da tolerância, o relativismo promove a separação entre culturas, não manifestando interesse em estabelecer contacto com povos diferentes. A defesa de que cada ser humano deve ficar no seu país e viver segundo a sua cultura acaba por ser, muitas vezes, um modo de justificar a proibição da entrada de imigrantes.

Estagnação 
Há uma visão estática das culturas, considerando que o importante é manter
as tradições. Certamente que é bom manter as tradições para conservar a memória colectiva; porém, a cultura é algo de vivo que se deve adaptar a novas circunstâncias e, para isso, os contactos entre culturas são altamente enriquecedores. Esta é a perspectiva adoptada pelos defensores do interculturalismo.


Interculturalismo

Este movimento tem como ponto de partida o respeito pelas outras culturas, superando as falhas do relativismo cultural, ao defender o encontro, em pé de igualdade, entre todas elas.

O interculturalismo propõe-se promover os seguintes objectivos:
• Compreender a natureza pluralista da nossa sociedade e do nosso mundo.
• Promover o diálogo entre culturas.
• Compreender a complexidade e riqueza da relação entre as diferentes culturas, tanto no plano pessoal como no comunitário.
• Colaborar na busca de respostas aos problemas mundiais que se colocam nos âmbitos social, económico, político e ecológico.

Dado que não se pode considerar que qualquer cultura tenha atingido o seu total desenvolvimento, o diálogo entre povos de diferentes culturas é o meio de possibilitar o enriquecimento mútuo de todas elas. O interculturalismo propõe, assim, que se aprenda a conviver num mundo pluralista e  se respeite e defenda a humanidade no seu conjunto. 


A importância do diálogo entre culturas

O diálogo entre culturas corresponde a uma exigência do nosso tempo, dada a necessidade de dar respostas comuns a desafios que se colocam a toda a humanidade. Para o levar a cabo é necessário, contudo, ter como base um conjunto de valores morais partilhados, entre os quais se evidenciam os seguintes:
• Salvaguarda dos direitos humanos.
• Apreço pela liberdade, igualdade e solidariedade.
• Respeito pelas diferenças culturais.
• Promoção de uma atitude dialogante.
• Implementação de um tolerância activa.

Estes mínimos morais são os alicerces para a construção de uma “civilização mundial”. Tal civilização será obra de todas as culturas e raças e terá de ser edificada através de um diálogo intercultural sério e frutífero. 

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Os perigos do etnocentrismo

"É norma socialmente reconhecida entre nós que devemos cuidar dos nossos pais e de familiares quando atingem uma idade avançada; os Esquimós deixam-nos morrer de fome e de frio nessas mesmas condições. Algumas culturas permitem práticas homossexuais enquanto outras as condenam (pena de morte na Arábia Saudita). Em vários países muçulmanos a poligamia é uma prática normal, ao passo que nas sociedades cristãs ela é vista como imoral e ilegal. Certas tribos da Nova Guiné consideram que roubar é moralmente correcto; a maior parte das sociedades condenam esse acto. O infanticídio é moralmente repelente para a maior parte das culturas, mas algumas ainda o praticam. Em certos países a pena de morte vigora, ao passo que noutras foi abolida; algumas tribos do deserto consideravam um dever sagrado matar após terríveis torturas um membro qualquer da tribo a que pertenciam os assassinos de um dos seus.

Centenas de páginas seriam insuficientes para documentarmos a relatividade dos padrões culturais, a grande diversidade de normas e práticas culturais que existem actualmente e também as que existiram.

Até há bem pouco tempo muitas culturas e sociedades viviam praticamente fechadas sobre si mesmas, desconhecendo-se mutuamente e desenvolvendo bizarras crenças acerca das outras.

 Os europeus que viajaram para as Américas no século XVI acreditavam que iam encontrar gigantes, amazonas e pigmeus, a Fonte da Eterna Juventude, mulheres cujos corpos nunca envelheciam e homens que viviam centenas de anos. Os índios americanos foram inicialmente olhados como criaturas selvagens que tinham mais afinidades com os animais do que com os seres humanos. Paracelso, nunca lá tendo ido, descreveu o continente norte-americano povoado por criaturas que eram meio homens meio bestas. Julgava-se que os índios, os nativos desse continente, eram seres sem alma nascidos espontaneamente das profundezas da terra. O bispo de Santa Marta, na Colômbia, descrevia os indígenas como homens selvagens das florestas e não homens dotados de uma alma racional, motivo pelo qual não podiam assimilar nenhuma doutrina cristã, nenhum ensinamento, nem adquirir a virtude.

