domingo, 1 de fevereiro de 2015

O problema da natureza dos valores




O problema da natureza dos valores é um dos problemas mais importantes da axiologia.
Trata-se de saber qual o fundamento dos valores (o ser humano ou a realidade?): os valores existem por em si e por si, de forma absoluta, ou só têm uma existência relativa, dependendo, para existir e ganhar sentido, da valoração?

Teorias axiológicas sobre a natureza dos valores



a. Subjetivismo axiológico


O subjetivismo axiológico: afirma que os valores são o resultado das reações individuais e coletivas dos seres humanos à realidade, aos acontecimentos, às situações da vida. O subjetivista pergunta-se: pode alguma coisa ter valor se ninguém o percebeu nem pôde percebê-lo? Evidentemente que não; o valor, para o subjetivista, não pode ter sentido, ou existência, propriamente, sem que exista o sujeito. A valoração real, ou potencial, parece ser um elemento indispensável do valor. Em última instância, é impensável que algo tivesse valor sem referência a nenhuma classe de sujeito (a um ser humano, ou a uma comunidade).
Segundo o subjetivismo, os valores não existem em si e por si, ainda que não sejam meras criações da mente, existem somente para mim; o que torna uma coisa valiosa é o desejo e o interesse individual. O subjetivista pensa assim: “o valor de um jantar requintado, não está nele, mas no meu paladar, que o saboreia e lhe confere um valor determinado”.

Os subjetivistas defendem a sua posição apoiando-se em argumentos deste tipo:

1. Argumento da discrepância (ou do desacordo): É óbvio que nós não podemos estar todos de acordo em relação a problemas éticos, estéticos, religiosos, políticos, em relação aos quais frequentemente se produzem conflitos (ou graves desacordos) em torno dos valores (no que diz respeito à sua matéria, polaridade e hierarquização).  As pessoas frequentemente entram em desacordo em relação à beleza de um quadro, ao sentido de um romance, ou de um filme; sobre o valor de uma equipa de futebol; sobre uma ação moral (por exemplo, em relação à guerra do Golfo, uns sustentam que se tratou de uma guerra justa e moralmente justificada; enquanto outros sustentam o contrário).

2. Argumento da constituição biológica: Os valores estão submetidos à nossa constituição biológica e subjetiva da nossa espécie. Em relação a isto surgem questões / argumentos deste tipo: Que valor estético teria a pintura se os homens não tivessem olhos? Que sentido teria falar do valor estético da música se estivéssemos condenados a uma surdez eterna?

3. Argumento do interesse: outro argumento apresentado frequentemente os subjetivistas é que uma coisa adquire valor na medida em que se lhe confere um interesse. Por exemplo: Onde radica o valor dos selos de correio? Há algo na qualidade do papel ou na beleza do desenho ou na impressão que explique o valor que se lhes dá? É óbvio que sem o interesse dos filatelistas os selos não teriam nenhum valor. O desejo e o interesse de coleccioná-los foi o que lhes conferiu o seu valor. Outro exemplo: se as pessoas perdessem o interesse na pintura de Rembrandt, os seus quadros careceriam de valor.

4. Historicidade dos valores: A relatividade dos valores deve-se ao seu carácter concreto e histórico; graças a este, os valores estão condenados a ficar encerrados na prisão do sujeito; já na antiguidade dizia o sofista Protágoras: “o Homem é a medida de todas as coisas”.
A situação real e a conduta real do homem demonstram que não é possível uma valorização universal. Em cada grupo humano e em cada indivíduo a estimativa (a atribuição de valor) varia ao infinito. Em resumo, para o subjetivismo não há objecto valioso sem sujeito.

Objeções à teoria subjetivista:
Ainda que o subjetivismo acerte em assinalar que não há objetos valiosos por si à margem do sujeito, contudo engana-se ao desconsiderar as propriedades do objecto  que podem provocar a atitude valorativa do sujeito. De outro modo, como poderia explicar-se que distintos objetos suscitem diversas atitudes valorativas num mesmo sujeito? É evidente que a existência de propriedades objetivas distintas contribuem para despertar reações diversas num mesmo sujeito.
Por outro lado, a valoração do sujeito não é um ato exclusivamente individual e psíquico já que o indivíduo está imerso numa sociedade em cuja cultura se forma espiritualmente e, por isso, a sua estimativa vai estar marcada pelas pautas de valores (morais ou de outro tipo)  que têm uma significação social.


b. Objetivismo axiológico

Esta corrente opõe-se terminantemente ao subjetivismo; sustenta que os valores são objetivos, dependem do objeto e não do sujeito; a única coisa que o sujeito faz é captar o valor.
O objetivismo reconhece que a valoração é subjetiva, mas isso não implica que o valor o seja. Do mesmo modo que a percepção é subjetiva, mas não o objeto conhecido, que mantém intactas as suas qualidades primárias quando ninguém o percebe, assim ocorre com o valor. Não se pode confundir o objecto com a sua captação, defende o objetivismo.
Já vimos que um dos argumentos citados pelos subjetivistas é o que se denomina argumento das discrepâncias. Agora bem, face a este argumento, os objetivistas sustentariam, em primeiro lugar, que a discrepância não se refere a valores, mas antes aos bens.

