sábado, 7 de fevereiro de 2015

A acção do homem sobre a Natureza






“Em virtude da sua vinculação ao mundo pela corporalidade e da sua diferença em relação ao mundo mediante a consciência‑liberdade, o homem está chamado  a exercer uma função exclusivamente sua a respeito do mundo: a transformação da natureza.   A presença do homem no mundo representa, pois, uma ativação das possibilidades escondidas da natureza, que leva a resultados que a natureza, por si só, não podia conseguir. Às ilimitadas potencialidades objectivas da natureza corresponde a ilimitada potencialidade projetiva do homem. E vice‑versa: à possibilidade ilimitada de criar o novo, própria do homem, corresponde a possibilidade ilimitada da natureza de ser transformada.
A função do homem a respeito do mundo apresenta‑se polifacetada. Um dos seus aspectos mais evidentes é o de transformar as coisas do mundo pelo trabalho, isto é, por meio da produção dos bens de que o homem necessita para a sua própria sobrevivência. Mas deve sobretudo notar‑se que a função do homem em relação ao mundo não se pode reduzir à produtividade mediante o trabalho. O homem é curioso em saber como é o mundo, em conhecer o enigma do mundo; simplesmente em conhecê‑lo por o conhecer. Deste desejo de saber brotaram e continuam a brotar as grandes descobertas que assinalam as etapas do progresso humano. Ao procurar conhecer como é o mundo, o homem busca também, e sobretudo, conhecer‑se a si próprio: progredindo no conhecimento do mundo, desenvolve as suas próprias capacidades de conhecer e atuar, e assim progride no conhecimento dele mesmo. Quanto mais senhor da natureza o homem se toma, tanto mais relevante se faz o porquê último da sua atividade e da sua existência no mundo; isto é, quanto mais o homem emerge sobre a natureza tanto mais se encontra a si mesmo perante a questão última: o porquê último do mundo e da relação "homem‑mundo", o porquê derradeiro do próprio homem.
Finalmente, não podem esquecer‑se outros aspectos fundamentais da função do homem relativamente ao mundo, diferentes do trabalho e mais criativos: a arte em todas as suas formas, a linguagem, a cultura, etc. São atividades em que o homem exprime a sua interioridade, fazendo da natureza mero instrumento expressivo da sua subjetividade, estas atividades provêm, sim, de uma necessidade do homem, mas de uma necessidade diversa das biológicas: da necessidade que o homem sente de expressar‑se a si próprio criando uma beleza irredutível à da natureza, uma linguagem de que a natureza carece, uma cultura feita à medida do homem. Tudo isto quer dizer que o resultado principal da ação do homem sobre o mundo é o progresso do homem enquanto homem, precisamente no que é específico do homem e o diferencia da natureza. O homem é capaz de mudar a sua própria relação com a natureza; crescendo no domínio dela, muda‑se a si mesmo.”

J. ALFARO



Atividades:
1.  Faça, por palavras suas, o resumo do texto (não deve ultrapassar as duzentas palavras).
2.   Comente a seguinte afirmação: “Às ilimitadas potencialidades objectivas da natureza corresponde a ilimitada potencialidade projetiva do homem. E vice‑versa: à possibilidade ilimitada de criar o novo, própria do homem, corresponde a possibilidade ilimitada da natureza de ser transformada.”
3.   Identifique e caracterize as diversas formas de relação do homem com o mundo (com a Natureza), presentes no texto.

Os valores e a cultura




Este texto e a questão 1 foram copiados daqui.

"É verdade que, do ponto de vista cultural, os seres humanos conquistaram, pouco a pouco e com muitos esforços, aquilo que eles consideram – e que nós consideramos ainda – como valores. Os valores não caíram todos do céu; noutros termos, os homens não descobriram os valores a partir de uma evidência já dada, como se fosse necessário perscrutar o próprio coração ou olhar para dentro de si mesmo para compreender quais são os objectivos da acção que são valores autênticos. O que é evidente, por exemplo, é a procura espontânea dos bens que mantêm a nossa vida física.
Estes “valores básicos “ não precisam de reflexão para serem vividos; o que exigiu o pensamento foi a construção dos meios técnicos (instrumentos como o machado de pedra para matar os animais, as técnicas de construção para habitação, etc…) para os realizar. Mas o que exigiu ainda mais tempo de reflexão e mais actos concretos, o que exigiu, por assim dizer, uma longa vida feita de tentativas fracassadas ou coroadas de êxito é a descoberta dos valores a que chamamos superiores. Tais valores, que regulam a vida relacional entre seres humanos, pressupõem um longo percurso civilizacional, percurso de que se pode às vezes reconhecer os marcos. Os “ Direitos do Homem” foram, depois de 1789, proclamados solenemente em 1948, no termo de uma guerra mundial que fez mais de 50 milhões de mortos.
Ainda que muitos povos já aplicassem estes direitos antes da Declaração Universal, não se pode negar que 1948 constitui um ponto de referência “histórico” na descoberta dos valores de respeito pelo ser humano enquanto pessoa. Há, deste modo, valores cuja origem está ligada com determinada cultura; citemos por exemplo a hospitalidade para os antigos Gregos, a pessoa para o mundo cristão, a democracia em Atenas e, depois da Revolução Francesa, a igualdade entre raças com a abolição da escravatura e, em seguida, do apartheid, a liberdade dos povos de decidir o seu futuro, com a descolonização depois da Segunda Guerra Mundial. Quando se afirma que os valores são historicamente marcados diz-se que é possível determinar, com certa margem de imprecisão, o seu nascimento enquanto valores reconhecidos quer por um grupo, quer pela maior parte das pessoas, quer pelo acordo quase universal das nações.
Os valores são todos relativos à época e ao contexto da sua descoberta na história dos seres humanos. As formas que os valores assumem variam com o tempo. Quanto mais básicos são, mais variam as formas da sua vivência. Em sentido contrário, quanto mais elevados são os valores, mais estável é o seu núcleo intangível., de tal modo que, através das vicissitudes das suas formas de apresentação, eles se manifestam como valendo apenas para todos os seres humanos."
Michel Renaud, “ Viver a Cidadania” , Educar Hoje – Enciclopédia dos Pais.


1. A partir de uma leitura do texto, estabeleça a diferença entre os “ valores básicos” e os “ valores superiores”.

2. Partindo de uma análise do texto, relacione os "valores básicos" e os "valores superiores" com a historicidade dos valores.

Para aceder à correção clique no link:

O homem como produto e produtor da cultura






De uma forma muito geral podemos definir a cultura como tudo o que é produzido pelo homem enquanto ser social.

Em primeiro lugar, a cultura é aprendida. É aprendida, porque existe graças a um processo de transmissão de geração em geração e não existe independentemente dos indivíduos e dos grupos sociais que compõem as sociedades humanas

A aprendizagem da cultura começa a partir do nascimento, e dá-se essencialmente por imitação dos outros. A esse processo chamamos enculturação e uma das principais vertentes da socialização. É pelo processo de socialização / enculturação que se dá a reprodução social que é um complemento indispensável da reprodução biológica

A cultura também é simbólica, pois todas as culturas possuem símbolos que são compreendidos de modo semelhante por todas as pessoas que as integram. É uma forma de comunicação, é uma rede de sentidos que torna possíveis as relações pessoais. Tudo nas culturas é de carácter simbólico. A base de cada cultura é a língua partilhada pelos membros de cada comunidade.