Anthony Giddens, Sociology, Polity Press, Cambridge, p. 30

Durante o século XIX os missionários cristãos em África e nas ilhas do Pacífico forçaram várias tribos nativas a mudar os seus padrões de comportamento. Chocados com a nudez pública, a poligamia e o trabalho no dia do Senhor, decidiram, paternalistas, reformar o modo de vida dos "pagãos". Proibiram os homens de ter mais de uma mulher, instituíram o sábado como dia de descanso e vestiram toda a gente. Estas alterações culturais, impostas a pessoas que dificilmente compreendiam a nova religião, mas que tinham de se submeter ao poder do homem branco, revelaram-se, em muitos casos, nocivas: criaram mal-estar social, desespero entre as mulheres e orfandade entre as crianças.

Se bem que o complexo de superioridade cultural não fosse um exclusivo dos Europeus (os chineses do século XVIII consideraram desinteressantes e bárbaros os seus visitantes ingleses), o domínio tecnológico, científico e militar da Europa, bem vincado a partir das Descobertas, fez com que os Europeus julgassem os próprios padrões, valores e realizações culturais como superiores. Povos pertencentes a sociedades diferentes foram, na sua grande maioria, desqualificados como inferiores, bárbaros e selvagens.

O etnocentrismo é a atitude característica de quem só reconhece legitimidade e validade às normas e valores vigentes na sua cultura ou sociedade. Tem a sua origem na tendência de julgarmos as realizações culturais de outros povos a partir dos nossos próprios padrões culturais, pelo que não é de admirar que consideremos o nosso modo de vida como preferível e superior a todos os outros. Os valores da sociedade a que pertencemos são, na atitude etnocêntrica, declarados como valores universalizáveis, aplicáveis a todos os homens, ou seja, dada a sua "superioridade" devem ser seguidos por todas as outras sociedades e culturas. Adoptando esta perspectiva, não é de estranhar que alguns povos tendam a intitular-se os únicos legítimos e verdadeiros representantes da espécie humana.

Quais os perigos da atitude etnocêntrica? A negação da diversidade cultural humana (como se uma só cor fosse preferível ao arco-íris) e, sobretudo os crimes, massacres e extermínios que a conjugação dessa atitude ilegítima com ambições económicas provocou ao longo da História.

Depois da Segunda Guerra Mundial e do extermínio de milhões de indivíduos pertencentes a povos que pretensos representantes de valores culturais superiores definiram como sub-humanos, a antropologia cultural promoveu a abertura das mentalidades, a compreensão e o respeito pelas normas (valores das outras culturas Mensagens fundamentais: a) Em todas as culturas encontramos valores positivos e valores negativos; b) Se certas normas e práticas nos parecem absurdas devemos procurar o seu sentido integrando-as na totalidade cultural sem a qual são incompreensíveis, c) O conhecimento metódico e descomplexado de culturas diferentes da nossa permite-nos compreender o que há de arbitrário nalguns dos nossos costumes, torna legítimo optar, por exemplo, por orientações religiosas que não aquelas em que fomos educados, questionar determinados valores vigentes, propor novos critérios de valoração das relações sociais, com a natureza, etc.

A defesa legítima da diversidade cultural conduziu, contudo, muitos antropólogos actuais a exagerarem a diversidade das culturas e das sociedades: não existiriam valores universais ou normas de comportamentos válidos independentemente do tempo e do espaço. As valorações são relativas a um determinado contexto cultural, pelo que julgar as práticas de uma certa sociedade, não existindo escala de valores universalmente aceite, seria avaliá-los em função dos valores que vigoram na nossa cultura.

Cairíamos de novo, segundo a maioria dos antropólogos, nessa atitude dogmática que é o etnocentrismo.»

RODRIGUES, Luís (2003). Filosofia 10.º ano. Lisboa: Plátano Editora.

De que modo podem os valores orientar e guiar o agir?

Os valores orientam a ação porque servem de padrões de avaliação do real e de critérios de deliberação.

Isto torna-se inteligível a partir da análise do que chamámos a bússola dos valores:

Quando fazemos escolhas e deliberamos qual a decisão a tomar em cada caso, usamos os valores, tendo em conta as suas características fundamentais: a matéria, a polaridade e a hierarquia.
Procuramos dar sentido à situação em que nos encontramos (atribuindo valor às coisas, aos acontecimentos, às ações) e analisando os prós e os contras de cada opção ao nosso dispor).

A bússola nasce do cruzamento da polaridade e da hierarquia dos valores.

As tomadas de decisão tendem a situar-se no quadrante positivo/superior: tendemos sempre a escolher o que achamos melhor.

A bússola funciona tendo em conta critérios de avaliação que podem diferir de indivíduo para indivíduo: uma pessoa egoísta tenderá a escolher opções que a beneficiem, mesmo que sejam prejudiciais para os outros, enquanto que uma pessoa altruísta irá considerar que a melhor opção será a que beneficiar os outros, enquanto que uma pessoa utilitarista considerará que a melhor escolha em cada momento deverá ser a que privilegiar o bem do maior número de pessoas.


