quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

O relativismo moral - Ficha prática

Cerimónia do povo Kwakiutl
Grupo I
O relativismo cultural e o relativismo moral

Segundo a antropóloga Ruth Benedict, sempre que morria um membro da tribo Kwakiutl, do noroeste americano, os familiares enlutados saíam em busca de membros de outras tribos para os matar. Para eles, a morte era uma afronta que devia ser vingada pela morte de outra pessoa. Assim, quando a irmã do chefe da tribo morreu, este matou sete homens e duas crianças de outra tribo que nada tinham a ver com o acontecimento.

Se eu ou você tivéssemos feito tais coisas seríamos considerados assassinos. Matar pessoas inocentes como o fez o chefe dos Kwakiutl é contrário às nossas leis e ao nosso código moral. Contudo, a sua acção não foi contrária às leis ou ao código moral da sua cultura. Segundo os padrões morais da sua sociedade, o que fez é aceitável, porventura obrigatório. Que código moral é correcto? O da cultura a que você e eu pertencemos ou o código moral da referida tribo? O chefe da tribo Kwakiutl agiu erradamente ao assassinar nove pessoas inocentes por a sua irmã ter morrido? Com que fundamento podemos afirmar isso?

Os antigos egípcios, gregos e romanos praticavam a escravatura. O mesmo acontecia com os israelitas do Antigo Testamento. Até uma data tão recente como 1860, muitos brancos no sul dos Estados Unidos tinham escravos negros. No passado muitas culturas acreditavam que a escravatura era um prática moralmente aceitável. Hoje quase ninguém aceita tal ideia. Estavam os nossos antepassados errados quando acreditavam na moralidade da escravatura? Mais uma vez: com que fundamento podemos afirmar isso?Quando os britânicos começaram a ocupar e colonizar a Índia, descobriram horrorizados que os hindus praticavam a queima das viúvas. Quando o marido morria a mulher (ou as mulheres) era pressionada para que aceitasse ser cremada juntamente com o corpo do marido na pira funerária. Os britânicos acreditavam que essa prática era moralmente inaceitável, desumana. Muitos hindus discordavam completamente. Diferentes culturas, diferentes crenças morais. Será que um conjunto de normas e preceitos morais é errado e o outro correcto?

Diferentes sociedades, diferentes culturas e diferentes indivíduos discordam frequentemente acerca do que é bom e mau, correcto ou incorrecto. É muito difícil pôr as pessoas de acordo sobre questões morais. As disputas muitas vezes parecem intermináveis e insolúveis. Por isso muitas pessoas perguntam: «Há verdade e falsidade em assuntos morais?», «Faz sentido dizer que uma crença moral é correcta e que outra é errada?»Jornal de Filosofia 

                                                          
1. Será a ética relativa? Não há princípios éticos universais?
2. Faça o levantamento das questões colocadas no texto 1.
2.1. Responda a essas questões tendo em conta a resposta que foi dada à questão 1.
3. O interculturalismo pode levar a que as sociedades se tornem mais evoluídas do ponto de vista ético?



Fotografia de Melvin Sokolsky (1963)
Grupo II

Ana Subjectivista

Chamo-me Ana Subjectivista. Adoptei o subjectivismo ao compreender que a moral é profundamente emocional e pessoal.
O ano passado frequentei com alguns amigos um curso de antropologia. Acabámos por aceitar o relativismo cultural — a perspectiva de que o bem e o mal são relativos a cada cultura, que "bem" significa "socialmente aprovado". Mais tarde, descobri que o relativismo cultural enfrenta um problema, nomeadamente o de nos negar a liberdade para formarmos os nossos próprios juízos morais. Sucede que a liberdade moral é algo a que atribuo muita importância.
O relativismo cultural obriga-me a aceitar todos os valores da sociedade. Admitamos que descobri que a maior parte das pessoas aprova acções racistas; terei então de concluir que o racismo é um bem. Estaria a contradizer-me se dissesse "O racismo é socialmente aprovado embora não seja um bem". Como o relativismo cultural impõe as respostas do exterior, negando a liberdade de pensamento em questões morais, passei a considerá-lo repulsivo.
O subjectivismo sustenta que as verdades morais são relativas ao indivíduo. Se eu gosto de X e você não, então "X é um bem" é verdade para mim mas falso para si. Usamos a palavra "bem" para falar dos nossos sentimentos positivos. Nada é um bem ou um mal em si mesmo, independentemente dos nossos sentimentos. Os valores apenas existem como preferências de pessoas individuais. Você tem as suas preferências e eu as minhas; nenhuma preferência é objectivamente correcta ou incorrecta. Esta ideia tornou-me mais tolerante a respeito das pessoas com sentimentos diferentes e, portanto, com diferentes crenças morais.
                                                                                                                                                                Harry Gensler, Jornal de Filosofia


1. Que objecções se podem colocar ao subjectivismo moral?
2. Relacione o subjetivismo moral com o relativismo cultural e o relativismo moral.


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Para saber mais:

ÉTICA E SUBJECTIVISMO

A Pessoa como agente moral ou sujeito ético

A palavra “ética” vem do grego ethos, que significava, já na Grécia antiga, hábito, costume. Esse sentido é o mesmo atribuído pelos romanos da Antiguidade à palavra latina mores, que deu origem ao termo “moral”. 


A palavra "pessoa" tem a sua origem no termo latino para uma máscara usada por um actor no teatro clássico. Ao porém máscaras, os actores pretendiam mostrar que desempenhavam uma personagem. Mais tarde "pessoa" passou a designar aquele que desempenha um papel na vida, que é um agente. De acordo com o Oxford Dictionary, um dos sentidos actuais do termo é "ser autoconsciente ou racional". Este sentido tem precedentes filosóficos irrepreensíveis. John Locke define a pessoa como "um ser inteligente e pensante dotado de razão e reflexão e que pode considerar-se a si mesmo como aquilo que é, a mesma coisa pensante, em diferentes momentos e lugares."
Peter Singer - Aceda aqui a uma versão mais desenvolvida deste texto.

Os elementos constituintes do campo ético

Para que haja conduta ética é preciso que exista o agente consciente, isto é, aquele que conhece a diferença entre bem e mal, certo e errado, permitido e proibido, virtude e vício. 

