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quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Espanto: a origem do filosofar

Edvard Munch, "O Grito" (Pormenor)

“Com efeito, foi pelo espanto (thauma) que os homens começaram a filosofar tanto no princípio como agora; perplexos, de início, perante as dificuldades mais óbvias, avançaram pouco a pouco e colocaram problemas a respeito das maiores, como os fenómenos da Lua, do Sol, e das estrelas, assim como da génese do universo.
E o homem que é tomado de perplexidade e admiração julga-se ignorante; portanto, como filosofavam para fugir à ignorância, é evidente que buscavam o conhecimento a fim de saber, e não com uma finalidade utilitária.”

Aristóteles, Metafísica

Origem da Filosofia, segundo Aristóteles. "O que levou os homens às pesquisas filosóficas foi o espanto", Aristóteles. 01-Na sua obra Metafísica, Aristóteles explica a origem da filosofia e o objetivo que ela persegue: "O que na origem levou os homens às pesquisas filosóficas foi, tal como hoje, o espanto". 02 - Aristóteles retoma o ensinamento de Platão que escreveu no Teeteto: "É absolutamente próprio de um filósofo esse sentimento: o espanto. A filosofia não tem outra origem...". O espanto, para os gregos, é portanto a verdadeira origem da pesquisa filosófica. 03 - A sensação de se conhecer aquilo que se vê geralmente não passa de ilusão. O espanto sentido pelo filósofo é antes de tudo a admiração diante da natureza e a admissão da sua incompreensão diante dos seus mecanismos. 04-"Perceber uma dificuldade e espantar-se é reconhecer a própria ignorância (...) e foi portanto para fugir à ignorância que os primeiros filósofos se dedicaram à filosofia". A filosofia não tem outro propósito senão o de tentar explicar o mundo e essa explicação só se consegue indo à procura do desconhecido.
05 - A separação entre a ciência e a filosofia é muito tardia (admitindo-se que ela seja verdadeiramente aceitável). Data aproximadamente do século XVIII, e todos os grandes nomes da filosofia foram também, pelo menos até essa época, grandes nomes das ciências. 06 - A filosofia tenta explicar aquilo que é. Seja simplesmente construindo uma descrição detalhada dos mecanismos que estão na base do funcionamento da realidade (e com isso surge a tentativa científica de explicação da natureza e das suas leis), seja tentando explicar-lhes o sentido. Chega-se assim às questões dita metafísicas: "Por que existe o ser, em vez do nada?" (Leibniz). 07 - A filosofia, de acordo com a lição de Sócrates, começa com a confissão da ignorância, o seu objetivo é fazer cessar essa ignorância. O seu objetivo é o conhecimento: "É evidente que eles buscavam a ciência para saber, e não tendo em vista qualquer outra utilidade", Aristóteles. 08 - Os filósofos buscam o saber pelo saber, e não por alguma utilidade prática imediata. 09 - É só quando os problemas urgentes da vida já estão resolvidos que as pessoas se lançam nas ciências ou na pesquisa. 10 - A filosofia arranca-nos da condição simplesmente humana, de seres perecíveis e obcecados com a sobrevivência, para nos fazer participar de uma forma de prazer divino: a compreensão pura e desinteressada.
12 - O homem não se pode reduzir a um simples ser natural que procura viver da maneira mais confortável possível, e sim que ele participa de um outro tipo de prazer, o da compreensão e mesmo da contemplação (o conhecimento racional). Aristóteles recorda-nos esse sentimento primeiro e motor de toda e qualquer pesquisa: o espanto ou admiração perante aquilo que é. 13 - Aristóteles observa que existe em todo o ser humano um prazer desinteressado em compreender, o qual se manifesta também na arte, mas que atinge seu ápice na atividade filosófica, a qual nos faz participar, tanto quanto possível, de uma vida digna dos deuses. Fonte: Anne Amiel, 50 Grandes Citações Filosóficas Explicadas. (Texto adaptado).

sábado, 1 de outubro de 2016

A Filosofia face ao Senso Comum



A educação filosófica não consiste na adoção de umas tantas das opiniões de um filósofo, mas no treino da atitude crítica, no exercício pessoal de um pensar autêntico, no uso metódico de um ceticismo ativo, na prática da elucidação dos problemas básicos.

