TEDXRio | Bloco1 - Visões | Ricardo Guimarães from TEDxRio on Vimeo.
Páginas
- Página inicial
- Filosofia 10 Recorrente Módulo 3
- Filosofia 11 Recorrente - Módulo 6
- Videoaulas - Filosofia 10
- Videoaulas - Filosofia 11
- Filosofia 10º Ano - Recursos
- Dicionário de Filosofia
- Exame Nacional - Recursos
- Caixa de Ferramentas
- Como se lê um texto filosófico?
- Como se estrutura um ensaio em Filosofia?
- 11A1 e 11C3 - Trabalhos sobre o conhecimento
- As Teorias Éticas
- Perfil do Aluno
- Aprendizagens essenciais 10º
- Aprendizagens Essenciais 11º
- Exame Nacional de Filosofia (informação-prova)
- Bibliotecas Digitais
- Dicionário de Símbolos
- Área de Integração
- 10L3 - Filosofia
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
terça-feira, 22 de fevereiro de 2011
Declaração universal dos deveres humanos
Ainda no início do novo ano, fica aí uma síntese da célebre "Declaração universal dos deveres humanos". Para superar a crise e para que a esperança não seja mera ilusão, wishfull thinking, precisamos todos de ser fiéis às nossas responsabilidades e cumprir os nossos deveres.
Já na discussão do Parlamento revolucionário de Paris sobre os direitos humanos, em 1789, se tinha visto que "direitos e deveres têm de estar vinculados", pois "a tendência para fixar-se nos direitos e esquecer os deveres" tem "consequências devastadoras".
Foi assim que, em 1997 e após debates durante dez anos, o Interaction Council (Conselho Interacção) de antigos chefes de Estado e de Governo, como Maria de Lourdes Pintasilgo, V. Giscard d'Estaing, Kenneth Kaunda, Felipe González, Mikhail Gorbachev, Shimon Peres, fundado em 1983 pelo primeiro- -ministro japonês Takeo Fukuda, sob a presidência do antigo chanceler alemão Helmut Schmidt, propôs a Declaração Universal dos Deveres Humanos. Na sua redacção, teve lugar destacado o teólogo Hans Küng.
O Preâmbulo sublinha que: o reconhecimento da dignidade e dos direitos iguais e inalienáveis de todos implica obrigações e deveres; a insistência exclusiva nos direitos pode acarretar conflitos, divisões e litígios intermináveis, e o desrespeito pelos deveres humanos pode levar à ilegalidade e ao caos; os problemas globais exigem soluções globais, que só podem ser alcançadas mediante ideias, valores e normas respeitados por todas as culturas e sociedades; todos têm o dever de promover uma ordem social melhor, tanto no seu país como globalmente, mas este objectivo não pode ser alcançado apenas com leis, prescrições e convenções. Nestes termos, a Assembleia Geral proclama esta Declaração, a que está subjacente "a plena aceitação da dignidade de todas as pessoas, a sua liberdade e igualdade inalienáveis, e a solidariedade de todos", seguindo-se os seus 19 artigos, de que se apresenta uma síntese.
1. Princípios fundamentais para a humanidade. Cada um/a e todos têm o dever de tratar todas as pessoas de modo humano, lutar pela dignidade e auto-estima de todos os outros, promover o bem e evitar o mal em todas as ocasiões, assumir os deveres para com cada um/a e todos, para com as famílias e comunidades, raças, nações e religiões, num espírito de solidariedade: não faças aos outros o que não queres que te façam a ti.
2. Não violência e respeito pela vida. Todos têm o dever de respeitar a vida. Todo o cidadão e toda a autoridade pública têm o dever de agir de forma pacífica e não violenta. Todas as pessoas têm o dever de proteger o ar, a água e o solo da terra para bem dos habitantes actuais e das gerações futuras.
3. Justiça e solidariedade. Todos têm o dever de comportar-se com integridade, honestidade e equidade. Dispondo dos meios necessários, todos têm o dever de fazer esforços sérios para vencer a pobreza, a subnutrição, a ignorância e a desigualdade, e prestar apoio aos necessitados, aos desfavorecidos, aos deficientes e às vítimas de discriminação. Todos os bens e riquezas devem ser usados de modo responsável, de acordo com a justiça e para o progresso da raça humana.
4. Verdade e tolerância. Todos têm o dever de falar e agir com verdade. Os códigos profissionais e outros códigos de ética devem reflectir a prioridade de padrões gerais como a verdade e a justiça. A liberdade dos media acarreta o dever especial de uma informação precisa e verdadeira. Os representantes das religiões têm o dever especial de evitar manifestações de preconceito e actos de discriminação contra as pessoas de outras crenças.
5. Respeito mútuo e companheirismo. Todos os homens e todas mulheres têm o dever de demonstrar respeito uns para com os outros e compreensão no seu relacionamento. Em todas as suas variedades culturais e religiosas, o casamento requer amor, lealdade e perdão e deve procurar garantir segurança e apoio mútuo. O planeamento familiar é um dever de todos os casais. O relacionamento entre os pais e os filhos deve reflectir o amor mútuo, o respeito, a consideração e o cuidado.
Anselmo Borges, www.dn.pt - 12/02/2011
_________________________
Vivemos numa época de esquecimento de verdades fundamentais que são o património mais precioso da civilização ocidental. Uma civilização que vive um ocaso difícil de enfrentar com una intencionalidade histórica virada para o futuro. Porque o que conforma hoje as vias de compreensão do mundo e do homem é o fechamento ao novo e ao Diferente.
É o ocaso do Pensamento emancipador e da acção libertária.
Do ponto de vista político assume-se como natural a destruição das conquistas civilizacionais levadas a cabo pelos trabalhadores, à custa de muito sofrimento, de mortes, de repressão, de lutas que custaram demasiado caro aos que nos precederam para hoje não sabermos dar continuidade ao esforço de dignificação dos homens, seja qual for a sua condição, encarados como agentes de mudança cultural.
Hoje procura reduzir-se a densidade cultural do trabalho à mera actividade de produção, sem que se considere o trabalhador como um sujeito ético, portador de direitos e agente deontológico com um papel determinante na construção duma sociedade mais humana e mais aberta à transformação civilizadora.
Há um empobrecimento do conceito de cidadania, reduzido quase à sua acepção económica e expurgado de qualquer dimensão espiritual.
A classe dirigente parece ignorar, por exemplo, que o desemprego que atinge números humanamente incomportáveis tanto em Portugal com nos restantes países do primeiro mundo, não é um problema que se possa resolver no actual quadro sócio-político. O desemprego é estrutural e não regredirá significativamente se houver crescimento económico.