A consciência moral não só conhece tais diferenças, mas também reconhece-se como capaz de julgar o valor dos atos e das condutas e de agir em conformidade com os valores morais, sendo por isso responsável pelas suas ações e os seus sentimentos e pelas consequências do que faz e sente. Consciência e responsabilidade são condições indispensáveis da vida ética.

A consciência moral manifesta-se, antes de tudo, na capacidade para deliberar diante de alternativas possíveis, decidindo e escolhendo uma delas antes de lançar-se na ação. Tem a capacidade para avaliar e pesar as motivações pessoais, as exigências feitas pela situação, as consequências para si e para os outros, a conformidade entre meios e fins (empregar meios imorais para alcançar fins morais é impossível), a obrigação de respeitar o estabelecido ou de transgredi-lo (se o estabelecido for imoral ou injusto).

A vontade é esse poder deliberativo e decisório do agente moral. Para que exerça tal poder sobre o sujeito moral, a vontade deve ser livre, isto é, não pode estar submetida à vontade de um outro nem pode estar submetida aos instintos e às paixões, mas, ao contrário, deve ter poder sobre eles e elas.

O campo ético é, assim, constituído pelos valores e pelas obrigações que formam o conteúdo das condutas morais, isto é, as virtudes. Estas são realizadas pelo sujeito ético ou agente moral, principal constituinte da existência ética. O sujeito ético ou moral, isto é, a pessoa, só pode existir se preencher as seguintes condições:

- ser consciente de si e dos outros, isto é, ser capaz de reflexão e de reconhecer a existência dos outros como sujeitos éticos iguais a ele;

- ser dotado de vontade, isto é, de capacidade para controlar e orientar desejos, impulsos, tendências, sentimentos (para que estejam em conformidade com a consciência) e de capacidade para deliberar e decidir entre várias alternativas possíveis;

ser responsável, isto é, reconhecer-se como autor da ação, avaliar os efeitos e consequências dela sobre si e sobre os outros, assumi-la bem como às suas consequências, respondendo por elas;

- ser livre, isto é, ser capaz de oferecer-se como causa interna dos seus sentimentos atitudes e ações, por não estar submetido a poderes externos que o forcem e o constranjam a sentir, a querer e a fazer alguma coisa. A liberdade não é tanto o poder para escolher entre vários possíveis, mas o poder para autodeterminar-se, dando a si mesmo as regras de conduta.

 O campo ético é, portanto, constituído por dois pólos internamente relacionados: o agente ou sujeito moral e os valores morais ou virtudes éticas. Do ponto de vista do agente ou sujeito moral, a ética faz uma exigência essencial, qual seja, a diferença entre passividade e atividade

Passivo é aquele que se deixa governar e arrastar pelos seus impulsos, inclinações e paixões, pelas circunstâncias, pela boa ou má sorte, pela opinião alheia, pelo medo dos outros, pela vontade de um outro, não exercendo a sua própria consciência, vontade, liberdade e responsabilidade. Enfim, vive na heteronomia (é heterónomo*).

Pelo contrário, é ativo ou virtuoso aquele que controla interiormente os seus impulsos, as suas inclinações e as suas paixões, discute consigo mesmo e com os outros o sentido dos valores e dos fins estabelecidos, indaga se devem e como devem ser respeitados ou ultrapassados por outros valores e fins superiores aos existentes, avalia a sua capacidade para dar a si mesmo as regras de conduta, consulta a sua razão e a sua vontade antes de agir, tem consideração pelos outros sem subordinar-se nem submeter-se cegamente a eles, responde pelo que faz, julga as suas próprias intenções e recusa a violência contra si e contra os outros. Numa palavra, é autónomo*. 

Do ponto de vista dos valores, a ética exprime a maneira como os homens dotados de autonomia encaram a cultura e a sociedade em que vivem e definem para si mesmos o que julgam ser a violência e o crime, o mal e o vício e, como contrapartida, o que consideram ser o bem e a virtude. Por realizar-se como relação intersubjetiva e social, a ética não é alheia ou indiferente às condições históricas e políticas, económicas e culturais da ação moral. 

Consequentemente, embora toda a ética seja universal do ponto de vista de quem a assume como disciplina filosófica fundamental, está em relação com o tempo e a História, transformando-se para responder a exigências novas da sociedade e da Cultura, pois somos seres históricos e culturais e nossa ação se desenrola no tempo. A reflexão ética tem aberto, ao longo da História novas perspectivas à moral (ou aos sistemas morais) vigentes em cada época.

Além do sujeito ou pessoa moral e dos valores ou fins morais, o campo ético é ainda constituído por um outro elemento: os meios para que o sujeito realize os fins da sua ação moral.

Costuma dizer-se que os fins justificam os meios, de modo que, para alcançar um fim legítimo, todos os meios disponíveis são válidos. No caso da ética, porém, essa afirmação deixa de ser óbvia.

Suponhamos uma sociedade que considere um valor e um fim moral a lealdade entre os seus membros, baseada na confiança recíproca. Isso significa que a mentira, a inveja, a adulação, a má-fé, a crueldade e o medo deverão estar excluídos da vida moral e as ações que os empreguem como meios para alcançar o fim serão imorais.

No entanto, poderia acontecer que para forçar alguém à lealdade seria preciso fazê-lo sentir medo da punição pela deslealdade, ou seria preciso mentir-lhe para que não perdesse a confiança em certas pessoas e continuasse leal a elas. Nesses casos, o fim - a lealdade - não justificaria os meios - medo e mentira? A resposta ética é: não. Porquê? Porque esses meios desrespeitam a consciência e a liberdade da pessoa moral, que agiria por coação externa e não por reconhecimento interior e
verdadeiro do fim ético.

No caso da ética, portanto, nem todos os meios são justificáveis, mas apenas aqueles que estão de acordo com os fins da própria ação. Por outras palavras, fins éticos exigem meios éticos.

A relação entre meios e fins pressupõe que a pessoa moral não existe como um facto dado, mas é instaurada pela vida intersubjetiva e social, precisando de ser educada para os valores morais e para as virtudes.

Poderíamos indagar se a educação ética não seria uma violência. Em primeiro lugar, porque se tal educação visa a transformar-nos de passivos em ativos, poderíamos perguntar se nossa natureza não seria essencialmente passional e, portanto, forçar-nos à racionalidade ativa não seria um ato de violência contra a nossa natureza espontânea? 

