quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Filosofia - 10º Ano
Teste Sumativo 1          Outubro de 2014    
Professor Paulo Gomes
_________________________________________________________________________
Leia todo o enunciado, antes de começar a responder.
Responda apenas ao que é pedido no enunciado das questões.
Seja original e crítico nas suas respostas.


Grupo I
Escolha apenas uma alternativa em cada questão

1. A palavra ‘Filosofia’ significa etimologicamente:

     A. ‘Amor à sabedoria’;
     B. ‘sabedoria do amor’;
     C. ‘amor da sabedoria’;
     D. nenhuma das alternativas anteriores está correta.

2. Das seguintes alternativas escolha a que se refere à radicalidade da filosofia:

    A. A filosofia é um saber independente de qualquer outro saber ou de qualquer interesse ou poder exteriores a ela;
    B. O filósofo não recua perante nada nem ninguém na busca da verdade;
    C. A filosofia é fruto da História: tem uma tradição e radica a sua problematização nas solicitações de cada época histórica.
    D. Os problemas da filosofia interessam a todos os seres humanos, do passado, do presente e do futuro.

3. A Lógica:

     A. Estuda a estrutura e o funcionamento da linguagem;
     B. estuda a estrutura do pensamento e as regras para a elaboração do raciocínio correto;
     C. trata as formas de organização da vida comunitária;
     D. é a filosofia da arte.

4. “Deus não existe nem deixa de existir”. Este enunciado:

     A. Obedece ao princípio do terceiro excluído;
     B. viola o princípio da não-contradição;
     C. viola o princípio da identidade;
     D. viola o princípio do terceiro excluído.

5. "A Filosofia distingue-se das ciências porque estuda a totalidade do real". Esta afirmação é:
     A. Falsa, porque a Filosofia não é um saber racional;
     B. verdadeira porque a Filosofia é uma ciência como as outras;
     C. Falsa, porque a Filosofia é uma ciência como qualquer outra;
     D. verdadeira, porque cada ciência tem um objecto de estudo específico.

6. Aristóteles afirma que a Filosofia começa com o espanto. Isto significa que:

     A. Só pode ser filósofo quem reconhecer a sua ignorância;
     B. a filosofia não se distingue do senso comum;
     C. só os ignorantes podem filosofar;
     D. em Filosofia não há qualquer conhecimento.

7. Na alegoria da caverna, a caverna representa:

     A. a Filosofia;
     B. a Filosofia e as ciências;
     C. as sociedades primitivas;
     D. o senso comum.

8. Podemos pensar de forma coerente, desobedecendo aos Princípios Lógicos da Razão?

     A. Sim, se quisermos ser criativos;
     B. nunca;
     C. só quando não tivermos uma resposta conclusiva para um problema;
     D. só nos casos em que não estiverem em causa verdades científicas.

9. "O senso comum é um saber completamente inútil". Esta afirmação é:

     A. Falsa, porque a Filosofia é a melhor parte do senso comum;
     B. verdadeira porque o senso comum só serve para nos atrapalhar;
     C. Falsa, porque o senso comum serve para nos orientarmos nas tarefas quotidianas;
     D. verdadeira, porque o senso comum só coloca questões, não dando respostas.

10. "Ousa saber! Tem a coragem de usares o teu próprio entendimento!". Esta afirmação de Kant refere-se a uma característica da Filosofia. A qual?

     A. À historicidade;
     B. à radicalidade;
     C. à universalidade;
     D. à autonomia.


Grupo II

Texto 1
A utilidade da filosofia

"Quem não tem umas tintas de filosofia é homem que caminha pela vida fora sempre agrilhoado a preconceitos que derivam do senso-comum, das crenças habituais do seu tempo e do seu país, das convicções que cresceram no seu espírito sem a cooperação ou o consentimento de uma razão deliberada. 
O mundo tende, para tal homem, a tornar-se finito, definido, óbvio; para ele os objectos habituais não levantam problemas, e as possibilidades não familiares são desdenhosamente rejeitadas. 
Quando começamos a filosofar, pelo contrário, imediatamente nos damos conta de que até os objectos mais ordinários conduzem o espírito a certas perguntas a que incompletissimamente se dá resposta. A filosofia, se bem que incapaz de dizer ao certo qual venha a ser a verdadeira resposta às variadas dúvidas que ela própria evoca, sugere numerosas possibilidades que nos conferem amplidão aos pensamentos, descativando-nos da tirania do hábito. Varre o dogmatismo, um tudo nada arrogante, dos que nunca chegaram a empreender viagens nas regiões da dúvida libertadora; e vivifica o sentimento de admiração."
Bertrand Russell

1. Identifique e formule o problema central do texto 1.
2. Qual é a tese central do texto 1?
3. Exponha o(s) argumentos(s) com que o autor justifica a tese central do texto.
4. Concorda com a tese central e os argumentos do autor? Justifique a sua resposta confrontado a filosofia com o senso comum.


Texto 2
Por que existe o Ser e não o Nada?

 Já alguma vez parou para pensar como tudo começou? Sobre o início das coisas, o começo? Ou, talvez, o significado de “nada”? Quando nos referimos a “nada” é normal associar este termo a uma espécie de vazio ou vácuo. Mas será mesmo esse o seu significado? Na verdade, o que é o NADA?
“Nada: 1 coisa nenhuma; ausência quer absoluta, quer relativa, de ser ou de realidade; o que não existe. 2 nenhuma coisa, zero. 3 coisa sem importância ; (…) o não-ser;”
Ou seja, o nada não existe, definimos algo que não existe por nada.
  Mas vamos supor o contrário. Se num passado muito longínquo, existisse o nada num estado absoluto, o “Nada Absoluto”, atualmente eu não teria escrito este texto, ninguém estaria a lê-lo, nem a própria folha existiria porque o “Nada Absoluto” estaria ainda presente, a completa ausência do ser. Pois, deste modo, não havia a possibilidade de algo ter sido criado nem gerado. Mas como todos sabemos, as coisas existem e eu e mais 7 bilhões de pessoas de carne e osso somos a prova viva que o nada simplesmente não existe e nunca existiu, mas sim o ser. 
No entanto, mesmo que o “Nada Absoluto” nunca tenha existido, em algum momento da vida foi necessário algo que eternamente existiu. Mas o que seria essa coisa? O que nos leva mais uma vez ao enigma da explicação do início de todas as coisas, de todas as pessoas e do universo, no geral. Esta questão, que durante anos, leva a humanidade a tentar encontrar uma resposta exata. Uns optam por várias teorias que explicam mais cientificamente a criação do universo, tal como a Teoria do Big Bang ou mesmo em crenças mais religiosas relacionadas com Deus, que eu pessoalmente respeito, mas com as quais não concordo. /Bruna Ferreira 10ºE (2014/2015)

5. O texto 2 refere-se a uma das mais difíceis questões filosóficas. De acordo com o Princípio da Razão Suficiente é possível responder a esta questão. Explique porquê.

6. O texto 2 é um texto filosófico? Justifique a sua resposta tendo em conta as principais características da filosofia.


Grupo III
Este grupo é composto por uma questão de desenvolvimento.

                                                Texto 3
Uma mulher norte-americana de 29 anos com um cancro cerebral terminal decidiu pôr fim à sua própria vida no próximo dia 1 de novembro. Mas, antes, associou-se a um movimento civil para pedir aos responsáveis políticos dos Estados Unidos o alargamento da legislação sobre a eutanásia a mais locais do país.

“Não há nenhuma célula suicida no meu corpo”, disse Brittany Maynard numa entrevista à People. Em janeiro deste ano, Brittany viu ser-lhe diagnosticado um glioblastoma multiforme de nível 4, uma forma severa de tumor cerebral com uma taxa muito baixa de sobrevivência. Na altura, os médicos deram-lhe seis meses de esperança de vida e Brittany optou por não fazer os tratamentos de radioterapia adequados à doença, que afetariam significativamente a sua qualidade de vida.

“O meu glioblastoma vai matar-me e isso está fora do meu controlo. Falei com muitos especialistas sobre como ia morrer disso e é uma forma terrível, terrível de morrer. Escolher morrer com dignidade é menos assustador”, afirma Brittany.