Há que mudar de paradigma. Em vez de se diabolizar os trabalhadores da Função Pública, há que repensar o papel do Estado na criação de emprego social. As áreas da educação, da saúde, da solidariedade social, são deficitárias em termos de pessoal qualificado para apoio às pessoas, tenham elas necessidades específicas ou não.
É irracional termos um Estado que forma milhares de licenciados por ano para os condenar ao desemprego.
Aquilo que a classe governante está a fazer aos professores contratados, por exemplo, é mais do que criminoso. Quem pode arroga-se o direito de tratar outros seres humanos como meros recursos que podem ser usados, e descartados, sem atender à sua dignidade e à excelência ética do exercício das suas funções? Isto vale para todas as profissões, para todos os seres humanos.
Fala-se das escassez de recursos para alimentar um Estado-providência cada vez mais gastador. O que deve ser encarado com toda a frontalidade é a necessidade de se assumir que é necessária uma mudança de paradigma sócio-cultural. Há que repensar prioridades. O que é prioritário é melhorar a equidade na distribuição da riqueza produzida pela sociedade, dando valor ao trabalho e às pessoas, consideradas na sua radicalidade existencial e sem as reduzir a meros recursos a serem usados de forma abusiva e eticamente degradante.
Isto só é possível elevando o nível da participação democrática dos cidadãos.
Em democracia não deve haver factos consumados ou qualquer tipo de determinismo económico que ponha em causa a soberania do povo. Isto no plano ideal. Porque na prática assistimos à imposição dum totaliarismo atroz à vontade soberana dos povos que pretendem viver em democracia.
É um imperativo ético que o pensamento emancipador, na sua vertente filosófica, mas também estética, científica e espiritual, num sentido alargado, possa elevar-se como uma via de clarificação política. Em primeiro lugar, denunciando os dispositivos de dissuasão que impedem a tomada de consciência do enclausuramento totalitário e mantêm os cidadãos afastados do seu poder efectivo de se assumirem como agentes de mudança.
Neste sentido, a consciência da importância dos deveres como o garante do usufruto dos direitos é verdadeiramente revolucionária, porque coloca cada ser humano no papel de agente e não apenas de usufrutuário dum estatuto eticamente amorfo.
O ser, legitimado no campo político por um dever-ser instaurador duma mundividência orientada para a autonomia e para a participação empenhada na vida colectiva, é o que se torna necessário nesta época em que parece imperar a abdicação e o exílio histórico da cidadania responsável.
A melhor forma de lutarmos contra a corrupção é sermos incorruptíveis. O autêntico governo, a verdadeira soberania, é o exercício do poder-ser que emerge da nossa liberdade espiritual, a nossa esfera de auto-determinação. Sempre podemos fazer um pouco mais no que se refere ao alargamento das nossas capacidades de acção e de compreensão.
Paulo Feitais
Publicado originariamente no blogue: Mãos abertas - Sonhos à solta
iPlatão

Uma pertinente reflexão sobre o mundo actual e sobre os ensinamentos dos principais filósofos da Antiguidade deram origem à obra iPlatão, um livro sobre o significado da vida há dois mil anos e a respectiva conexão com o mundo moderno. Segundo o autor, Mark Vernon, jornalista e escritor reconhecido com mais de uma dezena de livros publicados, a mensagem de Sócrates, Epicuro, Diógenes, Zenão, entre outros, é intemporal.
É possível retirar ensinamentos das teorias dos grandes filósofos antigos, mesmo em pleno século XXI, defende Mark Vernon, autor deiPlatão, um livro sobre a actualidade e pertinência dos pensamentos dos grandes filósofos da Grécia Antiga.
Escrito de forma simples e acessível, o livro de Mark Vernon, que já foi sacerdote, reflecte sobre o que é realmente relevante hoje em dia e sobre o que cada mestre pode ensinar ao mundo moderno.
Etiquetas:
iPlatão,
livros,
livros recomendados
quinta-feira, 7 de outubro de 2010
Estado de Excepção - Giorgio Agamben

Autor: Giorgio Agamben
Editora: Edições 70
Colecção: Biblioteca de Teoria Política
ISBN: 978-972-44-1610-6
PVP: 13 €
Sobre o livro:
O estado de excepção, que temos por costume visualizar como uma medida provisória e extraordinária, está a caminho de se tornar num paradigma normal de governação, que determina preferencialmente a política dos estados modernos. Este ensaio propõe reconstruir a história do paradigma, e analisar o sentido e as razões da sua evolução actual – de Hitler a Guantanamo. É preciso ver com efeito que, uma vez o estado de excepção tornado regra, os equilíbrios frágeis que definem as constituições democráticas não podem continuar a funcionar, a própria diferença entre democracia e absolutismo tende a dissolver-se.
Mais do que um mero comentário ao Direito Romano, Estado de Excepção versa os desafios que se colocam às modernas democracias e os compromissos, em termos de liberdades num regime democrático, a que a guerra ao terrorismo obriga. O conceito deixa-nos, pois, na fronteira ténue, e perigosa, entre democracia e tirania.
Sobre o autor:
Filósofo italiano, Giorgio Agamben nasceu em Roma em 1942, Formado em Direito, com uma tese sobre o pensamento político de Simone Weil, é responsável pela edição italiana da obra de Walter Benjamin . Foi visiting professor na Università di Verona e na New York University, antes de renunciar entrar nos Estados Unidos da América, em protesto contra a política de segurança do anterior governo norte-americano. Actualmente lecciona Estética e Filosofia Teorética na Università IUAV em Veneza. A sua produção centra-se nas relações entre a filosofia, a literatura, a poesia e, fundamentalmente, a política. Entre os seus ensaios filosóficos contam-se Bartleby, la fortuna della criazone (1993), escrito com Gilles Deleuze, Homo sacer (1995), Mezzi senza fine. Note sulla politica (1996), Quel che resta di Auschwitz. L’archivio e il testimone (1998), Il tempo che resta. Un commento alla «Lettera ai Romani» (2000), La communitá che viene (1990, 2001) e L’aperto. L’uomo e l’animale.
Sofia Almeida
www.edicoes70.pt
Etiquetas:
Agamben,
Estado de excepção,
Política
sexta-feira, 17 de setembro de 2010
Partos em directo na SIC acendem polémica
As manifestações contra e a favor à emissão pela SIC de dois nascimentos na estreia do programa "Boa tarde" proliferam na internet. Nos próximos dias serão pedidos esclarecimentos à reguladora, à Ordem dos Médicos e aos hospitais pela Associação Portuguesa pela Humanização do Parto.