Em segundo lugar, porque se a tal educação visa a colocar-nos em harmonia e em acordo com os valores da nossa sociedade, poderíamos indagar se isso não nos faria submetidos a um poder externo à nossa consciência, o poder da moral social. 
________
* A palavra autónomo vem do grego: autos (eu mesmo, si mesmo) e nomos (lei, norma, regra). Aquele que tem o poder para dar a si mesmo a regra, a norma, a lei é autónomo e goza de autonomia ou liberdade. Autonomia significa autodeterminação. Quem não tem a capacidade racional para a autonomia é heterónomo. Heterónomo vem do grego: hetero (outro) e nomos; receber de um outro a norma, a regra ou a lei.

(Texto adaptado, retirado de Convite à Filosofia - da autoria de Marilena Chauí - Ed. Ática, São Paulo, 2000).

Atividades:

1. Faça o levantamento dos conceitos presentes no texto.
1.1. De seguida, elabore um mapa conceptual que sistematize os conteúdos do texto.

2. Defina os seguintes conceitos:
2.1. Pessoa;
2.2. Consciência moral;
2.3. Sujeito ético / Agente moral;
2.4. Vontade;
2.5. Autonomia;
2.6. Heteronomia.

3. Explique as características do sujeito ético, referindo-se a exemplos do quotidiano.

4. Porque é que em ética os fins não justificam os meios? Justifique a sua resposta tendo em conta os elementos constitutivos do campo ético (do comportamento ético).

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Os valores - Análise e compreensão da experiência valorativa / Valores e Cultura


Grupo I
Escolha apenas uma alternativa em cada questão.

1. A afirmação "Não há códigos morais únicos nem valores absolutos" identifica-se com a perspectiva filosófica que habitualmente designamos por:

(A) etnocentrismo;
(B) dogmatismo;
(C) relativismo;
(D) absolutismo.


2. A perspectiva axiológica que afirma os valores como propriedades reais existentes nos objectos designa-se por:

(A) subjectivismo;
(B) ontologismo;
(C) objectivismo;
(D) naturalismo.


3. A cultura pode ser definida como:

(A) um conjunto de saberes que permite distinguir os indivíduos dentro do grupo social a que pertencem;
(B) um conjunto de formas de estar, pensar e agir características de uma sociedade;
(C) um fenómeno que ocorre no interior das sociedades actuais;
(D) um fenómeno que ocorre entre os diversos seres vivos.


4. O juízo "A discriminação das mulheres grávidas no acesso ao emprego é injusta" é um juízo:

(A) de valor; verdadeiro;
(B) de valor; afirmativo;
(C) de facto; afirmativo;
(D) de facto; verdadeiro.


5. O facto de ao valor belo corresponder o seu contravalor feio permite-nos confirmar:

(A) a sua objectividade;
(B) a sua subjectividade;
(C) a sua polaridade;
(D) a sua hierarquia.


6. O relativismo cultural é a perspectiva filosófica que defende:

(A) a universalidade de valores e culturas;
(B) a impossibilidade de as culturas serem tolerantes umas com as outras;
(C) a possibilidade de as culturas se compreenderem mutuamente à luz dos seus próprios valores;
(D) a diversidade de valores e culturas.


7. Os juízos de valor são enunciados subjectivos. Esta afirmação é:

(A) verdadeira, porque os juízos de valor são afirmações sobre diferentes sujeitos;
(B) verdadeira, porque os juízos de valor são enunciados que derivam da valoração que o sujeito faz da realidade;
(C) falsa, porque os juízos de valor são afirmações que derivam de experiências que são comuns a todos os homens;
(D) falsa, porque os juízos de valor são enunciados objectivos.


8. O diálogo intercultural implica:

(A) A comunicação entre as diferentes culturas, tendo em vista o seu entendimento e mútuo enriquecimento;
(B) a aceitação passiva de uma pluralidade de opiniões provenientes de diferentes culturas;(C) a comunicação a partir de uma dada cultura e de uma língua específica que todos conhecem;
(D) a aceitação de uma pluralidade de opiniões provenientes exclusivamente de uma dada cultura dominante.


9. A afirmação "Não há códigos morais únicos nem valores absolutos" identifica-se com a perspectiva filosófica que habitualmente designamos por:

(A) relativismo;
(B) etnocentrismo;
(C) dogmatismo;
(D) absolutismo.


10. O facto de eu afirmar que a liberdade está acima da segurança, confirma que:
(A) os valores são bipolares;
(B) os valores são hierarquizáveis;
(C) os valores são universais;
(D) os valores são objectivos;


11. De acordo com o relativismo cultural,

(A) os critérios valorativos não variam de cultura para cultura;
(B) existe um padrão universal para avaliar os costumes;
(C) todas as práticas culturais devem ser toleradas;
(D) os códigos morais são idênticos em todas as culturas.


12. Segundo o relativismo cultural,

(A) a moralidade não é uma questão de convenção social;
(B) os hábitos e as tradições culturais não devem ser valorizados;
(C) há verdades morais aceites por todos os povos e culturas;
(D) os juízos morais dependem das convenções de cada sociedade.


13. Analise as seguintes afirmações:

1. 'Portugal é o melhor país da Europa para se viver';
2. 'Hoje em Faro registou-se uma temperatura de zero graus à meia-noite';
3. 'A Torre de Belém é um edifício manuelino';
4. 'Camões é o melhor escritor português de todos os tempos';
6. 'Cristiano Ronaldo é o futebolista português com mais títulos';
7. 'Cristiano Ronaldo é um bom jogador';
8. 'Esta sala é adequada ao estudo'.


14. Das seguintes alternativas, escolha a que identifica corretamente quais das afirmações são juízos de valor:

(A) 1; 3; 7 e 8;
(B) 1; 4; 7;
(C) 2; 4; 8;
(D) 1; 2; 4; 7.


15. A cultura de uma sociedade corresponde:

(A) Aos seus modos de vida;
(B) às suas formas de produção artística;
(C) aos seus padrões de trabalho;
(D) às suas actividades de lazer.


16. Considere as afirmações seguintes:

1. É errado não ajudar a resolver o problema da fome no mundo.
2. Muitas pessoas não ajudam a resolver o problema da fome no mundo.
3. Algumas pessoas abandonam o seu estilo de vida, chegando mesmo a pôr a sua vida em risco, para ajudar a combater a fome no mundo.