Conhecer, Valorar e Agir

Sem os valores não saberíamos como agir, eles são-nos necessários porque somos livres. Se o nosso comportamento fosse completamente instintivo não teríamos liberdade e, então, não teríamos que fazer escolhas. 
Isso significa que não teríamos preferências, pois estaríamos totalmente dependentes do nosso determinismo biológico, seríamos pouco diferentes das formigas, embora pudéssemos lidar com uma quantidade de informação astronomicamente maior, estaríamos, como elas, totalmente dependentes da causalidade natural, o nosso comportamento seria sempre uma reação cega aos estímulos do meio.
Por sermos livres somos agentes e como agentes podemos determinar o curso da nossa vida fazendo escolhas, tomando decisões, e instando os outros a fazerem o mesmo. Muitas vezes as nossas ações inserem-se num esforço coletivo, agimos de forma coordenada com outros agentes. Isso pressupões que possamos entender-nos e aí a linguagem simbólica, própria do ser humano, é uma preciosa ferramenta. 
A linguagem permite-nos estruturar um pensamento racional que também segue princípios de organização formal - e é aí que entra a Lógica. Tal como a linguagem com as suas regras gramaticais e as suas referências semânticas ao mundo das coisas, a Razão também segue regras formais na estruturação do pensamento (nós já estudámos os Princípios Lógicos da Razão e não foi por acaso). 
A Razão, porque assenta em princípios lógicos comuns a todos os sujeitos (daí dizermos que o conhecimento racional é universal) permite-nos chegar a conclusões objetivas e sistemáticas sobre o mundo em que vivemos (nós e os outros seres humanos, sempre em interação).
Assim, para podermos agir precisamos de conhecer a realidade que, constantemente, nos desafia a agir (estão sempre a acontecer situações que exigem tomadas de decisão da nossa parte) e na qual se vão refletir os efeitos das nossas ações - tudo o que fazemos tem um impacto na realidade. A nossa ação reflete-se sobre as coisas e as pessoas, com consequências que à partida podem ser imprevisíveis.
Por isso conhecer é importante para podermos agir de forma adequada. 
É a partir do conhecimento que adquirimos sobre cada situação que se exerce a valoração. Só podemos atribuir valor de forma adequada, quando conhecemos o objeto sobre o qual vai recair a nossa valoração. Muitas vezes enganamo-nos sobre a natureza do objeto e a nossa apreciação do mesmo pode revelar-se desadequada. Isto mostra a importância do conhecimento para a valoração e a ação: conhecendo bem as situações podemos fazer deliberações com um grau elevado de possibilidade de nos conduzirem a uma ação eficaz ou, também ela adequada à situação que a motivou.
A necessidade da valoração existe porque o conhecimento não nos dá toda a informação sobre o que está em causa quando temos que agir. Se fôssemos como as formigas o conhecimento seria um mero input que desencadearia em nós uma reação, de forma direta, imediata, sem a intervenção da reflexão racional. Se assim fosse, a Razão seria de todo supérflua, pois não serviria para nada. As formigas não são racionais e no entanto a razão não lhes faz falta para nada porque a sua programação biológica lhes permite 'resolver' todas as situações.
A valoração é necessária à ação porque o conhecimento, por mais objetivo e verdadeiro que seja, não nos consegue dar toda a informação: para além dos estados do mundo exterior, como a temperatura ambiente, a distância dos objetos, ou qualquer outro dado conhecível de forma objetiva, nós somos mais complexos do que os animais ou as máquinas: nós temos emoções e sentimentos, temos a necessidade de muitas 'coisas' que não são materiais que, em muitos casos, dependem do comportamento dos outros e não podem ser adquiridas através da resolução racional e impessoal dos problemas.
O conhecimento pode mostrar-nos que temos, numa dada situação, várias opções de escolha, várias alternativas aparentemente equivalentes e/ou adequadas a cada situação. É atribuindo valores a essas alternativas/ opções que conseguimos escolher a que nos parece preferível. Só depois é que agimos.




terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

O que significa que os valores são construções humanas?