Depois do comunicado onde condena a emissão em directo de um parto no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, e de uma cesariana no Hospital de Beja, a Associação Portuguesa pela Humanização do Parto (Humpar) conta pedir, nos próximos dias, esclarecimentos à Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), Ordem dos Médicos e às unidades de saúde envolvidas nesta ao sucedido.
"Nós não nos opomos a que se veja como são os partos. Opomo-nos é a que seja feito desta forma gratuita, com desrespeito pelas pessoas envolvidas, para promover um programa de televisão", explicou Rita Correia, presidente da Direcção da Humpar.
Recorde-se que, para assinalar a estreia, o programa de Conceição Lino emitiu em directo, na última segunda-feira, dois nascimentos. Paralelamente à posição da Humpar, têm surgido nas redes sociais e na blogosfera opiniões contra e a favor da transmissão, sendo as desfavoráveis em maior número.
Além de questionarem a falta de sensibilidade e discernimento de todos os envolvidos, alguns destes comentários apontam discrepâncias na postura dos hospitais, como por exemplo no número de pessoas permitidas na sala de partos.
"Pela lei, a mulher tem direito a um acompanhante à sua escolha. Mas em muitos hospitais há situações onde isso não acontece por não haver condições na sala", lembra Rita Correia, teorizando que a partir de agora uma mulher a quem seja negado a entrada a mais do que um acompanhante em Santa Maria pode alegar que na emissão da SIC estava mais do que uma pessoa.
Pais não assistem a cesarianas
No caso das cesarianas, como a de Beja, não é sequer permitida a presença do pai. "É uma coisa impensável", prossegue , frisando ainda que no nascimento ocorrido em Beja, a apresentadora que se encontrava na sala não estava sequer equipada com máscara cirúrgica e luvas. "E nós não estávamos a ver o operador de câmara", disse ainda.
No entender desta responsável, mesmo que os médicos tenham autorizado a captação das imagens para mostrar o que de melhor o seu trabalho tem, acabaram por expor práticas que vão contra indicações fisiológicas e recomendações da Organização Mundial de Saúde e da União Europeia, como o recurso exagerado à epidural ou o facto de uma grávida no período de expulsão se encontrar "imobilizada e de costas".
E se algo correr mal?
Felisbela Lopes questiona-se "como é que os hospitais deixam fazer programas em directo?". No entender da investigadora na área dos média da Universidade do Minho, "os actores da saúde sabem que a intervenção médica, por mais simples que seja, comporta risco" e que "o directo é uma variável cuja amplitude os médicos não calculam".
Também Rita Correia se pronuncia sobre esta questão. "De acordo com o dr. Luís Graça (director do Serviço de Ginecologia e Obstetrícia do Hospital de Santa Maria), 40% dos partos evolui para uma situação de alto risco", por isso a responsável não percebe como o hospital acedeu à emissão.
Fora das questões médicas, e cingindo-se à relevância de uma transmissão televisiva deste tipo, o crítico Eduardo Cintra Torres entende que esta poderá chocar ou não os espectadores, dependendo dos "valores morais" de cada um.
"Se os pais achavam que ia ser um momento tão histórico que o queriam partilhar, a utilização dos média para a sua vida privada torna-se um valor positivo", explica.
Depois do comunicado onde condena a emissão em directo de um parto no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, e de uma cesariana no Hospital de Beja, a Associação Portuguesa pela Humanização do Parto (Humpar) conta pedir, nos próximos dias, esclarecimentos à Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), Ordem dos Médicos e às unidades de saúde envolvidas nesta ao sucedido.
"Nós não nos opomos a que se veja como são os partos. Opomo-nos é a que seja feito desta forma gratuita, com desrespeito pelas pessoas envolvidas, para promover um programa de televisão", explicou Rita Correia, presidente da Direcção da Humpar.
Recorde-se que, para assinalar a estreia, o programa de Conceição Lino emitiu em directo, na última segunda-feira, dois nascimentos. Paralelamente à posição da Humpar, têm surgido nas redes sociais e na blogosfera opiniões contra e a favor da transmissão, sendo as desfavoráveis em maior número.
Além de questionarem a falta de sensibilidade e discernimento de todos os envolvidos, alguns destes comentários apontam discrepâncias na postura dos hospitais, como por exemplo no número de pessoas permitidas na sala de partos.
"Pela lei, a mulher tem direito a um acompanhante à sua escolha. Mas em muitos hospitais há situações onde isso não acontece por não haver condições na sala", lembra Rita Correia, teorizando que a partir de agora uma mulher a quem seja negado a entrada a mais do que um acompanhante em Santa Maria pode alegar que na emissão da SIC estava mais do que uma pessoa.
Pais não assistem a cesarianas
No caso das cesarianas, como a de Beja, não é sequer permitida a presença do pai. "É uma coisa impensável", prossegue , frisando ainda que no nascimento ocorrido em Beja, a apresentadora que se encontrava na sala não estava sequer equipada com máscara cirúrgica e luvas. "E nós não estávamos a ver o operador de câmara", disse ainda.
No entender desta responsável, mesmo que os médicos tenham autorizado a captação das imagens para mostrar o que de melhor o seu trabalho tem, acabaram por expor práticas que vão contra indicações fisiológicas e recomendações da Organização Mundial de Saúde e da União Europeia, como o recurso exagerado à epidural ou o facto de uma grávida no período de expulsão se encontrar "imobilizada e de costas".
E se algo correr mal?
Felisbela Lopes questiona-se "como é que os hospitais deixam fazer programas em directo?". No entender da investigadora na área dos média da Universidade do Minho, "os actores da saúde sabem que a intervenção médica, por mais simples que seja, comporta risco" e que "o directo é uma variável cuja amplitude os médicos não calculam".
Também Rita Correia se pronuncia sobre esta questão. "De acordo com o dr. Luís Graça (director do Serviço de Ginecologia e Obstetrícia do Hospital de Santa Maria), 40% dos partos evolui para uma situação de alto risco", por isso a responsável não percebe como o hospital acedeu à emissão.
Fora das questões médicas, e cingindo-se à relevância de uma transmissão televisiva deste tipo, o crítico Eduardo Cintra Torres entende que esta poderá chocar ou não os espectadores, dependendo dos "valores morais" de cada um.
"Se os pais achavam que ia ser um momento tão histórico que o queriam partilhar, a utilização dos média para a sua vida privada torna-se um valor positivo", explica.
