domingo, 12 de outubro de 2014

As Principais Disciplinas da Filosofia


As disciplinas da filosofia e os problemas de que tratam

Disciplinas abordadas no 10.° ano

Filosofia da Acção 
Estuda os problemas relacionados com a natureza e racionalidade da acção, como os seguintes:
O que são acções?
Como explicar os comportamentos humanos irracionais?
Que relação existe entre acção, liberdade e responsabilidade?

Axiologia
Estuda a natureza dos valores.
O que são valores?
Os valores são objectivos ou subjectivos?

Antropologia Filosófica
Investiga a natureza humana e a relação desta com as sociedades e as culturas.
O que é o Homem?
O que é a cultura?
Em que medida a socialização molda o ser humano?
Qual a importância da diversidade cultural?

Ética (ou filosofia moral)
Estuda problemas relacionados com o modo como devemos viver e com o que devemos valorizar. A ética abrange três áreas ou subdisciplinas distintas: a metaética, a ética normativa e a ética aplicada. A metaética estuda problemas mais abstractos, relacionados com a natureza da própria ética; a ética normativa estuda diferentes sistemas éticos; e a ética aplicada estuda problemas práticos, como o aborto ou a eutanásia.
Como devemos agir?
Haverá padrões morais universais ou todas as normas morais serão relativas?
O aborto e a eutanásia serão justificáveis?
Os animais têm direitos?

Filosofia Política
Estuda o modo como podemos viver em sociedade e o modo como devemos fazê-lo, o que levanta problemas como os seguintes:
Como deveremos viver em sociedade?
Será o Estado necessário?
Haverá limites para a liberdade individual?
Como se deve distribuir a riqueza?

Estética e Filosofia da Arte
A estética estuda a natureza do juízo estético em geral; a filosofia da arte estuda problemas relacionados com a definição, valor e avaliação da arte.
O que é a arte?
Há boa e má arte?
Por que razão damos valor à arte?
Como se deve avaliar uma obra de arte?

Filosofia da Religião
É o estudo dos conceitos religiosos, da natureza e justificação da crença religiosa:
Serão as crenças religiosas passíveis de discussão racional?
Será que Deus existe?
Será possível compatibilizar a crença no deus teísta com a existência de males no mundo?


Disciplinas abordadas no 11.° ano

Lógica
Estuda e sistematiza a argumentação válida.
Que argumentos são válidos?
Como se distingue a indução da dedução?
Será possível construir um modelo completo do raciocínio?

Filosofia do conhecimento (ou Gnosiologia)
Estuda problemas relacionados com o conhecimento em geral, nomeadamente:
O que é o conhecimento?
O mundo é uma construção nossa ou é ele que determina as nossas crenças?
Qual é a origem dos nossos conhecimentos?
Quais são os limites do conhecimento?

Filosofia da Ciência (ou Epistemologia)
Estuda aspectos epistemológicos, metafísicos e lógicos das ciências em geral, incluindo as ciências da natureza e as ciências humanas. A filosofia das ciências tem dado origem a várias subdisciplinas especializadas: filosofia da biologia, filosofia da física, filosofia das ciências humanas e filosofia da história.
Como demarcar a fronteira entre a ciência e a pseudociência?
Qual é o método científico?
Como justificar a nossa crença na indução?
O que são as leis da natureza?

Metafísica e ontologia
A metafísica estuda problemas relacionados com os aspectos mais gerais da estrutura da realidade. A ontologia é a parte da metafísica que estuda a existência ou o que há.
Que tipo de entidades há?
Os números existem realmente, como as cadeiras?
Haverá verdades necessárias?
A vida tem sentido?


Disciplinas não abordadas no ensino secundário (poderão ser objecto de trabalho opcional)

Filosofia da Linguagem
Estuda todos os problemas relacionados com o funcionamento da linguagem e o fenómeno do significado linguístico.
Como se refere coisas no mundo usando palavras?
O que confere sentido a um termo ou a uma frase?

Filosofia da mente
Estuda problemas metafísicos e epistemológicos dos fenómenos mentais.
O que é a mente?
O que são acontecimentos mentais?
Como interage a mente com o mundo?
Poderão as máquinas pensar?

http://www.aartedepensar.com/leit_problemasdafil.html (Texto adaptado).