A cultura também domina a natureza, pois sobrepõe-se ao que há de biológico em nós. Cada necessidade biológica é expressa e saciada de forma diferente, consoante a cultura. Por exemplo, a necessidade de alimento é comum a todos os seres humanos, mas que é satisfeita é de modo diferente (difere no tipo de comida, no modo como se toma a refeição, as horas…). Por isso se diz que a cultura é como uma segunda natureza para o ser humano.

A cultura mostra-se como geral e específica ao mesmo tempo, visto que todos os homens, em qualquer sociedade, têm uma determinada cultura (não há ninguém que não tenha cultura, nasça ou exista sem ela), mas também porque as culturas são diferentes, têm características próprias, que a individualizam. 

Também é dito que a cultura abarca o todo. É simples; a cultura está presente em todos os aspectos da vida humana (sociais, organização do tempo e do espaço, biológicos); ou seja, a cultura está presente em tudo na nossa vida e nada está fora da cultura, pois existem conhecimentos, normas, regras, padrões de comportamento em todas as actividades humanas. 

Outro aspecto da cultura, é o facto de esta ser partilhada, porque não é propriedade de um indivíduo, é de todas as pessoas de uma sociedade, a sociedade e a cultura são inseparáveis, elas são a forma de viver do ser humano. 

Este texto foi adaptado a partir deste original.




Clique na imagem para ampliar


O homem é produto e produtor da Cultura


A cultura é obra humana, é o resultado da acção humana sobre o mundo ( sobre o próprio homem).

O ser humano é capaz de conhecer a realidade em que vive, o que significa que o ser humano é sujeito de conhecimento: consegue representar mentalmente a realidade e, a partir daí, pode interrogar-se sobre o porquê das coisas e das ações dos homens. 
Com base no conhecimento acerca de si e do mundo em que vive, o ser humano pode valorar aquilo de que tem conhecimento, a partir de padrões de escolha e de avaliação que tornam a realidade capaz de ser transformada pela ação humana. 
Com base nos juízos de valor que faz sobre o mundo, o ser humano pode agir procurando alcançar metas individuais e/ou coletivas. Fá-lo porque é capaz de comunicar e de cooperar com os outros humanos - chamamos cultura a toda esta rede de conhecimentos, valorações e ações e constituem o mundo humano, o habitat da espécie humana.
Sem um meio sócio-cultural o ser humano é como um peixe fora de água, não pode viver na plenitude das suas capacidades, perde o sentido do que é a sua humanidade. Por isso o pior castigo que pode recair sobre um ser humano é o isolamento em relação à sociedade dos homens.
A rejeição é o pior dos infernos.
Isto porque o ser humano é o principal produto cultural da sociedade em que nasce e se desenvolve. Sem a socialização seríamos como o menino selvagem quando foi capturado: animais muito limitados sem quaisquer características humanas. Nós somos o resultado da educação que recebemos, acrescido das nossas escolhas pessoais. Somos, no fundo, um produto da ação cultural dos que nos educaram.
Mas também somos produtores de cultura, porque comunicamos, pensamos, valoramos e agimos, alterando, de forma variável, o mundo em que vivemos, ou seja a cultura da sociedade a que pertencemos.
Há seres humanos que conseguem ter um grande impacto na cultura da sua sociedade, como os artistas, os cientistas, os criadores de obras culturais de relevo. Mas cada ser humano deixa uma marca no mundo dos homens, por mais pequena que seja.


sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Os conflitos de valores



O que são conflitos de valores?

É comum assistirmos ao fim de relações humanas e institucionais antes que os seus objetivos se cumpram porque as partes entram em conflito. Com frequência, as desavenças dão-se por motivos facilmente superáveis, mas as pessoas envolvidas não sabem como procurar o entendimento nem dispõem de instrumentos para tal. Em muitos casos, nem percebem que se envolveram numa disputa e não entendem o fracasso da relação.

A dificuldade de identificar os conflitos decorre, principalmente, da falta de clareza com que o problema se apresenta. É fácil perceber uma divergência se há ataques frontais, mas a maioria das disputas assume contornos subtis. Duas pessoas que almejam o mesmo cargo, por exemplo, não revelam as suas intenções, mas fazem o que podem para denegrir o concorrente.

Conflito, etimologicamente, está ligado à ideia de luta. A palavra latina conflictu quer dizer choque. O estratega prussiano Von Clausewitz, contemporâneo de Napoleão Bonaparte, afirmava que “o conflito é o encontro de duas vontades irreconciliáveis”. As pessoas entram em conflito porque percebem que têm menos poder e auto-estima do que seus interlocutores ou quando uma das partes identifica uma invasão no seu espaço objetivo (corpo e bens) ou no seu mundo subjetivo (sentimentos, valores, crenças e idéias).

Há vários tipos de conflito. Os conflitos de informação decorrem da sonegação de dados ou de mensagens mal compreendidas. Os conflitos de interesse surgem quando os recursos são escassos; quando há divergência sobre decisões; ou quando há questões emocionais em jogo. Já os conflitos emocionais resultam da distância entre as pessoas.

Os conflitos de valores - que são os que nos interessam aqui - dão-se entre pessoas que têm modos diferentes de vida ou critérios divergentes de como avaliar comportamentos.

Tais conflitos ocorrem quando as partes divergem fundamentalmente nas suas percepções sobre o desejável. É isso que se vê no exemplo apresentado na página 82 do manual: deve-se construir a barragem ou deve-se travar a construção em nome da preservação do meio ambiente? O que é desejável? É preferível garantir a satisfação das necessidades energéticas do país durante uma década (com todas as vantagens económicas associadas), ou manter a integralidade da paisagem e dos ecossistemas que serão irremediavelmente afetados pela construção da barragem?

Os valores surgem como uma expressão cultural específica das necessidades, das motivações básicas e dos requisitos do desenvolvimento comuns a todos os seres humanos. Estas necessidades incluem segurança, identidade, reconhecimento e desenvolvimento em geral. Quando as necessidades básicas para a sobrevivência de um grupo ou para sua identidade não são satisfeitas, os integrantes do grupo tendem a lutar para conseguir o querem, de uma maneira ou outra. As necessidades e sua satisfação não podem ser negociadas. Todavia, é possível identificar uma série de maneiras para satisfazer as necessidades humanas básicas, e as metas de solução de conflitos podem ser obtidas por meio do processo de identificação e satisfação daquelas necessidades.

