segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Para além do subjetivismo e do objetivismo axiológicos



A realização dos valores

“Os valores podem tornar‑se realidade. Uma obra científica, uma obra de arte, uma acção moral representam realizações de valores. Toda a cultura é isto, e o seu respectivo conceito não tem, nem pode ter, outro sentido. A cultura humana é, na sua íntima essência, uma realização de valores.
Examinemos, porém, agora, mais de perto, este fenómeno da realização dos valores.  A primeira coisa que se nos depara é esta: os valores, que começam por ser algo de ideal, por pertencer a uma esfera de ser ideal e de valer, como vimos, penetram em certo momento na esfera do real. O valor irreal torna‑se real, isto é, assume existência, encarna.  Mas como se passa isto? Evidentemente não no sentido de o valor se tornar real em si mesmo, de passar a ser aquilo que era, de passar a existir independentemente, como uma coisa, ou de assumir uma força de ser substancial. Não consiste num ser em si mesmo, mas num ser que está noutro ser. Assim, por exemplo, um valor estético converte‑se em existencial no quadro do pintor; o valor ético, na acção do homem virtuoso. O quadro do pintor passa então a chamar‑se 'belo', a acção do homem, a chamar‑se 'boa'. Isto é: os valores, portanto, só podem tornar‑se existenciais sob a forma de qualidades, características, modos  de ser. Não possuem um ser independente, mas são de certo modo 'trazidos', sustentados' pelos objectos nos quais se realizam; estes objectos tornam‑se seu 'suporte', as coisas são então 'portadoras' dos valores."
Johannes Hessen

Os valores são regras que orientam a conduta humana, servindo de padrão à deliberações dos indivíduos e dando coerência à sua vida social. Os valores são, em grande medida, colectivos, havendo, no entanto, ocasiões em que indivíduos ou grupos restritos de indivíduos propõem novos valores, que passam a ter a adesão de sociedades inteiras.
Há valores que são partilhados por um grande número de sociedades, não havendo, contudo, provas da existência de valores universais, ou seja, valores aceites por todas as sociedades humanas.        

No entanto, há valores cuja universalização seria desejável, uma vez que isso se traduziria num progresso efectivo da civilização: é o caso dos Direitos Humanos.
Os valores são históricos, surgem, disseminam-se e morrem, acompanhando a vida das sociedades em que nascem, mas enquanto estão em vigor, a sua valia é incondicional, ou seja, os valores, não sendo eternos, valem como se o fossem, fazendo lembrar o conhecido verso de Vinícius de Morais: “que o nosso amor seja eterno enquanto dure”. Os valores valem incondicionalmente enquanto são aceites, só assim podem servir de padrão às nossas preferências.

 Não há valores estritamente individuais, pelo que os valores terão sempre alguma objectividade: a sua valia não varia de indivíduo para indivíduo. Mas a valoração é sempre subjectiva, exprime sempre uma apreciação pessoal da realidade. Dois indivíduos podem estar de acordo sobre o que é o belo, mas podem discordar sobre a beleza de um quadro, por exemplo.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Como fazer o resumo de um texto



Os resumos são documentos que abreviam a informação de um outro conteúdo. Trata-se de retirar dados acessórios e guardar somente o mais importante.

Para aprender a fazer um bom resumo precisas de saber, antes de mais, o que é um resumo. É um tipo de texto abreviado, realizado a partir de outro. Não se trata de palavras desordenadas (isso seria um diagrama ou ficha de leitura), mas de uma composição coerente que possa ser compreendida, mesmo sem termos lido a versão original. A vantagem de fazeres um resumo é memorizares o que aprendeste e estudares um determinado tema com mais rapidez antes de uma prova.

O primeiro passo para fazer um resumo eficaz é ler o material por completo. Dedica algum tempo a isso. Deves lê-lo com calma para que o entendas em profundidade. Se alguma dúvida surgir, esclarece-a antes de continuares a ler. Depois, descansa um pouco e volta à leitura, porém, desta vez, destacando os dados que consideras mais importantes. Cada parágrafo tem uma palavra-chave e cada capítulo tem um parágrafo imprescindível.

Agora que já tens o essencial, pega uma folha em branco e começa a escrever uma composição diferente do texto base, mas baseado nele e usando as tuas próprias palavras. Finalmente, relê o teu resumo, para te assegurares que está compreensível.

Um bom resumo deve ter uma densidade que não supera 30% da capacidade total do documento original. Ou seja: se o texto-base tem 10 páginas, deves fazer um resumo com 3 páginas ou menos. Da mesma forma, não pode ter referências ao original. Tem que ser independente. Uma pessoa que não leu o texto-base tem que entender perfeitamente o resumo.

Em geral, o bom resumo deve responder a todas estas perguntas:

# Qual é o tema principal?
# Quais são os temas secundários?
# Há relação entre o tema principal e os temas secundários? Se sim, quais?
# Onde e como se desenvolve o tema ou a ação?
# Qual é a conclusão do tema ou da ação?

No caso dos textos filosóficos, podemos ter em conta a resposta às seguintes perguntas:

# Qual é o problema principal?
# Qual é a tese principal?
# Quais são os problemas secundários?
# Quais são as teses secundários?
# Há relação entre os temas principais e secundários? Se sim, quais?
# Que argumentos são utilizados para sustentar as teses (principal e secundárias)?
# Qual é a conclusão da argumentação do texto?

Combinação de técnicas: fazer um resumo a partir da elaboração de mapas conceptuais.

Pode ser mais fácil resumir um texto o se previamente elaborarmos um mapa conceptual do texto (ou mais do que um mapa, caso o texto seja muito complexo ou extenso – no caso de um livro podemos elaborar um mapa para cada capítulo).
Assim, propomos que sigas os seguintes passos:

1. Leitura integral do texto. Nesta primeira leitura deves esclarecer o significado de todas as palavras que não entendas. Pode ser útil a elaboração de um glossário onde vais registando as novas palavras que te fores confrontando.

2. Análise das passagens do texto que te pareçam obscuras ou que não consigas entender. Aqui poderás ter que pedir ajuda a alguém (o professor o alguém que te ajude a estudar – estudar em grupo ajuda muito).

3. Eliminação do conteúdo ‘supérfulo’ – Deves usar uma cópia do texto para poderes riscar o que não interessa: exemplos, floreados, adjetivações, apartes, repetições...
Depois de o fazeres, ficarás com um texto depurado que será mais fácil de analisar – se usares um texto digitalizado tens a tua tarefa facilitada, porque poderás facilmente cortar o que não interessar.

4. ‘Mineração conceptual’ – deves procurar os conceitos-chave do texto e deves listá-los.

5. Construção do mapa conceptual – neste ponto deves procurar relacionar os conceitos seguindo o texto, mas substituindo as definições e as explicações por conectores (setas, ligações, etc.).

6. Reescritura do texto a partir do mapa conceptual.

Esta ficha baseia-se no seguinte artigo:
http://noticias.universia.pt/destaque/noticia/2012/04/03/921044/como-fazer-resumo-um-texto.html


O problema da natureza dos valores




O problema da natureza dos valores é um dos problemas mais importantes da axiologia.
Trata-se de saber qual o fundamento dos valores (o ser humano ou a realidade?): os valores existem por em si e por si, de forma absoluta, ou só têm uma existência relativa, dependendo, para existir e ganhar sentido, da valoração?