terça-feira, 7 de outubro de 2014

A Especificidade da Filosofia





As evidências do quotidiano

Na nossa vida quotidiana, afirmamos, negamos, desejamos, aceitamos ou recusamos coisas, pessoas, situações. Fazemos perguntas como “que horas são?”, ou “que dia é hoje?”. Dizemos frases como “ele está  a sonhar”, ou “ela ficou maluca”. Fazemos afirmações como “onde há fumo, há fogo ”, ou “não ande à chuva para não se constipar”. Avaliamos coisas e pessoas, dizendo, por exemplo, “esta casa é mais bonita do que a outra” e “a Maria está mais jovem do que a Joana”.
Numa discussão, quando os ânimos estão exaltados, um dos contendores pode gritar ao outro: “Mentiroso! Eu estava lá e não foi isso o que aconteceu”, e alguém, querendo acalmar a briga, pode dizer: “Vamos ser objetivos, cada um diga o que viu e vamo-nos entender”.
Também é comum ouvirmos os pais e amigos dizerem que somos muito subjetivos quando o assunto é o namorado ou a namorada. Frequentemente, quando aprovamos uma pessoa, o que ela diz, como ela age, dizemos que essa pessoa “é porreira”.
Vejamos um pouco mais de perto o que dizemos no nosso quotidiano. Quando pergunto “que horas são?” ou “que dia é hoje?”, a minha expectativa é a de que alguém, tendo um relógio ou um calendário, me dê a resposta exata. Em que acredito quando faço a pergunta e aceito a resposta? Acredito que o tempo existe, que ele passa, pode ser medido em horas e dias, que o que já passou é diferente de agora e o que virá também há-de ser diferente deste momento, que o passado pode ser lembrado ou esquecido, e o futuro, desejado ou temido. Assim, uma simples pergunta contém, silenciosamente, várias crenças não questionadas por nós.
Quando digo “ele está a sonhar”, referindo-me a alguém que diz ou pensa alguma coisa que julgo impossível ou improvável, tenho igualmente muitas crenças silenciosas: acredito que sonhar é diferente de estar acordado, que, no sonho, o impossível e o improvável se apresentam como possível e provável, e também que o sonho se relaciona com o irreal, enquanto a vigília se relaciona com o que existe realmente.
Acredito, portanto, que a realidade existe fora de mim, posso percebê-la e conhecê-la tal como é, sei diferenciar realidade de ilusão. A frase “ela ficou maluca” contém essas mesmas crenças e mais uma: a de que sabemos diferenciar razão de loucura e maluca é a pessoa que ‘inventa’ uma realidade existente só para ela. Assim, ao acreditar que sei distinguir razão de loucura, acredito também que a razão se refere a uma realidade que é a mesma para todos, ainda que não gostemos das mesmas coisas.
Quando alguém diz “onde há fumo, há fogo” ou “não ande à  chuva para não se constipar”, afirma silenciosamente muitas crenças: acredita que existem relações de causa e efeito entre as coisas, que onde houver uma coisa certamente houve uma causa para ela, ou que essa coisa é causa de alguma outra (o fogo causa o fumo como efeito, a chuva causa a constipação como efeito). Acreditamos, assim, que a realidade é feita de causalidades, que as coisas, os factos, as situações se encadeiam em relações causais que podemos conhecer e, até mesmo, controlar para o uso da nossa vida.
Quando avaliamos que uma casa é mais bonita do que a outra, ou que Maria está mais jovem do que a Joana, acreditamos que as coisas, as pessoas, as situações, os factos podem ser comparados e avaliados, julgados pela qualidade (bonito, feio, bom, mau) ou pela quantidade (mais, menos, maior, menor). Julgamos, assim, que a qualidade e a quantidade existem, que podemos conhecê-las e usá-las na nossa vida.
Se, por exemplo, dissermos que “o sol é maior do que o vemos”, também estamos a acreditar que a nossa percepção alcança as coisas de modos diferentes, ora tal como são em si mesmas, ora tal como nos aparecem, dependendo da distância, da nossas condições de visibilidade ou da localização e do movimento dos objetos. 
Acreditamos, portanto, que o espaço existe, possui qualidades (perto, longe, alto, baixo) e quantidades, podendo ser medido (comprimento, largura, altura). No exemplo do sol, também se nota que acreditamos que a nossa visão pode ver as coisas diferentemente do que elas são, mas nem por isso diremos que estamos a sonhar ou que ficámos malucos.
Numa briga, quando alguém chama o outro mentiroso porque não estaria a dizer os factos exatamente como aconteceram, está presente a nossa crença de que há diferença entre verdade e mentira. A primeira diz as coisas tais como são, enquanto a segunda faz exatamente o contrário, distorcendo a realidade.
No entanto, consideramos a mentira diferente do sonho, da loucura e do erro porque o sonhador, o louco e o que erra se iludem involuntariamente, enquanto o mentiroso decide voluntariamente deformar a realidade e os factos.
Com isso, acreditamos que o erro e a mentira são falsidades, mas diferentes porque somente na mentira há a decisão de enganar.
Ao diferenciarmos erro de mentira, considerando o primeiro uma ilusão ou um engano involuntários e a segunda uma decisão voluntária, manifestamos silenciosamente a crença de que somos seres dotados de vontade e que dela depende dizer a verdade ou a mentira.
Ao mesmo tempo, porém, nem sempre avaliamos a mentira como alguma coisa má: não gostamos tanto de ler romances, ver novelas, ver filmes? E não são mentira? É que também acreditamos que quando alguém nos avisa que está a mentir, a mentira é aceitável, não seria uma mentira “a sério”.
Quando distinguimos entre verdade e mentira e distinguimos mentiras inaceitáveis de mentiras aceitáveis, não estamos apenas a referir-nos ao conhecimento ou desconhecimento da realidade, mas também ao carácter da pessoa, à sua moral. Acreditamos, portanto, que as pessoas, porque possuem vontade, podem ser morais ou imorais, pois cremos que a vontade é livre para o bem ou para o mal.
No exemplo da briga, quando uma terceira pessoa pede às outras duas para que sejam “objetivas” ou quando falamos dos namorados como sendo “muito subjetivos”, também estamos cheios de crenças silenciosas. Acreditamos que quando alguém quer defender muito intensamente um ponto de vista, uma preferência, uma opinião, até brigando por isso, ou quando sente um grande afeto por outra pessoa, esse alguém “perde” a objetividade, ficando “muito subjetivo”.
Com isso, acreditamos que a objetividade é uma atitude imparcial que alcança as  coisas tal como são verdadeiramente, enquanto a subjetividade é uma atitude parcial, pessoal, ditada por sentimentos variados (amor, ódio, medo, desejo). Assim, não só acreditamos que a objetividade e a subjetividade existem, como ainda acreditamos que são diferentes e que a primeira não deforma a realidade, enquanto a segunda, voluntária ou involuntariamente, a deforma. 
Ao dizermos que alguém “é porreiro” porque tem os mesmos gostos, as mesmas ideias, respeita ou despreza as mesmas coisas que nós e tem atitudes, hábitos e  costumes muito parecidos com os nossos, estamos, silenciosamente, a acreditar que a vida com as outras pessoas - família, amigos, escola, trabalho, sociedade, política - nos faz semelhantes ou diferentes em por influência de normas e valores morais, políticos, religiosos e artísticos, regras de conduta, finalidades de vida.
Achando óbvio que todos os seres humanos seguem regras e normas de conduta, possuem valores morais, religiosos, políticos, artísticos, vivem na companhia dos seus semelhantes e procuram distanciar-se dos diferentes dos quais discordam e com os quais entram em conflito, acreditamos que somos seres sociais, morais e racionais, pois regras, normas, valores, finalidades só podem ser estabelecidos por seres conscientes e dotados de raciocínio. Como se pode notar, a nossa vida quotidiana é toda feita de crenças silenciosas, da aceitação tácita de evidências que nunca questionamos porque nos parecem naturais, óbvias. Cremos no espaço, no tempo, na realidade, na qualidade, na quantidade, na verdade, na diferença entre realidade e sonho ou loucura, entre verdade e mentira; cremos também na objetividade e na diferença entre ela e a subjetividade, na existência da vontade, da liberdade, do bem e do mal, da moral, da sociedade.