Contactada pelo JN, a SIC não comenta as reacções à emissão.
|Ana Gaspar, JN 17/09/2010
Etiquetas:
ética,
ética do jornalismo,
ética e comunicação social
segunda-feira, 13 de setembro de 2010
A inteligência artificial
Inteligência artificial filosofia
View more presentations from guestbdb4ab6.
Etiquetas:
Inteligência artificial,
Searl,
Turing
quarta-feira, 18 de agosto de 2010
O código numérico de Platão
Foi anunciado nos meios académicos que Jay Kennedy, um historiador de ciência da Universidade de Manchester, acaba de descobrir o "código secreto" do mais famoso dos filósofos gregos. O seu estudo foi publicado na revista "Apeiron", dedicada ao estudo da filosofia e ciência da Antiguidade, e é anunciado pelo próprio como o começo da descoberta da "filosofia escondida de Platão".
Jay Kennedy, um filósofo que estudou matemática em Princeton e Stanford antes de se dedicar aos estudos clássicos, baseia-se essencialmente na contagem das linhas dos textos gregos. A ideia pode parecer estranha, mas há várias razões que tornam comum este tipo de análise. Tão comum que constitui uma disciplina estabelecida, que dá pelo nome de "esticometria" (stíchos é linha, fila ou verso em grego).
A contagem das linhas era usual na Antiguidade pois os escribas eram habitualmente pagos à linha e o número de linhas de um manuscrito era o que dava uma medida rigorosa do seu tamanho. A contagem de linhas era também usada para verificar se as cópias estavam conformes aos originais. Por tudo isto, não será irrealista esperar que os manuscritos gregos antigos que reproduzem os escritos de Platão estejam organizados de forma semelhante à que o autor originalmente lhes deu.
Com a possibilidade de tratamento digital das imagens e de contagem automática de partes de um texto, a esticometria desenvolveu-se imenso; mas só agora, com Jay Kennedy, foi feito um estudo sistemático de todas as obras conhecidas de Platão. O estudioso confirmou que os diálogos estão organizados na base de múltiplos de 12, conforme outros já tinham intuído. Assim, a Apologia tem cerca de 1200 linhas, Protágoras, Crátilo, Filebo e o Simpósio 2400, Górgias 3600 e a República 12000. E descobriu que as passagens mais dramáticas aparecem entre o oitavo e o décimo doze avos de cada obra. Reparou ainda que os temas estão colocados no que parece ser o equivalente a uma escala musical, também ela baseada em 12 notas de uma oitava. Assim, os temas virtuosos aparecem em posições que correspondem a notas harmónicas, enquanto os temas negativos estão em posições que correspondem a dissonâncias musicais.
Todas estas afirmações parecem estar solidamente apoiadas nos números, embora haja sempre alguma subjetividade na marcação das passagens. O que talvez não seja tão extraordinário são os ajustamentos aos doze avos. Com efeito, 1/2, 1/3, 1/4 e 1/6 são todas frações que podem ser expressas em doze avos: 6/12, 4/12, 3/12 e 2/12. É natural que frações de 12 se encontrem frequentemente ao procurar partes de um todo.
A base 12 seria, aliás, uma base de numeração mais conveniente que a de 10, que hoje usamos. Por alguma razão nas medidas imperiais um pé tem doze polegadas e ainda hoje o mostrador de um relógio se subdivide em 12 horas. Isso acontece porque 12 tem muito mais divisores do que 10. Consideremos apenas os divisores próprios, isto é, os inteiros que dividem um número e que não são nem a unidade nem o próprio número. Enquanto 10 apenas é divisível por 2 e por 5, 12 é divisível por 2, 3, 4 e 6. O número 12 é o que se chama um "número abundante", pois a soma dos seus divisores próprios excede-o (2 + 3 + 4 + 6 = 15 >12). É, aliás, o mais pequeno número abundante. Não é de espantar que as frações com 12 no numerador abundem na esticometria de Platão. Esperemos, para ver se Jay Kennedy está na pista de algo verdadeiramente interessante.
|Nuno Crato
Texto publicado na edição do Expresso de 14 de agosto de 2010
Etiquetas:
Matemática e Filosofia,
Nuno Crato,
Platão
segunda-feira, 19 de julho de 2010
O Ipad e a inovação cultural

iPad: Rui Tavares gosta, Miguel Esteves Cardoso não gosta
Não foi preciso arranjar um para o historiador, ele tem o seu e diz que merecia ser uma ferramenta do renascimento. O jornalista usou um emprestado: é pesado, não incentiva uma leitura longa, não acrescenta muito a quem já tem outras ferramentas. Testemunhos na primeira pessoa.
DaVinciPad
Na Antiguidade o papel não era abundante nem barato. A Humanidade tinha então duas estratégias para lidar com a escassez. A primeira era memorizar. Sabemos pelos autores gregos, latinos e hebraicos que os seus jovens estudantes decoravam milhares e milhares de palavras organizadas em versos, versículos ou listas - da Odisseia à Bíblia ou ao Código Justiniano.
A segunda consistia no recurso a superfícies lisas onde se acumulavam anotações que depois eram apagadas e substituídas por outras notas. A mais vulgarizada destas soluções era uma tabuinha de madeira emoldurada por um pequeno rebordo e coberta por uma camada de cera de abelha. Os alunos escreviam com um pequeno estilete pontiagudo (com que também pelo menos uma vez mataram um professor, o cristão Santo Ambrósio) e depois usavam uma pequena régua para alisar a cera e assim apagar as notas anteriores. A solução mais duradoura foi a da combinação de ardósia+giz, que os nossos pais ou avós ainda levavam para a escola em meados do século XX.
No Museu do Louvre está guardado num armário com demeans de outras coisas um pequenino e engenhoso instrumento que parece um híbrido de baralho de cartas e leque. Creio que é indiano; consiste em várias plaquinhas de marfim, do tamanho de cartas de jogar, unidas por um único parafuso num dos cantos, precisamente como se faz nos leques. Quem olha para aquilo não entende à primeira vista do que se tratava: uma versão extraordinariamente subtil de um bloco de notas. Em vez de ser apenas uma tablete, o seu possuidor poderia usar várias das placas para diferentes ideias, abri-las em arco ou fechá-las com um movement do pulso, extrair apenas uma ou duas para comparação. Quando já não houvesse espaço para mais notas, um simples pano molhado permitiria limpar tudo e começar de novo.