(A) 1 e 2 são juízos de facto e 3 é um juízo de valor.
(B) 1 é um juízo de valor e 2 e 3 são juízos de facto.
(C) 1 e 3 são juízos de valor e 2 é um juízo de facto.
(D) 3 é um juízo de facto e 1 e 2 são juízos de valor.


17. Analise as afirmações que se seguem sobre juízos de facto e juízos de valor. Em seguida escolha alternativa correta:

(A) Os juízos de valor são interpretações subjetivas e expressam as emoções do sujeito;
(B) os juízos de facto são descrições objetivas e expressam as emoções do sujeito;
(C) os juízos de valor são descritivos, neutros, impessoais e empiricamente verificáveis;
(D) Os juízos de facto são interpretações subjetivas e expressam as emoções do sujeito;


18. Considere as seguintes afirmações:

1. Os juízos de valor são apenas uma questão de gosto pessoal.
2. Em matéria de valores, todas as opiniões são erradas.
3. Os juízos de valor dependem dos contextos sociais.

Acerca dos valores, os relativistas consideram que:

(A) 3 é verdadeira; 1 e 2 são falsas.
(B) 1 e 3 são verdadeiras; 2 é falsa.
(C) 1 e 2 são verdadeiras; 3 é falsa.
(D) 1, 2 e 3 são verdadeiras.


19. De acordo com os defensores do objetivismo axiológico:

(A) os valores dependem dos critérios valorativos de cada indivíduo;
(B) os valores estão nas propriedades concretas dos objetos;
(C) o ensino dos valores não faz sentido;
(D) Não há valores absolutos.

20. Considere as afirmações seguintes:

1. Os valores dependem apenas da educação que se teve.
2. Os juízos de valor de pessoas diferentes não podem coincidir.
3. Os valores são uma questão de preferências pessoais.


21. Acerca dos valores, os subjetivistas consideram que:

(A) 1 é falsa; 2 e 3 são verdadeiras.
(B) 1 e 2 são verdadeiras; 3 é falsa.
(C) 1 e 2 são falsas; 3 é verdadeira.
(D) 1 é verdadeira; 2 e 3 são falsas.


22. A axiologia é a disciplina filosófica que estuda:

(A) A totalidade do real;
(B) os valores;
(C) os objectos valiosos;
(D) o homem e as suas experiências de vida.


23.De acordo com o subjetivismo axiológico:

(A) Os valores têm uma existência autónoma em relação ao sujeito;
(B) os valores são uma propriedade objetiva da realidade;
(C) os valores devem a sua existência às características psicológicas do sujeito;
(D) a avaliação que o ser humano faz do mundo depende de critérios valorativos universais.


Correção



A acção do homem sobre a Natureza






“Em virtude da sua vinculação ao mundo pela corporalidade e da sua diferença em relação ao mundo mediante a consciência‑liberdade, o homem está chamado  a exercer uma função exclusivamente sua a respeito do mundo: a transformação da natureza.   A presença do homem no mundo representa, pois, uma ativação das possibilidades escondidas da natureza, que leva a resultados que a natureza, por si só, não podia conseguir. Às ilimitadas potencialidades objectivas da natureza corresponde a ilimitada potencialidade projetiva do homem. E vice‑versa: à possibilidade ilimitada de criar o novo, própria do homem, corresponde a possibilidade ilimitada da natureza de ser transformada.
A função do homem a respeito do mundo apresenta‑se polifacetada. Um dos seus aspectos mais evidentes é o de transformar as coisas do mundo pelo trabalho, isto é, por meio da produção dos bens de que o homem necessita para a sua própria sobrevivência. Mas deve sobretudo notar‑se que a função do homem em relação ao mundo não se pode reduzir à produtividade mediante o trabalho. O homem é curioso em saber como é o mundo, em conhecer o enigma do mundo; simplesmente em conhecê‑lo por o conhecer. Deste desejo de saber brotaram e continuam a brotar as grandes descobertas que assinalam as etapas do progresso humano. Ao procurar conhecer como é o mundo, o homem busca também, e sobretudo, conhecer‑se a si próprio: progredindo no conhecimento do mundo, desenvolve as suas próprias capacidades de conhecer e atuar, e assim progride no conhecimento dele mesmo. Quanto mais senhor da natureza o homem se toma, tanto mais relevante se faz o porquê último da sua atividade e da sua existência no mundo; isto é, quanto mais o homem emerge sobre a natureza tanto mais se encontra a si mesmo perante a questão última: o porquê último do mundo e da relação "homem‑mundo", o porquê derradeiro do próprio homem.
Finalmente, não podem esquecer‑se outros aspectos fundamentais da função do homem relativamente ao mundo, diferentes do trabalho e mais criativos: a arte em todas as suas formas, a linguagem, a cultura, etc. São atividades em que o homem exprime a sua interioridade, fazendo da natureza mero instrumento expressivo da sua subjetividade, estas atividades provêm, sim, de uma necessidade do homem, mas de uma necessidade diversa das biológicas: da necessidade que o homem sente de expressar‑se a si próprio criando uma beleza irredutível à da natureza, uma linguagem de que a natureza carece, uma cultura feita à medida do homem. Tudo isto quer dizer que o resultado principal da ação do homem sobre o mundo é o progresso do homem enquanto homem, precisamente no que é específico do homem e o diferencia da natureza. O homem é capaz de mudar a sua própria relação com a natureza; crescendo no domínio dela, muda‑se a si mesmo.”

J. ALFARO



Atividades:
1.  Faça, por palavras suas, o resumo do texto (não deve ultrapassar as duzentas palavras).
2.   Comente a seguinte afirmação: “Às ilimitadas potencialidades objectivas da natureza corresponde a ilimitada potencialidade projetiva do homem. E vice‑versa: à possibilidade ilimitada de criar o novo, própria do homem, corresponde a possibilidade ilimitada da natureza de ser transformada.”
3.   Identifique e caracterize as diversas formas de relação do homem com o mundo (com a Natureza), presentes no texto.

Os valores e a cultura




Este texto e a questão 1 foram copiados daqui.