Para solucionar conflitos de uma maneira geral, é preciso conhecer bem as razões do outro. Expor as próprias ideias é essencial, mas deve-se ter cuidado, pois críticas demasiado duras ou radicais impedem a interação. Ao ouvir o outro, é importante focarmo-nos no que ele está a dizer e não na elaboração de uma resposta ao que nos está a ser dito. Devemos, acima de tudo, procurar compreender os argumentos do outro, atendendo à sua consistência, em vez de procurarmos defender a nossa posição de qualquer ataque. Isso implica que saibamos ouvir os outros. Sem isso também não nos conseguiremos expressar com clareza.

A racionalidade é essencial porque nos leva a perceber as diferenças e a ficar aberto a soluções criativas. Isso não quer dizer que a pessoa deva ficar contida ou distante, mas deve tentar resolver o problema em cooperação (em colaboração) com os seus interlocutores. Se uma das partes não se importa com o resultado da disputa ou considera esse resultado menos importante que a solução do conflito, a escolha correta pode ser render-se aos desejos do outro. Mas a verdadeira colaboração é encontrar uma boa solução para ambas as partes.

A solução de um conflito depende do controlo que temos sobre as respostas que surgem da nossa compreensão da realidade. Ao tentar solucioná-lo, é essencial ser transparente, agir com objetividade, respeitar a perspectiva do outro e demonstrar disponibilidade para cooperar.

A Razão deve ser usada para resolver os conflitos de valor:

"Todas as pessoas são respeitáveis, sejam quais forem as suas opiniões, mas nem todas as opiniões são respeitáveis. Uma pessoa que diz que dois e dois são cinco, não pode ser encarcerada, não pode ser objecto de nenhuma represália, mas o que é evidente é que a ideia de que dois e dois são cinco não é tão respeitável como a ideia de que dois e dois são quatro. A mitificação da opinião própria conduz a considerá-la como algo que se subtrai à discussão, em vez de algo que se põe sobre a mesa, algo que não é nem meu nem teu mas que temos que discutir – discutere é, em latim, ver se uma árvore tem raízes, se as coisas têm raízes –, ver se está enraizada em algo. Quando se propõe uma opinião, não se propõe como quem se fecha num castelo, como quem se encouraça, não se supõe que todas as opiniões são igualmente válidas, mas pelo contrário que estão abertas a confrontar-se com provas e dados. Se não, não são opiniões, são dogmas. A ideia de que todas as opiniões valem o mesmo, de que a opinião do aluno do infantário vale tanto, em questões matemáticas, como a do professor de aritmética, não é verdade. E a ideia de que é um sinal de democracia ou de liberdade que qualquer ideia valha tanto como qualquer outra e que é indiferente que quem a sustenta ignore os mecanismos do assunto, não possa aduzir nenhuma prova, não tenha dados, seja incapaz de raciocinar a sua postura, que essa vale tanto como a opinião de quem conhece o assunto, parece-me preocupante.

No entanto, há uma mitificação da opinião igual a essa espécie de encastelamento de quem se sente ofendido quando contrariado, como se as opiniões se pudessem ferir, e como se cada qual pudesse sentir feridas as suas opiniões. A ideia de que as opiniões formam um corpo connosco, e que o dizer "é a minha opinião" dá um grau de razão superior ao da opinião do vizinho, parece-me preocupante, sobretudo porque se considera um sinal de liberalidade intelectual reconhecer as opiniões de cada um, quando a única liberalidade que existe é reconhecer que as opiniões devem estar fundadas na razão e que ninguém tem direito a expor as suas opiniões se não tem razões para as justificar. A posição autenticamente livre, aberta e revolucionária é sustentar que é a razão que vale e que as opiniões devem submeter-se-lhe, e não que são as opiniões que por si mesmas, por ter uma pessoa por trás, se convertem em invioláveis porque a pessoa o é.

Ensinar estas coisas e ensinar a diferença que há entre o respeito pelas pessoas e os modelos de uma capacidade de escuta, a razão não se nota somente quando alguém argumenta como também quando alguém compreende argumentos. Ser racional é poder ser persuadido por argumentos, não apenas persuadir com argumentos. Ninguém pode aspirar à condição de racional se as suas razões, as vê muito claras, mas nunca vê claramente nenhuma razão alheia. Ver as razões dos outros faz parte, necessariamente, da racionalidade. Aceitar ter sido persuadido por razões costuma ser muito mal visto, como se dar mostras de racionalidade fosse algo muito mau, quando o facto de alguém mudar de opinião demonstra que a razão lhe continua a funcionar. O mundo está cheio de pessoas que se orgulham de pensar o mesmo que pensavam aos 18 anos; provavelmente não pensavam nada, nem agora nem aos 18 anos, e graças a isso mantêm-se invulneráveis a todo o tipo de argumentação, razões, conhecimento do mundo, etc.

Educar para que as pessoas sejam vulneráveis aos raciocínios também faz parte da educação racional, e isto entra na distinção fundamental entre o racional e o razoável. A razão cobre um campo que abarca o meramente racional, no qual nos entendemos com as coisas o melhor possível, e o razoável, no qual nos entendemos com os sujeitos. É razoável incluir na minha própria a razão própria de outro sujeito, a possibilidade de aceitar os seus fins, de aceitar os seus objectivos, a sua própria busca da experiência como parte da minha própria razão. O funcionamento racional e o funcionamento razoável estão ligados, e há que educar em ambos. O razoável será esse outro uso que eu consiga dar aos conhecimentos racionais que tenho. Naturalmente que os usos também estão ligados à razão, mas a outra função diferente, isto é, ao reconhecimento de que não me movo só entre objectos, mas também entre sujeitos. E que o característico dos objectos é que eu posso impor-lhes os meus fins; e dos sujeitos, que eu devo conhecer os seus fins para de alguma forma os contrastar com os meus e buscar a possível cooperação."

Fernando Savater
Ver aqui uma versão mais completa deste texto.
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O que são critérios valorativos?

Critérios valorativos são o conjunto de valores e a sua hierarquia, os conhecimentos e as crenças presentes na consciência do sujeito e que funciona como grelha apreciativa do real.

Há 3 tipos de critérios valorativos: os individuais/pessoais, os sociais ou grupais e os universais.

Os critérios valorativos têm uma dimensão pessoal quando são os interesses pessoais, os sentimentos, gostos e ideias de cada uma orientar os juízos de valor que se fazem. Ex's:"a caneta é preciosa"; " a leitura de romances é uma perda de tempo"- Juízos de valor.

Contudo , cada sujeito, enquanto integra uma comunidade, em costumes, valores, crenças e cultura comuns, ao formular juízos, expressa esses critérios valorativos comuns. Ex's: "O futebol português tem pouca qualidade"; "A poupança é importante para o futuro".- Juízos colectivos.

Coloca-se a questão de saber se são possíveis critérios valorativos universais. E sendo possíveis, quais serão?

O problema da existência de critérios valorativos universais resulta de:

1 - Existirem problemas comuns que impõem soluções comuns;

2 - Todos os homens, sendo dotados de razão, pretendem que os seus juízos de valor se tornem universais.

A dignidade humana é um possível critério valorativo universal, enquanto cada sujeito o aprova para si e para os outros. Este critério, só é universal se for sustentado racionalmente com argumentos fortes e possa assim impor-se a todos os homens, enquanto seres racionais.