Outra coisa que os antigos sabiam perfeitamente é que cada uma destas mudanças de tecnologia - uma simples ardósia é "tecnologia", tanto quanto o mais sofisticado computador - tinha consequências inesperadas na nossa forma de pensar e agir. Mesmo pessoas muito sábias reagiam teimosamente mal a algumas das tecnologias que mais fizeram pela humanidade. Um dos casos mais célebres é o de Sócrates, que rejeitava uma tecnologia relativamente recente no seu tempo - a escrita - por considerar que ela poderia destruir a memorização e assim encorajar o facilitismo. Este e outros seus argumentos foram estudados por um historiador neozelandês chamado MacKenzie, que sugeriu que estes eram muito semelhantes aos que viriam depois a ser usados contra as máquinas de escrever, as calculadoras e os computadores pessoais.
Inversamente, também poderemos aprender a ler as criações tecnológicas do nosso tempo à luz dos objectos do passado.
A primeira lição deste exercício é a seguinte: os objetos têm a sua própria lógica. Para os entendermos não os podemos forçar à lógica que nós trazemos dos outros objetos anteriores, que têm a sua lógica anterior. Uma ardósia não é um pergaminho que não é um disco de vinil. Cada um destes objetos precisa de ser escutado com algum tempo. Cada um deles se desdobrará de uma maneira diferente.
A segunda é que cada um destes objetos acabará por se tornar no efeito acumulado daquilo que ele é (tecnologia) e daquilo que nós aprendermos a fazer com ele (cultura). Tecnologia+cultura.
Quando o iPad foi apresentado por Steve Jobs, o fundador e líder da Apple, este mostrou uma imagem na qual se via um cruzamento entre a "rua da tecnologia" e a "rua das artes liberais". A Apple, explicou ele, situava-se na interseção entre estas duas vertentes; aliás, já não era a primeira vez que Steve Jobs mostrava essa metáfora visual, como se com ela quisesse provar um qualquer argumento especialmente importante; noutra ocasião sugeriu que o lugar da companhia era nas "humanidades"; o nome oficial da "Apple Computer, Inc." foi alterado para apenas "Apple", elidindo a referência aos computadores. Estes pormenores escapam normalmente aos jornalistas, aos comerciantes e mesmo aos consumidores, normalmente obcecados em saber quantos gigabytes cabem em cada versão da máquina, se ela tem câmara ou não, etc. Extraordinariamente, já ouvi queixas de gente que diz não comprar um iPad por lhe faltar uma saída USB; como se uma saída USB, que há pouco mais de dez anos não existia e que pode ser inútil no iPad, já fosse para nós uma questão de vida ou de morte.Como crítica mais profunda, um amigo antropólogo escreveu que o iPad não é um instrumento de input mas de output; ou seja, um lugar de onde extraímos coisas (como a televisão, que nos serve para ver) e não um lugar onde inserimos, acrescentamos ou criamos coisas. Implicitamente, isto significaria que o iPad implica uma atitude mais passiva da nossa parte.
Dá para entender de onde vem esta ideia: na realidade, o que o iPad parece à primeira vista é apenas e só um ecrã. Nós vemos ecrã e pensamos TV. Como não vemos teclado, não pensamos computador. Como não vemos caneta, não pensamos computador.
Este meu texto é, no entanto, uma cabal refutação dessa ideia - e é-o mesmo até independentemente da qualidade dos argumentos que eu apresentar. O simples facto é que este texto foi inteiramente escrito num iPad, como aliás todos os meus textos desde há algumas semanas. Já não me lembro qual foi a última vez que toquei no teclado do meu computador portátil. Estou neste momento a escrever num avião cujas luzes estão apagadas, equilibrando o iPad em cima dos meus joelhos, enquanto os meus vizinhos dormem numa viagem intercontinental. Nem a lâmpada do meu assento está ligada. O teclado virtual, além de ser surpreendentemente prático e rápido, não faz qualquer barulho porque não tem partes móveis; parece apenas que estou a acariciar o superfície lisa da tablete/ecrã, que na verdade é um vidro precedido por sensores que detetam o calor dos meus dedos. Ao mesmo tempo, o iPad está a dar-me música em modo aleatório (Peggy Lee agora; há pouco era Bach; antes disso música eletrónica) que ouço através dos auscultadores. A bateria dura cerca de dez horas e deve chegar ao meu aeroporto de destino. No aeroporto onde embarquei não precisei de (ao contrário do que se passa com os computadores) abrir a mala para fazer o iPad passar pelo raio-X.
O iPad é às vezes uma janela; outras vezes um poço onde vou buscar novas aplicações; uma banca onde vou buscar o jornal do dia; um bloco de notas onde desenho esquemas com os dedos que depois envio por email. Antes de escrever este texto, brinquei com um videojogo de futebol para distrair um pouco a cabeça. Se desejar abrir outras aplicações, o iPad transforma-se numa caixa de ritmos, num sintetizador, numa paleta de tintas. Ele próprio muda de aplicação e também nisso é melhor do que um computador, que nos obriga a fazer tudo através de um teclado-e-rato, seja ou não esta a solução mais adequada. Aqui no iPad o teclado só aparece quando eu vou escrever e não ler, e pode tornar-se num piano ou num tambor. Se eu estiver a olhar para um vídeo ou a ler uma estória em quadrinhos, o teclado desaparece tranquilamente.
Por isso argumentar se o iPad é um instrumento passivo ou ativo perde um pouco o sentido. Ele é um excelente instrumento de input, e de output também. De inserção e de fruição. O que acontece é que ele passa de forma tão ágil de um papel para outro que os mistura numa espécie de contínuo.Mais do que ativo ou passivo, o iPad é um instrumento imersivo. Focamo-nos no que estamos a fazer nele, seguramo-lo com ambas as mãos, temos tendência a curvar-nos um pouco, quase como quem assume posição fetal. Mas também podemos levantar-nos e levá-lo de reunião em reunião como um caderno que nunca chega ao fim e cujas notas ficam facilmente guardadas para sempre. Imagino que ele vá ser muito prático para médicos internos, que passam o dia de um lado para o outro no hospital; o iPad é uma versão extensiva da tradicional prancheta. Mas também desce o ritmo connosco e depois de um dia de trabalho é um excelente companheiro para quem está apenas anichado num sofá. Permite ler livros como numa biblioteca e comprá-los como numa livraria.
Na sua versatilidade e amplitude, o iPad mereceria ser uma ferramenta do renascimento. Generalista, engenhoso e infinitamente curioso, precisamente como se diz que eram os homens renascentistas.