"É verdade que, do ponto de vista cultural, os seres humanos conquistaram, pouco a pouco e com muitos esforços, aquilo que eles consideram – e que nós consideramos ainda – como valores. Os valores não caíram todos do céu; noutros termos, os homens não descobriram os valores a partir de uma evidência já dada, como se fosse necessário perscrutar o próprio coração ou olhar para dentro de si mesmo para compreender quais são os objectivos da acção que são valores autênticos. O que é evidente, por exemplo, é a procura espontânea dos bens que mantêm a nossa vida física.
Estes “valores básicos “ não precisam de reflexão para serem vividos; o que exigiu o pensamento foi a construção dos meios técnicos (instrumentos como o machado de pedra para matar os animais, as técnicas de construção para habitação, etc…) para os realizar. Mas o que exigiu ainda mais tempo de reflexão e mais actos concretos, o que exigiu, por assim dizer, uma longa vida feita de tentativas fracassadas ou coroadas de êxito é a descoberta dos valores a que chamamos superiores. Tais valores, que regulam a vida relacional entre seres humanos, pressupõem um longo percurso civilizacional, percurso de que se pode às vezes reconhecer os marcos. Os “ Direitos do Homem” foram, depois de 1789, proclamados solenemente em 1948, no termo de uma guerra mundial que fez mais de 50 milhões de mortos.
Ainda que muitos povos já aplicassem estes direitos antes da Declaração Universal, não se pode negar que 1948 constitui um ponto de referência “histórico” na descoberta dos valores de respeito pelo ser humano enquanto pessoa. Há, deste modo, valores cuja origem está ligada com determinada cultura; citemos por exemplo a hospitalidade para os antigos Gregos, a pessoa para o mundo cristão, a democracia em Atenas e, depois da Revolução Francesa, a igualdade entre raças com a abolição da escravatura e, em seguida, do apartheid, a liberdade dos povos de decidir o seu futuro, com a descolonização depois da Segunda Guerra Mundial. Quando se afirma que os valores são historicamente marcados diz-se que é possível determinar, com certa margem de imprecisão, o seu nascimento enquanto valores reconhecidos quer por um grupo, quer pela maior parte das pessoas, quer pelo acordo quase universal das nações.
Os valores são todos relativos à época e ao contexto da sua descoberta na história dos seres humanos. As formas que os valores assumem variam com o tempo. Quanto mais básicos são, mais variam as formas da sua vivência. Em sentido contrário, quanto mais elevados são os valores, mais estável é o seu núcleo intangível., de tal modo que, através das vicissitudes das suas formas de apresentação, eles se manifestam como valendo apenas para todos os seres humanos."
Michel Renaud, “ Viver a Cidadania” , Educar Hoje – Enciclopédia dos Pais.


1. A partir de uma leitura do texto, estabeleça a diferença entre os “ valores básicos” e os “ valores superiores”.

2. Partindo de uma análise do texto, relacione os "valores básicos" e os "valores superiores" com a historicidade dos valores.

Para aceder à correção clique no link:

O homem como produto e produtor da cultura






De uma forma muito geral podemos definir a cultura como tudo o que é produzido pelo homem enquanto ser social.

Em primeiro lugar, a cultura é aprendida. É aprendida, porque existe graças a um processo de transmissão de geração em geração e não existe independentemente dos indivíduos e dos grupos sociais que compõem as sociedades humanas

A aprendizagem da cultura começa a partir do nascimento, e dá-se essencialmente por imitação dos outros. A esse processo chamamos enculturação e uma das principais vertentes da socialização. É pelo processo de socialização / enculturação que se dá a reprodução social que é um complemento indispensável da reprodução biológica

A cultura também é simbólica, pois todas as culturas possuem símbolos que são compreendidos de modo semelhante por todas as pessoas que as integram. É uma forma de comunicação, é uma rede de sentidos que torna possíveis as relações pessoais. Tudo nas culturas é de carácter simbólico. A base de cada cultura é a língua partilhada pelos membros de cada comunidade.

A cultura também domina a natureza, pois sobrepõe-se ao que há de biológico em nós. Cada necessidade biológica é expressa e saciada de forma diferente, consoante a cultura. Por exemplo, a necessidade de alimento é comum a todos os seres humanos, mas que é satisfeita é de modo diferente (difere no tipo de comida, no modo como se toma a refeição, as horas…). Por isso se diz que a cultura é como uma segunda natureza para o ser humano.

A cultura mostra-se como geral e específica ao mesmo tempo, visto que todos os homens, em qualquer sociedade, têm uma determinada cultura (não há ninguém que não tenha cultura, nasça ou exista sem ela), mas também porque as culturas são diferentes, têm características próprias, que a individualizam. 

Também é dito que a cultura abarca o todo. É simples; a cultura está presente em todos os aspectos da vida humana (sociais, organização do tempo e do espaço, biológicos); ou seja, a cultura está presente em tudo na nossa vida e nada está fora da cultura, pois existem conhecimentos, normas, regras, padrões de comportamento em todas as actividades humanas. 

Outro aspecto da cultura, é o facto de esta ser partilhada, porque não é propriedade de um indivíduo, é de todas as pessoas de uma sociedade, a sociedade e a cultura são inseparáveis, elas são a forma de viver do ser humano. 

Este texto foi adaptado a partir deste original.




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O homem é produto e produtor da Cultura


A cultura é obra humana, é o resultado da acção humana sobre o mundo ( sobre o próprio homem).

O ser humano é capaz de conhecer a realidade em que vive, o que significa que o ser humano é sujeito de conhecimento: consegue representar mentalmente a realidade e, a partir daí, pode interrogar-se sobre o porquê das coisas e das ações dos homens. 
Com base no conhecimento acerca de si e do mundo em que vive, o ser humano pode valorar aquilo de que tem conhecimento, a partir de padrões de escolha e de avaliação que tornam a realidade capaz de ser transformada pela ação humana. 
Com base nos juízos de valor que faz sobre o mundo, o ser humano pode agir procurando alcançar metas individuais e/ou coletivas. Fá-lo porque é capaz de comunicar e de cooperar com os outros humanos - chamamos cultura a toda esta rede de conhecimentos, valorações e ações e constituem o mundo humano, o habitat da espécie humana.
Sem um meio sócio-cultural o ser humano é como um peixe fora de água, não pode viver na plenitude das suas capacidades, perde o sentido do que é a sua humanidade. Por isso o pior castigo que pode recair sobre um ser humano é o isolamento em relação à sociedade dos homens.
A rejeição é o pior dos infernos.
Isto porque o ser humano é o principal produto cultural da sociedade em que nasce e se desenvolve. Sem a socialização seríamos como o menino selvagem quando foi capturado: animais muito limitados sem quaisquer características humanas. Nós somos o resultado da educação que recebemos, acrescido das nossas escolhas pessoais. Somos, no fundo, um produto da ação cultural dos que nos educaram.
Mas também somos produtores de cultura, porque comunicamos, pensamos, valoramos e agimos, alterando, de forma variável, o mundo em que vivemos, ou seja a cultura da sociedade a que pertencemos.
Há seres humanos que conseguem ter um grande impacto na cultura da sua sociedade, como os artistas, os cientistas, os criadores de obras culturais de relevo. Mas cada ser humano deixa uma marca no mundo dos homens, por mais pequena que seja.


sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Os conflitos de valores



O que são conflitos de valores?