Teorias axiológicas sobre a natureza dos valores



a. Subjetivismo axiológico


O subjetivismo axiológico: afirma que os valores são o resultado das reações individuais e coletivas dos seres humanos à realidade, aos acontecimentos, às situações da vida. O subjetivista pergunta-se: pode alguma coisa ter valor se ninguém o percebeu nem pôde percebê-lo? Evidentemente que não; o valor, para o subjetivista, não pode ter sentido, ou existência, propriamente, sem que exista o sujeito. A valoração real, ou potencial, parece ser um elemento indispensável do valor. Em última instância, é impensável que algo tivesse valor sem referência a nenhuma classe de sujeito (a um ser humano, ou a uma comunidade).
Segundo o subjetivismo, os valores não existem em si e por si, ainda que não sejam meras criações da mente, existem somente para mim; o que torna uma coisa valiosa é o desejo e o interesse individual. O subjetivista pensa assim: “o valor de um jantar requintado, não está nele, mas no meu paladar, que o saboreia e lhe confere um valor determinado”.

Os subjetivistas defendem a sua posição apoiando-se em argumentos deste tipo:

1. Argumento da discrepância (ou do desacordo): É óbvio que nós não podemos estar todos de acordo em relação a problemas éticos, estéticos, religiosos, políticos, em relação aos quais frequentemente se produzem conflitos (ou graves desacordos) em torno dos valores (no que diz respeito à sua matéria, polaridade e hierarquização).  As pessoas frequentemente entram em desacordo em relação à beleza de um quadro, ao sentido de um romance, ou de um filme; sobre o valor de uma equipa de futebol; sobre uma ação moral (por exemplo, em relação à guerra do Golfo, uns sustentam que se tratou de uma guerra justa e moralmente justificada; enquanto outros sustentam o contrário).

2. Argumento da constituição biológica: Os valores estão submetidos à nossa constituição biológica e subjetiva da nossa espécie. Em relação a isto surgem questões / argumentos deste tipo: Que valor estético teria a pintura se os homens não tivessem olhos? Que sentido teria falar do valor estético da música se estivéssemos condenados a uma surdez eterna?

3. Argumento do interesse: outro argumento apresentado frequentemente os subjetivistas é que uma coisa adquire valor na medida em que se lhe confere um interesse. Por exemplo: Onde radica o valor dos selos de correio? Há algo na qualidade do papel ou na beleza do desenho ou na impressão que explique o valor que se lhes dá? É óbvio que sem o interesse dos filatelistas os selos não teriam nenhum valor. O desejo e o interesse de coleccioná-los foi o que lhes conferiu o seu valor. Outro exemplo: se as pessoas perdessem o interesse na pintura de Rembrandt, os seus quadros careceriam de valor.

4. Historicidade dos valores: A relatividade dos valores deve-se ao seu carácter concreto e histórico; graças a este, os valores estão condenados a ficar encerrados na prisão do sujeito; já na antiguidade dizia o sofista Protágoras: “o Homem é a medida de todas as coisas”.
A situação real e a conduta real do homem demonstram que não é possível uma valorização universal. Em cada grupo humano e em cada indivíduo a estimativa (a atribuição de valor) varia ao infinito. Em resumo, para o subjetivismo não há objecto valioso sem sujeito.

Objeções à teoria subjetivista:
Ainda que o subjetivismo acerte em assinalar que não há objetos valiosos por si à margem do sujeito, contudo engana-se ao desconsiderar as propriedades do objecto  que podem provocar a atitude valorativa do sujeito. De outro modo, como poderia explicar-se que distintos objetos suscitem diversas atitudes valorativas num mesmo sujeito? É evidente que a existência de propriedades objetivas distintas contribuem para despertar reações diversas num mesmo sujeito.
Por outro lado, a valoração do sujeito não é um ato exclusivamente individual e psíquico já que o indivíduo está imerso numa sociedade em cuja cultura se forma espiritualmente e, por isso, a sua estimativa vai estar marcada pelas pautas de valores (morais ou de outro tipo)  que têm uma significação social.


b. Objetivismo axiológico

Esta corrente opõe-se terminantemente ao subjetivismo; sustenta que os valores são objetivos, dependem do objeto e não do sujeito; a única coisa que o sujeito faz é captar o valor.
O objetivismo reconhece que a valoração é subjetiva, mas isso não implica que o valor o seja. Do mesmo modo que a percepção é subjetiva, mas não o objeto conhecido, que mantém intactas as suas qualidades primárias quando ninguém o percebe, assim ocorre com o valor. Não se pode confundir o objecto com a sua captação, defende o objetivismo.
Já vimos que um dos argumentos citados pelos subjetivistas é o que se denomina argumento das discrepâncias. Agora bem, face a este argumento, os objetivistas sustentariam, em primeiro lugar, que a discrepância não se refere a valores, mas antes aos bens.

A discrepância refere-se à beleza ou à justiça de um ato, isto é, a bens; não à beleza ou à justiça, que são valores independentes de todo o bem. Ao contrário dos valores, os bens são imperfeitos; muitas vezes não conseguem encarnar plenamente os valores, devido a uma cegueira estimativa dos homens concretos. Isto explicaria, por exemplo, que os gregos tenham aceitado a escravatura; uma limitação da consciência moral impediu-os de apreender o eterno e universal valor da justiça.

Assim, o objetivismo assenta em dois argumentos fundamentais:

1. Acentuar a separação radical entre valor e realidade, ou a independência dos valores em relação aos bens em que estes se plasmam.
2. Afirmar que os valores são absolutos, que existem em si e não para mim (independência dos valores em relação a todo o sujeito).

Os valores são supra temporais, são extra territoriais e extra históricos; valem aqui e ali, ontem, hoje e sempre.

Objeções à teoria objetivista:

O objetivismo separa o valor dos bens de tal forma que subordina a existência do bem ao valor. O que há de valioso numa coisa tem a sua fonte no valor que existe independentemente dela. Mas esta existência de um valor encarnado nos bens, ou que necessita de plasmar-se em algo real, suscita problemas que, ao não serem resolvidos, levam a consequências absurdas.
Por exemplo: que sentido teria a solidariedade, a lealdade ou a amizade como valores se não existissem os sujeitos humanos que podem ser solidários, leais ou amigos? Que solidariedade poderia existir – ainda que fosse idealmente – se não existissem os sujeitos que hão-de praticá-la e os seus atos solidários? Algo semelhante poderíamos dizer da separação radical entre a utilidade e as coisas úteis, a justiça e os homens justos, etc. Todos os valores que conhecemos têm, ou tiveram, sentido em relação ao homem e somente nesta relação.

c. Estruturalismo axiológico:

É a posição intermédia entre o objetivismo e o subjetivismo. O filósofo argentino Risieri Frondizi pensa que tanto o objetivismo como o subjetivismo são unilaterais. Pensa que o valor surge da relação entre o sujeito e o objeto e que essa relação axiológica origina uma qualidade estrutural que pode ser experienciada; esta qualidade não se dá no vazio, mas numa situação humana, concreta, e a hierarquia axiológica é também situacional e complexa, não linear.
Segundo Frondizi, os valores servem de fundamento a normas éticas e estas, tal como as normas jurídicas, são situacionais. O filósofo argentino considera que a sua interpretação estrutural do valor abre a possibilidade de superar o tradicional abismo entre o ser e o dever ser.
Nem o objetivismo nem o subjetivismo conseguem explicar satisfatoriamente o modo de ser dos valores. Estes não se reduzem às vivências do sujeito que valora, nem existem em si, como um mundo de objetos independente cujo valor se determine exclusivamente pelas suas propriedades naturais objetivas. Os valores existem para um sujeito, entendido este num sentido puramente individual, ou como ser social; mas mesmo assim exigem um substrato (uma base) material, sensível, separado do qual carece de sentido.
É o homem – como ser histórico-social, e com a sua atividade prática (a sua ação) – quem cria os valores e os bens em que se encarnam, e à margem dos quais só existem como projetos ou objetos ideiais. Os valores são, pois, criações humanas e só existem e se realizam no homem e só no homem.
As coisas não criadas pelo homem (os seres naturais) só adquirem um valor quando entram numa relação peculiar com o ser humano, ao integrar-se no seu mundo como coisas humanas ou humanizadas. As suas propriedades naturais, objetivas, só se tornam valiosas quando servem fins ou necessidades dos homens, e quando adquirem, dessa forma, o modo de ser peculiar de um objeto natural humano.
Assim, pois, os valores possuem uma objetividade peculiar que se distingue da objetividade meramente natural ou física dos objetos que existem ou podem existir à margem do homem, ou à margem da sociedade. A objetividade dos valores não é, pois, nem a das ideias platónicas (seres ideais), nem a dos objetos físicos (seres reais, sensíveis). É uma objetividade peculiar – humana, social – que não pode reduzir-se ao ato psíquico de um sujeito individual nem às propriedades naturais de um objeto real.
Trata-se de uma objetividade que transcende o marco de um indivíduo e de um grupo social determinado, mas que não sai do âmbito do homem como ser histórico-social. Os valores, em suma, não existem em si e por si à margem dos objetos reais, cujas propriedades objetivas se dão então como propriedades valiosas (quer dizer, humanas, sociais), nem ainda à margem da relação com um sujeito (o homem social).
Os valores existem, pois, objetivamente, quer dizer, com uma objetividade social. Os valores, por fim, unicamente se dão num mundo social, quer dizer por e para o homem.
CRISTIAN
(Tradução de Paulo Gomes).
(Texto adaptado).

Os critérios valorativos - a Razão como critério valorativo



Na nossa época vivem-se conflitos de valores que parecem inultrapassáveis. Fala-se em choque de civilizações e na verdade o mundo Ocidental está a confrontar-se com outros modos de ver, orientados por valores diferentes dos que são seguidos nas sociedades ocidentais e que estão a propagar-se através do processo de globalização.
Face ao tsunami cultural que invadiu todas as sociedades do planeta e emergiu os valores e os padrões culturais de praticamente todos os povos do mundo, era inevitável uma reação. 
Mas o confronto do Ocidente com os fundamentalismos islâmicos (são vários os movimentos) não tem apenas a ver com o processo de globalização e com a destruição das culturas e da economia dos povos 'colonizados' pela ocidentalização do mundo. Trata-se de um conflito de valores mais profundo e que também está presente nas sociedades ocidentais: a resistência face à modernidade.
A idade moderna ficou marcada pela revolução científica e tecnológica iniciada no Renascimento e que culminou com o Iluminismo do Século XVIII, o século das 'Luzes'. Os filósofos iluministas pretenderam emancipar a humanidade face à superstição e ao obscurantismo, colocando a Razão no centro do mundo, considerando que todos os assuntos relacionados com a existência humana devem ser analisados pela Razão e todas as tomadas de decisão devem assentar na Razão.
A Razão seria, então, a bússola da humanidade, o critério de avaliação de tudo o que fosse determinante para a humanidade.
Este movimento está na origem da Constituição dos Estados Unidos da América e da Revolução Francesa (1789) que marca a viragem histórica do absolutismo para as democracias modernas, assentes nos Direitos Humanos, valores cuja universalização se tornou um imperativo racional.
Contudo, este movimento não se fez sem violência - a Revolução Francesa foi um movimento extremamente sangrento (basta lembrar-nos do que ficou conhecido como o período do Terror), mas o apelo à Razão enquanto critério último de valoração é ainda hoje válido e trata-se do paradigma civilizacional que tem mais hipóteses de instauração de uma ordem mundial pacífica.
É de notar que os totalitarismos se afirmam como uma recusa dos valores da modernidade (a universalidade dos Direitos do Homem e o primado da argumentação racional como forma de resolução de conflitos).
Se considerarmos que a bússola dos valores se deve orientar pela Razão, temos que aceitar como válidos os seguintes princípios éticos:

 - A liberdade, a igualdade e a fraternidade são valores universais e invioláveis.

"Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade." (Declaração Universal dos Direitos Humanos, artigo 1º).

Isto significa que a Ética deve ser a principal fonte de orientação dos seres humanos as suas decisões fundamentais, tanto a nível individual como coletivo. 

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Há que potenciar a Razão

A razão não somente é idêntica em todos os campos, e creio que uma das principais missões da razão é estabelecer os diversos campos de verdade que existem. É claro que a razão tem que ver com a verdade. A ideia pós-moderna de que nada é verdade… Evidentemente, da verdade absoluta, com maiúscula e um nimbo de luz à volta, ao facto de que nada seja verdade, e que portanto qualquer coisa é mais ou menos tão igualmente certa quanto outra, há um longo percurso. Quer dizer, a razão busca verdades, opiniões mais reais, mais próximas ao real, com mais carga de realidade que outras. Não está igualmente próxima da realidade qualquer tipo de forma de ver, de entender, de operar. A razão é essa busca de verdade, essa busca de maior realidade, com tudo o que a descoberta da realidade comporta. Nem sempre a descoberta da realidade é gratificante, porque, enquanto que os nossos sonhos, os nossos anseios, posto que fomos nós quem os inventou, são-nos sempre favoráveis ou gratificantes, a razão dirige-se a uma realidade que não depende de nós, que não nos compraz, que não espera agradar-nos. Portanto, às vezes as descobertas da realidade são bastante mais desagradáveis que as ilusões que sobre ela possamos construir.

É importante estabelecer campos diferentes de verdade. A verdade que se pode encontrar no campo das matemáticas não é a mesma do campo da história. Há campos diferentes que é importante estabelecer.(...) Há campos de verdade em que os termos operam de uma maneira diferente conforme os lados. Se falamos, por exemplo, do Sol, num registo podemos dizer que é um astro de grandeza mediana, com umas características determinadas; noutro registo podemos dizer também que o Sol é um deus, uma divindade, para alguém que o adore ou siga a teoria heliocêntrica. Podemos dizer também que o Sol é o rei do nosso sistema solar, e dessa forma introduzimos uma linha de metáfora, de comparações literárias, etc. Em cada um desses registos há as suas próprias verdades. Quer dizer, é verdade que, entendendo rei num determinado sentido, o Sol é o rei do Sistema Solar; pois é, como o rei, o astro mais importante, central, que determina a existência de vida ou a não existência nos outros astros. Se o entendermos em sentido literal e pensarmos que o Sol é o rei dinasticamente coroado, não entenderemos o assunto.