A atitude filosófica

Imaginemos, agora, alguém que tomasse uma decisão muito estranha e começasse a fazer perguntas inesperadas. Em vez de “que horas são?” ou “que dia é hoje?”, perguntasse: O que é o tempo? Em vez de dizer “está a sonhar” ou “ficou maluca”, quisesse saber: O que é o sonho? A loucura? A razão?
Se essa pessoa fosse substituindo sucessivamente suas perguntas, as suas afirmações por outras: “Onde há fumo, há fogo”, ou “não ande à chuva para não ficar constipado”, por: O que é causa? O que é efeito?; “seja objetivo ”, ou “eles são muito subjetivos”, por: O que é a objetividade? O que é a subjetividade?; “Esta casa é mais bonita do que a outra”, por: O que é “mais”? O que é “menos”? O que é o belo?
Em vez de gritar “mentiroso!”, questionasse: O que é a verdade? O que é o falso? O que é o erro? O que é a mentira? Quando existe verdade e por quê? Quando existe ilusão e por quê?
Se, em vez de falar na subjetividade dos namorados, inquirisse: O que é o amor? 

O que é o desejo? O que são os sentimentos? Se, em lugar de discorrer tranquilamente sobre “maior” e “menor” ou “claro” e “escuro”, resolvesse investigar: O que é a quantidade? O que é a qualidade? E se, em vez de afirmar que gosta de alguém porque possui as mesmas ideias, os mesmos gostos, as mesmas preferências e os mesmos valores, preferisse analisar: O que é um valor? O que é um valor moral? O que é um valor artístico? O que é a moral? O que é a vontade? O que é a liberdade?
Alguém que tomasse essa decisão, estaria a tomar distância da vida quotidiana e de si mesmo, teria passado a indagar o que são as crenças e os sentimentos que alimentam, silenciosamente, a nossa existência.
Ao tomar essa distância, estaria interrogando-se a si mesmo, desejando conhecer porque cremos no que cremos, porque sentimos o que sentimos e o que são as nossas crenças e os nossos sentimentos. Esse alguém estaria a começar a adoptar o que chamamos atitude filosófica.
Assim, uma primeira resposta à pergunta “O que é Filosofia?” poderia ser: A decisão de não aceitar como óbvias e evidentes as coisas, as ideias, os factos, as situações, os valores, os comportamentos da nossa existência quotidiana; nunca aceitá-los sem antes os haver investigado e compreendido.
Perguntaram, certa vez, a um filósofo: “Para que serve a Filosofia?”. E ele respondeu: “Para não darmos nossa aceitação imediata às coisas, sem maiores considerações”.

A atitude crítica

A primeira característica da atitude filosófica é negativa, isto é, um dizer não ao senso comum, aos pré-conceitos, aos pré-juízos, aos factos e às ideias da experiência quotidiana, ao que “todos dizem e pensam”, ao estabelecido.
A segunda característica da atitude filosófica é positiva, isto é, uma interrogação sobre o que são as coisas, as ideias, os factos, as situações, os comportamentos, os valores, nós mesmos. É também uma interrogação sobre o porquê disso tudo e de nós, e uma interrogação sobre como tudo isso é assim e não de outra maneira. O que é? Por que é? Como é? Essas são as indagações fundamentais da atitude filosófica.
A face negativa e a face positiva da atitude filosófica constituem o que chamamos atitude crítica e pensamento crítico.
A Filosofia começa por dizer não às crenças e aos preconceitos do senso comum e, portanto, começa por dizer que não sabemos o que imaginávamos saber; por isso, o patrono da Filosofia, o grego Sócrates, afirmava que a primeira e fundamental verdade filosófica é dizer: “Só sei que nada sei”. Para o discípulo de Sócrates, o filósofo grego Platão, a Filosofia começa com a admiração; já o discípulo de Platão, o filósofo Aristóteles, acreditava que a Filosofia começa com o espanto.
Admiração e espanto significam: tomarmos distância do nosso mundo costumeiro, através do nosso pensamento, olhando-o como se nunca o tivéssemos visto antes, como se não tivéssemos tido família, amigos, professores, livros e outros meios de comunicação que nos tivessem dito o que o mundo é; como se estivéssemos acabado de nascer para o mundo e para nós mesmos e precisássemos de perguntar o que é, por que é e como é o mundo, e precisássemos de perguntar também o que somos, por que somos e como somos.