É comum assistirmos ao fim de relações humanas e institucionais antes que os seus objetivos se cumpram porque as partes entram em conflito. Com frequência, as desavenças dão-se por motivos facilmente superáveis, mas as pessoas envolvidas não sabem como procurar o entendimento nem dispõem de instrumentos para tal. Em muitos casos, nem percebem que se envolveram numa disputa e não entendem o fracasso da relação.

A dificuldade de identificar os conflitos decorre, principalmente, da falta de clareza com que o problema se apresenta. É fácil perceber uma divergência se há ataques frontais, mas a maioria das disputas assume contornos subtis. Duas pessoas que almejam o mesmo cargo, por exemplo, não revelam as suas intenções, mas fazem o que podem para denegrir o concorrente.

Conflito, etimologicamente, está ligado à ideia de luta. A palavra latina conflictu quer dizer choque. O estratega prussiano Von Clausewitz, contemporâneo de Napoleão Bonaparte, afirmava que “o conflito é o encontro de duas vontades irreconciliáveis”. As pessoas entram em conflito porque percebem que têm menos poder e auto-estima do que seus interlocutores ou quando uma das partes identifica uma invasão no seu espaço objetivo (corpo e bens) ou no seu mundo subjetivo (sentimentos, valores, crenças e idéias).

Há vários tipos de conflito. Os conflitos de informação decorrem da sonegação de dados ou de mensagens mal compreendidas. Os conflitos de interesse surgem quando os recursos são escassos; quando há divergência sobre decisões; ou quando há questões emocionais em jogo. Já os conflitos emocionais resultam da distância entre as pessoas.

Os conflitos de valores - que são os que nos interessam aqui - dão-se entre pessoas que têm modos diferentes de vida ou critérios divergentes de como avaliar comportamentos.

Tais conflitos ocorrem quando as partes divergem fundamentalmente nas suas percepções sobre o desejável. É isso que se vê no exemplo apresentado na página 82 do manual: deve-se construir a barragem ou deve-se travar a construção em nome da preservação do meio ambiente? O que é desejável? É preferível garantir a satisfação das necessidades energéticas do país durante uma década (com todas as vantagens económicas associadas), ou manter a integralidade da paisagem e dos ecossistemas que serão irremediavelmente afetados pela construção da barragem?

Os valores surgem como uma expressão cultural específica das necessidades, das motivações básicas e dos requisitos do desenvolvimento comuns a todos os seres humanos. Estas necessidades incluem segurança, identidade, reconhecimento e desenvolvimento em geral. Quando as necessidades básicas para a sobrevivência de um grupo ou para sua identidade não são satisfeitas, os integrantes do grupo tendem a lutar para conseguir o querem, de uma maneira ou outra. As necessidades e sua satisfação não podem ser negociadas. Todavia, é possível identificar uma série de maneiras para satisfazer as necessidades humanas básicas, e as metas de solução de conflitos podem ser obtidas por meio do processo de identificação e satisfação daquelas necessidades.

Para solucionar conflitos de uma maneira geral, é preciso conhecer bem as razões do outro. Expor as próprias ideias é essencial, mas deve-se ter cuidado, pois críticas demasiado duras ou radicais impedem a interação. Ao ouvir o outro, é importante focarmo-nos no que ele está a dizer e não na elaboração de uma resposta ao que nos está a ser dito. Devemos, acima de tudo, procurar compreender os argumentos do outro, atendendo à sua consistência, em vez de procurarmos defender a nossa posição de qualquer ataque. Isso implica que saibamos ouvir os outros. Sem isso também não nos conseguiremos expressar com clareza.

A racionalidade é essencial porque nos leva a perceber as diferenças e a ficar aberto a soluções criativas. Isso não quer dizer que a pessoa deva ficar contida ou distante, mas deve tentar resolver o problema em cooperação (em colaboração) com os seus interlocutores. Se uma das partes não se importa com o resultado da disputa ou considera esse resultado menos importante que a solução do conflito, a escolha correta pode ser render-se aos desejos do outro. Mas a verdadeira colaboração é encontrar uma boa solução para ambas as partes.

A solução de um conflito depende do controlo que temos sobre as respostas que surgem da nossa compreensão da realidade. Ao tentar solucioná-lo, é essencial ser transparente, agir com objetividade, respeitar a perspectiva do outro e demonstrar disponibilidade para cooperar.

A Razão deve ser usada para resolver os conflitos de valor:

"Todas as pessoas são respeitáveis, sejam quais forem as suas opiniões, mas nem todas as opiniões são respeitáveis. Uma pessoa que diz que dois e dois são cinco, não pode ser encarcerada, não pode ser objecto de nenhuma represália, mas o que é evidente é que a ideia de que dois e dois são cinco não é tão respeitável como a ideia de que dois e dois são quatro. A mitificação da opinião própria conduz a considerá-la como algo que se subtrai à discussão, em vez de algo que se põe sobre a mesa, algo que não é nem meu nem teu mas que temos que discutir – discutere é, em latim, ver se uma árvore tem raízes, se as coisas têm raízes –, ver se está enraizada em algo. Quando se propõe uma opinião, não se propõe como quem se fecha num castelo, como quem se encouraça, não se supõe que todas as opiniões são igualmente válidas, mas pelo contrário que estão abertas a confrontar-se com provas e dados. Se não, não são opiniões, são dogmas. A ideia de que todas as opiniões valem o mesmo, de que a opinião do aluno do infantário vale tanto, em questões matemáticas, como a do professor de aritmética, não é verdade. E a ideia de que é um sinal de democracia ou de liberdade que qualquer ideia valha tanto como qualquer outra e que é indiferente que quem a sustenta ignore os mecanismos do assunto, não possa aduzir nenhuma prova, não tenha dados, seja incapaz de raciocinar a sua postura, que essa vale tanto como a opinião de quem conhece o assunto, parece-me preocupante.