A dignidade humana consiste no respeito que cada homem merece em função da inviolabilidade dos seus próprios princípios e da sua vida. A dignidade é um critério universalizável, porque se pretende que o sujeito a aplique a si e aos outros.
http://filosofiadiogovieira.blogspot.pt/

As principais características dos valores


Para saber mais:

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

A Moral e a Ética



Qual a diferença entre a Moral e a Ética?

Podemos responder a esta pergunta com uma história árabe:
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Um homem fugia de uma quadrilha de bandidos violentos quando encontrou, sentado na beira do caminho, o profeta Maomé. Ajoelhando-se à frente do profeta, o homem pediu ajuda: essa quadrilha quer o meu sangue, por favor, proteja-me!

O profeta manteve a calma e respondeu: continue a fugir bem à minha frente, eu encarrego-me  dos que o estão a perseguir.

Assim que o homem se afastou a correr, o profeta levantou-se e mudou de lugar, sentando-se na direção de outro ponto cardeal. Os sujeitos violentos chegaram e, sabendo que o profeta só podia dizer a verdade, descreveram o homem que perseguiam, perguntando-lhe se o tinha visto passar.

O profeta pensou por um momento e respondeu: falo em nome daquele que detém na sua mão a minha alma de carne: desde que estou sentado aqui, não vi passar ninguém.

Os perseguidores conformaram-se com a sua resposta seguiram numa direção diferente da do fugitivo que, dessa forma, teve a sua vida salva.
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O leitor entendeu, não?

Não?

Explico.

A moral incorpora as regras que temos de seguir para vivermos em sociedade, regras estas determinadas pela própria sociedade. Quem segue as regras é uma pessoa moral; quem as desobedece, uma pessoa imoral.

A ética, por sua vez, é a parte da filosofia que estuda a moral, isto é, que reflete sobre as regras morais. A reflexão ética pode inclusive contestar as regras morais vigentes, entendendo, por exemplo, que elas estão ultrapassadas.

Se o profeta fosse apenas um moralista, seguindo as regras sem pensar sobre elas, sem avaliar as consequências da sua aplicação irrefletida, ele não poderia ajudar o homem que fugia dos bandidos, a menos que fosse contra as normas morais que seguia. Ele teria de dizer a verdade, mesmo que a verdade tivesse como consequência a morte de uma pessoa inocente.

Se avaliarmos a ação e as palavras do profeta com absoluto rigor moral, temos de condená-lo como imoral, porque em termos absolutos ele mentiu. Os bandidos não podiam saber que ele havia mudado de lugar e, na verdade, só queriam saber se ele tinha visto alguém, e não se ele tinha visto alguém “desde que estava sentado ali”.

Se avaliarmos a ação e as palavras do profeta, no entanto, nos termos da ética filosófica, precisamos de reconhecer que ele teve um comportamento ético, encontrando uma alternativa inteligente para cumprir a regra moral de dizer sempre a verdade e, ao mesmo tempo, ajudar o fugitivo. Ele não respondeu exatamente ao que os bandidos perguntavam, mas ainda assim disse rigorosamente a verdade. Os bandidos é que não foram inteligentes o suficiente, como de resto acontece com os homens violentos que, normalmente, não são inteligentes, para colocarem a questão de forma mais adequada: "na última meia hora, sua santidade, viu este homem passar, e para onde ele foi?"

Logo, embora seja possível ser ético e moral ao mesmo tempo, como de certo modo o profeta o foi, ética e moral não são sinónimas. Também é perfeitamente possível ser ético e imoral ao mesmo tempo, quando desobedeço a uma determinada regra moral porque, refletindo eticamente sobre ela, a considero obscura, ultrapassada ou simplesmente errada.

Um exemplo famoso é o de Rosa Parks, a costureira negra que, em 1955, na cidade de Montgomery, no Alabama, nos Estados Unidos, desobedeceu à regra existente de que a maioria dos lugares dos autocarros estava reservada para pessoas brancas. Já com certa idade, farta daquela humilhação moralmente oficial, Rosa recusou levantar -se para um branco se sentar no seu lugar. O motorista chamou a polícia, que prendeu a mulher e a multou em dez dólares. O acontecimento provocou um movimento nacional de boicote aos autocarros e foi a gota de água de que precisava o jovem pastor Martin Luther King para liderar a luta pela igualdade dos direitos civis.

No ponto de vista dos brancos racistas, Rosa foi imoral, e eles estavam certos quanto a isso. Na verdade, a regra moral vigente é que estava errada, a moral é que era estúpida. A partir da sua reflexão ética a respeito da norma moral injusta, Rosa pôde deliberada e publicamente desobedecer àquela regra moral.

Entretanto, é comum confundir os termos ética e moral, como se fossem a mesma coisa. Muitas vezes se confunde ética com as normas de conduta de uma classe profissional, que tem tudo a ver com moral mas nada com ética. Um médico seguiria a “ética” da sua profissão se, por exemplo, não denunciasse um colega que cometesse um erro grave e assim matasse um paciente. Um soldado seguiria a “ética” da sua profissão se, por exemplo, não denunciasse um colega que torturasse um inimigo. Nesses casos, as normas profissionais (que, em muitos casos, são objeto de juramento no momento da entrada numa profissão, como acontece com os médicos quando fazem o juramento hipocrático) nada têm a ver com ética e tudo a ver com cumplicidade no erro ou no crime.

Há que proceder eticamente, como o fez o profeta Maomé: não seguir as regras morais sem pensar, só porque são regras, e sim pensar sobre elas para encontrar a atitude e a palavra mais decentes, segundo o seu próprio julgamento.

Portanto, a ética, no sentido filosófico tem a ver com a autonomia: cada pessoa deve usar a sua Razão (a sua Consciência Moral) para decidir o que fazer. Por vezes isso pode ir contra as normas vigentes na sociedade - muitas delas inscritas nas leis.
Gustavo Bernardo
http://www.revista.vestibular.uerj.br/coluna/coluna.php?seq_coluna=68

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Atividades:

Grupo I

Leia o texto com atenção. De seguida:

1. Estabeleça a distinção entre moral e ética.
2. Já vimos que a Razão pode ser usada como critério valorativo. É esse o caso de Rosa Parks? Justifique a sua resposta (com base numa argumentação racional).
2.1. Aplique a bússola dos valores ao caso de Rosa Parks: que valores ela seguiu ao tomar a sua decisão? Esses valores podem ser universalizados? Justifique.

Grupo II

O dilema de Henrique


Numa cidade da Europa, uma mulher estava quase a morrer com um tipo muito raro de cancro. Havia um remédio, feito à base de Rádio, que os médicos imaginavam que poderia salvá-la, e que um farmacêutico da mesma cidade havia descoberto recentemente. A produção do remédio era cara, mas o farmacêutico cobrava por ele dez vezes mais do que lhe custava produzi-lo: O farmacêutico pagou €400 pelo Rádio e cobrava €4000 por uma pequena dose do remédio. Henrique, o marido da doente, procurou todos os seus conhecidos para lhes pedir dinheiro emprestado, e tentou todos os meios legais para consegui-lo, mas só pôde obter uns €2000, que é justamente a metade do que custava o medicamento. Henrique disse ao farmacêutico que a sua mulher estava a morrer e pediu-lhe que vendesse o remédio mais barato, ou que o deixasse pagar a prestações. Mas o farmacêutico respondeu: ‘Não, eu descobri o remédio e vou ganhar dinheiro com ele’. Assim, tendo tentado obter o medicamento por todos os meios legais, Henrique, desesperado, considera a hipótese de assaltar a farmácia para roubar o medicamento para sua esposa. O Henrique deve roubar o medicamento?”