Filosofia fácil, filosofia falsa. O prosélito amador que tudo crê resolvido por meia dúzia de fórmulas extremamente simplórias (tomadas, não raro, de vulgarizações deturpantes) é um espírito ingénuo que resolveu os problemas sem chegar a perceber onde os problemas jazem, que dificuldades os formam, em que é que eles consistem. Adota um caminho sem que tenha entendido quais caminhos há; em que aspetos diferem; que vantagens oferecem; que obstáculos opõem; a quais rumos seguem. Ao aprendiz de filósofo […] rogo que não se apresse a adotar soluções, que não leia obras de uma só escola, que procure conhecer as argumentações de todas, e que queira tomar como primário escopo a singela façanha de compreender os problemas: de compreendê-los bem, de os compreender a fundo, habituando-se a ver as dificuldades reais que se deparam nas coisas que se afiguram fáceis ao simplismo e à superficialidade do senso comum (a filosofia é, em não pequena parte, a luta do bom senso contra o senso comum) […]. A filosofia se não pode responder a tantos enigmas como desejáramos que respondesse, tem o poder, pelo menos, de fazer perguntas e de levantar problemas, que tornam o mundo muito mais interessante, e que mostram o estranho, o maravilhoso, logo por baixo da vulgaríssima pele das vulgaríssimas coisas do comum […].

Ora, se a nota fundamental da filosofia é a crítica e se a filosofia deve ser estudada, não pelo mérito das respostas precisas sobre um certo número de questões primárias, senão que pelo valor que em si mesma assume, para a cultura do espírito, a mera discussão de tais problemas, segue-se que é ideia inteiramente absurda a de se dar a alguém uma iniciação filosófica pela pura transmissão das respostas precisas com que pretendeu resolver esses tais problemas um determinado autor ou uma certa escola. Deverá pois a iniciação filosófica assumir um caráter essencialmente crítico, e consistir num debate dos problemas básicos que não seja dominado pelo intuito dogmático de cerrar as portas às discussões ulteriores; e um bom professor do lidar filosófico é como um indivíduo que nos leciona a ginástica procedendo ele próprio como um bom ginasta, e obrigando-nos a nós a fazer ginástica; é quem nos ministra um trabalho crítico, um modelo de elucidação da faina de problemas (...). Repito: seja a filosofia para o aprendiz do filósofo, não uma pilha de conclusões adotadas, e sim uma atividade de elucidação dos problemas. É esta atividade o que realmente importa, e não o aceitar e propagandear conclusões. [...]

Por isso mesmo, ao lermos um filósofo de genuíno mérito de dois erros opostos nos cumprirá guardar-nos: o primeiro, o de nos mantermos eternamente passivos e de tudo aceitarmos como se fossem dogmas, de que depois tentaremos convencer os outros; o segundo, o de criticarmos demasiado cedo, antes de chegarmos à compreensão do texto. […]

Pois que (não nos cansemos de o repetir) não é a filosofia uma coleção de dogmas que nos cumpre decorar e repetir aos outros […].

António Sérgio, “Prefácio”, in Bertrand Russell, Os Problemas da Filosofia, 
Coimbra, Arménio Amado, 1974, pp. 5-24.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

'Conhece-te a ti mesmo'




Conhece-te a ti mesmo: Sócrates e a nossa relação com o mundo
A figura de Sócrates é como um divisor de águas na Filosofia Antiga, tanto que os filósofos anteriores a ele são tradicionalmente designados como pré-socráticos.
De facto, com Sócrates há uma mudança significativa no rumo das discussões filosóficas sobre a verdade e o conhecimento. Os primeiros filósofos estavam preocupados em encontrar o fundamento (arqué) de todas as coisas. Sócrates, por sua vez, está mais interessado na nossa relação com os outros e com o mundo.
Curiosamente, Sócrates nada escreveu - e tudo o que sabemos dele é graças aos seus discípulos, particularmente Platão. Sócrates teria tomado a inscrição da entrada do templo de Delfos como inspiração para construir a sua filosofia: ‘Conhece-te a ti mesmo’.
Para compreendermos o sentido dessa frase, segundo o filósofo francês Michel Foucault (1926-1984), devemos inscrevê-la numa estratégia mais geral do cuidado de si.
Ou seja, o que Sócrates defendia era que nós devemos ocupar-nos menos com as coisas (riqueza, fama, poder) e passarmos a ocupar-nos connosco mesmos. Poderia perguntar-se: porque é que deveria ocupar-me comigo mesmo? Porque é o caminho que me permite ter acesso à verdade.
Mas que tipo de verdade? Obviamente não é uma verdade qualquer, tal como a fórmula química da água, mas a verdade que é capaz de transformá-lo, a si leitor, num ser autónomo.
É desse ato de conhecimento, capaz de promover a nossa auto-transcendência, de que fala Sócrates. Conhecer-me a mim mesmo para saber como modificar a minha relação para comigo, com os outros e com o mundo, ultrapassando as minhas limitações.