A doente lançou na segunda-feira um vídeo onde explica as razões da sua decisão. A iniciativa tem o apoio de um movimento civil, o Compassion & Choices, que criou, juntamente com Brittany, o The Brittany Maynard Fund, um site que tem como objetivo recolher donativos para aquele movimento, que luta pela expansão da eutanásia de pacientes terminais a todos os estados dos Estados Unidos da América.

Atualmente são cinco os que permitem a morte medicamente assistida. Depois de tomar a decisão sobre a sua própria morte, Brittany e o seu marido mudaram-se de São Francisco, no estado da Califórnia, para Portland, no Oregon, um dos estados que tem legislação que permite a eutanásia por motivos médicos. Para a morte ser autorizada, o estado de saúde do doente tem de ser atestado por dois médicos que, depois, fornecem medicação própria para o efeito.

Há pouco mais de duas semanas, Brittany foi hospitalizada brevemente, mas logo após a alta retomou a sua atividade física normal, que em tempos a levou a escalar o Kilimanjaro. “Quero mesmo festejar o aniversário do meu marido, que é a 26 de outubro”, afirma, para explicar porque escolheu 1 de novembro para a data da sua morte. “Estou a ficar cada vez mais doente, tenho cada vez mais dores”, refere.


No dia 1 de novembro, quando morrer, aos 29 anos, Brittany Maynard estará acompanhada pela sua mãe, pelo seu marido e por um amigo próximo. Morrerá no seu quarto, ouvindo música de que gosta.
observador.pt

      1. Concorda com a decisão de Britney? Responda a esta questão justificando argumentativamente a sua posição sobre a eutanásia e aplicando-a a este caso concreto.



_______________
Correção:

Grupo I

 1.  A;
 2.  B;
 3.  B;
 4.  D;
 5.  D;
 6.  A;
 7.  D;
 8.  B;
 9.  C;
10. D.

Grupo II

Texto 1
" /Argumento 1/ Quem não tem umas tintas de filosofia é homem que caminha pela vida fora sempre agrilhoado a preconceitos que derivam do senso-comum, das crenças habituais do seu tempo e do seu país, das convicções que cresceram no seu espírito sem a cooperação ou o consentimento de uma razão deliberada. 

/Argumento 2/ O mundo tende, para tal homem, a tornar-se finito, definido, óbvio; para ele os objectos habituais não levantam problemas, e as possibilidades não familiares são desdenhosamente rejeitadas. 

/Argumento 3/  Quando começamos a filosofar, pelo contrário, imediatamente nos damos conta de que até os objectos mais ordinários conduzem o espírito a certas perguntas a que incompletissimamente se dá resposta.   

/Argumento 4/ A filosofia, se bem que incapaz de dizer ao certo qual venha a ser a verdadeira resposta às variadas dúvidas que ela própria evoca, sugere numerosas possibilidades que nos conferem amplidão aos pensamentos, descativando-nos da tirania do hábito. 

Varre o dogmatismo, um tudo nada arrogante, dos que nunca chegaram a empreender viagens nas regiões da dúvida libertadora; e vivifica o sentimento de admiração."

1. O problema central do texto pode ser formulado através das seguintes questões: 
                       Qual a função da Filosofia? 
                       Para que serve a Filosofia?
                       A Filosofia tem utilidade? Qual? 

2. A tese central do texto encontra-se no excerto sublinhado: A função principal da filosofia é libertar-nos do dogmatismo do senso comum.

3. No texto é possível identificar quatro argumentos que sustentam a tese central:
        
 /Argumento 1/ As pessoas que não cultivam uma atitude filosófica estão presas a preconceitos do senso comum - as crenças que não são analisadas pela razão;

 /Argumento 2/  As pessoas que vivem presas ao senso comum vivem numa realidade que não as leva a questionarem-se, têm uma mente fechada, não pondo em causa aquilo que sabem (não reconhecem a sua ignorância), não admitem a possibilidade de evoluírem no conhecimento do mundo.

 /Argumento 3/ Quando começamos a filosofar descobrimos que tudo pode ser objecto de questionamento, mesmo aquilo que antes considerávamos óbvio.

 /Argumento 4/ As respostas da Filosofia podem nem sempre ser conclusivas, mas abrem sempre para novas possibilidades (de questionamento, bem como de compreensão), o que nos liberta do hábito e ampliam a nossa mente.


5. Demos as seguintes formulações do Princípio da Razão Suficiente:
       
         a) 'Nada acontece sem Razão'
         b) 'Tudo o que acontece tem uma causa'

A ideia subjacente a este princípio é a de que tudo o que acontece tem uma explicação racional, sendo assim, a questão 'porque existe o Ser e não o Nada?' tem uma resposta racional, porque o Ser tem que ter uma Causa que explique a sua existência.
Mesmo que não possamos conhecer essa causa através da experiência, a Razão pode levantar hipóteses coerentes que nos permitirão esboçar, no mínimo, respostas logicamente possíveis. 

5. Trata-se de um texto filosófico. Em primeiro lugar, nele há a prevalência da interrogação. E essa interrogação é levada suficientemente longe para podermos considerá-la radical. Por isso, podemos afirmar que a reflexão desenvolvida no texto tem radicalidade, uma das características fundamentais da filosofia.
Por outro lado, a autora do texto posiciona-se criticamente perante a questão e as possíveis respostas, dando mostras de autonomia.
Apesar disso, a autora coloca-se num ponto de vista universal - a sua argumentação é válida para todos os seres humanos, encarados  como seres racionais, não exprime um ponto de vista restrito que não possa ser partilhado e/ou avaliado pelos outros seres pensantes - mesmo que cada um destes possa defender posições diferentes, os argumentos referem-se ao que pode ser compreendido por todos.
Ao referir-se à permanência da questão ao longo do tempo, estamos perante a historicidade, outra das características específicas da Filosofia.

Teste 1 - Teste - Modelo

Filosofia - 10º Ano
Teste Sumativo 1 (modelo)                                          Outubro de 2016  
Professor Paulo Gomes                                        Duração: 90 minutos
______________________________________________________________
Leia todo o enunciado, antes de começar a responder.
Responda apenas ao que é pedido no enunciado das questões.
Seja original e crítico nas suas respostas.


Grupo I

Subgrupo I.1
Escolha apenas uma alternativa em cada questão

1. A palavra ‘Filosofia’ significa etimologicamente:

     A. ‘Amor à sabedoria’;
     B. ‘sabedoria do amor’;
     C. ‘amor da sabedoria’;
     D. nenhuma das alternativas anteriores está correta.

2. Das seguintes alternativas escolha a que se refere à radicalidade da filosofia:

    A. A filosofia é um saber independente de qualquer outro saber ou de qualquer interesse ou poder exteriores a ela;
    B. O filósofo não recua perante nada nem ninguém na busca da verdade;
    C. A filosofia é fruto da História: tem uma tradição e radica a sua problematização nas solicitações de cada época histórica.
    D. Os problemas da filosofia interessam a todos os seres humanos, do passado, do presente e do futuro.

3. "O senso comum é um saber universal". Esta afirmação é:

     A. Falsa, porque o senso comum é um saber que só alguns homens possuem;
     B. Verdadeira porque todos os homens possuem senso comum;
     C. Falsa, porque, embora todos os homens possuam senso comum, este é um saber relativo;
     D. Verdadeira, porque o senso comum é um saber sobre o universo.

4. “Só sei que nada sei”. Com esta afirmação Sócrates:

     A. reconhece que a filosofia não é um saber;
     B. reconhece que é mais sábio do que aqueles que vivem mergulhados no senso comum;
     C. reconhece que o objetivo da filosofia é a ignorância;
     D. reconhece que os filósofos são ignorantes.

5. "A Filosofia distingue-se das ciências porque estuda a totalidade do real". Esta afirmação é:
     A. Falsa, porque a Filosofia não é um saber racional;
     B. verdadeira porque a Filosofia é uma ciência como as outras;
     C. Falsa, porque a Filosofia é uma ciência como qualquer outra;
     D. verdadeira, porque cada ciência tem um objecto de estudo específico.

6. Aristóteles afirma que a Filosofia começa com o espanto. Isto significa que:

     A. Só pode ser filósofo quem reconhecer a sua ignorância;
     B. a filosofia não se distingue do senso comum;
     C. só os ignorantes podem filosofar;
     D. em Filosofia não há qualquer conhecimento.