Para quê a Filosofia?

Ora, muitos fazem uma outra pergunta: afinal, para que serve a Filosofia? É uma pergunta interessante. Não vemos nem ouvimos ninguém perguntar, por exemplo, para que serve a matemática ou a física? Para que serve a geografia ou a geologia? Para que serve a história ou a sociologia? Para que serve a biologia ou a psicologia? Para que serve a astronomia ou a química? Para que serve a pintura, a literatura, a música ou a dança? Mas toda a gente acha muito natural perguntar: Para que serve a Filosofia? Em geral, essa pergunta costuma receber uma resposta irónica, conhecida dos estudantes de Filosofia: “A Filosofia é uma coisa com a qual e sem a qual o mundo permanece tal e qual”. Ou seja, a Filosofia não serve para nada. Por isso, se costuma chamar “filósofo” alguém sempre distraído, com a cabeça no mundo da lua, pensando e dizendo coisas que ninguém entende e que são perfeitamente inúteis.
Essa pergunta, “Para que serve a Filosofia?”, tem a sua razão de ser. Na nossa cultura e na nossa sociedade, costumamos considerar que alguma coisa só tem o direito de existir se tiver alguma finalidade prática, muito visível e de utilidade imediata. Por isso, ninguém pergunta para que servem as ciências, pois toda a gente imagina ver a utilidade das ciências nos produtos da técnica, isto é, na aplicação das teorias científicas à realidade.
Toda a gente também imagina ver a utilidade das artes, tanto por causa da compra e venda das obras de arte, quanto porque nossa cultura vê os artistas como gênios que merecem ser valorizados para o elogio da humanidade. Ninguém, todavia, consegue ver para que serviria a Filosofia, daí o dizer-se: “não serve para coisa alguma!”
Parece, porém, que o senso comum não vê algo que os cientistas sabem muito bem. As ciências pretendem ser conhecimentos verdadeiros, obtidos graças a procedimentos rigorosos de pensamento; pretendem agir sobre a realidade, através de instrumentos e objetos técnicos; pretendem fazer progressos nos conhecimentos, corrigindo-os e aumentando-os.
Ora, todas essas pretensões das ciências pressupõem que elas acreditam na existência da verdade, de procedimentos corretos para bem usar o pensamento, na tecnologia como aplicação prática de teorias, na racionalidade dos conhecimentos, porque podem ser corrigidos e aperfeiçoados.
Verdade, pensamento, procedimentos especiais para conhecer factos, relação entre teoria e prática, correção e acumulação de saberes: tudo isso não é ciência, são questões filosóficas. O cientista parte delas como questões já respondidas, mas é a Filosofia quem as formula e busca respostas para elas.
Assim, o trabalho das ciências pressupõe, como condição, o trabalho da Filosofia, mesmo que o cientista não seja filósofo. No entanto, como apenas os cientistas e filósofos sabem disso, o senso comum continua a afirmar que a Filosofia não serve para nada.
Para dar alguma utilidade à Filosofia, muitos consideram que, de facto, a Filosofia não serviria para nada, se “servir” fosse entendido como a possibilidade de fazer usos técnicos dos produtos filosóficos ou dar-lhes utilidade económica, obtendo lucros com eles; consideram também que a Filosofia nada teria a ver com a ciência e a técnica. 
Para quem pensa dessa forma, o principal para a Filosofia não seriam os  conhecimentos (que ficam por conta da ciência), nem as aplicações de teorias (que ficam por conta da tecnologia), mas o ensinamento moral ou ético. A Filosofia seria a arte do bem viver.
Estudando as paixões e os vícios humanos, a liberdade e a vontade, analisando a capacidade da nossa razão para impor limites aos nossos desejos e paixões, ensinando-nos a viver de modo honesto e justo na companhia dos outros seres humanos, a Filosofia teria como finalidade ensinar-nos a virtude, que é o princípio do bem-viver.
Essa definição da Filosofia, porém, não nos ajuda muito. De facto, mesmo para ser uma arte moral ou ética, ou uma arte do bem-viver, a Filosofia continua a fazer as suas perguntas desconcertantes e embaraçosas: O que é o homem? O que é a vontade? O que é a paixão? O que é a razão? O que é o vício? O que é a virtude? O que é a liberdade? Como nos tornamos livres, racionais e virtuosos? Porque é que a liberdade e a virtude são valores para os seres humanos? O que é um valor? Porque é que avaliamos os sentimentos e as ações humanas? 
Assim, mesmo se disséssemos que o objeto da Filosofia não é o conhecimento da realidade, nem o conhecimento da nossa capacidade para conhecer, mesmo se disséssemos que o objeto da Filosofia é apenas a vida moral ou ética, ainda assim, o estilo filosófico e a atitude filosófica permaneceriam os mesmos, pois as perguntas filosóficas - o que é, porquê e como - permanecem.