A historicidade dos valores


Criados na vida social para orientar as ações humanas e regularem a relação entre as pessoas, os valores (...) não têm validade universal. Pelo contrário, eles são válidos apenas num contexto específico, no quadro de uma cultura determinada, e têm existência histórica.
Os valores são válidos apenas em contextos específicos, ou seja, num determinado aqui/agora, porque um comportamento bom e correto em certo momento pode ser mau e profundamente reprovável noutro. Mentir é reprovável na maioria das ocasiões, mas quem recriminaria as pessoas que, fugindo da perseguição do exército nazi, mentiram sobre o paradeiro dos seus colegas e não os entregaram?
São válidos no quadro de uma cultura, porque os valores não fazem sentido isolados de todas as outras dimensões da vida humana. Assim, é preciso levar em conta o quadro de relações que leva um grupo a definir alguns comportamentos como aprováveis ou reprováveis. Por essa razão, um mesmo ato pode ter sentidos diferentes se tiver acontecido nas classes médias urbanas de Lisboa ou do Porto ou numa pequena aldeia do interior; se uma ação ocorre no seio de uma sociedade ocidental ou num país do oriente.
Esses valores são válidos historicamente porque são criações humanas e, como tais, atendem a necessidades de um determinado grupo e às circunstâncias temporais. Por isso, são passíveis de mudanças. A história das mulheres nas sociedades ocidentais ao longo do século XX pode exemplificar essas mudanças: muitos comportamentos mal vistos e indesejados há 50 anos hoje são aceites e até mesmo valorizados.
Como se vê, os valores (...) não estão organizados numa tábua de prescrições de condutas que levam automaticamente a uma vida boa. Pelo contrário, eles são criações humanas ligadas às condições de vida historicamente criadas. Não podemos ter tudo a todo instante e aprender a decidir é, também, aprender a hierarquizar o que é mais importante do que é menos importante na situação em que a escolha nos é colocada.
http://www.webartigos.com/artigos/a-historicidade-dos-valores-morais/94190/#ixzz3Qy2CtVWp

Para saber mais:
A sociedade e a origem dos valores

A ação do homem sobre a Natureza

Os valores e a cultura

O homem como produto e produtor da cultura

O que são os valores?





Os valores são regras e padrões que orientam a conduta humana, servindo de padrão à deliberações dos indivíduos e dando coerência à sua vida social. Os valores são, em grande medida, colectivos, havendo, no entanto, ocasiões em que indivíduos ou grupos restritos de indivíduos propõem novos valores, que passam a ter a adesão de sociedades inteiras.

Há valores que são partilhados por um grande número de sociedades, não havendo, contudo, provas da existência de valores universais, ou seja, valores aceites por todas as sociedades humanas.  




Qual é a relação entre os valores e a ação humana?




Síntese:


Os valores são qualidades potenciais que tornam as coisas desejáveis ou dignas de estima e orientam as opções dos indivíduos inseridos numa cultura. Os valores são princípios orientadores da acção, e são reconhecidos como ideais, e por isso, preferíveis. Os valores justificam as nossas opções com base em preferências em relação às coisas, aos acontecimentos e às situações É porque estamos inseridos numa cultura, que aprendemos a dar valor às coisas, identificamo-las como desejáveis e dignas de estima. Texto retirado daqui.

Ver também a resposta à questão:

De que modo podem os valores orientar o agir?

Para saber mais:


segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

A sociedade e a origem dos valores




A importância da sociedade


Se é verdade que o homem transforma a natureza através da sua acção, também é verdade que essa intervenção do homem não é caótica. Tendo em conta que cada ser humano é dotado de uma consciência racional e de liberdade, é de facto surpreendente a forma como os homens se organizam de forma a conseguirem atingir objectivos comuns, sem que as diferenças individuais impeçam o sucesso dos projectos colectivos.

    Também é de registar que os homens vivem em sociedade e que todas as sociedades humanas são diferentes, têm formas de funcionamento diferentes, mas todas têm em comum a existência de regras, relativas a todos os aspectos significativos da convivência entre os indivíduos que as compõem. Essas regras podem ser transmitidas de geração em geração, sob a forma de costume, ou podem ser codificadas em corpos legislativos mais ou menos complexos, que regulam a vida dos indivíduos e orientam a prática da justiça.

    Desde a antiguidade que os filósofos, os historiadores e, a partir do século XIX, os investigadores das ciências humanas, como a Sociologia, a Psicologia, a Antropologia, entre outras, procuram descobrir o que está na base da sociabilidade humana, o que mantém as sociedades humanas coesas, apesar das diferenças que existem entre os indivíduos. Não andará longe da verdade, quem disser que o que mantém a coesão das sociedades humanas é o sentimento de pertença a um grupo, em primeiro lugar à família, e em segundo lugar à comunidade mais alargada em que os indivíduos nascem, e dentro da qual se dá a sua formação. De facto, a socialização forma nos indivíduos esta consciência da identidade com a comunidade, a consciência de que os outros membros do grupo social são importantes, de que a vida individual só tem sentido no seio de uma vida colectiva que a enquadra e lhe dá significado.