Kohlberg

1. De acordo com as regras morais vigentes na nossa sociedade (codificadas nas leis) o Henrique deve roubar o medicamento? Justifique.

2. Se o Henrique se colocar numa perspectiva ética pode decidir que tem o dever de roubar o medicamento (já que não tem outra alternativa para salvar a vida da sua mulher)? Responda a esta questão aplicando a bússola dos valores a esta situação: que valores o Henrique deve usar para fundamentar a sua decisão? Esses valores podem ser universalizados? Porquê?

O conceito de cultura



CULTURA E DIVERSIDADE CULTURAL

Conceito de cultura: Segundo o sociólogo inglês Raymond Williams, a palavra cultura vem do latim – colere – e definia inicialmente o cultivo das plantas, o cuidado com os animais e também com a terra (por isso se fala em agricultura);

Definia, ainda, o cuidado com as crianças e a sua educação; o cuidado com os deuses (o seu culto); o cuidado com os antepassados e os seus monumentos (a sua memória);

Chegaríamos ao sentido mais comum do termo na nossa sociedade: o homem que tem cultura é o homem “culto”. Mas, se pensássemos em cultura apenas nesse sentido, teríamos que perguntar: só quem lê muito, quem passou um longo tempo na escola é que tem cultura? E o camponês, o operário, o comerciante, estes não têm cultura?

Numa outra perspectiva, poderíamos responder que cultura é cinema, pintura, teatro, as manifestações artísticas em geral. Nesse caso, só os artistas é que teriam cultura? Mas e as festas populares, as crenças, as chamadas tradições, seriam o quê?

A maneira de agir, pensar e sentir de um grupo de pessoas ou classe social seria ou não cultura? O “modo de ser” dos portugueses tem algo a ver com “cultura”, com “cultura portuguesa”?

Antes de tentar responder a essas perguntas, devemos partir, especificamente, da compreensão do próprio conceito. Pensar em cultura requer que se pense, inicialmente, na sua relação com outros dois conceitos fundamentais: o de civilização e o de história. Foi na Europa, a partir do século XVIII, que o conceito de cultura passou a ser associado ao conceito de civilização. Os pensadores do período, preocupados em estudar o homem e a sociedade, pensavam a relação entre o conceito de cultura e de civilização de maneiras diversas.

Jean-Jacques Rousseau (1712-1778): cultura seria definida como bondade natural, solidariedade espontânea. A essa ideia positiva de cultura, Rousseau opunha a ideia negativa de civilização. O conceito de civilização era pensado como aprisionamento da bondade humana natural, por meio de regras e convenções artificiais e exteriores ao homem;

Voltaire (1694-1778) e Kant (1724-1808): cultura e civilização representavam, ambas, o processo de aperfeiçoamento moral e racional da sociedade.

Hegel (1770-1831): Compreendida em sua relação com a história, a cultura é definida como o conjunto organizado dos vários modos de vida de uma sociedade. Segundo o filósofo alemão, a cultura resultaria da forma de ser dos homens. Assim, a concepção de cultura estaria relacionada com as formas como os homens vão compreendendo, representando e se relacionando com os vários elementos componentes da sua existência: o trabalho, a religião, a linguagem, as ciências, as artes e a política.

Os estudos antropológicos desenvolveram em torno deste conceito alargado de cultura: A antropologia, como ciência, desenvolveu-se principalmente a partir do século XVIII com a expansão colonial europeia. Novos territórios vinham sendo descobertos e ocupados pelas potências europeias (principalmente a Inglaterra) e novos povos (considerados primitivos, quando comparados com a sociedade ocidental) eram contactados. Era preciso conhecer os seus hábitos, costumes e valores, principalmente para melhor os dominar. A antropologia surgiu, como se pode deduzir, como conseqüência da política imperialista e com o intuito de auxiliá-la. Ao longo do tempo, porém, a atuação dos antropólogos desenvolveu-se de maneira mais independente e num sentido muitas vezes oposto ao que deles se exigia.

Nas últimas décadas, o estudo do “outro” (os outros povos, as suas crenças e costumes) passa a desenvolver-se no sentido político de mostrar que as diferenças culturais não significam inferioridade nem justificam a dominação. Por essa razão, a antropologia ajudou a desqualificar o etnocentrismo (isto é, a tendência a valorizar a própria cultura, tomando-a como parâmetro para avaliar as demais) e a admitir o relativismo cultural e, posteriormente, o interculturalismo. Para ela, cada sociedade possui o direito de se desenvolver de modo autónomo, não existindo uma teoria sobre a humanidade que possua alcance universal, e que seja capaz de impor-se a outras, com base em qualquer tipo de superioridade.

Tiago Dantas
http://sociologiadeplantao.blogspot.pt/2009/08/conceito-de-cultura.html

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Cultura, identidade e diversidade cultural







O conceito de aculturação
Aculturação é um termo criado inicialmente por antropólogos norte-americanos para designar as mudanças que podem acontecer em uma sociedade diante de sua fusão com elementos culturais externos, geralmente por meio de dominação política, militar e territorial. Porém, segundo o historiador francês Nathan Watchel, aculturação é todo fenómeno de interação social que resulta do contato entre duas culturas, e não somente da sobreposição de uma cultura a outra.

Já Alfredo Bosi, em Dialética da colonização, afirma que esse fenómeno provém do contacto entre sociedades distintas e pode ocorrer em diferentes períodos históricos, dependendo apenas da existência do contacto entre culturas diversas, constituindo-se, assim, um processo de sujeição social de uma sociedade a outra.

A maioria dos autores acreditam que a aculturação é sempre um fenómeno de imposição cultural.

Trata-se,também,  de aculturação quando duas culturas distintas ou parecidas são absorvidas uma pela outra, formando uma nova cultura diferente. Além disso, aculturação pode ser também entendida como a absorção de uma cultura pela outra, onde essa nova cultura terá aspectos da cultura inicial e da cultura absorvida. Um exemplo é o Brasil que adquiriu traços da cultura de Portugal, da África, que juntamente com a cultura indígena formaram a cultura brasileira.