Atitude filosófica: indagar/questionar/problematizar/interrogar

Se, portanto, deixarmos de lado, por enquanto, os objetos com os quais a Filosofia se ocupa, veremos que a atitude filosófica possui algumas características que são as mesmas, independentemente do conteúdo investigado.
Essas características são:
- perguntar o que a coisa, ou o valor, ou a ideia, é. A Filosofia pergunta qual é a realidade ou natureza e qual é a significação de alguma coisa, não importa qual; qual é a estrutura e quais são as relações que constituem uma coisa, uma ideia ou um valor;
- perguntar porque é que a coisa, a ideia ou o valor, existe e é como é. A Filosofia pergunta pela origem ou pela causa de uma coisa, de uma ideia, de um valor.
A atitude filosófica inicia-se dirigindo essas indagações ao mundo que nos rodeia e às relações que mantemos com ele. Pouco a pouco, porém, descobre que essas questões se referem, afinal, à nossa capacidade de conhecer, à nossa capacidade de pensar.
Por isso, pouco a pouco, as perguntas da Filosofia se dirigem ao próprio pensamento: o que é pensar, como é pensar, por que há o pensar? A Filosofia torna-se, então, o pensamento interrogando-se a si mesmo. Por ser uma volta que o pensamento realiza sobre si mesmo, a Filosofia realiza-se como reflexão.

A reflexão filosófica

Reflexão significa movimento de volta sobre si mesmo ou movimento de retorno a si mesmo. A reflexão é o movimento pelo qual o pensamento se volta para si mesmo, interrogando-se a si mesmo.
A reflexão filosófica é radical porque é um movimento de volta do pensamento sobre si mesmo para conhecer-se a si mesmo, para indagar como é possível o próprio pensamento.
Não somos, porém, somente seres pensantes. Somos também seres que agem no mundo, que se relacionam com os outros seres humanos, com os animais, as plantas, as coisas, os factos e acontecimentos, e exprimimos essas relações tanto por meio da linguagem quanto por meio de gestos e ações. 
A reflexão filosófica também se volta para essas relações que mantemos com a realidade circundante, para o que dizemos e para as ações que realizamos nessas relações.
A reflexão filosófica organiza-se em torno de três grandes conjuntos de perguntas ou questões:

1. Porque é pensamos o que pensamos, dizemos o que dizemos e fazemos o que fazemos? Isto é, quais os motivos, as razões e as causas para pensarmos o que pensamos, dizermos o que dizemos, fazermos o que fazemos?
2. O que queremos pensar quando pensamos, o que queremos dizer quando falamos, o que queremos fazer quando agimos? Isto é, qual é o conteúdo ou o sentido do que pensamos, dizemos ou fazemos?
3. Para que é que pensamos o que pensamos, dizemos o que dizemos, fazemos o que
fazemos? Isto é, qual é a intenção ou a finalidade do que pensamos, dizemos e fazemos?

Essas três questões podem ser resumidas em: O que é pensar, falar e agir? E elas pressupõem a seguinte pergunta: As nossas crenças quotidianas são ou não um saber verdadeiro, um conhecimento?
Como vimos, a atitude filosófica inicia-se questionando: O que é? Como é? Por que é?, dirigindo-se ao mundo que nos rodeia e aos seres humanos que nele vivem e com ele se relacionam. São perguntas sobre a essência, a significação ou a estrutura e a origem de todas as coisas.
Já a reflexão filosófica indaga: Porquê?, O quê?, Para quê?, dirigindo-se ao pensamento, aos seres humanos no ato da reflexão. São perguntas sobre a capacidade e a finalidade humanas para conhecer e agir.

Marilena Chauí, Convite à filosofia

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

O Método Socrático


A DIALÉTICA
Em geral, o método dialógico de Sócrates é constituído por dois momentos fundamentais:

 - a ironia que denuncia as verdades feitas e o falso saber daqueles que pretendiam reduzir o verdadeiro ao verosímil; 
- a maiêutica, técnica através da qual se consegue observar como é que uma ciência desconhecida se transforma progressivamente numa ciência conhecida. /.../ Segundo Platão, Sócrates fora buscar a sua arte da maiêutica à sua mãe que era parteira. Na Grécia clássica só as mulheres que já não podiam dar à luz estavam autorizadas a ajudar ao parto das outras. Sócrates considerava a sua arte como a arte de parturejar; só que agora são homens que dão à luz e é do parto das suas almas que se trata.  Sócrates revelava aos outros aquilo que eles próprios sabiam sem de tal terem consciência. Ele pretendia que o seu questionamento sistemático levasse os outros a um ponto crucial de consciência crítica, procurando a verdade no seu interior, dando assim lugar ao "parto intelectual". A maiêutica é, assim, a fase positiva, construtiva, do método socrático que permite o acordo através das certezas universais obtidas pela definição após a discussão. /.../
Através de perguntas/respostas pretendia dar e devolver argumentos entre interlocutores através de um discurso curto e preciso cujo objectivo era a procura da verdade. A este método cuja arte subtil está na capacidade de argumentar chama-se "dialéctica".
Numa primeira fase Sócrates procura de forma polémica destruir a suposta coerência do raciocínio dos seus interlocutores. Sócrates faz com que os outros falem sobre aquilo que afirmam para os obrigar a reflectir sobre aquilo que fazem. Ele opõe-se à verdade estereotipada, ao dogmatismo e pretende destruir os preconceitos irreflectidos. Quer que os seus interlocutores se consciencializem da suposta "verdade" das suas afirmações levando-os a um exame de consciência que lhes dará conta da sua ignorância. É como se os conhecimentos das pessoas fossem postos em causa através da interrogação e não de uma forma expositiva. Assim os adversários de Sócrates são levados à dúvida relativamente aos seus próprios conhecimentos ficando embaraçados com as perguntas insidiosas e precisas, cujas respostas demonstram quão fracos são os seus argumentos e opiniões.
Mas Sócrates usava então uma das suas outras técnicas: dar a mão ao interlocutor apesar de achar que este estava vencido no argumento usado. O que Sócrates pretendia era que não houvessem vencedores nem vencidos mas caminhar conjuntamente para estabelecer a verdade.
/.../ Sócrates não responde  às próprias questões que lança. Não dá respostas positivas. Sócrates não pretende informar mas formar. Aquilo que viesse do mestre em sentido único teria apenas um efeito exterior sobre a consciência do aluno; a formação só pode efectuar-se segundo o ritmo e as exigências próprias do desenvolvimento interior individual. Sócrates repete que nada sabe, nada tem para ensinar, nem ninguém a quem formar. E não tendo nada para oferecer a não ser a sua companhia basta que cada um pense por si próprio para se aperceber de que sabe mais do que ele. /.../
O  modo como Sócrates se dirige ao seu interlocutor e desenvolve o seu método apresenta quatro características:
É um método dual, na medida em que se dirige sempre a um interlocutor determinado. Sócrates nunca se dirige a um grupo de homens, nem aos homens em geral. Há sempre um personagem concreto a quem  dirige as suas perguntas, com quem dialoga segundo as particularidades desse indivíduo. /.../
É dialéctico. Sócrates jamais admitia como verdadeiro o que seu interlocutor não admitisse como verdadeiro. Assim o diálogo só se desenrola e toma caminho mediante aquilo a que o interlocutor dá acordo. Nunca Sócrates impõe as suas ideias a ninguém. /.../
É refutatório. Nos seus diálogos, Sócrates ocupa o lugar de interrogador. Aliás, nem podia ser de outro modo uma vez que ele parte para a discussão com uma atitude de dúvida constante, afirmando nada saber - "só sei que nada sei". Cabe ao seu interlocutor responder. Esta característica do modo pelo qual Sócrates se dirige ao seu interlocutor, está fortemente ligada ao primeiro momento em que há a destruição das ideias feitas, da tese que o interlocutor sustenta inicialmente como verdadeira. É através desta característica que Sócrates faz com que o seu interlocutor entre em contradição. /.../
A última característica é a parresia. Esta característica consiste em o interlocutor dizer o que pensa verdadeiramente sem se preocupar nem com a opinião ou a reação dos outros /.../, aderindo totalmente ao que é verdadeiro (trata-se da coragem de aderir à verdade sejam quais forem as consequências). O interlocutor compromete-se de um modo total com a verdade, sendo o caminho para a prática do bem e da virtude. 
(Texto Adaptado)
Olga Pombo