No entanto, há uma mitificação da opinião igual a essa espécie de encastelamento de quem se sente ofendido quando contrariado, como se as opiniões se pudessem ferir, e como se cada qual pudesse sentir feridas as suas opiniões. A ideia de que as opiniões formam um corpo connosco, e que o dizer "é a minha opinião" dá um grau de razão superior ao da opinião do vizinho, parece-me preocupante, sobretudo porque se considera um sinal de liberalidade intelectual reconhecer as opiniões de cada um, quando a única liberalidade que existe é reconhecer que as opiniões devem estar fundadas na razão e que ninguém tem direito a expor as suas opiniões se não tem razões para as justificar. A posição autenticamente livre, aberta e revolucionária é sustentar que é a razão que vale e que as opiniões devem submeter-se-lhe, e não que são as opiniões que por si mesmas, por ter uma pessoa por trás, se convertem em invioláveis porque a pessoa o é.

Ensinar estas coisas e ensinar a diferença que há entre o respeito pelas pessoas e os modelos de uma capacidade de escuta, a razão não se nota somente quando alguém argumenta como também quando alguém compreende argumentos. Ser racional é poder ser persuadido por argumentos, não apenas persuadir com argumentos. Ninguém pode aspirar à condição de racional se as suas razões, as vê muito claras, mas nunca vê claramente nenhuma razão alheia. Ver as razões dos outros faz parte, necessariamente, da racionalidade. Aceitar ter sido persuadido por razões costuma ser muito mal visto, como se dar mostras de racionalidade fosse algo muito mau, quando o facto de alguém mudar de opinião demonstra que a razão lhe continua a funcionar. O mundo está cheio de pessoas que se orgulham de pensar o mesmo que pensavam aos 18 anos; provavelmente não pensavam nada, nem agora nem aos 18 anos, e graças a isso mantêm-se invulneráveis a todo o tipo de argumentação, razões, conhecimento do mundo, etc.

Educar para que as pessoas sejam vulneráveis aos raciocínios também faz parte da educação racional, e isto entra na distinção fundamental entre o racional e o razoável. A razão cobre um campo que abarca o meramente racional, no qual nos entendemos com as coisas o melhor possível, e o razoável, no qual nos entendemos com os sujeitos. É razoável incluir na minha própria a razão própria de outro sujeito, a possibilidade de aceitar os seus fins, de aceitar os seus objectivos, a sua própria busca da experiência como parte da minha própria razão. O funcionamento racional e o funcionamento razoável estão ligados, e há que educar em ambos. O razoável será esse outro uso que eu consiga dar aos conhecimentos racionais que tenho. Naturalmente que os usos também estão ligados à razão, mas a outra função diferente, isto é, ao reconhecimento de que não me movo só entre objectos, mas também entre sujeitos. E que o característico dos objectos é que eu posso impor-lhes os meus fins; e dos sujeitos, que eu devo conhecer os seus fins para de alguma forma os contrastar com os meus e buscar a possível cooperação."

Fernando Savater
Ver aqui uma versão mais completa deste texto.
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O que são critérios valorativos?

Critérios valorativos são o conjunto de valores e a sua hierarquia, os conhecimentos e as crenças presentes na consciência do sujeito e que funciona como grelha apreciativa do real.

Há 3 tipos de critérios valorativos: os individuais/pessoais, os sociais ou grupais e os universais.

Os critérios valorativos têm uma dimensão pessoal quando são os interesses pessoais, os sentimentos, gostos e ideias de cada uma orientar os juízos de valor que se fazem. Ex's:"a caneta é preciosa"; " a leitura de romances é uma perda de tempo"- Juízos de valor.

Contudo , cada sujeito, enquanto integra uma comunidade, em costumes, valores, crenças e cultura comuns, ao formular juízos, expressa esses critérios valorativos comuns. Ex's: "O futebol português tem pouca qualidade"; "A poupança é importante para o futuro".- Juízos colectivos.

Coloca-se a questão de saber se são possíveis critérios valorativos universais. E sendo possíveis, quais serão?

O problema da existência de critérios valorativos universais resulta de:

1 - Existirem problemas comuns que impõem soluções comuns;

2 - Todos os homens, sendo dotados de razão, pretendem que os seus juízos de valor se tornem universais.

A dignidade humana é um possível critério valorativo universal, enquanto cada sujeito o aprova para si e para os outros. Este critério, só é universal se for sustentado racionalmente com argumentos fortes e possa assim impor-se a todos os homens, enquanto seres racionais.

A dignidade humana consiste no respeito que cada homem merece em função da inviolabilidade dos seus próprios princípios e da sua vida. A dignidade é um critério universalizável, porque se pretende que o sujeito a aplique a si e aos outros.
http://filosofiadiogovieira.blogspot.pt/

As principais características dos valores


Para saber mais:

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

A Moral e a Ética



Qual a diferença entre a Moral e a Ética?

Podemos responder a esta pergunta com uma história árabe:
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Um homem fugia de uma quadrilha de bandidos violentos quando encontrou, sentado na beira do caminho, o profeta Maomé. Ajoelhando-se à frente do profeta, o homem pediu ajuda: essa quadrilha quer o meu sangue, por favor, proteja-me!

O profeta manteve a calma e respondeu: continue a fugir bem à minha frente, eu encarrego-me  dos que o estão a perseguir.

Assim que o homem se afastou a correr, o profeta levantou-se e mudou de lugar, sentando-se na direção de outro ponto cardeal. Os sujeitos violentos chegaram e, sabendo que o profeta só podia dizer a verdade, descreveram o homem que perseguiam, perguntando-lhe se o tinha visto passar.

O profeta pensou por um momento e respondeu: falo em nome daquele que detém na sua mão a minha alma de carne: desde que estou sentado aqui, não vi passar ninguém.

Os perseguidores conformaram-se com a sua resposta seguiram numa direção diferente da do fugitivo que, dessa forma, teve a sua vida salva.
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O leitor entendeu, não?

Não?

Explico.

A moral incorpora as regras que temos de seguir para vivermos em sociedade, regras estas determinadas pela própria sociedade. Quem segue as regras é uma pessoa moral; quem as desobedece, uma pessoa imoral.