7. Na alegoria da caverna, a caverna representa:

     A. a Filosofia;
     B. a Filosofia e as ciências;
     C. as sociedades primitivas;
     D. o senso comum.

8. As questões filosóficas são:

     A. Fechadas, infinitas e universais;
     B. universais, abertas e abstratas;
     C. finitas, abertas e abstratas;
     D. inconclusivas, abrangentes e pessoais.

9. "O senso comum é um saber completamente inútil". Esta afirmação é:

     A. Falsa, porque a Filosofia é a melhor parte do senso comum;
     B. verdadeira porque o senso comum só serve para nos atrapalhar;
     C. Falsa, porque o senso comum serve para nos orientarmos nas tarefas quotidianas;
     D. verdadeira, porque o senso comum só coloca questões, não dando respostas.

10. "Ousa saber! Tem a coragem de usares o teu próprio entendimento!". Esta afirmação de Kant refere-se a uma característica da Filosofia. A qual?

     A. À historicidade;
     B. à radicalidade;
     C. à universalidade;
     D. à autonomia.



Subgrupo I.2

Decida da verdade ou falsidade dos seguintes enunciados:

1. A filosofia é um saber ametódico.
2. O senso comum é um saber superficial.
3. Quem é filósofo é ignorante.
4. Uma característica das questões filosóficas é que estas não admitem uma resposta conclusiva.
5. Autonomia significa: viver na dependência de outrem.
6. A principal diferença da filosofia em relação ao senso comum é que não é possível responder às questões filosóficas.
7. Uma das características da filosofia é a universalidade, uma vez que se trata de um saber que interessa a todos os seres humanos.
8. As questões filosóficas têm origem na nossa curiosidade, no desejo que todos temos de saber mais acerca da realidade.
9. O filósofo, ao colocar questões, interroga-se a si mesmo.
10. A filosofia está mais próxima da ciência do que do senso comum.



Grupo II

Texto 1
A utilidade da filosofia

"Quem não tem umas tintas de filosofia é homem que caminha pela vida fora sempre agrilhoado a preconceitos que derivam do senso-comum, das crenças habituais do seu tempo e do seu país, das convicções que cresceram no seu espírito sem a cooperação ou o consentimento de uma razão deliberada. 
O mundo tende, para tal homem, a tornar-se finito, definido, óbvio; para ele os objectos habituais não levantam problemas, e as possibilidades não familiares são desdenhosamente rejeitadas. 
Quando começamos a filosofar, pelo contrário, imediatamente nos damos conta de que até os objectos mais comuns conduzem o espírito a certas perguntas a que incompletissimamente se dá resposta. A filosofia, se bem que incapaz de dizer ao certo qual venha a ser a verdadeira resposta às variadas dúvidas que ela própria evoca, sugere numerosas possibilidades que nos conferem amplidão aos pensamentos, descativando-nos da tirania do hábito. Varre o dogmatismo, um tudo nada arrogante, dos que nunca chegaram a empreender viagens nas regiões da dúvida libertadora; e vivifica o sentimento de admiração."
Bertrand Russell

1. Partindo de uma análise do texto, distinga a filosofia do senso comum.
2. Podemos afirmar que o texto 1 pode servir de base para a interpretação da alegoria da caverna? Justifique a sua resposta, explicando o que o autor entende por "dúvida libertadora".

Texto 2

A Ciência e a Filosofia

"Se a ciência tende cada vez mais para a especialização, a filosofia, no sentido inverso, quer superar a fragmentação do real, para que o homem seja resgatado na sua integridade e não sucumba à alienação do saber parcelado. Por isso a filosofia tem uma função de interdisciplinaridade, estabelecendo o elo entre as diversas formas do saber e do agir."
3. Comente o texto 2 explicando a relação entre a filosofia e a ciência.

Grupo III
Este grupo é composto por uma questão de desenvolvimento.

                                                Texto 3
Uma mulher norte-americana de 29 anos com um cancro cerebral terminal decidiu pôr fim à sua própria vida no próximo dia 1 de novembro. Mas, antes, associou-se a um movimento civil para pedir aos responsáveis políticos dos Estados Unidos o alargamento da legislação sobre a eutanásia a mais locais do país.

“Não há nenhuma célula suicida no meu corpo”, disse Brittany Maynard numa entrevista à People. Em janeiro deste ano, Brittany viu ser-lhe diagnosticado um glioblastoma multiforme de nível 4, uma forma severa de tumor cerebral com uma taxa muito baixa de sobrevivência. Na altura, os médicos deram-lhe seis meses de esperança de vida e Brittany optou por não fazer os tratamentos de radioterapia adequados à doença, que afetariam significativamente a sua qualidade de vida.

“O meu glioblastoma vai matar-me e isso está fora do meu controlo. Falei com muitos especialistas sobre como ia morrer disso e é uma forma terrível, terrível de morrer. Escolher morrer com dignidade é menos assustador”, afirma Brittany.

A doente lançou na segunda-feira um vídeo onde explica as razões da sua decisão. A iniciativa tem o apoio de um movimento civil, o Compassion & Choices, que criou, juntamente com Brittany, o The Brittany Maynard Fund, um site que tem como objetivo recolher donativos para aquele movimento, que luta pela expansão da eutanásia de pacientes terminais a todos os estados dos Estados Unidos da América.

Atualmente são cinco os que permitem a morte medicamente assistida. Depois de tomar a decisão sobre a sua própria morte, Brittany e o seu marido mudaram-se de São Francisco, no estado da Califórnia, para Portland, no Oregon, um dos estados que tem legislação que permite a eutanásia por motivos médicos. Para a morte ser autorizada, o estado de saúde do doente tem de ser atestado por dois médicos que, depois, fornecem medicação própria para o efeito.

Há pouco mais de duas semanas, Brittany foi hospitalizada brevemente, mas logo após a alta retomou a sua atividade física normal, que em tempos a levou a escalar o Kilimanjaro. “Quero mesmo festejar o aniversário do meu marido, que é a 26 de outubro”, afirma, para explicar porque escolheu 1 de novembro para a data da sua morte. “Estou a ficar cada vez mais doente, tenho cada vez mais dores”, refere.


No dia 1 de novembro, quando morrer, aos 29 anos, Brittany Maynard estará acompanhada pela sua mãe, pelo seu marido e por um amigo próximo. Morrerá no seu quarto, ouvindo música de que gosta.
observador.pt

      1. Concorda com a decisão de Britney? Responda a esta questão justificando argumentativamente a sua posição sobre a eutanásia e aplicando-a a este caso concreto.



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CORREÇÃO

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Por que existe o ser e não o nada?


Essa é uma questão que eu gostaria de saber responder. Esta pergunta remete-nos para outra: Porque existe tudo aquilo que observamos? Novamente, não tenho resposta, mas sei que não sou a única, pois há perguntas cuja sua linha de resposta ficará em branco.
Por vezes, o existir é problemático, se certas doenças não existissem, milhões de pessoas não estariam infectadas e outras tantas não teriam falecido. O nada, por sua vez, também o pode ser. Se algo não existe na nossa vida, é porque não o devemos ter, ou simplesmente, porque não é a altura adequada para o adquirir, mas se no lugar do nada deveria estar algo, pode causar desassossego ou o sentimento de perda, e tentaremos encontrar uma forma de preencher um vazio, apesar do nada ser infinito em certos casos, e o que parte leva uma parte de nós, e aí, temos de encontrar-nos a nós próprios e transformar o nada negativo num nada positivo.
Como referi anteriormente, o ser/existir e o nada também podem ter um lado positivo. Apesar de eu ser uma mera gota no oceano ou um mero dígito na infinidade de números, sou uma pessoa grata por existir e por existirem pessoas melhores que eu a meu redor. O nada é positivo quando há ausência de situações negativas.
Concluindo, no meu ponto de vista, o ser e o nada existem os dois, completam-se um ao outro, formando uma dualidade, assim como o símbolo Yin-Yang.

Ana Carolina Martins - 10ºE (2014/2015)

domingo, 12 de outubro de 2014

As Principais Disciplinas da Filosofia


As disciplinas da filosofia e os problemas de que tratam

Disciplinas abordadas no 10.° ano

Filosofia da Acção 
Estuda os problemas relacionados com a natureza e racionalidade da acção, como os seguintes:
O que são acções?
Como explicar os comportamentos humanos irracionais?
Que relação existe entre acção, liberdade e responsabilidade?