Como ter acesso à verdade?
Tal modificação para ter acesso à verdade, contudo, não é um ato puramente intelectual. Ela exige, por vezes, determinadas renúncias e purificações, das quais Sócrates é um exemplo.
Sócrates dizia que tinha como missão divina exortar os atenienses, fossem eles velhos ou jovens, a deixarem de cuidar das coisas, passando a cuidar de si mesmos. Tal atitude fê-lo dedicar-se inteiramente à filosofia e à prática dialógica (uma forma especial de diálogo, denominada maiêutica) por meio da qual ele fazia com que os seus interlocutores percebessem as inconsistências do seu discurso e se autocorrigissem.
A atitude de Sócrates questionava os valores da sociedade ateniense, razão pela qual os seus inimigos o levaram a tribunal, onde foi julgado e condenado à morte. A sua morte, porém, não impediu que a questão do cuidado de si se tornasse um tema central na filosofia durante mais de dois mil anos - e influenciasse muitos filósofos modernos e contemporâneos.
A questão central do cuidado de si é que jamais se tem acesso à verdade sem uma experiência de purificação, de meditação, de exame de consciência - enfim, através de determinadas atividades espirituais capazes de transfigurar o nosso próprio ser.
Dito de outro modo, o estado de iluminação, de descoberta da verdade, não é só produto do estudo, mas de uma prática acompanhada de reflexão constante sobre as nossas ações, as nossas atitudes, os nossos pensamentos, os nossos desejos - e de como podemos modificá-los para nos tornarmos pessoas melhores. É como se a vida fosse uma obra de arte em que nós nos fôssemos moldando, nos fôssemos aperfeiçoando no decorrer da nossa existência.

A difícil busca da verdade
Atualmente, estamos distantes dessa perspectiva socrática do cuidado de si. A ciência moderna está preocupada com a produção e acumulação de conhecimentos.
Mas quando nos perguntamos: para que é que acumulamos e produzimos conhecimento? A resposta é simplesmente: para aumentar infinitamente o nosso conhecimento. Entramos, assim, numa corrida sem fim, em que nunca nos questionamos se isso realmente nos está a trazer os benefícios prometidos.
Claro que a tecnologia traz inegáveis benefícios, mas não parece que as pessoas, atualmente, estejam mais felizes. Pode-se alegar, no entanto, que não é papel do conhecimento e da ciência promover a felicidade humana - e que, talvez, conhecimento e ciência tenham como principal função a de contribuir para a concentração de poder e dinheiro nas mãos de alguns poucos.
Sócrates, porém, via a busca da verdade como um caminho de ascese, pois, quando cuidamos de nós mesmos, modificamos a nossa relação com os outros e com o mundo.
Mergulhados em preocupações com a aparência e o consumo, pensamos estar a cuidar de nós mesmos, quando na verdade nos estamos a perder no meio das coisas. É preciso conhecermo-nos a nós mesmos para não nos perdermos. Claro que você não vai encontrar toda a verdade em si mesmo, mas, pelo menos, a única verdade capaz de salvá-lo, ou seja, de dar sentido à sua vida.
Josué Cândido da Silva
http://educacao.uol.com.br/disciplinas/filosofia/conhece-te-a-ti-mesmo-socrates-e-a-nossa-relacao-com-o-mundo.htm

A verdadeira simplicidade
“Encara as coisas com leveza, mas interiormente  com plenitude e atenção. Não deixes passar um momento sem teres plena consciência do que está a acontecer dentro de ti e à tua volta. Normalmente isso é o que significa ser-se sensível, não a uma ou duas coisas, mas ser-se sensível a tudo. Ser-se sensível à beleza e resistir ao feio é gerar conflito. Enquanto se observa, apercebemo-nos de que a mente está sempre a julgar – isto é bom e aquilo é mau, isto é branco e aquilo é preto - , a julgar pessoas, a comparar, a medir, a calcular. A mente nunca está quieta. Poderá a mente olhar, observar sem julgar, sem calcular? Tenta compreender sem dar nome ao que vês .e vê apenas se a mente pode fazer isso.
Brinca com isso. Não forces, deixa a mente olhar para si própria. Muitas pessoas, tentando ser simples, começam pelo exterior, descartando, renunciando; mas, interiormente, permanece a complexidade dos seus seres. Quando existe simplicidade interior, o exterior corresponde ao interior. Sermos simples por dentro é estarmos libertos do impulso pelo “mais”, o que não quer dizer que estejamos satisfeitos com o que é . Estarmos libertos do impulso pelo “mais” é não pensarmos em termos de tempo, de progressão, de chegar lá. Sermos simples é a mente libertar-se a si própria de todos os resultados, é esvaziar-se de todo o conflito. Esta é a verdadeira simplicidade.
Como poderá a mente debater-se entre o feio e o belo, agarrando-se a um e empurrando para longe o outro? Este conflito torna a mente insensível e exclusivista. Qualquer tentativa por parte da mente para encontrar uma linha que separe o feio do belo faz ainda parte de um ou de outro. O pensamento não pode, faça ele o que fizer, libertar-se dos opostos; o próprio pensamento criou o feio e o belo, o bom e o mau. Portanto, ele não pode libertar-se das suas próprias atividades. Tudo o que pode fazer é ficar quieto, não escolher. A escolha é conflito, e a mente volta de novo à sua própria confusão. A quietude da mente liberta-nos da dualidade. J. Krishnamurti, Cartas a uma jovem amiga, tradução de Joaquim Palma, Editorial Presença, Lisboa, 2008, pp. 36-37.