     Ser humano é ser para e com os outros. “Ninguém é um ilha”, como disse o poeta inglês John Donne: não há nada mais destrutivo para o indivíduo do que a solidão e tudo aquilo que contribui para cortar os seus laços com os outros. A nossa consciência e a nossa liberdade são intersubjectivas: nós pensamos e agimos, sempre, em relação com, ou em relação a, outrem. Ora isto não deve ser considerado como uma forma de desvalorização do indivíduo, mas antes pelo contrário. Para nos relacionarmos com os outros de uma forma construtiva, temos que estar bem cientes das nossas capacidades e das nossas escolhas individuais.

      As regras e padrões que dão coerência ao corpo social e orientam, ao mesmo tempo, a acção dos indivíduos, indicando-lhes padrões de conduta socialmente aceitáveis e dando-lhes a consciência da pertença a uma comunidade, são os valores

O subjetivismo axiológico centra a sua argumentação na valoração, encarada como um fenómeno individual, mas grande parte das experiências axiológicas tem a ver com a dimensão social da existência humana. Os seres humanos não se limitam a viver uma vida individual, a existência humana tem uma dimensão convivial, intersubjetiva.

Os valores têm uma origem social, são elementos fundamentais da cultura de cada uma das sociedades. 
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No filme 'O menino selvagem' vimos a importância socialização: nós, seres humanos, não nascemos humanos. Precisamos de um longo processo de transformações sucessivas para nos tornarmos humanos.
E como a própria humanidade está em contínua evolução, esse processo não tem fim, pois estamos sempre a adaptarmo-nos ao meio em que vivemos - a sociedade. O meio social é estruturado sob a forma de uma cultura que, ao mesmo tempo que estrutura a sociedade e permite a formação e a expressão da individualidade, também ganha novas formas à medida que os indivíduos e a sociedade, em parte ou no seu todo, tomam decisões e dão origem a novos bens, ideias,  comportamentos, etc.
Podemos definir a cultura como sendo tudo aquilo que é produzido pelo homem (enquanto ser social). O homem constrói-se produzindo cultura, modificando o meio em que vive, o que significa que à medida que modificamos o meio em que vivemos, também nos transformamos a nós próprios. Daí dizer-se que o homem é, ao mesmo tempo, produto e produtor de cultura.
Isto é válido tanto para os indivíduos como para a espécie. 
A espécie humana evoluiu com base na produção cultural: os nossos antepassados antropóides conseguiram libertar-se dos imperativos da evolução biológica (a lei da seleção natural) através da construção de ferramentas, de início muito rudimentares, que, progressivamente se tornaram poderosíssimas e permitiram que a nossa espécie se tornasse dominante num planeta onde existiam predadores com armas 'biológicas' (presas, garras, couraças, etc.) muito mais eficazes do que os parcos recursos que os indivíduos da nossa espécie traziam do útero materno. 
Ao contrário do que acontece com as outras espécies, o homem não se limita a adaptar-se ao meio em que vive: os seres humanos conseguem adaptar o meio à suas necessidades, arrasando montanhas, secando lagos, mudando o curso de rios, ganhando vastos territórios ao mar, construindo estações orbitais onde é possível viver fora da atmosfera terrestre, ou submarinos que permitem a vida debaixo de água... 
Os indivíduos, por sua vez, são introduzidos na sociedade em que nascem através dos processos de socialização:

A importância da socialização
De certeza que a maioria das pessoas já ouviu falar em socialização. No entanto, muitas delas não sabem o que significa essa palavra. A socialização é o processo através do qual nós vamos interiorizando hábitos e características que nos tornam membros de uma sociedade. A socialização é um processo contínuo, que se inicia após o nascimento e se faz sentir ao longo de toda a nossa vida, terminado apenas quando morremos.
Existem dois tipos de socialização: a socialização primária e a socialização secundária.
Podemos definir socialização primária como sendo o processo pelo qual os seres humanos aprendem as coisas mais básicas da vida, tais como comer com talheres, andar, falar, vestir-se sozinhos, entre muitas outras. Estas “regras” são-nos ensinadas fundamentalmente pelos nossos pais e pela escola, grupos sociais primários (a escola pode ser considerada um grupo social intermediário). Por exemplo, quando aprendemos a falar estamos a sofrer um processo de socialização primária e quem nos faz passar por esse processo são os nossos pais. A socialização primária levou-nos  a interiorizar um conjunto de “regras” que faz com que estejamos integrados numa determinada sociedade. Como tal, este processo constitui um papel imprescindível na nossa vida.
Relativamente à socialização secundária, esta também é um processo de aprendizagem mas, tal como o nome indica, é secundária. Isto significa que passamos por este processo quando nos deparamos com novas situações sociais ao longo da vida e temos de nos adaptar a essas situações que exigem a nossa integração em novos grupos sociais secundários, por exemplo, quando mudamos para uma escola nova, ou quando alguém muda de emprego, necessitando de se adaptar às regras de funcionamento da nova empresa. Outro exemplo: quando nos casamos temos de nos habituar a uma nova forma de vida, viver com uma pessoa, partilhar os mesmos problemas, etc. Nem sempre é fácil uma adaptação a novas situações porque quando nos acomodamos a uma certa situação temos dificuldade em aceitar que a vida muda e as coisas já não funcionam da mesma forma.
Ao longo de toda a nossa vida estamos constantemente a ser postos à prova e a passar por processos de socialização secundária. Cada nova situação que nos surge exige de nós uma nova adaptação.
Por este motivo, a socialização é o processo que permite a cada indivíduo desenvolver a sua personalidade e efetuar a sua integração na sociedade. Se repararmos, dois indivíduos reagem de forma completamente diferente perante a mesma situação, porque cada indivíduo é único e a sua personalidade também.
Como tal, resta apenas mencionar que é o facto de estarmos diariamente sujeitos a este processo que nos torna seres integrados numa sociedade e nos torna naquilo que somos.
| http://psicob.blogspot.com/2008/01/socializao-importncia-na-nossa-vida.html
(Texto adaptado).
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Para além do subjetivismo e do objetivismo axiológicos