A este propósito, há outra história que já foi contada por Steve Jobs mais do que uma vez como tendo sido das mais importantes escolhas da sua vida, mas que nunca parece ser valorizada pelos comentadores. Conta o fundador da Apple que por razões mistas de falta de dinheiro e de motivação teve de abandonar a universidade. Depois de cancelar a sua inscrição ainda pôde aproveitar durante uns meses as aulas como estudante livre, mas sem ter um curso formal para cumprir. Foi assim que, mais ou menos por acidente, foi parar a uma aula de tipografia. O próprio Steve Jobs costuma creditar o conhecimento técnico e algo pormenorista da tipografia como tendo sido uma razão para que no futuro os computadores da Apple tenham sido dos primeiros a ter várias famílias de fonte, caracteres de espaçamento variável e outras possibilidades antigas como letras capitulares, identações e por aí adiante. Mas a história é mais relevante do que isso.
A tipografia enquanto arte+tecnologia do renascimento, plasmada por invento-res+artesões+humanistas como Johannes Gutenberg ou Aldo Manúcio, é obviamente um momento paradigmático das interações entre novos suportes e nova cultura. Nas suas implicações, o iPad pode provavelmente vir a ser a invenção mais relevante da Apple (como de costume, já havia outras tabletes/computadores, mas esta é a primeira que acerta na resposta). Acima de tudo, porém, a tipografia é precisamente o reino da atenção ao pormenor; na tipografia os objetos têm a sua lógica própria, as letras precisam das suas próprias soluções e o desenho é uma missão de resolução de problemas. Certas letras de imprensa são como são porque de outra forma o tipo de chumbo, ou o seu molde, se quebrariam; a distância entre elas é variável porque a combinação entre um "s" e um "t" é mais frequente (e mais elegante) do que entre um "k" e um "a" (que pode ficar esquisita se as letras não forem bem desenhadas).
Apesar de ser novidade, a invenção - e os renascentistas sabiam-no bem - não nasce de um ato de vontade instantâneo e não pode por isso ser compreendida de forma impaciente. Ela não é uma imposição da nossa teimosia à lógica das coisas. A invenção - e a apreciação que possamos ter dela - só pode nascer de uma atenção permanente, paciente e intensa à lógica própria dos objetos. Sent from my iPad
Rui Tavares aderiu ao novo acordo ortográfico e este texto respeita essa sua opção.
O Mac no condicional
Não gosto do iPad. Porque não preciso dele. Como já tenho um iMac, um iBook e um iPhone, o iPad acrescenta pouco à minha felicidade. Tudo depende do grau de Mac que há na sua vida. Se há zero Mac na sua vida, o iPad é não só a melhor maneira de entrar no mundo Mac como a mais Mac. A “macquidão” tudo determina. Tudo depende de se ser ou não um “macquista”. O iPad é para quem se interessa por essa questão. Para um “macquista”, habituado ao mundo fechado da Apple e do iTunes mas sabendo como lhes dar a volta, caso seja preciso, o iPad é fechado de mais. Por exemplo, proíbe downloads que todos os outros Macs deixam passar.
O iPad não é um computador portátil — não dá jeito trabalhar nele. Nem é um iPhone gigante sem telefone. A guerra de definições do iPad deixou de ter graça há muito tempo.
O iPad é um visionador portátil. Para navegar na Net, ver filmes, ler livros, ouvir música, jogar jogos. É isso que faz bem e muito depressa, com uma bateria que dura que se farta — mais de 12 horas a ver filmes. A melhor demonstração é o vídeo em que Jesse Rosten mostra o que se consegue fazer com um iPad e tiras de velcro: http://www. apple.com/ipad/velcro/. É um visionador de colo, onde se toca. Isto torna-o num objecto íntimo. O iPhone segura-se na mão e põe-se no bolso. O iPad nunca se arruma. Fica ali à espera que peguemos nele outra vez.
A grande maioria das pessoas usa o computador portátil só para fazer as coisas que o iPad faz. O iPad é feito para essas pessoas. É óptimo para ler revistas e jornais — a cores — mas, para livros, só para quem leia durante uma hora ou menos. Para já, porque faz mal aos olhos. O ecrã é iluminado e muito espelhado. Depois, porque é pesado de mais para segurar nas mãos.
Pode montar-se num tripé, mas a leitura é diferente quando não se segura o que se está a ler nas mãos. Com um leitor de eBooks — eu tenho um velho eBook —, pode-se ler durante o tempo que se quiser, porque as páginas são brancas e pretas e não são iluminadas, como os livros. São mais baratos e mais leves e, sobretudo, a não ser no caso do Kindle, é uma canja importar PDF de livros, artigos e revistas.
O Kindle tem acesso a muito mais livros do que o iPad. Em Portugal, o dono de um iPad não pode comprar livros nenhuns — a não ser pela porta de trás, arranjando um cartão de crédito com morada nos Estados Unidos. Tem uma biblioteca de livros antigos e nada mais. O único livro moderno é o (excelente) manual de instruções do iPad.
Para terminar esta espécie de crítica, aqui ficam as vantagens e desvantagens:
Vantagens
É bonito; é facílimo de usar; o processador é muito rápido; as teclas (na posição horizontal) têm o tamanho ideal; navega muito bem na Net e a bateria é excepcionalmente duradoura.
Desvantagens
É pesado de mais para segurar durante mais de meia hora e não é um computador portátil (não tem USB, não há Word; está fechado).
Simplificar ou complicar?
O iPad é interessante porque pretende ser um simplificador. O iPhone é para comunicar e informar. Os MacBooks são para trabalhar. O novo iMac 27 é para trabalhar e ver filmes como deve ser. O iPad é para divertir.
Olha-se para o iPhone, para o MacBook ou para o iMac e pensa-se em trabalho. Olha-se para o iPad e pensa-se em divertimento.
Ou, pelo menos, é assim que a Apple quer que nós pensemos.
Enquanto estamos a ver um filme no iMac, acontece-nos muito querer ir ver o nome de um actor à Net. Sem parar o filme, usamos o iPhone. Mas o ecrã do iPhone é pequenino e é preciso estar sempre a puxar daqui para ali para conseguir ler o que vem a seguir. Com o iPad, apanha-se logo a página inteira. É uma maravilha.
Mas não deixa de ser uma coisa que se tem ali ao lado. O ecrã é muito maior do que o do iPhone mas continua a ser muito pequeno para ver fi lmes, para não falar no excessivo espelhamento, que faz com que as nossas próprias caras entrem pelos filmes adentro.A Apple está a fazer uma experiência interessantíssima em que ganhará sempre. Começou com o iPod Touch, que era um iPhone sem telefone. O iPad é um iPod Touch gigante. Acaba de lançar o novo Mac mini — por 700 dólares — que pode funcionar com o seu televisor HDTV.