Axiologia
Estuda a natureza dos valores.
O que são valores?
Os valores são objectivos ou subjectivos?

Antropologia Filosófica
Investiga a natureza humana e a relação desta com as sociedades e as culturas.
O que é o Homem?
O que é a cultura?
Em que medida a socialização molda o ser humano?
Qual a importância da diversidade cultural?

Ética (ou filosofia moral)
Estuda problemas relacionados com o modo como devemos viver e com o que devemos valorizar. A ética abrange três áreas ou subdisciplinas distintas: a metaética, a ética normativa e a ética aplicada. A metaética estuda problemas mais abstractos, relacionados com a natureza da própria ética; a ética normativa estuda diferentes sistemas éticos; e a ética aplicada estuda problemas práticos, como o aborto ou a eutanásia.
Como devemos agir?
Haverá padrões morais universais ou todas as normas morais serão relativas?
O aborto e a eutanásia serão justificáveis?
Os animais têm direitos?

Filosofia Política
Estuda o modo como podemos viver em sociedade e o modo como devemos fazê-lo, o que levanta problemas como os seguintes:
Como deveremos viver em sociedade?
Será o Estado necessário?
Haverá limites para a liberdade individual?
Como se deve distribuir a riqueza?

Estética e Filosofia da Arte
A estética estuda a natureza do juízo estético em geral; a filosofia da arte estuda problemas relacionados com a definição, valor e avaliação da arte.
O que é a arte?
Há boa e má arte?
Por que razão damos valor à arte?
Como se deve avaliar uma obra de arte?

Filosofia da Religião
É o estudo dos conceitos religiosos, da natureza e justificação da crença religiosa:
Serão as crenças religiosas passíveis de discussão racional?
Será que Deus existe?
Será possível compatibilizar a crença no deus teísta com a existência de males no mundo?


Disciplinas abordadas no 11.° ano

Lógica
Estuda e sistematiza a argumentação válida.
Que argumentos são válidos?
Como se distingue a indução da dedução?
Será possível construir um modelo completo do raciocínio?

Filosofia do conhecimento (ou Gnosiologia)
Estuda problemas relacionados com o conhecimento em geral, nomeadamente:
O que é o conhecimento?
O mundo é uma construção nossa ou é ele que determina as nossas crenças?
Qual é a origem dos nossos conhecimentos?
Quais são os limites do conhecimento?

Filosofia da Ciência (ou Epistemologia)
Estuda aspectos epistemológicos, metafísicos e lógicos das ciências em geral, incluindo as ciências da natureza e as ciências humanas. A filosofia das ciências tem dado origem a várias subdisciplinas especializadas: filosofia da biologia, filosofia da física, filosofia das ciências humanas e filosofia da história.
Como demarcar a fronteira entre a ciência e a pseudociência?
Qual é o método científico?
Como justificar a nossa crença na indução?
O que são as leis da natureza?

Metafísica e ontologia
A metafísica estuda problemas relacionados com os aspectos mais gerais da estrutura da realidade. A ontologia é a parte da metafísica que estuda a existência ou o que há.
Que tipo de entidades há?
Os números existem realmente, como as cadeiras?
Haverá verdades necessárias?
A vida tem sentido?


Disciplinas não abordadas no ensino secundário (poderão ser objecto de trabalho opcional)

Filosofia da Linguagem
Estuda todos os problemas relacionados com o funcionamento da linguagem e o fenómeno do significado linguístico.
Como se refere coisas no mundo usando palavras?
O que confere sentido a um termo ou a uma frase?

Filosofia da mente
Estuda problemas metafísicos e epistemológicos dos fenómenos mentais.
O que é a mente?
O que são acontecimentos mentais?
Como interage a mente com o mundo?
Poderão as máquinas pensar?

http://www.aartedepensar.com/leit_problemasdafil.html (Texto adaptado).

terça-feira, 7 de outubro de 2014

A Especificidade da Filosofia





As evidências do quotidiano

Na nossa vida quotidiana, afirmamos, negamos, desejamos, aceitamos ou recusamos coisas, pessoas, situações. Fazemos perguntas como “que horas são?”, ou “que dia é hoje?”. Dizemos frases como “ele está  a sonhar”, ou “ela ficou maluca”. Fazemos afirmações como “onde há fumo, há fogo ”, ou “não ande à chuva para não se constipar”. Avaliamos coisas e pessoas, dizendo, por exemplo, “esta casa é mais bonita do que a outra” e “a Maria está mais jovem do que a Joana”.
Numa discussão, quando os ânimos estão exaltados, um dos contendores pode gritar ao outro: “Mentiroso! Eu estava lá e não foi isso o que aconteceu”, e alguém, querendo acalmar a briga, pode dizer: “Vamos ser objetivos, cada um diga o que viu e vamo-nos entender”.
Também é comum ouvirmos os pais e amigos dizerem que somos muito subjetivos quando o assunto é o namorado ou a namorada. Frequentemente, quando aprovamos uma pessoa, o que ela diz, como ela age, dizemos que essa pessoa “é porreira”.
Vejamos um pouco mais de perto o que dizemos no nosso quotidiano. Quando pergunto “que horas são?” ou “que dia é hoje?”, a minha expectativa é a de que alguém, tendo um relógio ou um calendário, me dê a resposta exata. Em que acredito quando faço a pergunta e aceito a resposta? Acredito que o tempo existe, que ele passa, pode ser medido em horas e dias, que o que já passou é diferente de agora e o que virá também há-de ser diferente deste momento, que o passado pode ser lembrado ou esquecido, e o futuro, desejado ou temido. Assim, uma simples pergunta contém, silenciosamente, várias crenças não questionadas por nós.
Quando digo “ele está a sonhar”, referindo-me a alguém que diz ou pensa alguma coisa que julgo impossível ou improvável, tenho igualmente muitas crenças silenciosas: acredito que sonhar é diferente de estar acordado, que, no sonho, o impossível e o improvável se apresentam como possível e provável, e também que o sonho se relaciona com o irreal, enquanto a vigília se relaciona com o que existe realmente.
Acredito, portanto, que a realidade existe fora de mim, posso percebê-la e conhecê-la tal como é, sei diferenciar realidade de ilusão. A frase “ela ficou maluca” contém essas mesmas crenças e mais uma: a de que sabemos diferenciar razão de loucura e maluca é a pessoa que ‘inventa’ uma realidade existente só para ela. Assim, ao acreditar que sei distinguir razão de loucura, acredito também que a razão se refere a uma realidade que é a mesma para todos, ainda que não gostemos das mesmas coisas.
Quando alguém diz “onde há fumo, há fogo” ou “não ande à  chuva para não se constipar”, afirma silenciosamente muitas crenças: acredita que existem relações de causa e efeito entre as coisas, que onde houver uma coisa certamente houve uma causa para ela, ou que essa coisa é causa de alguma outra (o fogo causa o fumo como efeito, a chuva causa a constipação como efeito). Acreditamos, assim, que a realidade é feita de causalidades, que as coisas, os factos, as situações se encadeiam em relações causais que podemos conhecer e, até mesmo, controlar para o uso da nossa vida.
Quando avaliamos que uma casa é mais bonita do que a outra, ou que Maria está mais jovem do que a Joana, acreditamos que as coisas, as pessoas, as situações, os factos podem ser comparados e avaliados, julgados pela qualidade (bonito, feio, bom, mau) ou pela quantidade (mais, menos, maior, menor). Julgamos, assim, que a qualidade e a quantidade existem, que podemos conhecê-las e usá-las na nossa vida.
Se, por exemplo, dissermos que “o sol é maior do que o vemos”, também estamos a acreditar que a nossa percepção alcança as coisas de modos diferentes, ora tal como são em si mesmas, ora tal como nos aparecem, dependendo da distância, da nossas condições de visibilidade ou da localização e do movimento dos objetos. 
Acreditamos, portanto, que o espaço existe, possui qualidades (perto, longe, alto, baixo) e quantidades, podendo ser medido (comprimento, largura, altura). No exemplo do sol, também se nota que acreditamos que a nossa visão pode ver as coisas diferentemente do que elas são, mas nem por isso diremos que estamos a sonhar ou que ficámos malucos.
Numa briga, quando alguém chama o outro mentiroso porque não estaria a dizer os factos exatamente como aconteceram, está presente a nossa crença de que há diferença entre verdade e mentira. A primeira diz as coisas tais como são, enquanto a segunda faz exatamente o contrário, distorcendo a realidade.
No entanto, consideramos a mentira diferente do sonho, da loucura e do erro porque o sonhador, o louco e o que erra se iludem involuntariamente, enquanto o mentiroso decide voluntariamente deformar a realidade e os factos.
Com isso, acreditamos que o erro e a mentira são falsidades, mas diferentes porque somente na mentira há a decisão de enganar.
Ao diferenciarmos erro de mentira, considerando o primeiro uma ilusão ou um engano involuntários e a segunda uma decisão voluntária, manifestamos silenciosamente a crença de que somos seres dotados de vontade e que dela depende dizer a verdade ou a mentira.
Ao mesmo tempo, porém, nem sempre avaliamos a mentira como alguma coisa má: não gostamos tanto de ler romances, ver novelas, ver filmes? E não são mentira? É que também acreditamos que quando alguém nos avisa que está a mentir, a mentira é aceitável, não seria uma mentira “a sério”.
Quando distinguimos entre verdade e mentira e distinguimos mentiras inaceitáveis de mentiras aceitáveis, não estamos apenas a referir-nos ao conhecimento ou desconhecimento da realidade, mas também ao carácter da pessoa, à sua moral. Acreditamos, portanto, que as pessoas, porque possuem vontade, podem ser morais ou imorais, pois cremos que a vontade é livre para o bem ou para o mal.
No exemplo da briga, quando uma terceira pessoa pede às outras duas para que sejam “objetivas” ou quando falamos dos namorados como sendo “muito subjetivos”, também estamos cheios de crenças silenciosas. Acreditamos que quando alguém quer defender muito intensamente um ponto de vista, uma preferência, uma opinião, até brigando por isso, ou quando sente um grande afeto por outra pessoa, esse alguém “perde” a objetividade, ficando “muito subjetivo”.
Com isso, acreditamos que a objetividade é uma atitude imparcial que alcança as  coisas tal como são verdadeiramente, enquanto a subjetividade é uma atitude parcial, pessoal, ditada por sentimentos variados (amor, ódio, medo, desejo). Assim, não só acreditamos que a objetividade e a subjetividade existem, como ainda acreditamos que são diferentes e que a primeira não deforma a realidade, enquanto a segunda, voluntária ou involuntariamente, a deforma. 
Ao dizermos que alguém “é porreiro” porque tem os mesmos gostos, as mesmas ideias, respeita ou despreza as mesmas coisas que nós e tem atitudes, hábitos e  costumes muito parecidos com os nossos, estamos, silenciosamente, a acreditar que a vida com as outras pessoas - família, amigos, escola, trabalho, sociedade, política - nos faz semelhantes ou diferentes em por influência de normas e valores morais, políticos, religiosos e artísticos, regras de conduta, finalidades de vida.
Achando óbvio que todos os seres humanos seguem regras e normas de conduta, possuem valores morais, religiosos, políticos, artísticos, vivem na companhia dos seus semelhantes e procuram distanciar-se dos diferentes dos quais discordam e com os quais entram em conflito, acreditamos que somos seres sociais, morais e racionais, pois regras, normas, valores, finalidades só podem ser estabelecidos por seres conscientes e dotados de raciocínio. Como se pode notar, a nossa vida quotidiana é toda feita de crenças silenciosas, da aceitação tácita de evidências que nunca questionamos porque nos parecem naturais, óbvias. Cremos no espaço, no tempo, na realidade, na qualidade, na quantidade, na verdade, na diferença entre realidade e sonho ou loucura, entre verdade e mentira; cremos também na objetividade e na diferença entre ela e a subjetividade, na existência da vontade, da liberdade, do bem e do mal, da moral, da sociedade.