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

O que sou eu?


Eu sou um enigma. Eu sou uma equação mal resolvida.
Sou um livro com páginas soltas, outras riscadas e outras até mesmo em branco. Existem erros ortográficos em todo o livro, erros que não podem ser remediados. Em algumas páginas existem fotografias a preto e branco, memórias do passado e perguntas em relação ao futuro. No meio das páginas, encontramos restos de borracha gasta, fruto do esforço para tentar ser melhor. A história deste livro é verídica e fictícia em simultâneo, pois uma parte é constítuida pelas lições e empurrões da vida e a outra pelos sonhos e objetivos que ainda não passam de ideias.
Não sei o título, nem mesmo como o livro acaba.
Mas, no fim, sei que quero colocá-lo na prateleira da minha biblioteca, sabendo que continuarei a ver a sua lombada na secção das incógnitas.

Joana Carvalho, 10ºE (2014-2015)

'Conhece-te a ti mesmo'




Conhece-te a ti mesmo: Sócrates e a nossa relação com o mundo
A figura de Sócrates é como um divisor de águas na Filosofia Antiga, tanto que os filósofos anteriores a ele são tradicionalmente designados como pré-socráticos.
De facto, com Sócrates há uma mudança significativa no rumo das discussões filosóficas sobre a verdade e o conhecimento. Os primeiros filósofos estavam preocupados em encontrar o fundamento (arqué) de todas as coisas. Sócrates, por sua vez, está mais interessado na nossa relação com os outros e com o mundo.
Curiosamente, Sócrates nada escreveu - e tudo o que sabemos dele é graças aos seus discípulos, particularmente Platão. Sócrates teria tomado a inscrição da entrada do templo de Delfos como inspiração para construir a sua filosofia: ‘Conhece-te a ti mesmo’.
Para compreendermos o sentido dessa frase, segundo o filósofo francês Michel Foucault (1926-1984), devemos inscrevê-la numa estratégia mais geral do cuidado de si.
Ou seja, o que Sócrates defendia era que nós devemos ocupar-nos menos com as coisas (riqueza, fama, poder) e passarmos a ocupar-nos connosco mesmos. Poderia perguntar-se: porque é que deveria ocupar-me comigo mesmo? Porque é o caminho que me permite ter acesso à verdade.
Mas que tipo de verdade? Obviamente não é uma verdade qualquer, tal como a fórmula química da água, mas a verdade que é capaz de transformá-lo, a si leitor, num ser autónomo.
É desse ato de conhecimento, capaz de promover a nossa auto-transcendência, de que fala Sócrates. Conhecer-me a mim mesmo para saber como modificar a minha relação para comigo, com os outros e com o mundo, ultrapassando as minhas limitações.