A razão serve para estabelecer esses campos de verdade diferentes. Às vezes, por exigir a verdade que pertence a um campo a outro campo diferente, perdemos a substância racional que pode haver numa proposta explicativa. Vem-me à memória um episódio que aconteceu a Caietano López, bom amigo e além disso catedrático de Física e especialista em determinadas questões, e que uma vez, há já uns anos, numa altura em que era moda falar do big bang, os jornalistas começaram a telefonar para El País, onde então trabalhávamos, a perguntar o que era o big bang. Depois de falar com um deles, Caietano estava espantado porque o jornalista lhe tinha dito "está bem, mas diga-me se existe ou não existe Deus no big bang", ao que, evidentemente, não pôde responder. Esse salto de um campo, em que se está a traçar um tipo de verdades, a outro campo em que as verdades são diferentes, é tentar misturar coisas que não têm nada que ver, estar constantemente a baralhar os planos e a buscar um tipo de verdade onde não pode ser encontrada. É um dos perigos que temos no caminho especulativo actual. Não estamos muito seguros de quais são os campos em que se podem pedir determinadas verdades. Preparar ou educar para a razão é também ajudar ou ensinar a discernir que tipo de verdades e que tipo de requisitos de verdade se podem exigir em cada um dos campos, e que tipo de níveis de aceitação da verdade.

Outra das obrigações no desenvolvimento da razão é o confronto com a ideia da opinião como última ratio de tudo o que há. Vivemos numa época em que se ouve a opinião, para mim disparatada, de que todas as opiniões são respeitáveis. Como é que podem ser respeitáveis todas as opiniões?! Se algo caracteriza as opiniões é o facto de não serem todas respeitáveis. Se todos tivéssemos acreditado que todas as opiniões são respeitáveis, ainda não teríamos descido da primeira árvore. Todas as pessoas são respeitáveis, sejam quais forem as suas opiniões, mas nem todas as opiniões são respeitáveis. Uma pessoa que diz que dois e dois são cinco, não pode ser encarcerada, não pode ser objecto de nenhuma represália, mas o que é evidente é que a ideia de que dois e dois são cinco não é tão respeitável como a ideia de que dois e dois são quatro. A mitificação da opinião própria conduz a considerá-la como algo que se subtrai à discussão, em vez de algo que se põe sobre a mesa, algo que não é nem meu nem teu mas que temos que discutir – discutere é, em latim, ver se uma árvore tem raízes, se as coisas têm raízes –, ver se está enraizada em algo. Quando se propõe uma opinião, não se propõe como quem se fecha num castelo, como quem se encouraça, não se supõe que todas as opiniões são igualmente válidas, mas pelo contrário que estão abertas a confrontar-se com provas e dados. Se não, não são opiniões, são dogmas. A ideia de que todas as opiniões valem o mesmo, de que a opinião do aluno do infantário vale tanto, em questões matemáticas, como a do professor de aritmética, não é verdade. E a ideia de que é um sinal de democracia ou de liberdade que qualquer ideia valha tanto como qualquer outra e que é indiferente que quem a sustenta ignore os mecanismos do assunto, não possa aduzir nenhuma prova, não tenha dados, seja incapaz de raciocinar a sua postura, que essa vale tanto como a opinião de quem conhece o assunto, parece-me preocupante.

No entanto, há uma mitificação da opinião igual a essa espécie de encastelamento de quem se sente ofendido quando contrariado, como se as opiniões se pudessem ferir, e como se cada qual pudesse sentir feridas as suas opiniões. A ideia de que as opiniões formam um corpo connosco, e que o dizer "é a minha opinião" dá um grau de razão superior ao da opinião do vizinho, parece-me preocupante, sobretudo porque se considera um sinal de liberalidade intelectual reconhecer as opiniões de cada um, quando a única liberalidade que existe é reconhecer que as opiniões devem estar fundadas na razão e que ninguém tem direito a expor as suas opiniões se não tem razões para as justificar. A posição autenticamente livre, aberta e revolucionária é sustentar que é a razão que vale e que as opiniões devem submeter-se-lhe, e não que são as opiniões que por si mesmas, por ter uma pessoa por trás, se convertem em invioláveis porque a pessoa o é.

Ensinar estas coisas e ensinar a diferença que há entre o respeito pelas pessoas e os modelos de uma capacidade de escuta, a razão não se nota somente quando alguém argumenta como também quando alguém compreende argumentos. Ser racional é poder ser persuadido por argumentos, não apenas persuadir com argumentos. Ninguém pode aspirar à condição de racional se as suas razões, as vê muito claras, mas nunca vê claramente nenhuma razão alheia. Ver as razões dos outros faz parte, necessariamente, da racionalidade. Aceitar ter sido persuadido por razões costuma ser muito mal visto, como se dar mostras de racionalidade fosse algo muito mau, quando o facto de alguém mudar de opinião demonstra que a razão lhe continua a funcionar. O mundo está cheio de pessoas que se orgulham de pensar o mesmo que pensavam aos 18 anos; provavelmente não pensavam nada, nem agora nem aos 18 anos, e graças a isso mantêm-se invulneráveis a todo o tipo de argumentação, razões, conhecimento do mundo, etc.

Educar para que as pessoas sejam vulneráveis aos raciocínios também faz parte da educação racional, e isto entra na distinção fundamental entre o racional e o razoável. A razão cobre um campo que abarca o meramente racional, no qual nos entendemos com as coisas o melhor possível, e o razoável, no qual nos entendemos com os sujeitos. É razoável incluir na minha própria a razão própria de outro sujeito, a possibilidade de aceitar os seus fins, de aceitar os seus objectivos, a sua própria busca da experiência como parte da minha própria razão. O funcionamento racional e o funcionamento razoável estão ligados, e há que educar em ambos. O razoável será esse outro uso que eu consiga dar aos conhecimentos racionais que tenho. Naturalmente que os usos também estão ligados à razão, mas a outra função diferente, isto é, ao reconhecimento de que não me movo só entre objectos, mas também entre sujeitos. E que o característico dos objectos é que eu posso impor-lhes os meus fins; e dos sujeitos, que eu devo conhecer os seus fins para de alguma forma os contrastar com os meus e buscar a possível cooperação.

Essa é uma distinção importante porque às vezes, por exemplo em questões de economia, dá-se uma visão da razão e considera-se o racional como o único que conta, e não o razoável. Buscam uma maximização de benefícios mas não a dimensão razoável, o reconhecimento de outros objectivos, de outros fins, de outras formas de vida que devem ter-se em conta. Porque uma razão meramente racional mas não razoável é inumana, está mutilada das suas características básicas. E esta é uma tendência actual, que pode tornar antipática e odiosa a invocação da razão por só se fazer a partir do nível racional e não do razoável. Tudo funciona como se fosse um jugo de objectos, sem reconhecer que também há sujeitos e isto é profundamente irracional. Muitas vezes os apelos à racionalidade são no fundo apelos à irracionalidade porque se trata de uma razão mutilada da sua dimensão razoável. Do mesmo modo, nem tudo o que pode racionalmente fazer-se é razoável que seja feito, é uma posição bastante contrária à verdadeira razão, que tem as duas dimensões. Não vivemos só num mundo de objectos, mas também de sujeitos. Não entende racionalmente o mundo quem crê que tudo são objectos, do mesmo modo que a chave do sentido é o que se compartilha com outros sujeitos. 

Fernando Savater "Potenciar a Razão"

O que nos torna humanos?