A atitude filosófica

Imaginemos, agora, alguém que tomasse uma decisão muito estranha e começasse a fazer perguntas inesperadas. Em vez de “que horas são?” ou “que dia é hoje?”, perguntasse: O que é o tempo? Em vez de dizer “está a sonhar” ou “ficou maluca”, quisesse saber: O que é o sonho? A loucura? A razão?
Se essa pessoa fosse substituindo sucessivamente suas perguntas, as suas afirmações por outras: “Onde há fumo, há fogo”, ou “não ande à chuva para não ficar constipado”, por: O que é causa? O que é efeito?; “seja objetivo ”, ou “eles são muito subjetivos”, por: O que é a objetividade? O que é a subjetividade?; “Esta casa é mais bonita do que a outra”, por: O que é “mais”? O que é “menos”? O que é o belo?
Em vez de gritar “mentiroso!”, questionasse: O que é a verdade? O que é o falso? O que é o erro? O que é a mentira? Quando existe verdade e por quê? Quando existe ilusão e por quê?
Se, em vez de falar na subjetividade dos namorados, inquirisse: O que é o amor? 

O que é o desejo? O que são os sentimentos? Se, em lugar de discorrer tranquilamente sobre “maior” e “menor” ou “claro” e “escuro”, resolvesse investigar: O que é a quantidade? O que é a qualidade? E se, em vez de afirmar que gosta de alguém porque possui as mesmas ideias, os mesmos gostos, as mesmas preferências e os mesmos valores, preferisse analisar: O que é um valor? O que é um valor moral? O que é um valor artístico? O que é a moral? O que é a vontade? O que é a liberdade?
Alguém que tomasse essa decisão, estaria a tomar distância da vida quotidiana e de si mesmo, teria passado a indagar o que são as crenças e os sentimentos que alimentam, silenciosamente, a nossa existência.
Ao tomar essa distância, estaria interrogando-se a si mesmo, desejando conhecer porque cremos no que cremos, porque sentimos o que sentimos e o que são as nossas crenças e os nossos sentimentos. Esse alguém estaria a começar a adoptar o que chamamos atitude filosófica.
Assim, uma primeira resposta à pergunta “O que é Filosofia?” poderia ser: A decisão de não aceitar como óbvias e evidentes as coisas, as ideias, os factos, as situações, os valores, os comportamentos da nossa existência quotidiana; nunca aceitá-los sem antes os haver investigado e compreendido.
Perguntaram, certa vez, a um filósofo: “Para que serve a Filosofia?”. E ele respondeu: “Para não darmos nossa aceitação imediata às coisas, sem maiores considerações”.

A atitude crítica

A primeira característica da atitude filosófica é negativa, isto é, um dizer não ao senso comum, aos pré-conceitos, aos pré-juízos, aos factos e às ideias da experiência quotidiana, ao que “todos dizem e pensam”, ao estabelecido.
A segunda característica da atitude filosófica é positiva, isto é, uma interrogação sobre o que são as coisas, as ideias, os factos, as situações, os comportamentos, os valores, nós mesmos. É também uma interrogação sobre o porquê disso tudo e de nós, e uma interrogação sobre como tudo isso é assim e não de outra maneira. O que é? Por que é? Como é? Essas são as indagações fundamentais da atitude filosófica.
A face negativa e a face positiva da atitude filosófica constituem o que chamamos atitude crítica e pensamento crítico.
A Filosofia começa por dizer não às crenças e aos preconceitos do senso comum e, portanto, começa por dizer que não sabemos o que imaginávamos saber; por isso, o patrono da Filosofia, o grego Sócrates, afirmava que a primeira e fundamental verdade filosófica é dizer: “Só sei que nada sei”. Para o discípulo de Sócrates, o filósofo grego Platão, a Filosofia começa com a admiração; já o discípulo de Platão, o filósofo Aristóteles, acreditava que a Filosofia começa com o espanto.
Admiração e espanto significam: tomarmos distância do nosso mundo costumeiro, através do nosso pensamento, olhando-o como se nunca o tivéssemos visto antes, como se não tivéssemos tido família, amigos, professores, livros e outros meios de comunicação que nos tivessem dito o que o mundo é; como se estivéssemos acabado de nascer para o mundo e para nós mesmos e precisássemos de perguntar o que é, por que é e como é o mundo, e precisássemos de perguntar também o que somos, por que somos e como somos.

Para quê a Filosofia?