A realização dos valores

“Os valores podem tornar‑se realidade. Uma obra científica, uma obra de arte, uma acção moral representam realizações de valores. Toda a cultura é isto, e o seu respectivo conceito não tem, nem pode ter, outro sentido. A cultura humana é, na sua íntima essência, uma realização de valores.
Examinemos, porém, agora, mais de perto, este fenómeno da realização dos valores.  A primeira coisa que se nos depara é esta: os valores, que começam por ser algo de ideal, por pertencer a uma esfera de ser ideal e de valer, como vimos, penetram em certo momento na esfera do real. O valor irreal torna‑se real, isto é, assume existência, encarna.  Mas como se passa isto? Evidentemente não no sentido de o valor se tornar real em si mesmo, de passar a ser aquilo que era, de passar a existir independentemente, como uma coisa, ou de assumir uma força de ser substancial. Não consiste num ser em si mesmo, mas num ser que está noutro ser. Assim, por exemplo, um valor estético converte‑se em existencial no quadro do pintor; o valor ético, na acção do homem virtuoso. O quadro do pintor passa então a chamar‑se 'belo', a acção do homem, a chamar‑se 'boa'. Isto é: os valores, portanto, só podem tornar‑se existenciais sob a forma de qualidades, características, modos  de ser. Não possuem um ser independente, mas são de certo modo 'trazidos', sustentados' pelos objectos nos quais se realizam; estes objectos tornam‑se seu 'suporte', as coisas são então 'portadoras' dos valores."
Johannes Hessen

Os valores são regras que orientam a conduta humana, servindo de padrão à deliberações dos indivíduos e dando coerência à sua vida social. Os valores são, em grande medida, colectivos, havendo, no entanto, ocasiões em que indivíduos ou grupos restritos de indivíduos propõem novos valores, que passam a ter a adesão de sociedades inteiras.
Há valores que são partilhados por um grande número de sociedades, não havendo, contudo, provas da existência de valores universais, ou seja, valores aceites por todas as sociedades humanas.        

No entanto, há valores cuja universalização seria desejável, uma vez que isso se traduziria num progresso efectivo da civilização: é o caso dos Direitos Humanos.
Os valores são históricos, surgem, disseminam-se e morrem, acompanhando a vida das sociedades em que nascem, mas enquanto estão em vigor, a sua valia é incondicional, ou seja, os valores, não sendo eternos, valem como se o fossem, fazendo lembrar o conhecido verso de Vinícius de Morais: “que o nosso amor seja eterno enquanto dure”. Os valores valem incondicionalmente enquanto são aceites, só assim podem servir de padrão às nossas preferências.

 Não há valores estritamente individuais, pelo que os valores terão sempre alguma objectividade: a sua valia não varia de indivíduo para indivíduo. Mas a valoração é sempre subjectiva, exprime sempre uma apreciação pessoal da realidade. Dois indivíduos podem estar de acordo sobre o que é o belo, mas podem discordar sobre a beleza de um quadro, por exemplo.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Juízos de Facto e Juízos de Valor