Desde que o naturalista inglês Charles Darwin propôs, em 1860, a sua famosa teoria da selecção natural, não temos mais dúvidas de que a espécie humana moderna, o Homo sapiens sapiens, evoluiu a partir de outras espécies, num contínuo que remete para um primata que foi, algum dia no passado distante, o "elo perdido" entre os primatas antropóides ("parecidos com o homem"), e o primeiro dos hominídeos ("género dos homens"). Ao longo do século XX, inúmeras descobertas paleoantropológicas demonstraram a existência de um grande número de espécies de hominídeos, como o Australopithecus, todas elas surgidas em África, num período que cobre os últimos 5,5 milhões de anos. O crescimento gradativo da capacidade craniana e do volume do cérebro, o aparecimento da postura erecta permanente, o surgimento do uso de ferramentas e da cultura simbólica, o domínio de tecnologias como o fogo e a construção de abrigos, a caça, etc., tudo isso é bastante evidente a partir do exame do registo arqueológico dos hominídeos, até ao surgimento, 2 milhões de anos atrás, do Homo habilis ("homem habilidoso") e do Homo erectus ("homem erecto"), as primeiras espécies que talvez possamos considerar "humanas", no seu sentido moderno, pois desenvolveram a linguagem falada complexa, a construção de ferramentas, as vestimentas, o fogo, a cocção dos alimentos, etc. A capacidade craniana aumentou de 500 cm3 para 1200 cm3 entre os primeiros Homo habilis e o Homo erectus, em pouco mais de um milhão de anos, embora a sua aparência facial continuasse a ser a de um antropóide. Foi, também, a primeira espécie humana a ter mobilidade em escala planetária, tendo-se espalhado pelo Médio Oriente, China e Java. Os seus sucessores, o Homo sapiens neandertalensis, surgido há 300 mil anos atrás, e o Homo sapiens sapiens, há 120 mil anos, aumentaram a capacidade craniana para o valor actual (1350 cm3), invadiram todos os rincões da Terra, mesmo os mais distantes e inóspitos, desenvolveram as representações simbólicas, como a arte pictórica, a escultura e a música, os adornos corporais, as armas de guerra, a medicina, a domesticação de animais, a agricultura, e as crenças espirituais, como as religiões, o culto ao invisível, os ritos funerários e as superstições mágicas. Todas essas características e "invenções" eram unicamente culturais e transmissíveis entre seres humanos através do ensino, e são únicas entre as espécies animais, inclusive entre os outros primatas.

Não é muito difícil chegar à conclusão de que somos realmente muito parecidos biologicamente com os nossos "primos", os grandes primatas antropóides. Nos tempos de Darwin, um dos eventos que mais influenciou a aceitação da sua teoria foi a exposição, pela primeira vez, de gorilas vivos no Jardim Zoológico de Londres. As muitas coisas que temos em comum com eles abalou as convicções profundas dos vitorianos da época, que defendiam que o ser humano tinha sido criado por Deus à sua imagem, como uma espécie totalmente à parte das demais. Por exemplo, herdámos dos primatas e antropóides algumas características fundamentais tais como a visão colorida, os dois olhos voltados para a frente, a face plana, o grande desenvolvimento do neocórtex, e a alta destreza manual, esta última incomparável a de qualquer outro mamífero. Comportamentalmente, todos os antropóides são capazes de manipular símbolos, demonstram enorme capacidade de adaptação ao ambiente através da aprendizagem, são capazes de usar ferramentas para uma variedade de tarefas, utilizam muito os tele-sentidos (visão e audição) para interagir com o ambiente, possuem transmissão cultural do conhecimento, têm uma bem estruturada vida social baseada na tribo, o comportamento sexual e reprodutivo, e complexas formas de intercomunicação intra-específica. Geneticamente também somos muito parecidos: a biologia molecular descobriu, por exemplo, que  98% do genoma do chimpanzé é igual ao nosso. Em suma, somos "macacos sem pêlos", como dizia o título de um livro que fez grande sucesso na década dos 70s, "The Naked Ape", do biólogo inglês Desmond Morris. Comparativamente a outros mamíferos superiores, somos extremamente desprotegidos. Não possuímos garras nem presas proeminentes, não temos pele grossa, temos poucos pêlos. Temos limitações em correr, saltar, nadar.

Então, como esse animal singularmente frágil conseguiu espalhar-se por todo o planeta, sobreviver nas condições mais extremas e ser capaz de dominar todos os tipos de ambiente, até mesmo o espaço sideral?  O que nos distingue das outras criaturas vivas? O que nos faz unicamente humanos? Esta tem sido uma indagação angustiada desde que Darwin nos "tirou" o estatuto de espécie dominante do universo...

De facto, o homem possui diversos atributos que o distinguem das outras espécies. A postura erecta e andar com os membros inferiores permitiu aos membros superiores ficarem livres para outras funções; a mão preênsil actua como uma verdadeira ferramenta e permite o desenvolvimento da tecnologia; o desenvolvimento da fala e da linguagem permitiu formas de comunicação mais adaptáveis; o alargamento do cérebro relativo ao tamanho do corpo; o desenvolvimento das interacções sociais e culturais: infância e juventude prolongada, desta forma oferecendo a base para a complexa organização social, bem como a divisão de tarefas na sociedade, controlo sobre o sexo e a agressão. Finalmente, os seres humanos expressam-se como indivíduos. As características que permitem isto incluem a emoção, a motivação, a expressão artística e espiritual.

Todas essas características, directa ou indirectamente, relacionam-se com o desenvolvimento do nosso cérebro. O nosso carácter único repousa no nosso cérebro. O enorme cérebro desenvolvido principalmente no córtex cerebral dotou-nos de propriedades que não existem, ou existem de forma primitiva noutros antropóides. É no córtex que possuímos os mais altos níveis de análise sintética. É lá que a nossa visão do mundo é analisada, planeada e programada para executarmos uma acção.

O grande desenvolvimento do cérebro, por sua vez, levou ao nascimento daquilo que o cognitivista americano Steven Pinker denominou de "uma espécie simbólica". Desenvolvemos, através de símbolos verbais, objectos da realidade e conceitos abstractos. Além da capacidade verbal do cérebro, desenvolvemos a capacidade de emitir sons de alta precisão que manipulados por este cérebro simbólico possibilitou, pela primeira vez na escala animal, a evolução extragénica: a evolução cultural, ou seja, a transmissão de símbolos de um ser humano para outro. Com isso desenvolveu-se o conhecimento, que é uma propriedade única do ser humano, e que se relaciona com o pensamento e a consciência (que certamente podem existir em outros primatas não humanos, mas que diferem num grau muito amplo em relação à espécie humana).

A capacidade simbólica do cérebro gerou coisas notáveis como uma habilidade geneticamente determinada de aprender qualquer língua ou inventar uma nova, por exemplo, o esperanto e as linguagens de computador. Também gerou a capacidade especial de inventar melodias, sons harmónicos, dança, elementos simbólicos que usam provavelmente as nossas estruturas cerebrais responsáveis pela fala, articulação dos movimentos e pela integração de tudo isso.

Entre as nossas características culturais únicas, a arte é talvez a mais nobre invenção humana. Imaginem, por exemplo,   a necessidade de recrutamento de bilhões de neurónicos, milhares de músculos, uma imensa capacidade sensorial, visual e auditiva, a espantosa capacidade de memória envolvida para saber de cor e executar um concerto para tocar uma serenata de Chopin ao piano.  São bilhões e bilhões de neurónios, treinados ao longo de anos de prática, espalhados por todas as regiões do cérebro, e trabalhando em harmonia para produzir um resultado de uma complexidade inimaginável.