Ora, muitos fazem uma outra pergunta: afinal, para que serve a Filosofia? É uma pergunta interessante. Não vemos nem ouvimos ninguém perguntar, por exemplo, para que serve a matemática ou a física? Para que serve a geografia ou a geologia? Para que serve a história ou a sociologia? Para que serve a biologia ou a psicologia? Para que serve a astronomia ou a química? Para que serve a pintura, a literatura, a música ou a dança? Mas toda a gente acha muito natural perguntar: Para que serve a Filosofia? Em geral, essa pergunta costuma receber uma resposta irónica, conhecida dos estudantes de Filosofia: “A Filosofia é uma coisa com a qual e sem a qual o mundo permanece tal e qual”. Ou seja, a Filosofia não serve para nada. Por isso, se costuma chamar “filósofo” alguém sempre distraído, com a cabeça no mundo da lua, pensando e dizendo coisas que ninguém entende e que são perfeitamente inúteis.
Essa pergunta, “Para que serve a Filosofia?”, tem a sua razão de ser. Na nossa cultura e na nossa sociedade, costumamos considerar que alguma coisa só tem o direito de existir se tiver alguma finalidade prática, muito visível e de utilidade imediata. Por isso, ninguém pergunta para que servem as ciências, pois toda a gente imagina ver a utilidade das ciências nos produtos da técnica, isto é, na aplicação das teorias científicas à realidade.
Toda a gente também imagina ver a utilidade das artes, tanto por causa da compra e venda das obras de arte, quanto porque nossa cultura vê os artistas como gênios que merecem ser valorizados para o elogio da humanidade. Ninguém, todavia, consegue ver para que serviria a Filosofia, daí o dizer-se: “não serve para coisa alguma!”
Parece, porém, que o senso comum não vê algo que os cientistas sabem muito bem. As ciências pretendem ser conhecimentos verdadeiros, obtidos graças a procedimentos rigorosos de pensamento; pretendem agir sobre a realidade, através de instrumentos e objetos técnicos; pretendem fazer progressos nos conhecimentos, corrigindo-os e aumentando-os.
Ora, todas essas pretensões das ciências pressupõem que elas acreditam na existência da verdade, de procedimentos corretos para bem usar o pensamento, na tecnologia como aplicação prática de teorias, na racionalidade dos conhecimentos, porque podem ser corrigidos e aperfeiçoados.
Verdade, pensamento, procedimentos especiais para conhecer factos, relação entre teoria e prática, correção e acumulação de saberes: tudo isso não é ciência, são questões filosóficas. O cientista parte delas como questões já respondidas, mas é a Filosofia quem as formula e busca respostas para elas.
Assim, o trabalho das ciências pressupõe, como condição, o trabalho da Filosofia, mesmo que o cientista não seja filósofo. No entanto, como apenas os cientistas e filósofos sabem disso, o senso comum continua a afirmar que a Filosofia não serve para nada.
Para dar alguma utilidade à Filosofia, muitos consideram que, de facto, a Filosofia não serviria para nada, se “servir” fosse entendido como a possibilidade de fazer usos técnicos dos produtos filosóficos ou dar-lhes utilidade económica, obtendo lucros com eles; consideram também que a Filosofia nada teria a ver com a ciência e a técnica. 
Para quem pensa dessa forma, o principal para a Filosofia não seriam os  conhecimentos (que ficam por conta da ciência), nem as aplicações de teorias (que ficam por conta da tecnologia), mas o ensinamento moral ou ético. A Filosofia seria a arte do bem viver.
Estudando as paixões e os vícios humanos, a liberdade e a vontade, analisando a capacidade da nossa razão para impor limites aos nossos desejos e paixões, ensinando-nos a viver de modo honesto e justo na companhia dos outros seres humanos, a Filosofia teria como finalidade ensinar-nos a virtude, que é o princípio do bem-viver.
Essa definição da Filosofia, porém, não nos ajuda muito. De facto, mesmo para ser uma arte moral ou ética, ou uma arte do bem-viver, a Filosofia continua a fazer as suas perguntas desconcertantes e embaraçosas: O que é o homem? O que é a vontade? O que é a paixão? O que é a razão? O que é o vício? O que é a virtude? O que é a liberdade? Como nos tornamos livres, racionais e virtuosos? Porque é que a liberdade e a virtude são valores para os seres humanos? O que é um valor? Porque é que avaliamos os sentimentos e as ações humanas? 
Assim, mesmo se disséssemos que o objeto da Filosofia não é o conhecimento da realidade, nem o conhecimento da nossa capacidade para conhecer, mesmo se disséssemos que o objeto da Filosofia é apenas a vida moral ou ética, ainda assim, o estilo filosófico e a atitude filosófica permaneceriam os mesmos, pois as perguntas filosóficas - o que é, porquê e como - permanecem.

Atitude filosófica: indagar/questionar/problematizar/interrogar

Se, portanto, deixarmos de lado, por enquanto, os objetos com os quais a Filosofia se ocupa, veremos que a atitude filosófica possui algumas características que são as mesmas, independentemente do conteúdo investigado.
Essas características são:
- perguntar o que a coisa, ou o valor, ou a ideia, é. A Filosofia pergunta qual é a realidade ou natureza e qual é a significação de alguma coisa, não importa qual; qual é a estrutura e quais são as relações que constituem uma coisa, uma ideia ou um valor;
- perguntar porque é que a coisa, a ideia ou o valor, existe e é como é. A Filosofia pergunta pela origem ou pela causa de uma coisa, de uma ideia, de um valor.
A atitude filosófica inicia-se dirigindo essas indagações ao mundo que nos rodeia e às relações que mantemos com ele. Pouco a pouco, porém, descobre que essas questões se referem, afinal, à nossa capacidade de conhecer, à nossa capacidade de pensar.
Por isso, pouco a pouco, as perguntas da Filosofia se dirigem ao próprio pensamento: o que é pensar, como é pensar, por que há o pensar? A Filosofia torna-se, então, o pensamento interrogando-se a si mesmo. Por ser uma volta que o pensamento realiza sobre si mesmo, a Filosofia realiza-se como reflexão.

A reflexão filosófica

Reflexão significa movimento de volta sobre si mesmo ou movimento de retorno a si mesmo. A reflexão é o movimento pelo qual o pensamento se volta para si mesmo, interrogando-se a si mesmo.
A reflexão filosófica é radical porque é um movimento de volta do pensamento sobre si mesmo para conhecer-se a si mesmo, para indagar como é possível o próprio pensamento.
Não somos, porém, somente seres pensantes. Somos também seres que agem no mundo, que se relacionam com os outros seres humanos, com os animais, as plantas, as coisas, os factos e acontecimentos, e exprimimos essas relações tanto por meio da linguagem quanto por meio de gestos e ações. 
A reflexão filosófica também se volta para essas relações que mantemos com a realidade circundante, para o que dizemos e para as ações que realizamos nessas relações.
A reflexão filosófica organiza-se em torno de três grandes conjuntos de perguntas ou questões:

1. Porque é pensamos o que pensamos, dizemos o que dizemos e fazemos o que fazemos? Isto é, quais os motivos, as razões e as causas para pensarmos o que pensamos, dizermos o que dizemos, fazermos o que fazemos?
2. O que queremos pensar quando pensamos, o que queremos dizer quando falamos, o que queremos fazer quando agimos? Isto é, qual é o conteúdo ou o sentido do que pensamos, dizemos ou fazemos?
3. Para que é que pensamos o que pensamos, dizemos o que dizemos, fazemos o que
fazemos? Isto é, qual é a intenção ou a finalidade do que pensamos, dizemos e fazemos?

Essas três questões podem ser resumidas em: O que é pensar, falar e agir? E elas pressupõem a seguinte pergunta: As nossas crenças quotidianas são ou não um saber verdadeiro, um conhecimento?
Como vimos, a atitude filosófica inicia-se questionando: O que é? Como é? Por que é?, dirigindo-se ao mundo que nos rodeia e aos seres humanos que nele vivem e com ele se relacionam. São perguntas sobre a essência, a significação ou a estrutura e a origem de todas as coisas.
Já a reflexão filosófica indaga: Porquê?, O quê?, Para quê?, dirigindo-se ao pensamento, aos seres humanos no ato da reflexão. São perguntas sobre a capacidade e a finalidade humanas para conhecer e agir.