Nós, ao contrário dos animais, não vivemos num ambiente estritamente natural, vivemos num mundo humano, um mundo culturalmente transformado pelo homem. A nossa experiência do mundo é uma experiência em grande medida filtrada pelas nossas preferências, tanto pessoais, como colectivas, e pelas nossas repulsas: há coisas de que gostamos, que consideramos boas ou belas, há coisas que consideramos feias ou desprezíveis, como há acções que consideramos nobres, outras que consideramos más ou injustas, há paisagens que consideramos sublimes, há locais que consideramos horríveis, há sítios onde gostaríamos de viver e outros onde não gostamos de estar, enfim, quando olhamos à nossa volta somos, irresistivelmente, levados a tomar uma posição em relação ao que vemos, emitindo juízos de valor sobre as coisas, as situações, as acções e as pessoas com que nos deparamos.
     Quando nos levantamos e abrimos a janela, podemos dizer ‘hoje está um belo dia’, ou quando vemos um edifício e dizemos ‘que prédio feio!’, estamos a emitir juízos de valor, estamos a posicionar-nos subjectivamente face ao mundo. Qualquer outra pessoa pode discordar destes nossos juízos: um dia que para nós é belo, por estar sol ou estar a chover, pode ser feio para qualquer outra pessoa, exactamente pelas mesmas razões que nos levam a considerá-lo belo. Como diz o povo: gostos não se discutem, ou seja, cada pessoa tem o direito de gostar ou não gostar disto ou daquilo, desde que, é claro, que isso não se torne incompatível com o direito de gostar.
    Podemos, então, afirmar que os juízos de valor são, sempre, subjectivos exprimem, não as características efectivamente presentes nas coisas, mas a forma como as coisas afectam a nossa sensibilidade. Por isso, os juízos de valor não podem ser unanimemente aceites, pois cada um reage ao mundo a partir das suas preferências individuais.
Pelo contrário, os juízos de facto diferem dos juízos de valor precisamente por serem objectivos, ou seja, porque exprimem características efectiva e comprovadamente presentes nas coisas. Por isso, os juízos de facto, também designados como juízos de realidade, são unanimemente aceites.
    Assim, as observações científicas assumem a forma de juízos de facto, enquanto que os juízos de valor são considerados não-científicos. ‘A água ferve à temperatura de cem graus’, ou ‘uma molécula de água é composta por dois átomos de hidrogénio e por um átomo de oxigénio’, são dois juízos de facto, enquanto que: ‘a água é um líquido agradável’ e ‘a água deste rio é bela quando faz sol’, são juízos de valor. Os primeiros são objectivos e comprováveis: descrevem propriedades efectivas da água, cuja existência pode ser comprovada. Sendo assim, os juízos de facto podem ser verdadeiros ou falsos, caso estejam ou não de acordo com a realidade. Os segundos, são subjectivos e não podem ser submetidos a qualquer tipo de comprovação. Por esta razão os juízos de valor não podem ser considerados verdadeiros ou falsos, podem ser sinceros ou não, exagerados ou não, podemos ser ou não ser capazes de os compreender.



quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Os diversos tipos de valor




Os valores

Como todos os valores se acham referidos a um sujeito – o sujeito humano, o homem - e este é, antes de mais nada, um ser constituído por sensibilidade e espírito, daí o poderem classificar-se imediatamente todos os valores nas duas classes fundamentais de: valores sensíveis e valores espirituais. Os primeiros referem-se ao homem enquanto simples ser da natureza, os segundos ao homem como ser espiritual.

A – Valores sensíveis
A esta categoria pertencem:

1 – Os valores do agradável e do prazer, também chamados “hedónicos”. Ela abrange não só todas as sensações de prazer e satisfação, como tudo aquilo que é apto a provocá-las (vestuário, comida, bebidas, etc.). À ética que apenas conhece estes valores chama-se geralmente hedonismo.

2 - Valores vitais ou da vida. São aqueles valores de que é portadora a vida, no sentido naturalista desta palavra, isto é, Bios. Cabem aqui o vigor vital, a força, a saúde, etc. Como se sabe, foram estes os valores que Nietzsche reputou os mais elevados de todos na sua escala axiológica, como os únicos mesmo. E ao que se chama biologismo ético ou naturalismo.

3 - Valores de utilidade. Coincidem com os chamados valores económicos. Referem-se a tudo aquilo que serve para a satisfação das nossas necessidades da vida (comida, vestuário, habitação, etc.) e ainda aos instrumentos que servem para a criação destes bens. Distinguem-se dos restantes valores desta classe, nomeadamente dos sensíveis, para os quais aliás concorrem, por não serem, do ponto de vista formal, autónomos, mas derivados, no sentido que acima vimos.