A ética, por sua vez, é a parte da filosofia que estuda a moral, isto é, que reflete sobre as regras morais. A reflexão ética pode inclusive contestar as regras morais vigentes, entendendo, por exemplo, que elas estão ultrapassadas.

Se o profeta fosse apenas um moralista, seguindo as regras sem pensar sobre elas, sem avaliar as consequências da sua aplicação irrefletida, ele não poderia ajudar o homem que fugia dos bandidos, a menos que fosse contra as normas morais que seguia. Ele teria de dizer a verdade, mesmo que a verdade tivesse como consequência a morte de uma pessoa inocente.

Se avaliarmos a ação e as palavras do profeta com absoluto rigor moral, temos de condená-lo como imoral, porque em termos absolutos ele mentiu. Os bandidos não podiam saber que ele havia mudado de lugar e, na verdade, só queriam saber se ele tinha visto alguém, e não se ele tinha visto alguém “desde que estava sentado ali”.

Se avaliarmos a ação e as palavras do profeta, no entanto, nos termos da ética filosófica, precisamos de reconhecer que ele teve um comportamento ético, encontrando uma alternativa inteligente para cumprir a regra moral de dizer sempre a verdade e, ao mesmo tempo, ajudar o fugitivo. Ele não respondeu exatamente ao que os bandidos perguntavam, mas ainda assim disse rigorosamente a verdade. Os bandidos é que não foram inteligentes o suficiente, como de resto acontece com os homens violentos que, normalmente, não são inteligentes, para colocarem a questão de forma mais adequada: "na última meia hora, sua santidade, viu este homem passar, e para onde ele foi?"

Logo, embora seja possível ser ético e moral ao mesmo tempo, como de certo modo o profeta o foi, ética e moral não são sinónimas. Também é perfeitamente possível ser ético e imoral ao mesmo tempo, quando desobedeço a uma determinada regra moral porque, refletindo eticamente sobre ela, a considero obscura, ultrapassada ou simplesmente errada.

Um exemplo famoso é o de Rosa Parks, a costureira negra que, em 1955, na cidade de Montgomery, no Alabama, nos Estados Unidos, desobedeceu à regra existente de que a maioria dos lugares dos autocarros estava reservada para pessoas brancas. Já com certa idade, farta daquela humilhação moralmente oficial, Rosa recusou levantar -se para um branco se sentar no seu lugar. O motorista chamou a polícia, que prendeu a mulher e a multou em dez dólares. O acontecimento provocou um movimento nacional de boicote aos autocarros e foi a gota de água de que precisava o jovem pastor Martin Luther King para liderar a luta pela igualdade dos direitos civis.

No ponto de vista dos brancos racistas, Rosa foi imoral, e eles estavam certos quanto a isso. Na verdade, a regra moral vigente é que estava errada, a moral é que era estúpida. A partir da sua reflexão ética a respeito da norma moral injusta, Rosa pôde deliberada e publicamente desobedecer àquela regra moral.

Entretanto, é comum confundir os termos ética e moral, como se fossem a mesma coisa. Muitas vezes se confunde ética com as normas de conduta de uma classe profissional, que tem tudo a ver com moral mas nada com ética. Um médico seguiria a “ética” da sua profissão se, por exemplo, não denunciasse um colega que cometesse um erro grave e assim matasse um paciente. Um soldado seguiria a “ética” da sua profissão se, por exemplo, não denunciasse um colega que torturasse um inimigo. Nesses casos, as normas profissionais (que, em muitos casos, são objeto de juramento no momento da entrada numa profissão, como acontece com os médicos quando fazem o juramento hipocrático) nada têm a ver com ética e tudo a ver com cumplicidade no erro ou no crime.

Há que proceder eticamente, como o fez o profeta Maomé: não seguir as regras morais sem pensar, só porque são regras, e sim pensar sobre elas para encontrar a atitude e a palavra mais decentes, segundo o seu próprio julgamento.

Portanto, a ética, no sentido filosófico tem a ver com a autonomia: cada pessoa deve usar a sua Razão (a sua Consciência Moral) para decidir o que fazer. Por vezes isso pode ir contra as normas vigentes na sociedade - muitas delas inscritas nas leis.
Gustavo Bernardo
http://www.revista.vestibular.uerj.br/coluna/coluna.php?seq_coluna=68

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Atividades:

Grupo I

Leia o texto com atenção. De seguida:

1. Estabeleça a distinção entre moral e ética.
2. Já vimos que a Razão pode ser usada como critério valorativo. É esse o caso de Rosa Parks? Justifique a sua resposta (com base numa argumentação racional).
2.1. Aplique a bússola dos valores ao caso de Rosa Parks: que valores ela seguiu ao tomar a sua decisão? Esses valores podem ser universalizados? Justifique.

Grupo II

O dilema de Henrique


Numa cidade da Europa, uma mulher estava quase a morrer com um tipo muito raro de cancro. Havia um remédio, feito à base de Rádio, que os médicos imaginavam que poderia salvá-la, e que um farmacêutico da mesma cidade havia descoberto recentemente. A produção do remédio era cara, mas o farmacêutico cobrava por ele dez vezes mais do que lhe custava produzi-lo: O farmacêutico pagou €400 pelo Rádio e cobrava €4000 por uma pequena dose do remédio. Henrique, o marido da doente, procurou todos os seus conhecidos para lhes pedir dinheiro emprestado, e tentou todos os meios legais para consegui-lo, mas só pôde obter uns €2000, que é justamente a metade do que custava o medicamento. Henrique disse ao farmacêutico que a sua mulher estava a morrer e pediu-lhe que vendesse o remédio mais barato, ou que o deixasse pagar a prestações. Mas o farmacêutico respondeu: ‘Não, eu descobri o remédio e vou ganhar dinheiro com ele’. Assim, tendo tentado obter o medicamento por todos os meios legais, Henrique, desesperado, considera a hipótese de assaltar a farmácia para roubar o medicamento para sua esposa. O Henrique deve roubar o medicamento?”

Kohlberg

1. De acordo com as regras morais vigentes na nossa sociedade (codificadas nas leis) o Henrique deve roubar o medicamento? Justifique.

2. Se o Henrique se colocar numa perspectiva ética pode decidir que tem o dever de roubar o medicamento (já que não tem outra alternativa para salvar a vida da sua mulher)? Responda a esta questão aplicando a bússola dos valores a esta situação: que valores o Henrique deve usar para fundamentar a sua decisão? Esses valores podem ser universalizados? Porquê?