A discrepância refere-se à beleza ou à justiça de um ato, isto é, a bens; não à beleza ou à justiça, que são valores independentes de todo o bem. Ao contrário dos valores, os bens são imperfeitos; muitas vezes não conseguem encarnar plenamente os valores, devido a uma cegueira estimativa dos homens concretos. Isto explicaria, por exemplo, que os gregos tenham aceitado a escravatura; uma limitação da consciência moral impediu-os de apreender o eterno e universal valor da justiça.

Assim, o objetivismo assenta em dois argumentos fundamentais:

1. Acentuar a separação radical entre valor e realidade, ou a independência dos valores em relação aos bens em que estes se plasmam.
2. Afirmar que os valores são absolutos, que existem em si e não para mim (independência dos valores em relação a todo o sujeito).

Os valores são supra temporais, são extra territoriais e extra históricos; valem aqui e ali, ontem, hoje e sempre.

Objeções à teoria objetivista:

O objetivismo separa o valor dos bens de tal forma que subordina a existência do bem ao valor. O que há de valioso numa coisa tem a sua fonte no valor que existe independentemente dela. Mas esta existência de um valor encarnado nos bens, ou que necessita de plasmar-se em algo real, suscita problemas que, ao não serem resolvidos, levam a consequências absurdas.
Por exemplo: que sentido teria a solidariedade, a lealdade ou a amizade como valores se não existissem os sujeitos humanos que podem ser solidários, leais ou amigos? Que solidariedade poderia existir – ainda que fosse idealmente – se não existissem os sujeitos que hão-de praticá-la e os seus atos solidários? Algo semelhante poderíamos dizer da separação radical entre a utilidade e as coisas úteis, a justiça e os homens justos, etc. Todos os valores que conhecemos têm, ou tiveram, sentido em relação ao homem e somente nesta relação.

c. Estruturalismo axiológico:

É a posição intermédia entre o objetivismo e o subjetivismo. O filósofo argentino Risieri Frondizi pensa que tanto o objetivismo como o subjetivismo são unilaterais. Pensa que o valor surge da relação entre o sujeito e o objeto e que essa relação axiológica origina uma qualidade estrutural que pode ser experienciada; esta qualidade não se dá no vazio, mas numa situação humana, concreta, e a hierarquia axiológica é também situacional e complexa, não linear.
Segundo Frondizi, os valores servem de fundamento a normas éticas e estas, tal como as normas jurídicas, são situacionais. O filósofo argentino considera que a sua interpretação estrutural do valor abre a possibilidade de superar o tradicional abismo entre o ser e o dever ser.
Nem o objetivismo nem o subjetivismo conseguem explicar satisfatoriamente o modo de ser dos valores. Estes não se reduzem às vivências do sujeito que valora, nem existem em si, como um mundo de objetos independente cujo valor se determine exclusivamente pelas suas propriedades naturais objetivas. Os sujeitos existem para um sujeito, entendido este num sentido puramente individual, ou como ser social; mas mesmo assim exigem um substrato (uma base) material, sensível, separado do qual carece de sentido.
É o homem – como ser histórico-social, e com a sua atividade prática (a sua ação) – quem cria os valores e os bens em que se encarnam, e à margem dos quais só existem como projetos ou objetos ideiais. Os valores são, pois, criações humanas e só existem e se realizam no homem e só no homem.
As coisas não criadas pelo homem (os seres naturais) só adquirem um valor quando entram numa relação peculiar com o ser humano, ao integrar-se no seu mundo como coisas humanas ou humanizadas. As suas propriedades naturais, objetivas, só se tornam valiosas quando servem fins ou necessidades dos homens, e quando adquirem, dessa forma, o modo de ser peculiar de um objeto natural humano.
Assim, pois, os valores possuem uma objetividade peculiar que se distingue da objetividade meramente natural ou física dos objetos que existem ou podem existir à margem do homem, ou à margem da sociedade. A objetividade dos valores não é, pois, nem a das ideias platónicas (seres ideais), nem a dos objetos físicos (seres reais, sensíveis). É uma objetividade peculiar – humana, social – que não pode reduzir-se ao ato psíquico de um sujeito individual nem às propriedades naturais de um objeto real.
Trata-se de uma objetividade que transcende o marco de um indivíduo e de um grupo social determinado, mas que não sai do âmbito do homem como ser histórico-social. Os valores, em suma, não existem em si e por si à margem dos objetos reais, cujas propriedades objetivas se dão então como propriedades valiosas (quer dizer, humanas, sociais), nem ainda à margem da relação com um sujeito (o homem social).
Os valores existem, pois, objetivamente, quer dizer, com uma objetividade social. Os valores, por fim, unicamente se dão num mundo social, quer dizer por e para o homem.
CRISTIAN
(Tradução de Paulo Gomes).
(Texto adaptado).

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