Com a crescente globalização, um novo entendimento de aculturação vem-se tornando um dos aspectos fundamentais na sociedade. Pela proximidade a grandes culturas e rapidez de comunicação entre os diferentes países do globo, alguns autores sustentam que cada cultura está a perder a sua identidade cultural e social, aderindo em parte a outras culturas. Um exemplo disso são elementos da cultura ocidental que são cada vez mais homogéneos em muitos países distintos. Mesmo assim a aculturação não tira totalmente a identidade social de um povo, crendo-se que talvez no futuro não exista mais uma diferença cultural tão acentuada como a aquela que hoje ainda se observa, em especial entre o Oriente e o Ocidente.
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O texto inserido a seguir foi copiado a partir do Portal das Escolas
(No ficheiro não não é indicado o nome do(s) autores(s))


Multiculturalismo

As vivências dos indivíduos em diferentes contextos sociais, com as suas hierarquias de valores, com a sua cultura própria colocam sérias dificuldades de convivência intercultural. Porém, por razões particulares, acontece que pessoas de espaços culturais diversos são muitas vezes obrigadas a relacionar-se e a ter de conviver.

Fala-se de multiculturalismo ou diversidade cultural para designar este fenómeno, o qual tem vindo a merecer a atenção de inúmeros investigadores. Entre eles, uns preocupam-se com a descrição e análise das diferenças culturais entre os povos que habitam regiões distintas do globo; outros analisam o facto de, num mesmo espaço social, pessoas com culturas diferentes terem de lidar umas com as outras.

Devido à emigração, é possível num país, ou mesmo numa cidade, a existência de diversos núcleos culturais. 
Acrescente-se ainda a existência de grupos sociais que, por inúmeras razões, se sentem marginalizados pelos elementos da sociedade, como é o caso dos deficientes, dos idosos, dos homossexuais e de outros.

Atitudes face à diversidade cultural

Perante a existência de seres humanos com normas e hábitos culturais diferentes, as pessoas podem assumir atitudes e condutas muito variadas. Mencionaremos algumas dessas atitudes: etnocentrismo, relativismo cultural e interculturalismo.


Etnocentrismo

Incluem-se aqui as pessoas que observam as outras culturas em função da sua própria cultura, tomando-a como padrão para valorar e hierarquizar as restantes. Desta atitude podem, de imediato, resultar duas consequências:

• Incompreensão em relação aos aspectos das outras culturas, pois o etnocentrista é incapaz de aceitar os que não adoptam modos de vida semelhantes aos seus.
• Aumento da coesão dos elementos do grupo e do sentimento de superioridade em relação aos elementos das culturas com que têm de coexistir.

Imagem retirada do manual Um outro olhar sobre o mundo
Para preservar os traços da sua cultura, o etnocentrista pode assumir posturas negativas, entre as quais se contam:
• Xenofobia, ou seja, ódio em relação aos estrangeiros.
• Racismo, isto é, repúdio violento de determinados grupos étnicos.
• Chauvinismo, quer dizer, patriotismo fanático.


Relativismo cultural

Para além dos etnocentristas, há outras pessoas que perspectivam as outras culturas a partir dos valores por que se regem e não dos valores das culturas em causa. São os defensores do relativismo cultural.
Porém, afastam-se dos etnocentristas ao recomendarem a tolerância face as diferentes expressões culturais  das outras comunidades.
Esta tolerância, sendo aparentemente uma atitude positiva, manifesta alguns aspectos negativos:

• a proclamação dos respeito e tolerância pelas outras culturas encerra a ideia de que cada cultura deve promover os seus próprios valores, ficando fechada em si própria.
• Não incentivando a abertura aos modelos das outras comunidades, os defensores do relativismo não promovem, antes dificultam, o diálogo entre culturas.

Neste sentido, os relativistas não escapam a certos riscos. Entre eles, anotam-se os seguintes:

Racismo
Embora proponham o respeito pelos modos de vida de todos os povos, os relativistas estão a preservar a sua própria cultura. A melhor forma de as pessoas se preservarem consiste em não se misturarem. Daí não serem adeptos do diálogo cultural.


Isolamento
Apesar da tolerância, o relativismo promove a separação entre culturas, não manifestando interesse em estabelecer contacto com povos diferentes. A defesa de que cada ser humano deve ficar no seu país e viver segundo a sua cultura acaba por ser, muitas vezes, um modo de justificar a proibição da entrada de imigrantes.

Estagnação 
Há uma visão estática das culturas, considerando que o importante é manter
as tradições. Certamente que é bom manter as tradições para conservar a memória colectiva; porém, a cultura é algo de vivo que se deve adaptar a novas circunstâncias e, para isso, os contactos entre culturas são altamente enriquecedores. Esta é a perspectiva adoptada pelos defensores do interculturalismo.


Interculturalismo

Este movimento tem como ponto de partida o respeito pelas outras culturas, superando as falhas do relativismo cultural, ao defender o encontro, em pé de igualdade, entre todas elas.

O interculturalismo propõe-se promover os seguintes objectivos:
• Compreender a natureza pluralista da nossa sociedade e do nosso mundo.
• Promover o diálogo entre culturas.
• Compreender a complexidade e riqueza da relação entre as diferentes culturas, tanto no plano pessoal como no comunitário.
• Colaborar na busca de respostas aos problemas mundiais que se colocam nos âmbitos social, económico, político e ecológico.

Dado que não se pode considerar que qualquer cultura tenha atingido o seu total desenvolvimento, o diálogo entre povos de diferentes culturas é o meio de possibilitar o enriquecimento mútuo de todas elas. O interculturalismo propõe, assim, que se aprenda a conviver num mundo pluralista e  se respeite e defenda a humanidade no seu conjunto. 


A importância do diálogo entre culturas

O diálogo entre culturas corresponde a uma exigência do nosso tempo, dada a necessidade de dar respostas comuns a desafios que se colocam a toda a humanidade. Para o levar a cabo é necessário, contudo, ter como base um conjunto de valores morais partilhados, entre os quais se evidenciam os seguintes:
• Salvaguarda dos direitos humanos.
• Apreço pela liberdade, igualdade e solidariedade.
• Respeito pelas diferenças culturais.
• Promoção de uma atitude dialogante.
• Implementação de um tolerância activa.

Estes mínimos morais são os alicerces para a construção de uma “civilização mundial”. Tal civilização será obra de todas as culturas e raças e terá de ser edificada através de um diálogo intercultural sério e frutífero. 

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Os perigos do etnocentrismo

"É norma socialmente reconhecida entre nós que devemos cuidar dos nossos pais e de familiares quando atingem uma idade avançada; os Esquimós deixam-nos morrer de fome e de frio nessas mesmas condições. Algumas culturas permitem práticas homossexuais enquanto outras as condenam (pena de morte na Arábia Saudita). Em vários países muçulmanos a poligamia é uma prática normal, ao passo que nas sociedades cristãs ela é vista como imoral e ilegal. Certas tribos da Nova Guiné consideram que roubar é moralmente correcto; a maior parte das sociedades condenam esse acto. O infanticídio é moralmente repelente para a maior parte das culturas, mas algumas ainda o praticam. Em certos países a pena de morte vigora, ao passo que noutras foi abolida; algumas tribos do deserto consideravam um dever sagrado matar após terríveis torturas um membro qualquer da tribo a que pertenciam os assassinos de um dos seus.