A revolta inteligente
“Sê mentalmente flexível. A força não está em ser-se firme e forte mas em ser-se flexível. A árvore, que é flexível, aguenta-se no meio da ventania. Reúne em ti a força que existe na brisa ligeira.
A vida é estranha, tem tantas coisas a acontecerem inesperadamente, que a mesma resistência não resolverá qualquer problema. Precisamos de infinita flexibilidade e de um coração simples.
A vida é como o fio de uma lâmina, e cada um tem de percorrer esse caminho com extremo cuidado e flexível sabedoria.
A vida é tão rica, tem tantos tesouros, mas chegamos a ela com os corações vazios; não sabemos encher os nossos corações com a abundância da vida. Interiormente somos pobres e, quando as riquezas da vida nos são oferecidas, nós recusamo-las. /.../
Mantém a mente aberta. Vive no passado, se tiver de ser, mas não lutes contra esse passado; quando o passado chegar, olha para dentro dele, não o empurres para longe nem te agarres demasiado a ele. A experiência de todos estes anos, a dor e a alegria, os momentos de sofrimento e a memória da separação, a sensação de distância, tudo isso trará enriquecimento e beleza. O importante é o que tens no coração; e desde que isso esteja a transbordar, tu tens tudo, tu és tudo.
Está atenta a todos os teus pensamentos e sentimentos, não permitas que um único sentimento ou pensamento surja sem que te apercebas dele, e absorve todo o seu conteúdo. Absorver não é a palavra adequada; trata-se, sim, de ver todo o conteúdo do pensamento-sentimento. É como entrar numa sala e ver, de uma só vez, tudo o que está nela, a sua atmosfera e os seus espaços. Vermos e estarmos atentos aos  pensamentos torna-nos intensamente sensíveis, flexíveis e vigilantes. Não condenes nem julgues, mas está bem atenta. Da separação e das escórias retira-se o ouro puro.
Ver o que é, é muito difícil. Como se pode observar com clareza? Um rio quando encontra um obstáculo não fica parado; ele quebra a barreira usando a sua força, ou passa por cima dela, ou por baixo, ou vai à volta; ele não fica quieto; ele só pode agir. O rio revolta-se, por assim, dizer, inteligentemente. Para percebermos aquilo que é, tem de haver o espírito da revolta inteligente. Para não sermos confundidos com um pedaço de tronco, é preciso termos uma certa inteligência; mas geralmente estamos tão ávidos de possuir aquilo que desejamos, que vamos contra o obstáculo; ou despedaçamo-nos de encontro a ele ou ficamos exaustos lutando contra ele. Ver a corda como corda não requer coragem, mas tomar a corda por uma serpente, ficando a olhar, requer coragem. Devemos duvidar, procurar sempre, ver o falso como falso. Ganhamos força para vermos através da intensidade da atenção; tu vais ver, isso virá. Para agir, cada um deve estar num estado de negação; a negação traz a sua própria ação positiva. Penso que a questão reside em ver com clareza, porque a percepção gera a sua própria ação. Quando há elasticidade, não se põe a questão do certo e do errado.
Cada um de nós tem que estar muito lúcido dentro de si mesmo. Nessa altura, asseguro-te, tudo dará certo. Tenta estar lúcida, e verás que as coisas se tornarão certas sem que tu faças o que quer que seja a respeito disso. O que está certo não é aquilo que desejamos.
Tem de haver uma revolução total, não apenas nas grandes coisas, mas também nas pequenas coisas do dia-a-dia. Tu passaste por essa revolução, não voltes atrás, mantém-te nela. Mantém-te a ferver, interiormente.
J. Krishnamurti, Idem, pp. 7-8.