Marilena Chauí, Convite à filosofia

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

O Método Socrático


A DIALÉTICA
Em geral, o método dialógico de Sócrates é constituído por dois momentos fundamentais:

 - a ironia que denuncia as verdades feitas e o falso saber daqueles que pretendiam reduzir o verdadeiro ao verosímil; 
- a maiêutica, técnica através da qual se consegue observar como é que uma ciência desconhecida se transforma progressivamente numa ciência conhecida. /.../ Segundo Platão, Sócrates fora buscar a sua arte da maiêutica à sua mãe que era parteira. Na Grécia clássica só as mulheres que já não podiam dar à luz estavam autorizadas a ajudar ao parto das outras. Sócrates considerava a sua arte como a arte de parturejar; só que agora são homens que dão à luz e é do parto das suas almas que se trata.  Sócrates revelava aos outros aquilo que eles próprios sabiam sem de tal terem consciência. Ele pretendia que o seu questionamento sistemático levasse os outros a um ponto crucial de consciência crítica, procurando a verdade no seu interior, dando assim lugar ao "parto intelectual". A maiêutica é, assim, a fase positiva, construtiva, do método socrático que permite o acordo através das certezas universais obtidas pela definição após a discussão. /.../
Através de perguntas/respostas pretendia dar e devolver argumentos entre interlocutores através de um discurso curto e preciso cujo objectivo era a procura da verdade. A este método cuja arte subtil está na capacidade de argumentar chama-se "dialéctica".
Numa primeira fase Sócrates procura de forma polémica destruir a suposta coerência do raciocínio dos seus interlocutores. Sócrates faz com que os outros falem sobre aquilo que afirmam para os obrigar a reflectir sobre aquilo que fazem. Ele opõe-se à verdade estereotipada, ao dogmatismo e pretende destruir os preconceitos irreflectidos. Quer que os seus interlocutores se consciencializem da suposta "verdade" das suas afirmações levando-os a um exame de consciência que lhes dará conta da sua ignorância. É como se os conhecimentos das pessoas fossem postos em causa através da interrogação e não de uma forma expositiva. Assim os adversários de Sócrates são levados à dúvida relativamente aos seus próprios conhecimentos ficando embaraçados com as perguntas insidiosas e precisas, cujas respostas demonstram quão fracos são os seus argumentos e opiniões.
Mas Sócrates usava então uma das suas outras técnicas: dar a mão ao interlocutor apesar de achar que este estava vencido no argumento usado. O que Sócrates pretendia era que não houvessem vencedores nem vencidos mas caminhar conjuntamente para estabelecer a verdade.
/.../ Sócrates não responde  às próprias questões que lança. Não dá respostas positivas. Sócrates não pretende informar mas formar. Aquilo que viesse do mestre em sentido único teria apenas um efeito exterior sobre a consciência do aluno; a formação só pode efectuar-se segundo o ritmo e as exigências próprias do desenvolvimento interior individual. Sócrates repete que nada sabe, nada tem para ensinar, nem ninguém a quem formar. E não tendo nada para oferecer a não ser a sua companhia basta que cada um pense por si próprio para se aperceber de que sabe mais do que ele. /.../
O  modo como Sócrates se dirige ao seu interlocutor e desenvolve o seu método apresenta quatro características:
É um método dual, na medida em que se dirige sempre a um interlocutor determinado. Sócrates nunca se dirige a um grupo de homens, nem aos homens em geral. Há sempre um personagem concreto a quem  dirige as suas perguntas, com quem dialoga segundo as particularidades desse indivíduo. /.../
É dialéctico. Sócrates jamais admitia como verdadeiro o que seu interlocutor não admitisse como verdadeiro. Assim o diálogo só se desenrola e toma caminho mediante aquilo a que o interlocutor dá acordo. Nunca Sócrates impõe as suas ideias a ninguém. /.../
É refutatório. Nos seus diálogos, Sócrates ocupa o lugar de interrogador. Aliás, nem podia ser de outro modo uma vez que ele parte para a discussão com uma atitude de dúvida constante, afirmando nada saber - "só sei que nada sei". Cabe ao seu interlocutor responder. Esta característica do modo pelo qual Sócrates se dirige ao seu interlocutor, está fortemente ligada ao primeiro momento em que há a destruição das ideias feitas, da tese que o interlocutor sustenta inicialmente como verdadeira. É através desta característica que Sócrates faz com que o seu interlocutor entre em contradição. /.../
A última característica é a parresia. Esta característica consiste em o interlocutor dizer o que pensa verdadeiramente sem se preocupar nem com a opinião ou a reação dos outros /.../, aderindo totalmente ao que é verdadeiro (trata-se da coragem de aderir à verdade sejam quais forem as consequências). O interlocutor compromete-se de um modo total com a verdade, sendo o caminho para a prática do bem e da virtude. 
(Texto Adaptado)
Olga Pombo

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

O que sou eu?


Eu sou um enigma. Eu sou uma equação mal resolvida.
Sou um livro com páginas soltas, outras riscadas e outras até mesmo em branco. Existem erros ortográficos em todo o livro, erros que não podem ser remediados. Em algumas páginas existem fotografias a preto e branco, memórias do passado e perguntas em relação ao futuro. No meio das páginas, encontramos restos de borracha gasta, fruto do esforço para tentar ser melhor. A história deste livro é verídica e fictícia em simultâneo, pois uma parte é constítuida pelas lições e empurrões da vida e a outra pelos sonhos e objetivos que ainda não passam de ideias.
Não sei o título, nem mesmo como o livro acaba.
Mas, no fim, sei que quero colocá-lo na prateleira da minha biblioteca, sabendo que continuarei a ver a sua lombada na secção das incógnitas.

Joana Carvalho, 10ºE (2014-2015)

'Conhece-te a ti mesmo'




Conhece-te a ti mesmo: Sócrates e a nossa relação com o mundo
A figura de Sócrates é como um divisor de águas na Filosofia Antiga, tanto que os filósofos anteriores a ele são tradicionalmente designados como pré-socráticos.
De facto, com Sócrates há uma mudança significativa no rumo das discussões filosóficas sobre a verdade e o conhecimento. Os primeiros filósofos estavam preocupados em encontrar o fundamento (arqué) de todas as coisas. Sócrates, por sua vez, está mais interessado na nossa relação com os outros e com o mundo.
Curiosamente, Sócrates nada escreveu - e tudo o que sabemos dele é graças aos seus discípulos, particularmente Platão. Sócrates teria tomado a inscrição da entrada do templo de Delfos como inspiração para construir a sua filosofia: ‘Conhece-te a ti mesmo’.
Para compreendermos o sentido dessa frase, segundo o filósofo francês Michel Foucault (1926-1984), devemos inscrevê-la numa estratégia mais geral do cuidado de si.
Ou seja, o que Sócrates defendia era que nós devemos ocupar-nos menos com as coisas (riqueza, fama, poder) e passarmos a ocupar-nos connosco mesmos. Poderia perguntar-se: porque é que deveria ocupar-me comigo mesmo? Porque é o caminho que me permite ter acesso à verdade.
Mas que tipo de verdade? Obviamente não é uma verdade qualquer, tal como a fórmula química da água, mas a verdade que é capaz de transformá-lo, a si leitor, num ser autónomo.
É desse ato de conhecimento, capaz de promover a nossa auto-transcendência, de que fala Sócrates. Conhecer-me a mim mesmo para saber como modificar a minha relação para comigo, com os outros e com o mundo, ultrapassando as minhas limitações.