Centenas de páginas seriam insuficientes para documentarmos a relatividade dos padrões culturais, a grande diversidade de normas e práticas culturais que existem actualmente e também as que existiram.

Até há bem pouco tempo muitas culturas e sociedades viviam praticamente fechadas sobre si mesmas, desconhecendo-se mutuamente e desenvolvendo bizarras crenças acerca das outras.

 Os europeus que viajaram para as Américas no século XVI acreditavam que iam encontrar gigantes, amazonas e pigmeus, a Fonte da Eterna Juventude, mulheres cujos corpos nunca envelheciam e homens que viviam centenas de anos. Os índios americanos foram inicialmente olhados como criaturas selvagens que tinham mais afinidades com os animais do que com os seres humanos. Paracelso, nunca lá tendo ido, descreveu o continente norte-americano povoado por criaturas que eram meio homens meio bestas. Julgava-se que os índios, os nativos desse continente, eram seres sem alma nascidos espontaneamente das profundezas da terra. O bispo de Santa Marta, na Colômbia, descrevia os indígenas como homens selvagens das florestas e não homens dotados de uma alma racional, motivo pelo qual não podiam assimilar nenhuma doutrina cristã, nenhum ensinamento, nem adquirir a virtude.

Anthony Giddens, Sociology, Polity Press, Cambridge, p. 30

Durante o século XIX os missionários cristãos em África e nas ilhas do Pacífico forçaram várias tribos nativas a mudar os seus padrões de comportamento. Chocados com a nudez pública, a poligamia e o trabalho no dia do Senhor, decidiram, paternalistas, reformar o modo de vida dos "pagãos". Proibiram os homens de ter mais de uma mulher, instituíram o sábado como dia de descanso e vestiram toda a gente. Estas alterações culturais, impostas a pessoas que dificilmente compreendiam a nova religião, mas que tinham de se submeter ao poder do homem branco, revelaram-se, em muitos casos, nocivas: criaram mal-estar social, desespero entre as mulheres e orfandade entre as crianças.

Se bem que o complexo de superioridade cultural não fosse um exclusivo dos Europeus (os chineses do século XVIII consideraram desinteressantes e bárbaros os seus visitantes ingleses), o domínio tecnológico, científico e militar da Europa, bem vincado a partir das Descobertas, fez com que os Europeus julgassem os próprios padrões, valores e realizações culturais como superiores. Povos pertencentes a sociedades diferentes foram, na sua grande maioria, desqualificados como inferiores, bárbaros e selvagens.

O etnocentrismo é a atitude característica de quem só reconhece legitimidade e validade às normas e valores vigentes na sua cultura ou sociedade. Tem a sua origem na tendência de julgarmos as realizações culturais de outros povos a partir dos nossos próprios padrões culturais, pelo que não é de admirar que consideremos o nosso modo de vida como preferível e superior a todos os outros. Os valores da sociedade a que pertencemos são, na atitude etnocêntrica, declarados como valores universalizáveis, aplicáveis a todos os homens, ou seja, dada a sua "superioridade" devem ser seguidos por todas as outras sociedades e culturas. Adoptando esta perspectiva, não é de estranhar que alguns povos tendam a intitular-se os únicos legítimos e verdadeiros representantes da espécie humana.

Quais os perigos da atitude etnocêntrica? A negação da diversidade cultural humana (como se uma só cor fosse preferível ao arco-íris) e, sobretudo os crimes, massacres e extermínios que a conjugação dessa atitude ilegítima com ambições económicas provocou ao longo da História.

Depois da Segunda Guerra Mundial e do extermínio de milhões de indivíduos pertencentes a povos que pretensos representantes de valores culturais superiores definiram como sub-humanos, a antropologia cultural promoveu a abertura das mentalidades, a compreensão e o respeito pelas normas (valores das outras culturas Mensagens fundamentais: a) Em todas as culturas encontramos valores positivos e valores negativos; b) Se certas normas e práticas nos parecem absurdas devemos procurar o seu sentido integrando-as na totalidade cultural sem a qual são incompreensíveis, c) O conhecimento metódico e descomplexado de culturas diferentes da nossa permite-nos compreender o que há de arbitrário nalguns dos nossos costumes, torna legítimo optar, por exemplo, por orientações religiosas que não aquelas em que fomos educados, questionar determinados valores vigentes, propor novos critérios de valoração das relações sociais, com a natureza, etc.

A defesa legítima da diversidade cultural conduziu, contudo, muitos antropólogos actuais a exagerarem a diversidade das culturas e das sociedades: não existiriam valores universais ou normas de comportamentos válidos independentemente do tempo e do espaço. As valorações são relativas a um determinado contexto cultural, pelo que julgar as práticas de uma certa sociedade, não existindo escala de valores universalmente aceite, seria avaliá-los em função dos valores que vigoram na nossa cultura.

Cairíamos de novo, segundo a maioria dos antropólogos, nessa atitude dogmática que é o etnocentrismo.»

RODRIGUES, Luís (2003). Filosofia 10.º ano. Lisboa: Plátano Editora.

De que modo podem os valores orientar e guiar o agir?

Os valores orientam a ação porque servem de padrões de avaliação do real e de critérios de deliberação.

Isto torna-se inteligível a partir da análise do que chamámos a bússola dos valores:

Quando fazemos escolhas e deliberamos qual a decisão a tomar em cada caso, usamos os valores, tendo em conta as suas características fundamentais: a matéria, a polaridade e a hierarquia.
Procuramos dar sentido à situação em que nos encontramos (atribuindo valor às coisas, aos acontecimentos, às ações) e analisando os prós e os contras de cada opção ao nosso dispor).

A bússola nasce do cruzamento da polaridade e da hierarquia dos valores.

As tomadas de decisão tendem a situar-se no quadrante positivo/superior: tendemos sempre a escolher o que achamos melhor.

A bússola funciona tendo em conta critérios de avaliação que podem diferir de indivíduo para indivíduo: uma pessoa egoísta tenderá a escolher opções que a beneficiem, mesmo que sejam prejudiciais para os outros, enquanto que uma pessoa altruísta irá considerar que a melhor opção será a que beneficiar os outros, enquanto que uma pessoa utilitarista considerará que a melhor escolha em cada momento deverá ser a que privilegiar o bem do maior número de pessoas.