Quando o homem se tornou um animal tribal, desde que começou a andar erecto, mais de 4 milhões de anos atrás, ele passou a ser um caçador e guerreiro tribal, onde a cooperação social era um factor importante de sobrevivência. Todos os instintos sociais humanos se desenvolveram bem antes da esfera intelectual: instinto maternal, cooperação, curiosidade, criatividade, compaixão, altruísmo, competitividade, etc., são muito antigos, e podem ser vistos nos antropóides, também. Mas, o ser humano novamente se distingue dos outros primatas através de uma característica mental muito forte: gradativamente desenvolvemos o auto-controlo, ou seja, a capacidade de modificarmos qualquer comportamento social, mesmo que instintivo, de maneira a torná-lo mais útil para a nossa sobrevivência. Quanto mais disciplinados, e capazes de auto-controlo e de planeamento, o quanto mais a nossa mente racional for capaz de dominar a emocional e instintiva, mais humanos seremos.

Portanto, a espécie humana também tem o singular dom de dominar o cérebro emocional por meio do cérebro racional. Isto, adicionado à capacidade de planear, gerou um animal capaz de vencer através da inteligência todas as suas restrições e debilidades físicas, tomando-se a espécie dominante do planeta, destruindo e devassando aquelas que se lhe opõem, ou usando para si aquelas espécies que são úteis para o seu próprio benefício como as bestas de carga, as cobaias de laboratório, os animais produzidos para alimento, etc.

O que nos aguarda no futuro? Como será a espécie humana no ambiente que aprendemos a moldar e reconstruir?

Ainda é cedo para respondermos. Precisamos, sem dúvida, de nos entendermos melhor. Existem motivos para duvidar que nos próximos 50 anos sejamos capazes de deslindar o funcionamento das funções intelectuais superiores, devido à enorme complexidade do sistema nervoso, para a qual ainda não existem métodos adequados de estudo.  Muitos filósofos colocam inclusive a dúvida de se um cérebro é capaz de entender-se a si mesmo algum dia. Talvez a complexidade estrutural e funcional do nosso cérebro seja tão grande, que nunca possamos chegar a entendê-la: seria necessário ter um cérebro mais desenvolvido para isso. 
Carl Sagan, Os Dragões do Éden.

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Actividades:

GRUPO I

1. Construa um mapa conceptual do texto.
2. Faça o resumo do texto.

Ferramentas:

Como construir mapas conceptuais

Como fazer o resumo de um texto







  • GRUPO II 


  • 1. Com base numa análise do texto, responda à questão: o que nos torna humanos? (min. 150 palavras)



  • 2. Qual a importância do cérebro na evolução do ser humano? Responda a esta questão comparando a espécie humana com os outros animais. 
  • (min. 150 palavras)

  • 3. Tendo em conta os elementos apresentados no texto, explique a seguinte afirmação: “O homem é produto e produtor da cultura”. (min. 200 palavras)

    Juízos de Facto e Juízos de Valor


    Nós, ao contrário dos animais, não vivemos num ambiente estritamente natural, vivemos num mundo humano, um mundo culturalmente transformado pelo homem. A nossa experiência do mundo é uma experiência em grande medida filtrada pelas nossas preferências, tanto pessoais, como colectivas, e pelas nossas repulsas: há coisas de que gostamos, que consideramos boas ou belas, há coisas que consideramos feias ou desprezíveis, como há acções que consideramos nobres, outras que consideramos más ou injustas, há paisagens que consideramos sublimes, há locais que consideramos horríveis, há sítios onde gostaríamos de viver e outros onde não gostamos de estar, enfim, quando olhamos à nossa volta somos, irresistivelmente, levados a tomar uma posição em relação ao que vemos, emitindo juízos de valor sobre as coisas, as situações, as acções e as pessoas com que nos deparamos.
         Quando nos levantamos e abrimos a janela, podemos dizer ‘hoje está um belo dia’, ou quando vemos um edifício e dizemos ‘que prédio feio!’, estamos a emitir juízos de valor, estamos a posicionar-nos subjectivamente face ao mundo. Qualquer outra pessoa pode discordar destes nossos juízos: um dia que para nós é belo, por estar sol ou estar a chover, pode ser feio para qualquer outra pessoa, exactamente pelas mesmas razões que nos levam a considerá-lo belo. Como diz o povo: gostos não se discutem, ou seja, cada pessoa tem o direito de gostar ou não gostar disto ou daquilo, desde que, é claro, que isso não se torne incompatível com o direito de gostar.
        Podemos, então, afirmar que os juízos de valor são, sempre, subjectivos exprimem, não as características efectivamente presentes nas coisas, mas a forma como as coisas afectam a nossa sensibilidade. Por isso, os juízos de valor não podem ser unanimemente aceites, pois cada um reage ao mundo a partir das suas preferências individuais.
    Pelo contrário, os juízos de facto diferem dos juízos de valor precisamente por serem objectivos, ou seja, porque exprimem características efectiva e comprovadamente presentes nas coisas. Por isso, os juízos de facto, também designados como juízos de realidade, são unanimemente aceites.
        Assim, as observações científicas assumem a forma de juízos de facto, enquanto que os juízos de valor são considerados não-científicos. ‘A água ferve à temperatura de cem graus’, ou ‘uma molécula de água é composta por dois átomos de hidrogénio e por um átomo de oxigénio’, são dois juízos de facto, enquanto que: ‘a água é um líquido agradável’ e ‘a água deste rio é bela quando faz sol’, são juízos de valor. Os primeiros são objectivos e comprováveis: descrevem propriedades efectivas da água, cuja existência pode ser comprovada. Sendo assim, os juízos de facto podem ser verdadeiros ou falsos, caso estejam ou não de acordo com a realidade. Os segundos, são subjectivos e não podem ser submetidos a qualquer tipo de comprovação. Por esta razão os juízos de valor não podem ser considerados verdadeiros ou falsos, podem ser sinceros ou não, exagerados ou não, podemos ser ou não ser capazes de os compreender.



    Teste 2 - 10ºD - Versão 2

    Grupo I
    Escolha apenas uma alternativa em cada questão.
    (10 x 6 pontos)
    1. O motivo é:

         A. O objectivo que o agente quer alcançar;
         B. a principal consequência da ação;
         C. a causa principal da ação;
         D. a razão de ser da ação.

    2. Os atos voluntários:

         A. Estão dependentes do mecanismo do estímulo-resposta;
         B. não dependem da liberdade do agente;
         C. são atos intencionais;
         D. não são motivados.

    3. "A Filosofia distingue-se das ciências porque estuda a totalidade do real". Esta afirmação é:

         A. Verdadeira, porque a filosofia é um saber universal e radical;
         B. verdadeira porque a Filosofia é uma ciência como as outras;
         C. falsa, porque a Filosofia não é um saber racional;
         D. falsa, porque a Filosofia é uma ciência como qualquer outra.

    4. Segundo o determinismo radical:

         A. O ser humano é livre de escolher o seu destino;
         B. todos os comportamentos, mesmo os dos seres humanos, dependem da causalidade natural;
         C. a liberdade é uma característica fundamental da natureza humana;
         D. os seres humanos não estão totalmente dependentes da causalidade natural.

    5. “A liberdade é uma ilusão livremente criada por nós”. Este enunciado:

         A. Viola o princípio do terceiro excluído;
         B. não viola nenhum princípio lógico;
         C. viola o princípio da identidade;
         D. viola o princípio da não-contradição.


    6. Aristóteles afirma que a Filosofia começa com o espanto. Isto significa que:

         A. A filosofia é um saber antidogmático;
         B. a filosofia não se distingue do senso comum;
         C. a filosofia é um saber acrítico;
         D. em Filosofia não há qualquer conhecimento.

    7. O menino selvagem, quando foi capturado:

         A. Tinha um comportamento humano;
         B. tinha a consciência de que não era um ser humano;
         C. não conseguia executar atos involuntários;
         D. não tinha liberdade.