Nunca houve uma tão vasta escolha de computadores da Apple. Agora serão os consumidores a dizer quais as combinações de aparelhos que preferem.
O iPad é uma maneira engenhosa da Apple mostrar que se pode ter quase tudo nas mãos — mas, ainda assim, com necessidade de ir um bocadinho mais longe no mundo dos Macs.
É para principiantes, para espectadores e, no caso de quem já tenha um Macbook e um iPhone, coleccionistas.
É o segundo grande produto da Apple (se a Apple TV se puder considerar um grande produto) que não vou comprar. Mas para quem nunca tenha tido nem um Mac, nem um iPhone nem um iPod... e já tenha um telemóvel de que goste... e não precise de um computador a sério... então, nesse caso, seria uma folia não comprar um iPad. Já.
|Rui Tavares e Miguel Esteves Cardoso, Público
Etiquetas:
história da técnica,
inovação tecnológica,
ipad,
Miguel Esteves Cardoso,
Rui Tavares
quinta-feira, 27 de maio de 2010
Vivemos numa sociedade justa?

Esta questão refere-se a um problema que pertence à tradição filosófica, porque tem sido colocado insistentemente ao longo da história do Ocidente. Podemos afirmar que se trata dum problema estruturante da Filosofia.
Desde a antiguidade grega que a inquirição filosófica tem na justiça social um dos seus principais focos de investimento.
Os primeiros filósofos foram chamados a participar na fundação de novas cidades-estado, nascidas do impulso colonizador da cultura grega, interessada em alargar o âmbito da sua presença no mundo conhecido pela fundação de cidades que pudessem começar a partir duma base civilizacionalmente estabelecida num conjunto de atitudes básicas perante o mundo, plasmado numa constituição que garantia o império do da Lei (nomos) sobre a Natureza (physis).
A fundação das novas cidades-estado tinha um cunho ritual muito vincado, ligado às práticas religiosas das cidades de origem, mas o cuidado crescente que foi sendo posto na elaboração da constituição dessas novas esferas de racionalidade pública, mostra que a política era assumida como uma esfera da afirmação do humano e das capacidades de organização e de produção de sentido inerentes ao Lógos, à Razão. E a emergência da Filosofia está ligada a este movimento de afirmação sócio-cultural do Lógos e da convivialidade racionalmente investida dum sentido político.
O movimento sofístico surge desta valorização política da racionalidade. A decisão política está intimiamente ligada à palavra e à mestria do seu uso persuasivo. A liberdade exerce-se pelo discurso e o rosto da cidade é cada vez mais moldado pela afirmação da vontade colectiva, nascida do assentimento individual à soberania do Lógos - é assim que Atenas "inventa" a democracia, embora se trate dum regime profundamente injusto por deixar de fora da cidadania a esmagadora maioria dos integrantes da cidade. Mas trata-se dum começo.
E é no seio desse caldeirão borbulhante de agitação política que Sócrates inflecte a atenção da Filosofia para o homem e a sua vida na cidade, para os problemas ligados à ética e às pulsões do animal que fala e que, falando, se descobre portador de sentido e guardião de significados. Paradoxalmente é esse mesmo movimento que está na origem do processo que culmina na condenação de Sócrates à morte. O filósofo que terá recusado a escrita para não anular a demiurgicidade do discurso actual, da fala dirigida a outrem, a um auditório seja de amigos que conversam sobre a vida, seja de cidadãos que discutem os problemas da cidade, é o filósofo que foi silenciado em nome da lei e da vontade colectiva, ambas alicerçadas na fala humana, errática, sem garantias absolutas de verdade. Nem o oráculo de Delfos conseguiu sobrepor-se à fala soberana dos que, praticando a justiça, se expõem ao
mais injusto dos desmandos. Sem que haja a possibilidade de recorrer a uma ordem outra, superior, divina, ou assente num saber apodíctico. E Sócrates submete-se aos ditames da palavra e dos seus desígnios arbitrários. Recusa a fuga e enfrenta a morte como o discurso mais eloquente: acabou por ser ele, silenciado pela taça de cicuta, a ter a última palavra, a ver a sua existência totalmente impregnada da força do Lógos, até que o corpo não mais pudesse ser veículo de significação política. Sócrates sem voz é Sócrates morto. Os silentes, politicamente mortos, são, assim, expulsos da esfera pública. Só os vivos e os que estão na posse das suas faculdades vitais são elegíveis. Ainda há poucos anos se discutia se João Paulo II poderia continuar a ser Papa se perdesse a capacidade de falar. A voz continua a ter um estatuto ontológico encantatório.
E é neste contexto que Platão vai colocar o problema justiça como o problema central da política: Sócrates morreu vítima da injustiça, mesmo que o seu processo tivesse recorrido a todos os mecanismos da justiça ateniense. E tratou-se dum processo democrático, um processo exemplar, aparentemente sem mácula e que, por isso mesmo, permitia desmascarar a injustiça inerente à própria democracia. É assim que Platão vai idealizar uma sociedade justa, sem mostrar como se poderia passar da sociedade culpada da mais terrível das injustiças para essa sociedade governada pelos discípulos ideais de Sócrates - filósofos emancipados de qualquer jugo que impedisse a obediência à Razão.
Não tendo tematizado a revolução, tudo fica em aberto. Platão legou-nos uma utopia e convenceu-nos de que a sociedade tal como a vivemos é perfectível ou, no mais radical dos cenários, passível de ser demolida para sobre os seus escombros se construir uma sociedade verdadeiramente justa.
Mas a cidade de Platão é uma cidade onde a voz deixa de ser o património dos vivos e a garantia da sua cidadania. É um espaço que condena ao exílio os poetas e todos os que tenham uma fala divergente. Neste sentido é a própria individualidade, no que ela tem de irredutível à submissão a qualquer tipo de autoridade, que vai ser sumergida pelas emanações duma soberania que se exerge por oposição à vida. Estar na cidade de Platão é aceitar a morte como o próprio do indivíduo e, com isso, dar solidez à ideia de que o Estado é eterno, ou é uma estrutura adveniente do Eterno. Esta 'morte' cívica corresponde à redução da vida, enquanto biografia, a uma função da cidade, ela sim, a única a ter uma vida contável, uma História, no fundo, a dignidade que antes do gesto platónico se conferia aos heróis. O serem singulares, inigualáveis, não enquadráveis na ordem humana e divina.
Desde a antiguidade grega que a inquirição filosófica tem na justiça social um dos seus principais focos de investimento.