Como ter acesso à verdade?
Tal modificação para ter acesso à verdade, contudo, não é um ato puramente intelectual. Ela exige, por vezes, determinadas renúncias e purificações, das quais Sócrates é um exemplo.
Sócrates dizia que tinha como missão divina exortar os atenienses, fossem eles velhos ou jovens, a deixarem de cuidar das coisas, passando a cuidar de si mesmos. Tal atitude fê-lo dedicar-se inteiramente à filosofia e à prática dialógica (uma forma especial de diálogo, denominada maiêutica) por meio da qual ele fazia com que os seus interlocutores percebessem as inconsistências do seu discurso e se autocorrigissem.
A atitude de Sócrates questionava os valores da sociedade ateniense, razão pela qual os seus inimigos o levaram a tribunal, onde foi julgado e condenado à morte. A sua morte, porém, não impediu que a questão do cuidado de si se tornasse um tema central na filosofia durante mais de dois mil anos - e influenciasse muitos filósofos modernos e contemporâneos.
A questão central do cuidado de si é que jamais se tem acesso à verdade sem uma experiência de purificação, de meditação, de exame de consciência - enfim, através de determinadas atividades espirituais capazes de transfigurar o nosso próprio ser.
Dito de outro modo, o estado de iluminação, de descoberta da verdade, não é só produto do estudo, mas de uma prática acompanhada de reflexão constante sobre as nossas ações, as nossas atitudes, os nossos pensamentos, os nossos desejos - e de como podemos modificá-los para nos tornarmos pessoas melhores. É como se a vida fosse uma obra de arte em que nós nos fôssemos moldando, nos fôssemos aperfeiçoando no decorrer da nossa existência.

A difícil busca da verdade
Atualmente, estamos distantes dessa perspectiva socrática do cuidado de si. A ciência moderna está preocupada com a produção e acumulação de conhecimentos.
Mas quando nos perguntamos: para que é que acumulamos e produzimos conhecimento? A resposta é simplesmente: para aumentar infinitamente o nosso conhecimento. Entramos, assim, numa corrida sem fim, em que nunca nos questionamos se isso realmente nos está a trazer os benefícios prometidos.
Claro que a tecnologia traz inegáveis benefícios, mas não parece que as pessoas, atualmente, estejam mais felizes. Pode-se alegar, no entanto, que não é papel do conhecimento e da ciência promover a felicidade humana - e que, talvez, conhecimento e ciência tenham como principal função a de contribuir para a concentração de poder e dinheiro nas mãos de alguns poucos.
Sócrates, porém, via a busca da verdade como um caminho de ascese, pois, quando cuidamos de nós mesmos, modificamos a nossa relação com os outros e com o mundo.
Mergulhados em preocupações com a aparência e o consumo, pensamos estar a cuidar de nós mesmos, quando na verdade nos estamos a perder no meio das coisas. É preciso conhecermo-nos a nós mesmos para não nos perdermos. Claro que você não vai encontrar toda a verdade em si mesmo, mas, pelo menos, a única verdade capaz de salvá-lo, ou seja, de dar sentido à sua vida.
Josué Cândido da Silva
http://educacao.uol.com.br/disciplinas/filosofia/conhece-te-a-ti-mesmo-socrates-e-a-nossa-relacao-com-o-mundo.htm

A verdadeira simplicidade
“Encara as coisas com leveza, mas interiormente  com plenitude e atenção. Não deixes passar um momento sem teres plena consciência do que está a acontecer dentro de ti e à tua volta. Normalmente isso é o que significa ser-se sensível, não a uma ou duas coisas, mas ser-se sensível a tudo. Ser-se sensível à beleza e resistir ao feio é gerar conflito. Enquanto se observa, apercebemo-nos de que a mente está sempre a julgar – isto é bom e aquilo é mau, isto é branco e aquilo é preto - , a julgar pessoas, a comparar, a medir, a calcular. A mente nunca está quieta. Poderá a mente olhar, observar sem julgar, sem calcular? Tenta compreender sem dar nome ao que vês .e vê apenas se a mente pode fazer isso.
Brinca com isso. Não forces, deixa a mente olhar para si própria. Muitas pessoas, tentando ser simples, começam pelo exterior, descartando, renunciando; mas, interiormente, permanece a complexidade dos seus seres. Quando existe simplicidade interior, o exterior corresponde ao interior. Sermos simples por dentro é estarmos libertos do impulso pelo “mais”, o que não quer dizer que estejamos satisfeitos com o que é . Estarmos libertos do impulso pelo “mais” é não pensarmos em termos de tempo, de progressão, de chegar lá. Sermos simples é a mente libertar-se a si própria de todos os resultados, é esvaziar-se de todo o conflito. Esta é a verdadeira simplicidade.
Como poderá a mente debater-se entre o feio e o belo, agarrando-se a um e empurrando para longe o outro? Este conflito torna a mente insensível e exclusivista. Qualquer tentativa por parte da mente para encontrar uma linha que separe o feio do belo faz ainda parte de um ou de outro. O pensamento não pode, faça ele o que fizer, libertar-se dos opostos; o próprio pensamento criou o feio e o belo, o bom e o mau. Portanto, ele não pode libertar-se das suas próprias atividades. Tudo o que pode fazer é ficar quieto, não escolher. A escolha é conflito, e a mente volta de novo à sua própria confusão. A quietude da mente liberta-nos da dualidade. J. Krishnamurti, Cartas a uma jovem amiga, tradução de Joaquim Palma, Editorial Presença, Lisboa, 2008, pp. 36-37.