Como ter acesso à verdade?
Tal modificação para ter acesso à verdade, contudo, não é um ato puramente intelectual. Ela exige, por vezes, determinadas renúncias e purificações, das quais Sócrates é um exemplo.
Sócrates dizia que tinha como missão divina exortar os atenienses, fossem eles velhos ou jovens, a deixarem de cuidar das coisas, passando a cuidar de si mesmos. Tal atitude fê-lo dedicar-se inteiramente à filosofia e à prática dialógica (uma forma especial de diálogo, denominada maiêutica) por meio da qual ele fazia com que os seus interlocutores percebessem as inconsistências do seu discurso e se autocorrigissem.
A atitude de Sócrates questionava os valores da sociedade ateniense, razão pela qual os seus inimigos o levaram a tribunal, onde foi julgado e condenado à morte. A sua morte, porém, não impediu que a questão do cuidado de si se tornasse um tema central na filosofia durante mais de dois mil anos - e influenciasse muitos filósofos modernos e contemporâneos.
A questão central do cuidado de si é que jamais se tem acesso à verdade sem uma experiência de purificação, de meditação, de exame de consciência - enfim, através de determinadas atividades espirituais capazes de transfigurar o nosso próprio ser.
Dito de outro modo, o estado de iluminação, de descoberta da verdade, não é só produto do estudo, mas de uma prática acompanhada de reflexão constante sobre as nossas ações, as nossas atitudes, os nossos pensamentos, os nossos desejos - e de como podemos modificá-los para nos tornarmos pessoas melhores. É como se a vida fosse uma obra de arte em que nós nos fôssemos moldando, nos fôssemos aperfeiçoando no decorrer da nossa existência.

A difícil busca da verdade
Atualmente, estamos distantes dessa perspectiva socrática do cuidado de si. A ciência moderna está preocupada com a produção e acumulação de conhecimentos.
Mas quando nos perguntamos: para que é que acumulamos e produzimos conhecimento? A resposta é simplesmente: para aumentar infinitamente o nosso conhecimento. Entramos, assim, numa corrida sem fim, em que nunca nos questionamos se isso realmente nos está a trazer os benefícios prometidos.
Claro que a tecnologia traz inegáveis benefícios, mas não parece que as pessoas, atualmente, estejam mais felizes. Pode-se alegar, no entanto, que não é papel do conhecimento e da ciência promover a felicidade humana - e que, talvez, conhecimento e ciência tenham como principal função a de contribuir para a concentração de poder e dinheiro nas mãos de alguns poucos.
Sócrates, porém, via a busca da verdade como um caminho de ascese, pois, quando cuidamos de nós mesmos, modificamos a nossa relação com os outros e com o mundo.
Mergulhados em preocupações com a aparência e o consumo, pensamos estar a cuidar de nós mesmos, quando na verdade nos estamos a perder no meio das coisas. É preciso conhecermo-nos a nós mesmos para não nos perdermos. Claro que você não vai encontrar toda a verdade em si mesmo, mas, pelo menos, a única verdade capaz de salvá-lo, ou seja, de dar sentido à sua vida.
Josué Cândido da Silva
http://educacao.uol.com.br/disciplinas/filosofia/conhece-te-a-ti-mesmo-socrates-e-a-nossa-relacao-com-o-mundo.htm

A verdadeira simplicidade
“Encara as coisas com leveza, mas interiormente  com plenitude e atenção. Não deixes passar um momento sem teres plena consciência do que está a acontecer dentro de ti e à tua volta. Normalmente isso é o que significa ser-se sensível, não a uma ou duas coisas, mas ser-se sensível a tudo. Ser-se sensível à beleza e resistir ao feio é gerar conflito. Enquanto se observa, apercebemo-nos de que a mente está sempre a julgar – isto é bom e aquilo é mau, isto é branco e aquilo é preto - , a julgar pessoas, a comparar, a medir, a calcular. A mente nunca está quieta. Poderá a mente olhar, observar sem julgar, sem calcular? Tenta compreender sem dar nome ao que vês .e vê apenas se a mente pode fazer isso.
Brinca com isso. Não forces, deixa a mente olhar para si própria. Muitas pessoas, tentando ser simples, começam pelo exterior, descartando, renunciando; mas, interiormente, permanece a complexidade dos seus seres. Quando existe simplicidade interior, o exterior corresponde ao interior. Sermos simples por dentro é estarmos libertos do impulso pelo “mais”, o que não quer dizer que estejamos satisfeitos com o que é . Estarmos libertos do impulso pelo “mais” é não pensarmos em termos de tempo, de progressão, de chegar lá. Sermos simples é a mente libertar-se a si própria de todos os resultados, é esvaziar-se de todo o conflito. Esta é a verdadeira simplicidade.
Como poderá a mente debater-se entre o feio e o belo, agarrando-se a um e empurrando para longe o outro? Este conflito torna a mente insensível e exclusivista. Qualquer tentativa por parte da mente para encontrar uma linha que separe o feio do belo faz ainda parte de um ou de outro. O pensamento não pode, faça ele o que fizer, libertar-se dos opostos; o próprio pensamento criou o feio e o belo, o bom e o mau. Portanto, ele não pode libertar-se das suas próprias atividades. Tudo o que pode fazer é ficar quieto, não escolher. A escolha é conflito, e a mente volta de novo à sua própria confusão. A quietude da mente liberta-nos da dualidade. J. Krishnamurti, Cartas a uma jovem amiga, tradução de Joaquim Palma, Editorial Presença, Lisboa, 2008, pp. 36-37.

A revolta inteligente
“Sê mentalmente flexível. A força não está em ser-se firme e forte mas em ser-se flexível. A árvore, que é flexível, aguenta-se no meio da ventania. Reúne em ti a força que existe na brisa ligeira.
A vida é estranha, tem tantas coisas a acontecerem inesperadamente, que a mesma resistência não resolverá qualquer problema. Precisamos de infinita flexibilidade e de um coração simples.
A vida é como o fio de uma lâmina, e cada um tem de percorrer esse caminho com extremo cuidado e flexível sabedoria.
A vida é tão rica, tem tantos tesouros, mas chegamos a ela com os corações vazios; não sabemos encher os nossos corações com a abundância da vida. Interiormente somos pobres e, quando as riquezas da vida nos são oferecidas, nós recusamo-las. /.../
Mantém a mente aberta. Vive no passado, se tiver de ser, mas não lutes contra esse passado; quando o passado chegar, olha para dentro dele, não o empurres para longe nem te agarres demasiado a ele. A experiência de todos estes anos, a dor e a alegria, os momentos de sofrimento e a memória da separação, a sensação de distância, tudo isso trará enriquecimento e beleza. O importante é o que tens no coração; e desde que isso esteja a transbordar, tu tens tudo, tu és tudo.
Está atenta a todos os teus pensamentos e sentimentos, não permitas que um único sentimento ou pensamento surja sem que te apercebas dele, e absorve todo o seu conteúdo. Absorver não é a palavra adequada; trata-se, sim, de ver todo o conteúdo do pensamento-sentimento. É como entrar numa sala e ver, de uma só vez, tudo o que está nela, a sua atmosfera e os seus espaços. Vermos e estarmos atentos aos  pensamentos torna-nos intensamente sensíveis, flexíveis e vigilantes. Não condenes nem julgues, mas está bem atenta. Da separação e das escórias retira-se o ouro puro.
Ver o que é, é muito difícil. Como se pode observar com clareza? Um rio quando encontra um obstáculo não fica parado; ele quebra a barreira usando a sua força, ou passa por cima dela, ou por baixo, ou vai à volta; ele não fica quieto; ele só pode agir. O rio revolta-se, por assim, dizer, inteligentemente. Para percebermos aquilo que é, tem de haver o espírito da revolta inteligente. Para não sermos confundidos com um pedaço de tronco, é preciso termos uma certa inteligência; mas geralmente estamos tão ávidos de possuir aquilo que desejamos, que vamos contra o obstáculo; ou despedaçamo-nos de encontro a ele ou ficamos exaustos lutando contra ele. Ver a corda como corda não requer coragem, mas tomar a corda por uma serpente, ficando a olhar, requer coragem. Devemos duvidar, procurar sempre, ver o falso como falso. Ganhamos força para vermos através da intensidade da atenção; tu vais ver, isso virá. Para agir, cada um deve estar num estado de negação; a negação traz a sua própria ação positiva. Penso que a questão reside em ver com clareza, porque a percepção gera a sua própria ação. Quando há elasticidade, não se põe a questão do certo e do errado.
Cada um de nós tem que estar muito lúcido dentro de si mesmo. Nessa altura, asseguro-te, tudo dará certo. Tenta estar lúcida, e verás que as coisas se tornarão certas sem que tu faças o que quer que seja a respeito disso. O que está certo não é aquilo que desejamos.
Tem de haver uma revolução total, não apenas nas grandes coisas, mas também nas pequenas coisas do dia-a-dia. Tu passaste por essa revolução, não voltes atrás, mantém-te nela. Mantém-te a ferver, interiormente.
J. Krishnamurti, Idem, pp. 7-8.