Os primeiros filósofos foram chamados a participar na fundação de novas cidades-estado, nascidas do impulso colonizador da cultura grega, interessada em alargar o âmbito da sua presença no mundo conhecido pela fundação de cidades que pudessem começar a partir duma base civilizacionalmente estabelecida num conjunto de atitudes básicas perante o mundo, plasmado numa constituição que garantia o império do da Lei (nomos) sobre a Natureza (physis).
A fundação das novas cidades-estado tinha um cunho ritual muito vincado, ligado às práticas religiosas das cidades de origem, mas o cuidado crescente que foi sendo posto na elaboração da constituição dessas novas esferas de racionalidade pública, mostra que a política era assumida como uma esfera da afirmação do humano e das capacidades de organização e de produção de sentido inerentes ao Lógos, à Razão. E a emergência da Filosofia está ligada a este movimento de afirmação sócio-cultural do Lógos e da convivialidade racionalmente investida dum sentido político.
O movimento sofístico surge desta valorização política da racionalidade. A decisão política está intimiamente ligada à palavra e à mestria do seu uso persuasivo. A liberdade exerce-se pelo discurso e o rosto da cidade é cada vez mais moldado pela afirmação da vontade colectiva, nascida do assentimento individual à soberania do Lógos - é assim que Atenas "inventa" a democracia, embora se trate dum regime profundamente injusto por deixar de fora da cidadania a esmagadora maioria dos integrantes da cidade. Mas trata-se dum começo.
E é no seio desse caldeirão borbulhante de agitação política que Sócrates inflecte a atenção da Filosofia para o homem e a sua vida na cidade, para os problemas ligados à ética e às pulsões do animal que fala e que, falando, se descobre portador de sentido e guardião de significados. Paradoxalmente é esse mesmo movimento que está na origem do processo que culmina na condenação de Sócrates à morte. O filósofo que terá recusado a escrita para não anular a demiurgicidade do discurso actual, da fala dirigida a outrem, a um auditório seja de amigos que conversam sobre a vida, seja de cidadãos que discutem os problemas da cidade, é o filósofo que foi silenciado em nome da lei e da vontade colectiva, ambas alicerçadas na fala humana, errática, sem garantias absolutas de verdade. Nem o oráculo de Delfos conseguiu sobrepor-se à fala soberana dos que, praticando a justiça, se expõem ao

E é neste contexto que Platão vai colocar o problema justiça como o problema central da política: Sócrates morreu vítima da injustiça, mesmo que o seu processo tivesse recorrido a todos os mecanismos da justiça ateniense. E tratou-se dum processo democrático, um processo exemplar, aparentemente sem mácula e que, por isso mesmo, permitia desmascarar a injustiça inerente à própria democracia. É assim que Platão vai idealizar uma sociedade justa, sem mostrar como se poderia passar da sociedade culpada da mais terrível das injustiças para essa sociedade governada pelos discípulos ideais de Sócrates - filósofos emancipados de qualquer jugo que impedisse a obediência à Razão.
Não tendo tematizado a revolução, tudo fica em aberto. Platão legou-nos uma utopia e convenceu-nos de que a sociedade tal como a vivemos é perfectível ou, no mais radical dos cenários, passível de ser demolida para sobre os seus escombros se construir uma sociedade verdadeiramente justa.
Mas a cidade de Platão é uma cidade onde a voz deixa de ser o património dos vivos e a garantia da sua cidadania. É um espaço que condena ao exílio os poetas e todos os que tenham uma fala divergente. Neste sentido é a própria individualidade, no que ela tem de irredutível à submissão a qualquer tipo de autoridade, que vai ser sumergida pelas emanações duma soberania que se exerge por oposição à vida. Estar na cidade de Platão é aceitar a morte como o próprio do indivíduo e, com isso, dar solidez à ideia de que o Estado é eterno, ou é uma estrutura adveniente do Eterno. Esta 'morte' cívica corresponde à redução da vida, enquanto biografia, a uma função da cidade, ela sim, a única a ter uma vida contável, uma História, no fundo, a dignidade que antes do gesto platónico se conferia aos heróis. O serem singulares, inigualáveis, não enquadráveis na ordem humana e divina.
A cidade de Platão não tem lugar para a hybris, para o excesso. Vai ao longo do tempo encerrar-se em muralhas, primeiro de pedra, depois de modos de ser e de ver, deixando de fora, sucessivamente, os leprosos, os loucos, os estrangeiros, os marginais de todo o tipo. O que fica de fora da cidade, no fundo, é a possibilidade de usufruto, livre e imotivado, do corpo e da vida que corporeamente se vive. Porque a alma é já ela uma invenção da clausura.
Platão consegue inverter a intencionalidade da 'missão' socrática: os indivíduos têm que calar-se sob o domínio do Lógos institucional. Cada um ocupando o seu lugar, de acordo com a sua condição. Trata-se duma sociedade justa? No sentido em que se trata duma cidade completamente regulada, com os seus pesos e contrapesos, sem excessos e sem divergências, pode falar-se em justiça, mas não podemos esquecer o que fica de fora: o fundo pulsional da existência humana, a individualidade que escapa à conformação forçada. Dentro da cidade, cosmos, fora, o caos. E esta vai ser uma regra nas sociedades ocidentais: o Outro é expulso da cidadania muralhada, o leproso, o louco, o diferente. A vida tem que ser dominada, investida de sentido político, expropriada. Hoje este movimento pode ser surpreendido nas ciências biomédicas: já há genes patenteados, o que levanta a questão da propriedade da informação genética. Quem se pode apropriar dessa informação? O corpo transformado em mercadoria. O que significa que há corpos que valem mais, para os quais há medicamentos e alimentos em quantidades generosas.
Por isso as mentes têm que ser conformadas. E é cada vez mais vasta a esfera do determinismo social: os indivíduos pouco decidem sobre o bem comum. Enquanto a sua esfera de decisão privada aumenta em quantidade, com o aumento vertiginoso da oferta de bens de consumo e de serviços ligados ao lazer. Mas a qualidade dessa decisão degrada-se, perde densidade ontológica. A cidadania transforma-se numa forma de alienação sem escapatória. Uma sociedade só poderá
ser justa se puser como axioma primeiro do exercício da soberania o seu próprio fim, ou seja, uma sociedade só será justa se se basear no princípio de que a estrutura social vigente deve ser a melhor possível. O que leva a que se procure sempre um grau superior de justiça.

Ora, vendo as coisas desta forma podemos concluir que não vivemos numa sociedade justa, antes de mais porque esta sociedade não abre espaços de questionamento e de superação.
Subscrever:
Mensagens (Atom)