    8. "Ousa saber! Tem a coragem de usares o teu próprio entendimento!". Esta afirmação de Kant refere-se a uma característica da Filosofia. A qual?

         A. À historicidade;
         B. à autonomia;
         C. à universalidade;
         D  à radicalidade.

    9. A Filosofia existiria se o determinismo radical tivesse razão?

         A. Sim, por que a Filosofia é um saber radical;
         B. não, porque sem liberdade não há autonomia;
         C. não, porque a Filosofia é um saber dogmático;
         D. sim, porque só existe Filosofia porque o homem é um animal racional.

    10. "Todos os conteúdos do senso comum são inúteis". Esta afirmação é:

         A. Falsa, porque tudo no senso comum é falso;
         B. verdadeira porque o senso comum é um saber comprovado;
         C. falsa, porque o senso comum é imprescindível à nossa vida quotidiana;
         D. verdadeira, porque o senso comum é um saber ilusório.




    Grupo II

    Texto 1
       “Com os homens nunca podemos ter bem a certeza, ao passo que com os animais, ou outros seres naturais, sim. Os castores fazem represas nos ribeiros e as abelhas favos com alvéolos hexagonais: não há castores que se sintam tentados a fazer alvéolos de favos, nem abelhas que se dediquem à engenharia hidráulica. No seu meio natural cada animal parece saber perfeitamente o que é bom e o que é mau para ele, sem discussões nem dúvidas.
         Por grande que seja a nossa programação biológica ou cultural, nós, seres humanos, podemos acabar por optar por algo que não está no programa (pelo menos que lá não está totalmente). Podemos dizer «sim» ou «não», «quero» ou «não quero». Por muito apertados que nos vejamos pelas circunstâncias, nunca temos um só caminho, mas sempre vários.”                                      
    Fernando Savater, Ética para um jovem.

        1. Identifique e formule o problema central do texto 1. (10 pontos)

    O problema central do texto pode ser formulado da seguinte forma (bastava referir uma questão):

    O ser humano é livre?
    Existe liberdade?
    O nosso comportamento é totalmente determinado?
    O comportamento humano é previsível?

        2. Qual é a tese central do texto 1? (15 pontos)

    O texto defende a tese de que o comportamento humano não é prevísivel/ O ser humano é livre -   "Por grande que seja a nossa programação biológica ou cultural, nós, seres humanos, podemos acabar por optar por algo que não está no programa (pelo menos que lá não está totalmente)."

        3. Exponha o(s) argumentos(s) com que o autor justifica a tese central do texto. (20 pontos)

    Os argumentos/ justificações:

    1. O comportamento humano é imprevisível, ao contrário do que se passa com os animais: "Com os homens nunca podemos ter bem a certeza, ao passo que com os animais, ou outros seres naturais, sim";
    2. O comportamento animal está biologicamente padronizado e é invariante: "Os castores fazem represas nos ribeiros e as abelhas favos com alvéolos hexagonais: não há castores que se sintam tentados a fazer alvéolos de favos, nem abelhas que se dediquem à engenharia hidráulica."
    3. Os animais não precisam de ponderar o que fazer (o seu comportamento é instintivo): "No seu meio natural cada animal parece saber perfeitamente o que é bom e o que é mau para ele, sem discussões nem dúvidas";
    4. O ser humano tem sempre mais do que uma opção: "Podemos dizer «sim» ou «não», «quero» ou «não quero». Por muito apertados que nos vejamos pelas circunstâncias, nunca temos um só caminho, mas sempre vários".

    Texto 2

    “A verdade é que existe uma diferença entre o que simplesmente me acontece (viro um copo com um safanão na mesa ao ir buscar o sal), o que faço sem me dar conta e sem querer ...), o que faço sem me dar conta mas segundo uma rotina adquirida voluntariamente (como meter os pés nos chinelos quando me levanto da cama meio adormecido) e o que faço apercebendo-me e querendo (...). Parece que a palavra "ação" é uma palavra que apenas convém à última destas possibilidades. É evidente que ainda existem outros gestos difíceis de classificar mas que à partida parecem qualquer coisa menos "ações": por exemplo, fechar os olhos e levantar o braço quando alguém me atira alguma coisa à cara ou procurar algo a que me agarrar quando estou quase a cair. Não decididamente uma "ação" é apenas o que eu não teria feito se não tivesse querido fazê-lo: chamo ação a um ato voluntário. (...)
    Mas como podemos saber se um ato é voluntário ou não?
    Fernando Savater, As perguntas da vida

    5. Responda à questão colocada no final do texto 2. (25 pontos)

    Os atos voluntários são atos que dependem da nossa vontade, são intencionais. Os atos involuntários são, em contrapartida, atos que executamos sem querer (podendo, até, em casos extremos, ser executados contra a nossa vontade), como diz o texto: "uma "ação" é apenas o que eu não teria feito se não tivesse querido fazê-lo".
    Se bem que os atos involuntários possam ser conscientes (os atos involuntários podem ser conscientes ou inconscientes), nesse caso, apesar de termos consciência da execução do ato, pois damos conta da sua execução, sabemos que não somos nós que estamos a comandá-los - o exemplo do texto do copo que viramos sem querer mostra-o bem. 
    Os atos voluntários são sempre conscientes, porque são comandados/ controlados pela consciência, realizamo-los porque queremos. 
    No caso dos atos que executamos, é fácil sabermos se são voluntários ou não, porque sabemos se os estamos a realizar de forma intencional ou não. Já no que se refere aos atos das outras pessoas, pode, em muitas circunstâncias, ser mais difícil, pois não podemos entrar na cabeça dos outros para ver o que se passa realmente 'lá dentro': um vizinho sonâmbulo pode passar por mim na rua atuando sob um ataque de sonambulismo que, se não houver um indício desse facto (estar de pijama ou andar como um zombie), eu poderei julgar que ele estaria a passear, executando, por isso, uma ação, um ato voluntário.
    Mas em muitos casos nós sabemos se a pessoa tinha alternativa, se podia ter feito algo de diferente: ser vir uma pessoa a voltar para trás repetidas vezes para ver se trancou o carro, posso concluir que se trata de alguém com um comportamento compulsivo (a ser assim, os seus atos repetitivos seriam involuntários, porque a pessoa simplesmente não podia deixar de os executar). Por outro lado, se for com um amigo a um café e ele pedir um água, sei que se trata de um ato voluntário, porque ele teria um leque variado de opções: não beber nada, beber um café, uma cola, etc..

    6. Dê um exemplo de uma ação e identifique nesse exemplo os elementos constitutivos da ação. (20 pontos)

    O João, como tinha teste de História daí a três dias, foi estudar para a biblioteca municipal. Hoje pensa que as horas que passou a estudar foram determinantes para o resultado: uma classificação de 18 valores.

    Agente: O João;
    Motivo: O teste de História - que está na origem da necessidade de estudar;
    Intenção: Estudar para aprender a matéria do teste;
    Consequências: a classificação de 18 valores.


    Grupo III
    Este grupo é composto por uma questão de desenvolvimento.