A revolta inteligente
“Sê mentalmente flexível. A força não está em ser-se firme e forte mas em ser-se flexível. A árvore, que é flexível, aguenta-se no meio da ventania. Reúne em ti a força que existe na brisa ligeira.
A vida é estranha, tem tantas coisas a acontecerem inesperadamente, que a mesma resistência não resolverá qualquer problema. Precisamos de infinita flexibilidade e de um coração simples.
A vida é como o fio de uma lâmina, e cada um tem de percorrer esse caminho com extremo cuidado e flexível sabedoria.
A vida é tão rica, tem tantos tesouros, mas chegamos a ela com os corações vazios; não sabemos encher os nossos corações com a abundância da vida. Interiormente somos pobres e, quando as riquezas da vida nos são oferecidas, nós recusamo-las. /.../
Mantém a mente aberta. Vive no passado, se tiver de ser, mas não lutes contra esse passado; quando o passado chegar, olha para dentro dele, não o empurres para longe nem te agarres demasiado a ele. A experiência de todos estes anos, a dor e a alegria, os momentos de sofrimento e a memória da separação, a sensação de distância, tudo isso trará enriquecimento e beleza. O importante é o que tens no coração; e desde que isso esteja a transbordar, tu tens tudo, tu és tudo.
Está atenta a todos os teus pensamentos e sentimentos, não permitas que um único sentimento ou pensamento surja sem que te apercebas dele, e absorve todo o seu conteúdo. Absorver não é a palavra adequada; trata-se, sim, de ver todo o conteúdo do pensamento-sentimento. É como entrar numa sala e ver, de uma só vez, tudo o que está nela, a sua atmosfera e os seus espaços. Vermos e estarmos atentos aos  pensamentos torna-nos intensamente sensíveis, flexíveis e vigilantes. Não condenes nem julgues, mas está bem atenta. Da separação e das escórias retira-se o ouro puro.
Ver o que é, é muito difícil. Como se pode observar com clareza? Um rio quando encontra um obstáculo não fica parado; ele quebra a barreira usando a sua força, ou passa por cima dela, ou por baixo, ou vai à volta; ele não fica quieto; ele só pode agir. O rio revolta-se, por assim, dizer, inteligentemente. Para percebermos aquilo que é, tem de haver o espírito da revolta inteligente. Para não sermos confundidos com um pedaço de tronco, é preciso termos uma certa inteligência; mas geralmente estamos tão ávidos de possuir aquilo que desejamos, que vamos contra o obstáculo; ou despedaçamo-nos de encontro a ele ou ficamos exaustos lutando contra ele. Ver a corda como corda não requer coragem, mas tomar a corda por uma serpente, ficando a olhar, requer coragem. Devemos duvidar, procurar sempre, ver o falso como falso. Ganhamos força para vermos através da intensidade da atenção; tu vais ver, isso virá. Para agir, cada um deve estar num estado de negação; a negação traz a sua própria ação positiva. Penso que a questão reside em ver com clareza, porque a percepção gera a sua própria ação. Quando há elasticidade, não se põe a questão do certo e do errado.
Cada um de nós tem que estar muito lúcido dentro de si mesmo. Nessa altura, asseguro-te, tudo dará certo. Tenta estar lúcida, e verás que as coisas se tornarão certas sem que tu faças o que quer que seja a respeito disso. O que está certo não é aquilo que desejamos.
Tem de haver uma revolução total, não apenas nas grandes coisas, mas também nas pequenas coisas do dia-a-dia. Tu passaste por essa revolução, não voltes atrás, mantém-te nela. Mantém-te a ferver, interiormente.
J. Krishnamurti, Idem, pp. 7-8.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Definição etimológica do termo 'Filosofia'





O que significa 'Filosofia' - Definição Etimológica
Wilson Horvath


A palavra filosofia (Φιλοσοφία) é de origem grega e é formada pela junção de dois outros vocábulos: philos (φίλος) e sophia (σοφία). Sophia significa “sabedoria” e philos, que deriva de philia (φιλíα), que dizer “amor fraternal”, “amor entre pessoas que se querem bem” e “se respeitam mutuamente”, “é o amor entre amigos ou a amizade”.
Logo, Filosofia significa “amor pelo saber”, “respeito pela sabedoria”. E o filósofo é aquele que ama, respeita e tem apreço pela sabedoria.

Foi Pitágoras de Samos (571 –496 a.C.) – filósofo e matemático grego, o criador de um Teorema[1] que leva o seu nome e muito estudado no Ensino Secundário – quem cunhou esse termo. Para esse pensador, o verdadeiro conhecimento pertencia aos deuses; porém o ser humano pode desejar e buscar o conhecimento. E quem assim o faz é um filósofo ou uma filósofa.
Pitágoras definiu o ser do filósofo observando as pessoas que frequentavam e participavam dos jogos olímpicos.

Dizia Pitágoras que três tipos de pessoas compareciam aos jogos olímpicos (a festa mais importante da Grécia): as que iam para comerciar durante os jogos, ali estando apenas para servir os seus próprios interesses e sem preocupação com as disputas e os torneios; as que iam para competir, isto é, os atletas e artistas (pois, durante os jogos também havia competições artísticas: dança, poesia, música, teatro); e as que iam para contemplar os jogos e torneios, para avaliar o desempenho e julgar o valor dos que ali se apresentavam. Esse terceiro tipo de pessoa, dizia Pitágoras, é como o filósofo (CHAUI, 2000, p. 19).

O filósofo, portanto, busca o conhecimento pelo desejo de conhecer, ele não faz isso por interesses económicos ou para ganhar alguma disputa intelectual. Ele busca contemplar a verdade. E filosofia é o caminho de busca pela verdade, percorrido com paixão e amor pelo saber.
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[1] Teorema de Pitágoras: Num triângulo retângulo a soma dos quadrados dos catetos é igual ao quadrado da hipotenusa. Em outros termos, se a e b são os catetos do triângulo retângulo e se c é sua hipotenusa, então a2 + b2 = c2.

Referencia Bibliográfica

 CHAUI, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Ed. Ática, 2000.

http://reflexoesdeumprofessor.blogspot.pt/2012/06/o-que-e-filosofia-definicao-etimologica.html