B – Valores espirituais.
Estes distinguem-se dos valores sensíveis, no seu conjunto, não só pela imaterialidade que acompanha a sua perdurabilidade, como pela sua absoluta e incondicional validade. Muitos filósofos, que encaram os valores só por este último lado, identificando-os por isso com o conceito de simples “valor” ou validade formal, pretendem que só os valores espirituais são verdadeiros valores.Porém, quem se lembraria de negar aos economistas o direito de usarem também do termo e do conceito de valor? À categoria dos valores espirituais pertencem:

1- Os valores lógicos. Quando se fala de valores lógicos, é preciso ter presente que se podem entender por esta expressão duas coisas distintas: a função do conhecimento – o saber, a posse da verdade e o esforço para a alcançar - e o conteúdo do conhecimento. No primeiro sentido, é óbvio que podemos falar, com todo o direito, em valores lógicos ou no valor do conhecimento. Contrapor-se-lhe-ão, como desvalor lógico, a ignorância, o erro, a falta de interesse pela verdade, a ausência de esforço para a alcançar, etc. Mas a expressão “valor lógico” pode significar também o próprio conteúdo do conhecimento. E, neste segundo caso, é “valor lógico” tudo aquilo que cai dentro do par de conceitos verdadeiro-falso [...].


2 - Valores éticos: ou do bem moral. Destes podem dar-se as seguintes características:


a) Só podem ser seus portadores as pessoas, nunca as coisas. Só seres espirituais podem encarnar valores morais. Por isso o âmbito destes valores é relativamente restrito; muito mais, por exemplo, que o dos estéticos.


b) Os valores éticos aderem sempre a suportes reais. Também, por este lado, se distinguem dos valores estéticos, cujo suporte é constituído por algo de irreal, de mera aparência.


c) Os valores éticos têm o carácter de exigências e imperativos absolutos. Dele desprende-se sempre um categórico “tu deves fazer” ou “tu não deves fazer”, "isto ou aquilo"; exigem, imperiosamente, que a consciência os atenda e os realize. E nisto se separam também dos estéticos que não impõem nenhuma exigência desta natureza, nem se nos impõem incondicionalmente. 

d) Os valores éticos dirigem-se ao homem em geral, a todos os homens; são universais, a sua pretensão a serem realizados é universal. Os estéticos não estão neste caso, apenas dirigem o seu apelo a alguns homens, para que estes os realizem, e nem todos podem ser obrigados a dar-lhe acolhimento, a fazer arte, ou a cultivá-las de qualquer maneira. 
e) Além disso, é, pode dizer-se, ilimitada também a exigência que os valores éticos nos fazem: constituem uma norma ou critério de conduta que afecta todas as esferas da nossa actividade e da nossa conduta da vida. Esta acha-se sujeita, total e incondicionalmente, a eles na sua imperiosa jurisdição e validade. Nada deve ser feito que os contrarie. Poderia definir-se esta característica dos valores éticos chamando-lhes totalitários. Não assim os valores estéticos. Estes só reclamam de nós que os realizemos em certas situações e momentos da vida, permanecendo calados durante os restantes; não somos obrigados a ser estetas e, menos ainda, a toda a hora (…).


3 - Valores estéticos, ou do Belo. Incluímos aqui no conceito de belo, no mais amplo sentido desta palavra, o sublime, o trágico, o amorável, etc.


4 - “Valores religiosos ou do”sagrado”. Já atrás aludimos ao que há de original nestes valores. A eles não adere propriamente nenhum “deve ser”. Não temos que realizar esses valores; nem isso é possível nem necessário. Não são valores de um “deve ser”, mas valores de um “ser”; Nisto se afastam dos valores éticos para se aproximarem dos estéticos com os quais estão numa relação muito íntima. Todavia, existe também entre eles e estes últimos uma diferença que cumpre salientar: a realidade do “sagrado”, não é, como a do “Belo”, apenas uma realidade aparente, mas uma realidade no mais eminente sentido desta palavra.

Johannes Hessen, Filosofia dos Valores, Ed. Arménio Amado; Coimbra. pp. 107-117
Texto recolhido aqui
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Glossário:

Sensibilidade - Refere-se à dimensão material do ser humano, relacionada com o conhecimento sensível (ou sensorial), relacionado com os sentidos. Neste sentido, é sensível o que é conhecido através dos sentidos (audição, tato, visão, paladar, olfato).
Por outro lado, a sensibilidade também se refere à dimensão emocional (emoções) e sentimental (sentimentos) do ser humano: as emoções são reações orgânicas aos estímulos do meio, dependem do corpo. Os sentimentos para além duma componente emocional, têm uma componente intelectual, pois integram padrões de pensamento que influenciam a tomada de decisões. Enquanto as emoções são reações de curta duração, os sentimentos prolongam-se no tempo, podendo marcar de forma profunda a personalidade dos indivíduos.
Hedónico - Esta palavra tem origem no termo grego hedonê que significa prazer, servindo, também, para designar a deusa do prazer. Assim, hedónico refere-se a tudo o que está relacionado com o prazer.

Atividades:

- De acordo com o texto:
1. O que são valores sensíveis?
2. O que são valores espirituais?
3. Qual a relação entre os valores e a natureza humana?

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