    Texto 3
    “O tema deste livro é uma pergunta que me persegue, creio que desde que faço uso da razão. Mais, ou ainda pior: é a pergunta que deu sentido ao uso da minha razão e também a que que revelou o sentido de tal racionalidade. Para começar, ingenuamente, posso colocá-la assim: em que consiste a liberdade?  Mas, mal é formulado enreda-se-me com outras – como costuma ocorrer com as verdadeiras questões filosóficas – que obstruem e retardam a sua resposta direta: existe realmente liberdade? É algo que tenho antes de o saber que o tenho ou algo que só adquiro ao saber que o tenho ou algo que para ter devo renunciar a saber com precisão o que é? Sou capaz de liberdade ou sou liberdade e por isso capaz de ser humano?”
    Fernando Savater, A Coragem de Escolher, p. 13.
       
     1. Responda às questões colocadas no texto 3 posicionando-se perante o problema do livre-arbítrio. Deve defender argumentativamente a sua tese referindo-se expressamente às teorias sobre o livre-arbítrio estudadas. (50 pontos)

    Perante o problema do livre-arbítrio defendo o compatibilismo.
    O compatibilismo sustenta que se bem que exista um determinismo natural, pois, tal como é pressuposto pelo Princípio da Razão Suficiente "nada acontece sem razão", ou "tudo o que acontece tem uma causa", nós também podemos causar as nossas ações porque somos dotados de uma vontade livre.
    Assim, em relação à questão: "Existe realmente liberdade", a minha resposta é sim. Sou livre de escolher o que fazer, mas isso não significa que possa fazer tudo o que quiser - ao contrário do que é defendido pelo libertismo, a minha liberdade é condicionada pela causalidade natural e, também, pela causalidade racional - ao escolher eu sigo o que me parece melhor, em virtude das minhas aprendizagens anteriores. 
    A liberdade consiste no poder de fazer escolhas a partir daquilo que acontece: se o deflagrar um incêndio na sala onde estou a trabalhar, posso escolher enfrentar o fogo, tentando apagá-lo com o que tiver à mão, ou fugir, procurando socorro. A escolha é minha, mas as opções são ditadas pelas circunstâncias (pela causalidade exterior/material ou, também, pela causalidade interior/mental - posso optar por fugir se não souber que perto dali existe um extintor, ou se, sabendo-o, eu não souber utilizar o extintor).
    Quanto à questão: "(A liberdade) é algo que tenho antes de o saber que o tenho ou algo que só adquiro ao saber que o tenho ou algo que para ter devo renunciar a saber com precisão o que é?", a resposta só pode ser complexa, como a própria questão:
    1º - Nós somos livres mesmo que não saibamos o que é a liberdade, aliás, seria impossível vivermos uma vida humana sem fazermos escolhas livres. Mas ao descobrirmos que somos livres podemos aperfeiçoar a nossa capacidade de escolha, porque podemos aprender a fazer escolhas mais ponderadas, o que aumenta o nosso campo de ação e as nossas possibilidades de acerto;
    2º - há muitas coisas na nossa natureza que não são ainda conhecidas com precisão - quer porque ainda não conseguimos ter um conhecimento profundo sobre isso, quer porque é provável que possam ser sempre uma incógnita (por mais que descubramos a sei respeito saberemos sempre pouco). A ciência ainda está muito longe de descobrir o que é a liberdade, não é por acaso que o problema do livre-arbítrio é um dos mais importantes, e mais constantes, da história da filosofia. E isso é bom: ao levantarmos questões sobre a liberdade, estamos a usar a liberdade e, ao mesmo tempo, a alargar os seus limites. Assim, acho que não devemos renunciar ao questionamento, mas não devemos ter a pretensão de alcançar uma resposta definitiva, porque o ser humano é um ser em aberto;
    3º - isto permite-nos responder à última questão ("Sou capaz de liberdade ou sou liberdade e por isso capaz de ser humano?"): uma coisa não é separável da outra, sem liberdade não seríamos humanos, por isso, podemos dizer que sermos humanos é sermos capazes de liberdade e sermos capazes de liberdade é sermos humanos, a nossa humanidade exerce-se através da liberdade, sermos humanos é sermos livres.

    O homem é um ser biocultural

    Dizer que o homem é um ser biocultural não é simplesmente justapor entes dois termos, mas mostrar que ele se co-produzem e que se desembocam nesta dupla proposição:

        - Todo o acto humano é biocultural (comer, dormir, defecar, acasalar, cantar, dançar, pensar ou meditar).

        - Todo humano o acto humano é, ao mesmo tempo, totalmente biológico e totalmente cultural.

    Comecemos pelo primeiro ponto: o homem é um ser totalmente biológico. Antes de mais é preciso ver que todos os traços propriamente humanos derivam de traços específicos dos primatas ou dos mamíferos que se desenvolvem e se tornam permanentes. Neste sentido, o homem é um superprimata : traços que eram esporádicos ou provisórios no primata - o bipedismo, a utilização de utensílios e mesmo uma certa forma de curiosidade, de inteligência, de. consciência de si - tornaram-se sistemáticos no ser humano. Os sentimentos de fraternidade e de rivalidade que se encontram nos mamíferos desenvolveram-se também na nossa espécie: o homem tornou-se capaz da maior amizade com o da maior hostilidade para com o seu semelhante.

    Falta mostrar agora que o homem é totalmente cultural. Antes de mais, é preciso recordar que qualquer acto é totalmente culturizado: comer, dormir e mesmo sorrir ou chorar. Sabemos bem, por exemplo, que o sorriso do japonês não é igual à gargalhada do americano! E a coisa mais espantosa aqui é que os actos que são mais biológicos são precisamente os que são mais culturais: nascer, morrer, casar…

    A ideia de uma definição biocultural do homem é fundamental e rica de consequências. O processo biocultural é um processo incessantemente recomeçado que, a cada instante, se refaz a nível dos indivíduos e a nível das sociedades. Eu definiria, por isso, a base da nova antropologia do seguinte modo: o ser humano é totalmente humano porque é, ao mesmo tempo, plena e totalmente vivo e plena e totalmente cultural.
    |Edgar Morin, A unidade do homem - Vol.III, Ed. Cultrix.
    ___________
    Actividades:

    1. Identifique o problema central do texto.

    1.1.Identifique a tese central do texto.

    1.2.Explique a tese central do texto. (Min.200 palavras).


    2. Explique a passagem sublinhada no texto.

    quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

    Somos os heróis da vida uns dos outros?



    Serei eu o herói da minha vida ou ocupará alguém esse lugar? E o que é ser um herói?

    Alguém com super poderes, capaz de ultrapassar todas as barreiras e dificuldades?Alguém indestrutível que no fim sai sempre vencedor?

    Penso que não, pois, se assim fosse com certeza que não seria esse herói.
    Ou será simplesmente alguém que faz a diferença?Que está sempre lá na hora certa? E que se importa o suficiente para nos fazer pensar, para nos amparar e nos ajudar a ultrapassar os momentos difíceis?Que pode fazer a diferença no rumo que tomamos, mudar a nossa vida simplesmente por estar ali do nosso lado e continuar a lutar por nós mesmo quando nós próprios nos consideramos uma guerra perdida.

    No fundo, o que eu acho é que todos nós somos um bocadinho heróis na vida uns dos outros, pois, em algumas alturas da nossa vida através dos nossos atos, mesmo não tendo consciência, podemos influenciar a vida de quem nos rodeia e torná-la assim um pouco mais leve.

    Simples palavras, simples gestos podem fazer coisas grandes como ajudar a construir um rumo na vida de quem se tinha sido perdido, e que, com a nossa ajuda, ganhou força para voltar a andar.

    Será assim então possível que eu seja o herói da minha vida?

    Carolina Almeida nº8 10ºE(2014/2015)