Conhecer, Valorar e Agir

Sem os valores não saberíamos como agir, eles são-nos necessários porque somos livres. Se o nosso comportamento fosse completamente instintivo não teríamos liberdade e, então, não teríamos que fazer escolhas. 
Isso significa que não teríamos preferências, pois estaríamos totalmente dependentes do nosso determinismo biológico, seríamos pouco diferentes das formigas, embora pudéssemos lidar com uma quantidade de informação astronomicamente maior, estaríamos, como elas, totalmente dependentes da causalidade natural, o nosso comportamento seria sempre uma reação cega aos estímulos do meio.
Por sermos livres somos agentes e como agentes podemos determinar o curso da nossa vida fazendo escolhas, tomando decisões, e instando os outros a fazerem o mesmo. Muitas vezes as nossas ações inserem-se num esforço coletivo, agimos de forma coordenada com outros agentes. Isso pressupões que possamos entender-nos e aí a linguagem simbólica, própria do ser humano, é uma preciosa ferramenta. 
A linguagem permite-nos estruturar um pensamento racional que também segue princípios de organização formal - e é aí que entra a Lógica. Tal como a linguagem com as suas regras gramaticais e as suas referências semânticas ao mundo das coisas, a Razão também segue regras formais na estruturação do pensamento (nós já estudámos os Princípios Lógicos da Razão e não foi por acaso). 
A Razão, porque assenta em princípios lógicos comuns a todos os sujeitos (daí dizermos que o conhecimento racional é universal) permite-nos chegar a conclusões objetivas e sistemáticas sobre o mundo em que vivemos (nós e os outros seres humanos, sempre em interação).
Assim, para podermos agir precisamos de conhecer a realidade que, constantemente, nos desafia a agir (estão sempre a acontecer situações que exigem tomadas de decisão da nossa parte) e na qual se vão refletir os efeitos das nossas ações - tudo o que fazemos tem um impacto na realidade. A nossa ação reflete-se sobre as coisas e as pessoas, com consequências que à partida podem ser imprevisíveis.
Por isso conhecer é importante para podermos agir de forma adequada. 
É a partir do conhecimento que adquirimos sobre cada situação que se exerce a valoração. Só podemos atribuir valor de forma adequada, quando conhecemos o objeto sobre o qual vai recair a nossa valoração. Muitas vezes enganamo-nos sobre a natureza do objeto e a nossa apreciação do mesmo pode revelar-se desadequada. Isto mostra a importância do conhecimento para a valoração e a ação: conhecendo bem as situações podemos fazer deliberações com um grau elevado de possibilidade de nos conduzirem a uma ação eficaz ou, também ela adequada à situação que a motivou.
A necessidade da valoração existe porque o conhecimento não nos dá toda a informação sobre o que está em causa quando temos que agir. Se fôssemos como as formigas o conhecimento seria um mero input que desencadearia em nós uma reação, de forma direta, imediata, sem a intervenção da reflexão racional. Se assim fosse, a Razão seria de todo supérflua, pois não serviria para nada. As formigas não são racionais e no entanto a razão não lhes faz falta para nada porque a sua programação biológica lhes permite 'resolver' todas as situações.
A valoração é necessária à ação porque o conhecimento, por mais objetivo e verdadeiro que seja, não nos consegue dar toda a informação: para além dos estados do mundo exterior, como a temperatura ambiente, a distância dos objetos, ou qualquer outro dado conhecível de forma objetiva, nós somos mais complexos do que os animais ou as máquinas: nós temos emoções e sentimentos, temos a necessidade de muitas 'coisas' que não são materiais que, em muitos casos, dependem do comportamento dos outros e não podem ser adquiridas através da resolução racional e impessoal dos problemas.
O conhecimento pode mostrar-nos que temos, numa dada situação, várias opções de escolha, várias alternativas aparentemente equivalentes e/ou adequadas a cada situação. É atribuindo valores a essas alternativas/ opções que conseguimos escolher a que nos parece preferível. Só depois é que agimos.




Teste 3 - Matriz / Plano de estudo

Nota: neste teste é obrigatório o uso de folha de teste.
Seja original e crítico nas suas respostas.

Esclarecimento de dúvidas por email
(até 48 horas antes do teste - deve indicar o nome, nº. e turma)

Objectivos / Conteúdos:

1. Caracterizar a filosofia a partir das suas principais características: radicalidade; autonomia; historicidade e universalidade;
2. Identificar os diversos elementos constitutivos da ação (os conceitos da ‘rede conceptual da ação’);
3. Definir e relacionar os conceitos de agente, motivo, intenção e consequências (da ação);
4. Distinguir atos voluntários e involuntáriosApresentação
5. Explicar a influência das condicionantes biológicas no comportamento humano;
6. Explicar a importância das condicionantes sócio-culturais no comportamento humano;
7. Interpretar o filme 'Os gatos não têm vertigens' atendendo à temática dos valores;
8. Reconhecer que o ser humano não nasce humano;
9. Definir o conceito de valor.
10. Definir a Axiologia: a Teoria (ou Filosofia) dos valores;
11. Reconhecer os principais problemas da Axiologia;
12. Compreender a relação entre a ação humana e os valores;
13. Caracterizar os valores tendo em conta as suas principais características: matéria, polaridade e hierarquia;
14. Explicar a valoração e os critérios valorativos, tendo em conta a bússola dos valores;
15. Identificar diversos campos axiológicos (diversos tipos de valor, por exemplo: valores religiosos, valores éticos, valores estéticos, valores políticos, etc.);
16. Compreender a historicidade dos valores;
17. Caracterizar e distinguir juízos de facto e juízos de valor;
18. Problematizar a natureza dos valores: os valores são subjetivos ou objetivos?
19. Explicar a teoria objetivista tendo em conta as suas teses e argumentos;
20. Explicar a teoria subjetivista tendo em conta as suas teses e argumentos;
21. Explicar a teoria estruturalista tendo em conta as suas teses e argumentos;
22. Analisar conflitos de valores/ Definir o conceito de conflito de valores;
23. Definir o conceito de critério valorativo;
24. Reconhecer a importância da Razão como critério valorativo;
25. Definir o conceito de  cultura;
26. Explicar porque é que o homem é produto e produtor da cultura;
27. Definir o conceito de padrão cultural;
28. Analisar o conceito de identidade cultural;
29. Reconhecer a importância da diversidade cultural;
30. Definir o conceito de aculturação;
31. Definir e interpretar o etnocentrismo;
32. Definir e interpretar o relativismo cultural;
33. Definir e interpretar o interculturalismo;
34. Colocar problemas de forma pertinente;
35. Identificar problemas, teses e argumentos;
36. Construir argumentações sólidas.
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Questões de verificação da aprendizagem (pp.86 e 97 do manual)

1. Qual é a relação entre os valores e a acção humana?

2. O que são os valores?

3. O que significa dizer que os valores são construções humanas?

4. De que modo podem os valores orientar e guiar o agir?

5. Que tipos de valor estão presentes na nossa vida?

6. Que características podemos atribuir aos valores? Como explicar cada uma dessas características?

7. O que distingue juízo de facto de juízo de valor?

8. O que defende o objetivismo axiológico? E a teoria subjetivista?

9. O que são conflitos de valores? E critérios valorativos?

10. Sou capaz de dar exemplos de situações de conflito de valores?

11. A superação de conflitos de valores depende de que fatores?

12. Qual é a relação entre os valores e a cultura?

13. Qual a importância da identidade cultural e da diversidade cultural?

14. Como se caracteriza o etnocentrismo?

15. Como se caracteriza o relativismo cultural?

16. O que é o diálogo intercultural (interculturalismo) e como se articula com a diversidade cultural?



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Recursos:


Teste modelo sobre os valores. - Este teste modelo tem o mesmo nível de dificuldade de um  teste sumativo e foi elaborado a partir dos objetivos 10 - 35.

Ficha Formativa sobre os valores e a cultura